terça-feira, 10 de março de 2020

A Janela de Overton

A Janela de Overton é uma coqueluche do momento atual. Baseada em fatos reais, a obra apresenta como a opinião pública foi manipulada ao longo das décadas para que as liberdades individuais dos norte-americanos pudessem ser solapadas e assim ser imposta uma ditadura aos moldes do 1984. A Janela de Overton em si é um recurso propagandístico para omitir/distorcer notícias e informações passadas para o grande público, como se fosse o lobo a pastorear o rebanho, tendo aceitação e a indiferença deste. Você não precisa mais tomar um governo de assalto, invadir um país com armas e guerras, para ter controle sobre ele. Basta dominar as mentes e os corações das pessoas, permitir que tenham vidas medíocres, ou melhor, que vivam apenas de forma medíocre para se manter o controle. A mediocridade impede a evolução e a tomada de consciência, mantendo a pessoa ocupada apenas com a sua sobrevivência.

Percebo no livro que o autor tenta pintar "heróis e vilões", e talvez seja esta a falha da obra. Não existem vilões no livro além dos criminosos deliberados, e mesmo os atos extremados. Por incrível que pareça, Arthur Gardner quer uma sociedade em ordem tanto quanto os FounderKeepers, tendo argumentos mais sólidos do que estes até. Os FounderKeepers seriam mais um grupo de idealistas por um país melhor do que pessoas realmente empenhadas para tal. O livro lembra o filme O Preço do Amanhã, que já resenhei aqui no blog. Uma visão idealizada de uma revolução social em nome de uma pretensa liberdade contra um suposto sistema opressor. As semelhanças param por aí: enquanto n'A Janela de Overton os FounderKeepers bradam pela manutenção de direitos consolidados há séculos, sendo criminalizados pouco a pouco para se tomar o controle, os protagonistas d'O Preço do Amanhã buscam fazer sua revolução através da criminalidade.

A Janela pode ser considerada um livro pré-1984, como teriam ocorrido as mudanças que desembocariam no sistema ditatorial do Grande Irmão. E a base de ambos os livros é a difusão de informações, factuais e ficcionais. Manipulando esta difusão, e mesmo distorcendo-as, uma pessoa ou grupo pode tomar o controle de países inteiros, fazendo com que as pessoas mudem de opinião de forma extremamente sutil de forma progressiva - deslocando a janela. Isso é bem ilustrado no livro, quase que literalmente, quando a descrição da apresentação de slides mostra as metas atingidas em relação à opinião pública sobre diversos assuntos, o protagonista Noah Gardner, filho de Arthur, descreve o método. Em uma das conversas, Arthur, pai de Noah, se justifica: as pessoas não sabem se controlar; dar liberdade a elas é colocar a humanidade em risco. A maioria das pessoas viventes não acrescenta nada à sociedade, de acordo com o magnata. E ele não deixa de ter razão, mesmo se utilizando de uma metodologia tão cruel.

Como já disse em outro post, as pessoas são como gado, só pensam em seus interesses e sacrificam seu rebanho em proveito próprio. As pessoas realmente são assim. Liberdade é questão de merecimento: luta-se por ela, há o peso da responsabilidade para ser realmente livre. Sempre haverá pessoas-rebanho, logo sempre haverá pessoas-lobo, prontas para devorá-las aos montes. Mas sempre haverá esperança, sempre haverá um Neo para bugar o sistema, sempre haverá pessoas que conquistarão sua liberdade - algo que não existe no 1984. Ao terminar de ler este livro, questionei-me se o mesmo não possuía uma saída - não exatamente reverter a situação, mas uma brecha na qual algumas pessoas pudessem "fugir" disso. Não há resposta, como se fosse uma caixa fechada. A Janela de Overton mostra que sempre haverá uma saída. E é isso que importa, mesmo que quase todos não se importem com isso.

terça-feira, 3 de março de 2020

Desabafo da realidade


O Brasil parece um país devastado por um apocalipse, mas que as pessoas ainda não deram conta de tal. Andam sobre as ruínas e a desgraça, achando que tudo está bem, e que num futuro, por inércia, tudo irá melhorar. As pessoas no Brasil não têm consciência do que se passa por elas, mais reagindo do que agindo, como sonâmbulas que, caso forem despertas em meio à crise, poderão ter um ataque cardíaco.

Dizem que o brasileiro é conservador por natureza: a favor de liberdades individuais, cristão, contra o aborto e a legalização das drogas. Realmente o é, pero no mucho. É aquele que gosta de fuçar a vida alheia; aquele que em cada dia está em uma igreja, celebrando credos às vezes contraditórios; que cria exceções à regra para levar vantagem, e por aí vai.

Do mesmo modo, o brasileiro também não é um esquerdista convicto: quer pagar menos impostos, além do que já foi dito anteriormente. No entanto, o brasileiro tem a cabeça socializante: gosta de cuidar da vida do outro. Gosta de regulação do Estado, do Estado interferindo na própria vida - afinal, essa intromissão também é usada como bode expiatório para os próprios problemas.

Brasileiro gosta de dinheiro - e como gosta. Os grandes movimentos sociais dos últimos anos foram movidos por causa do dinheiro, ou de sua falta: de centavos a bilhões. Questionam por que as pessoas voltaram ao seu recolhimento e mediocridade, e a resposta é óbvia: garantindo o pão nosso de cada dia, não há com o que se preocupar, ou pelo que brigar. Deixe que os outros se depenem por aí...

