terça-feira, 15 de junho de 2021

O tal Novo Normal

Mais cedo ou mais tarde falaria sobre isso aqui. O assunto do momento é o novo padrão de normalidade existente por conta da pandemia. No entanto, esse "padrão de normalidade" apenas veio à tona: já existia há décadas, programado de forma sutil na mente das pessoas para pensarem e agirem desta forma, sem perceber os danos que isso causa.

No livro Ponerologia, o autor comenta sobre a paramoralidade, que seria um padrão moral doentio que toma conta de uma sociedade inteira, distorcendo conceitos morais básicos. É o que acontece hoje em dia: o novo normal se baseia numa moralidade doente. Ser honesto é necessário para que todos possam dar seu melhor e viver bem. Contudo, é algo complexo, sobretudo por envolver os interesses próprios de cada pessoa.

Ser honesto com o outro é necessário para que o outro seja honesto conosco, e ser punido por sua desonestidade. A atual paramoralidade relativiza esse conceito, tanto com a desonestidade aberta quanto com a condenação de supostas desonestidades - inócuas se forem analisados os casos concretos. "O importante é levar vantagem sempre" chega ao nível de se perder algo bom apenas para ver alguém também perder.

Repare que esta desonestidade é argumentada de forma intensa, apesar de não possuir base lógica nenhuma. Não adiantam argumentos lógicos: o outro simplesmente refuta por refutar. Não é mais questão de racionalidade: é questão da boa e velha subjetividade, onde se leva em consideração quem fala e não o que se fala.

Quando se passa a analisar quem falou ou fez do que a frase ou ato propriamente ditos, perde-se toda a noção de ética e moral: apenas a conveniência passa a importar. Uma pessoa está certa ou errada não por conta de racionalidade, mas se a questão irá gerar ganhos ou perdas a quem está avaliando. É comum proteger corruptos para que haja cumplicidade caso queira cometer algo considerado errado.

Acabou-se a troca de ideias. Você pode argumentar o quanto quiser, ou melhor, você deve ter o extremo cuidado, quase paranoico, ao falar com as pessoas, pois o que é dito pode gerar revezes nos quais outros não se importarão com sua situação, nem se a punição é proporcional ao que foi dito - afinal, pensa-se nas vantagens ganhas pelo ofendido e em estar, um dia, em seu lugar.

Aliás, a noção de vítima também mudou. Não é mais aquela pessoa ofendida que busca desagravo de sua situação, mas uma pessoa que busca tirar proveito de sua situação para ascender socialmente, de preferência destruindo a vida do suposto agressor, já que muitas vezes nem problema houve, mas "cava-se" qualquer coisa, dentro dos novos padrões de moralidade, para exigir retratação.

Enfim, perceba, o quanto antes, que este "novo normal" irá destruir a sociedade a partir da mente de cada indivíduo, mas não pense que haverá um caos de pessoas enlouquecidas na rua: tudo parecerá normal, organizado, tranquilo até. Entretanto, haverá a sensação de que algo não está certo, de que há algo "fora do lugar": com sorte, perceberá que as mentes foram totalmente dominadas em um novo padrão de pensamento, sem possibilidade de escapatória.

terça-feira, 8 de junho de 2021

A ilusão do direito de defesa

Depois de ouvir tantas reclamações de acusações injustas nas redes sociais, e analisando que as "contestações" que as plataformas recebem de nada resultam, e percebendo que isso ocorre em outras esferas da vida cotidiana, cheguei à conclusão de que o famoso "direito à ampla defesa e contraditório" tornou-se mera ilusão, algo da boca pra fora apenas para dizer que "a outra parte foi ouvida".

Preste atenção: as redes sociais "julgam" a torto e a direito. Todas as suas postagens não passam mais pelos crivos do absurdo (como crimes) mas pelos crivos ideológicos. Discordar de um grupo tornou-se o mesmo que desrespeitá-lo, ainda que não haja nenhuma ofensa propriamente dita. Pode-se até clicar no "discordo de sua decisão" ou "apresentar contestação": por mais que você escreva, e até apresente provas de sua argumentação, no final das contas, é como se aquilo fosse parar em um limbo e a decisão permanece a mesma.

Mesmo sem expor, as redes sociais acabam por obrigar seus participantes não só a dizer sobre o que elas querem, mas do jeito que elas querem. Você não precisa mais ser banido ou bloqueado: basta retirarem o alcance de suas postagens, chegando ao cúmulo de pessoas próximas terem que acessar seu conteúdo diretamente todos os dias. Esse tipo de coisa não existe com o feed de blog, mas isso é assunto para outro post.

