terça-feira, 8 de junho de 2021

A ilusão do direito de defesa

Depois de ouvir tantas reclamações de acusações injustas nas redes sociais, e analisando que as "contestações" que as plataformas recebem de nada resultam, e percebendo que isso ocorre em outras esferas da vida cotidiana, cheguei à conclusão de que o famoso "direito à ampla defesa e contraditório" tornou-se mera ilusão, algo da boca pra fora apenas para dizer que "a outra parte foi ouvida".

Preste atenção: as redes sociais "julgam" a torto e a direito. Todas as suas postagens não passam mais pelos crivos do absurdo (como crimes) mas pelos crivos ideológicos. Discordar de um grupo tornou-se o mesmo que desrespeitá-lo, ainda que não haja nenhuma ofensa propriamente dita. Pode-se até clicar no "discordo de sua decisão" ou "apresentar contestação": por mais que você escreva, e até apresente provas de sua argumentação, no final das contas, é como se aquilo fosse parar em um limbo e a decisão permanece a mesma.

Mesmo sem expor, as redes sociais acabam por obrigar seus participantes não só a dizer sobre o que elas querem, mas do jeito que elas querem. Você não precisa mais ser banido ou bloqueado: basta retirarem o alcance de suas postagens, chegando ao cúmulo de pessoas próximas terem que acessar seu conteúdo diretamente todos os dias. Esse tipo de coisa não existe com o feed de blog, mas isso é assunto para outro post.

O problema é quando esse tipo de postura sai da esfera virtual e passa a estar presente no cotidiano das pessoas. Reclamar de um produto ou serviço, ou mesmo de uma empresa, pode tornar-se uma celeuma por nada e ainda ter que ouvir o famoso "mas você está brigando só por isso?". Parece que o óbvio e o verdadeiro tornaram-se impropérios que proferi-los é um crime gravíssimo.

Lendo um livro incoerente, mas de grande sucesso, a autora parte da premissa de que é necessário dialogar com o contrário, entender seu ponto de vista, com exceção de determinadas pessoas, pois o que elas defendem é intolerável. No entanto, esta exceção nada mais é que a própria regra: pessoas que discordam da autora, tendo opiniões diversas das que ela defende, sem nada de ofensivo.

No final das contas, são pessoas que querem ser ouvidas a qualquer custo, mas se recusam a ouvir, principalmente quando vai além de sua própria visão de mundo. Tentam blindar-se em bolhas, sobretudo nas digitais, e buscam impedir aqueles que tentam navegar por elas. E talvez aquele verso de Fernando Pessoa que se tornou clichê faça todo o sentido: "navegar é preciso".

terça-feira, 1 de junho de 2021

Correlações Culturais

Esse é comentário de um trecho do capítulo cinco do Power vs. Force que acabei deixando de lado, achando que escreveria mais sobre. Revisei esse trecho baseado nos outros capítulos da própria obra.

Cerca de 84% da população mundial encontra-se abaixo do nível 200 de consciência, tanto é que a maior parte dos problemas da humanidade são reflexos deste baixo nível. Cerca de 8% da humanidade encontra-se acima de 400 (Razão), e 4% da população mundial está acima de 500 (Amor). Pouquíssimas estariam acima de 600 - à época da publicação da 1ª edição do livro, apenas 12 pessoas encontravam-se nesta faixa.

Se formos relacionar os níveis de consciência aos padrões sociais, abaixo de 200 estariam as sociedades primitivas, sendo que nas mais baixas estariam as sociedades nômades e primitivas. Na faixa do nível 200, começa a surgir uma estrutura semi-nômade, com um trabalho mais especializado. Já próximo a 300, surge o sedentarismo e o comércio.

Nos níveis acima de 300, o trabalho especializa-se e o ensino secundário torna-se comum. Conforme sobe-se a escala, a sociedade torna-se mais flexível, e o diálogo social amplia-se.

Em 400, surge a intelectualidade, a alta literatura, as classes profissionais, executivos e cientistas. Existe o interesse em formação intelectual, e surge a consciência política. Os empreendimentos buscam o bem-estar de toda a população, apesar de este não ser a força motriz da sociedade. Se há um salto no nível 200, outro maior existe em 500.

Sobrevivência sempre será o fator fundamental da sociedade, mas o Amor começa a tornar a vida mais colorida. Em 500 o altruísmo torna-se fator motivador, e a excelência faz parte do esforço humano. Este ambiente eleva o nível de consciência de uma sociedade por conta própria, assim como pessoas neste nível de consciência.

Conforme progride nos 500, as experiências espirituais tornam-se profundas, e surgem líderes inspiradores, cujo exemplo serve para todos.

Não se comenta sobre qual modelo político, nem sobre modelos econômicos. Isso é comentado no True vs. Falsehood, que calibra governos ao longo da História e analisa os partidos políticos americanos. Assim como a obra de Marx é calibrada em 130, os governos que seguiram suas ideias também são calibrados em níveis baixos - sobretudo quando há uma radicalização e se busca impor pela força e censura.

Por outro lado, o documento com maior calibragem é a Declaração de Independência dos Estados Unidos, calibrada em 700, por deixar claro que o objetivo da independência era permitir as liberdades fundamentais às pessoas, mesmo após tentativas de negociação com a Coroa britânica. Esta busca por valores elevados foi o que permitiu a supremacia norte-americana por décadas, levando a mensagem de liberdade e felicidade ao mundo.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Corrupção cultural

Parece que os últimos tempos expôs uma das consequências mais graves do jeitinho brasileiro: a cultura de corrupção que existe na sociedade brasileira. Corrupção é algo tão inerente à sociedade brasileira que ser honesto tornou-se algo tão ruim que falar a verdade tornou-se algo ofensivo. Repare que, mesmo com fatos, a verdade é suprimida dos meios de comunicação, e mesmo do meio cultural.

O Brasil é um país burocrático por natureza. Há tantas regras para "evitar-se trambiques" que só através de trambiques é possível cumpri-las - como foi a União Soviética em seu apogeu. Em tempos de crise, a busca por dinheiro torna-se obsessiva a ponto da moralidade e da racionalidade serem atropeladas para "se dar bem". E essas são atropeladas de forma tal que é praticamente impossível apelar a elas para se trazer a ordem de volta.

A corrupção não está apenas na política, distante. Ela está em cada pessoa, em cada atitude que busca levar vantagem prejudicando abertamente outras pessoas - inclusive quando a pessoa critica supostos "jeitinhos" para eximir-se de sua própria culpa. Aprender a reconhecer os próprios erros e os danos reais destes é doloroso, mas é a partir daí que se pode pensar em uma mudança verdadeira.

Quanto àqueles que continuam a aproveitar-se da boa vontade alheia e a sugar a honestidade ainda existente, cabe combater o bom combate, de forma racional e honesta. Trapaças caem perante a verdade dos fatos e da exposição dos reais danos de um problema. No entanto, é necessário ter força (o que o Hawkins chama de poder) pois quem vive disso sabe se defender e atacar qualquer um que lhe tire a facilidade dolorosa.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Liberdade e escolhas

Este post será mais objetivo que os outros que escrevi sobre liberdade, pois antes de se refletir sobre a Liberdade em seu sentido mais profundo, pensando na própria existência, é necessário refletir sobre a liberdade cotidiana de poder falar, de poder escolher, de poder pensar. Percebo que há uma busca sutil, mas incessante, de se destruir toda e qualquer fonte de felicidade verdadeira, e a liberdade é uma dessas fontes.

Liberdade, no seu sentido prático, é o que permite que a vida seja vivida. Não há vida sem liberdade, por menor que esta seja. Achar que é possível viver sem liberdade é totalmente insano: a pessoa torna-se marionete de outrem, tudo torna-se falso, fingido. O grande ponto da vida é poder decidir, poder tomar a iniciativa por conta própria, algo que as pessoas têm aberto mão deliberadamente, sem perceber.

Enquanto o conceito de liberdade não for associado ao da própria vida, as pessoas abrirão mão de sua liberdade em nome de uma segurança ilusória, na maioria das vezes sem ter ideia do que está fazendo. A vida é feita de escolhas, e você é responsável por elas, sejam boas ou ruins. Por isso é tão confortável ceder a quaisquer pessoas que queiram controlar.