O problema é quando esse tipo de postura sai da esfera virtual e passa a estar presente no cotidiano das pessoas. Reclamar de um produto ou serviço, ou mesmo de uma empresa, pode tornar-se uma celeuma por nada e ainda ter que ouvir o famoso "mas você está brigando só por isso?". Parece que o óbvio e o verdadeiro tornaram-se impropérios que proferi-los é um crime gravíssimo.

Lendo um livro incoerente, mas de grande sucesso, a autora parte da premissa de que é necessário dialogar com o contrário, entender seu ponto de vista, com exceção de determinadas pessoas, pois o que elas defendem é intolerável. No entanto, esta exceção nada mais é que a própria regra: pessoas que discordam da autora, tendo opiniões diversas das que ela defende, sem nada de ofensivo.

No final das contas, são pessoas que querem ser ouvidas a qualquer custo, mas se recusam a ouvir, principalmente quando vai além de sua própria visão de mundo. Tentam blindar-se em bolhas, sobretudo nas digitais, e buscam impedir aqueles que tentam navegar por elas. E talvez aquele verso de Fernando Pessoa que se tornou clichê faça todo o sentido: "navegar é preciso".

terça-feira, 1 de junho de 2021

Correlações Culturais

Esse é comentário de um trecho do capítulo cinco do Power vs. Force que acabei deixando de lado, achando que escreveria mais sobre. Revisei esse trecho baseado nos outros capítulos da própria obra.

Cerca de 84% da população mundial encontra-se abaixo do nível 200 de consciência, tanto é que a maior parte dos problemas da humanidade são reflexos deste baixo nível. Cerca de 8% da humanidade encontra-se acima de 400 (Razão), e 4% da população mundial está acima de 500 (Amor). Pouquíssimas estariam acima de 600 - à época da publicação da 1ª edição do livro, apenas 12 pessoas encontravam-se nesta faixa.

Se formos relacionar os níveis de consciência aos padrões sociais, abaixo de 200 estariam as sociedades primitivas, sendo que nas mais baixas estariam as sociedades nômades e primitivas. Na faixa do nível 200, começa a surgir uma estrutura semi-nômade, com um trabalho mais especializado. Já próximo a 300, surge o sedentarismo e o comércio.

Nos níveis acima de 300, o trabalho especializa-se e o ensino secundário torna-se comum. Conforme sobe-se a escala, a sociedade torna-se mais flexível, e o diálogo social amplia-se.

Em 400, surge a intelectualidade, a alta literatura, as classes profissionais, executivos e cientistas. Existe o interesse em formação intelectual, e surge a consciência política. Os empreendimentos buscam o bem-estar de toda a população, apesar de este não ser a força motriz da sociedade. Se há um salto no nível 200, outro maior existe em 500.

Sobrevivência sempre será o fator fundamental da sociedade, mas o Amor começa a tornar a vida mais colorida. Em 500 o altruísmo torna-se fator motivador, e a excelência faz parte do esforço humano. Este ambiente eleva o nível de consciência de uma sociedade por conta própria, assim como pessoas neste nível de consciência.

Conforme progride nos 500, as experiências espirituais tornam-se profundas, e surgem líderes inspiradores, cujo exemplo serve para todos.

Não se comenta sobre qual modelo político, nem sobre modelos econômicos. Isso é comentado no True vs. Falsehood, que calibra governos ao longo da História e analisa os partidos políticos americanos. Assim como a obra de Marx é calibrada em 130, os governos que seguiram suas ideias também são calibrados em níveis baixos - sobretudo quando há uma radicalização e se busca impor pela força e censura.

Por outro lado, o documento com maior calibragem é a Declaração de Independência dos Estados Unidos, calibrada em 700, por deixar claro que o objetivo da independência era permitir as liberdades fundamentais às pessoas, mesmo após tentativas de negociação com a Coroa britânica. Esta busca por valores elevados foi o que permitiu a supremacia norte-americana por décadas, levando a mensagem de liberdade e felicidade ao mundo.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Corrupção cultural

Parece que os últimos tempos expôs uma das consequências mais graves do jeitinho brasileiro: a cultura de corrupção que existe na sociedade brasileira. Corrupção é algo tão inerente à sociedade brasileira que ser honesto tornou-se algo tão ruim que falar a verdade tornou-se algo ofensivo. Repare que, mesmo com fatos, a verdade é suprimida dos meios de comunicação, e mesmo do meio cultural.

O Brasil é um país burocrático por natureza. Há tantas regras para "evitar-se trambiques" que só através de trambiques é possível cumpri-las - como foi a União Soviética em seu apogeu. Em tempos de crise, a busca por dinheiro torna-se obsessiva a ponto da moralidade e da racionalidade serem atropeladas para "se dar bem". E essas são atropeladas de forma tal que é praticamente impossível apelar a elas para se trazer a ordem de volta.

A corrupção não está apenas na política, distante. Ela está em cada pessoa, em cada atitude que busca levar vantagem prejudicando abertamente outras pessoas - inclusive quando a pessoa critica supostos "jeitinhos" para eximir-se de sua própria culpa. Aprender a reconhecer os próprios erros e os danos reais destes é doloroso, mas é a partir daí que se pode pensar em uma mudança verdadeira.

Quanto àqueles que continuam a aproveitar-se da boa vontade alheia e a sugar a honestidade ainda existente, cabe combater o bom combate, de forma racional e honesta. Trapaças caem perante a verdade dos fatos e da exposição dos reais danos de um problema. No entanto, é necessário ter força (o que o Hawkins chama de poder) pois quem vive disso sabe se defender e atacar qualquer um que lhe tire a facilidade dolorosa.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Liberdade e escolhas

Este post será mais objetivo que os outros que escrevi sobre liberdade, pois antes de se refletir sobre a Liberdade em seu sentido mais profundo, pensando na própria existência, é necessário refletir sobre a liberdade cotidiana de poder falar, de poder escolher, de poder pensar. Percebo que há uma busca sutil, mas incessante, de se destruir toda e qualquer fonte de felicidade verdadeira, e a liberdade é uma dessas fontes.

Liberdade, no seu sentido prático, é o que permite que a vida seja vivida. Não há vida sem liberdade, por menor que esta seja. Achar que é possível viver sem liberdade é totalmente insano: a pessoa torna-se marionete de outrem, tudo torna-se falso, fingido. O grande ponto da vida é poder decidir, poder tomar a iniciativa por conta própria, algo que as pessoas têm aberto mão deliberadamente, sem perceber.

Enquanto o conceito de liberdade não for associado ao da própria vida, as pessoas abrirão mão de sua liberdade em nome de uma segurança ilusória, na maioria das vezes sem ter ideia do que está fazendo. A vida é feita de escolhas, e você é responsável por elas, sejam boas ou ruins. Por isso é tão confortável ceder a quaisquer pessoas que queiram controlar.

Obviamente, liberdade irrestrita é danosa como a ausência de liberdade, mas usam aquela como argumento para promover esta - repare bem isso. Liberdade de expressão é limitada no ponto em que o que é dito é considerado ofensivo a outra pessoa. Só que há uma diferença entre "ofensivo" e "danoso", sendo que na maioria das vezes, o "ofensivo" apenas causa danos à vaidade da pessoa. Limitar a expressão pelo "ofensivo" torna qualquer coisa dita passível de ser censurada.

Pode-se pensar que esse é um conceito subjetivo, mas não é. O que ocorre é que poucas pessoas ainda possuem um pensamento verdadeiramente racional intacto, e a maioria deixa-se levar pelos sentimentos e pelas paixões. Com isso, pessoas mal intencionadas propagam a ideia de que a "expressão deve ser limitada", mas a quê não explicam. Isso lembra o livro 1984 e o léxico sendo reduzido constantemente, para evitar que as pessoas pensassem, e assim evitar resistências ao regime.

Por mais que as escolhas sejam limitadas, as pessoas ainda devem decidir por si mesmas - e responder por tais escolhas. Apenas poucos sabem o que é melhor para os outros, e por realmente saberem, não interferem nas escolhas alheias: não lhes cabe ficar dando pitaco no livre-arbítrio alheio, somente se solicitado - e mesmo assim com reservas.

Só se percebe a importância da liberdade quando esta é perdida, e para encontrar a verdadeira Liberdade que comentei no outro post, é necessário conhecer muito bem a primeira. Desconhecer a liberdade básica da vida cotidiana é viver em um pesadelo disfarçado de sonho: algo está muito errado, mas como não se conhece outra alternativa, conforma-se com o que é oferecido.