Obviamente, liberdade irrestrita é danosa como a ausência de liberdade, mas usam aquela como argumento para promover esta - repare bem isso. Liberdade de expressão é limitada no ponto em que o que é dito é considerado ofensivo a outra pessoa. Só que há uma diferença entre "ofensivo" e "danoso", sendo que na maioria das vezes, o "ofensivo" apenas causa danos à vaidade da pessoa. Limitar a expressão pelo "ofensivo" torna qualquer coisa dita passível de ser censurada.

Pode-se pensar que esse é um conceito subjetivo, mas não é. O que ocorre é que poucas pessoas ainda possuem um pensamento verdadeiramente racional intacto, e a maioria deixa-se levar pelos sentimentos e pelas paixões. Com isso, pessoas mal intencionadas propagam a ideia de que a "expressão deve ser limitada", mas a quê não explicam. Isso lembra o livro 1984 e o léxico sendo reduzido constantemente, para evitar que as pessoas pensassem, e assim evitar resistências ao regime.

Por mais que as escolhas sejam limitadas, as pessoas ainda devem decidir por si mesmas - e responder por tais escolhas. Apenas poucos sabem o que é melhor para os outros, e por realmente saberem, não interferem nas escolhas alheias: não lhes cabe ficar dando pitaco no livre-arbítrio alheio, somente se solicitado - e mesmo assim com reservas.

Só se percebe a importância da liberdade quando esta é perdida, e para encontrar a verdadeira Liberdade que comentei no outro post, é necessário conhecer muito bem a primeira. Desconhecer a liberdade básica da vida cotidiana é viver em um pesadelo disfarçado de sonho: algo está muito errado, mas como não se conhece outra alternativa, conforma-se com o que é oferecido.

terça-feira, 11 de maio de 2021

A Era do Palpite


A situação atual abriu precedente para as pessoas no geral darem palpite na vida alheia de forma cada vez mais invasiva, como se fossem evoluídas a ponto de saber o que é melhor para os outros. Curioso é que quanto mais se progride nos níveis de consciência, mais se respeita as "más" escolhas alheias - afinal, todos têm o direito de errar. Infelizmente, o limite para esse tipo de invasão foi rompido e não percebem o quão perigoso isso é.

É normal, e até saudável, dar sua opinião para outra pessoa - principalmente quando solicitado. A visão que outra pessoa possui de sua situação geralmente abarca ângulos não visíveis para nós. Pode-se então pensar em pais e professores nos processos de educação e de formação intelectual: visões de mundo são apresentadas para ampliarmos nossos horizontes e nos tornarmos pessoas melhores.

Sempre se buscou (pelo menos até certo ponto) respeitar o limite do outro, a famosa individualidade. O fato de como uma pessoa pinta o cabelo ou usa uma meia de cada cor não significa absolutamente nada, mesmo gerando os famosos preconceitos - sobre os quais ainda há muitos posts por fazer. No entanto, sempre houve a vontade de se ditar o que o outro deve fazer, mesmo nas coisas mais banais.

Deve haver um claro discernimento de quando intervir ou não, pois realmente há casos nos quais uma boa conversa é necessário - justamente os casos em que os palpiteiros não querem dar palpite (para ver o outro ter problemas, talvez). Quando algo pode afetar sua saúde, e mesmo sua sanidade, é necessário chegar, conversar, entender e agir.

O problema está sendo quando não é algo de grande monta a afetar o palpiteiro, mas a sensação de "dever cívico" criada por uma situação que fornece todo um suporte para a pessoa falar sem ao menos entender a realidade da própria vida - quanto mais a do outro. Talvez neste contexto a expressão "os incomodados que se mudem" poderia ser uma boa resposta.

É o apoio que os tiranos apreciam, pois a força de repressão pode ser direcionada em casos mais drásticos, enquanto que a própria população ocupa-se em "regular" a vida alheia. Tiranias apenas duram porque as pessoas que vivem nelas buscam uma forma de tirar vantagem, mesmo que para isso precisem prejudicar sem quaisquer justificativas.