Ao mesmo tempo em que o brasileiro se diz caridoso, é de uma mesquinharia e um egoísmo vis. Ele quer ganhar, mas ganhar sozinho. Se ele perder, mas o outro também, está tudo bem. Se ambos ganharem, ele e o outro, de nada valeu. Por isso os oligopólios, os monopólios, o jeitinho. Há enraizada a vontade de ganhar sozinho, não de ver o outro ganhar também. Aquele conceito de soma-zero: se um ganha, é porque o outro perdeu; logo preciso fazer o outro perder para que eu realmente possa ganhar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Por que os sábios se retiram


Praticamente todo mundo conhece aquele clichê da ficção em que o personagem sábio (monge, guru, ou algo do gênero) está recolhido em algum lugar isolado e seus conselhos fazem toda a diferença no desenvolvimento e na conclusão da história. Muitos devem se perguntar porque pessoas tão evoluídas assim decidem se afastar do convívio social, sendo que são elas que poderiam fazer a diferença para o todo. Esse clichê é mais real do que se pensa: com a evolução da consciência, percebe-se que nada pode ser feito para mudar o mundo, e se retirar acaba sendo a única saída - pelo seu próprio bem.

Parece haver uma contradição: a pessoa mais evoluída parece tornar-se mais egoísta, pois aparentemente parece agir mais para si do que para os outros - como se, inclusive, houvesse uma obrigação dos mais evoluídos "ajudarem" os que ainda não se desenvolveram, o que soa muito estranho. Na verdade, o evoluído ama a si mesmo verdadeiramente, e percebe que, para amar o outro, é necessário se amar. Não adianta fazer tudo para os outros e esquecer de si mesmo: o resultado é duplamente doloroso. Sem conhecer os próprios limites, não se conhece a limitação do outro; sem entender a si mesmo, não se entende o outro.

Bom, se a pessoa evoluída se ama e ama o outro, por que ela se retira? Porque o outro não a entende: tenta encaixá-la no seu padrão limitado, de forma cada vez mais agressiva. Pessoas que sabem ser realmente livres causam medo, e tenta-se, inconscientemente, controlá-las. Chega uma hora que esse combate cansa, simples assim. E chega outra hora em que o evoluído sente-se deslocado de seus semelhantes, como se estivesse em outro planeta. Nada mais daquele mundo mundano faz mais sentido: surge então um desejo de partir. Falar sobre a Verdade para uma pessoa, digamos, não desperta é praticamente impossível, como já disse aqui outras (tantas) vezes.

Seguir o fluxo do Universo põe as coisas em seus devidos lugares, e mesmo os anseios mais profundos parecem entrar em harmonia com o Todo. Não se força a barra para mais nada, mas as coisas simplesmente surgem, de forma inesperada ou não - isso se a pessoa ainda continua esperando por algo. O afastamento também permite que seja possível perceber essas oscilações, essas vibrações - quase que um contato com o divino. A pessoa evoluída ajuda o outro com o que precisa, não com o que se quer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Abstraia: a geração pseudo-zen



Seria tolo de minha parte pensar que o deboísmo é um fenômeno recente mas com consequências profundas. Na verdade, ele é consequência de anos de programação de uma sociedade anestesiada e apática à vida. Apatia, já dizia Hawkins, é um dos níveis negativos de consciência: nele nada se faz por se achar que nada dará certo, que não depende da atitude da pessoa, e sim de fatores externos apenas. Hoje em dia, isso é vendido como tranquilidade, ou mesmo como paz de espírito. Pior do que isso, é que qualquer atitude, defensiva ou não, ser vista como algo negativo, até como crime.

Já comentei sobre o politicamente incorreto aqui no blog. Ele é uma das ferramentas dentro da programação que fomentam a apatia nas pessoas. Também já comentei que os níveis abaixo de 200 são instáveis, e as pessoas ficam "circulando" entre eles. Como tudo o que pode ser dito (ou mesmo pensado) acaba por passar por crivos estreitos de fragilidade, e se defender é visto como algo negativo, abre-se espaço para o desenvolvimento da apatia em relação a tudo, sobretudo para as coisas importantes.

Não é necessário dizer que uma postura mais tranquila perante coisas realmente pequenas é algo a ser praticado. O problema é mais sério: coisas que realmente importam, certas e erradas, estão sendo abstraídas da mente, como se as pessoas desaprendessem a lidar com o sofrimento e tentassem, a todo custo, evitá-lo, mesmo que as omissões gerem muito mais sofrimento que o combate propriamente dito.

São as mesmas pessoas que reclamam de tudo, como se a vida dependesse de algo ou alguém distantes - apesar de eu desconfiar que tentam implantar algo assim a qualquer custo. Se por um lado deve-se ter empatia e buscar entender o problema no ponto de vista alheio, por outro fica patente a diferença de consciência de quem está abaixo e de quem está acima de 200 - cerca de 5% da população mundial. Fugir do jargão para não resetar o próprio sistema pode ser útil para superar a apatia e tomar atitudes sobre as coisas importantes da vida.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Fluidez da linguagem e analfabetismo funcional


Analfabetismo funcional é quando uma pessoa sabe ler e escrever sem entender plenamente o que leu e/ou o que escreveu - ou seja, sem expressar uma ideia com suas próprias palavras, ou mesmo interligá-la a outras. Aparentemente pode parecer um problema de interpretação, no entanto, é uma real questão de cognição, na qual a pessoa não consegue relacionar ideias, encadeá-las e formar raciocínios completos. E isso pode ser distorcido a ponto de qualquer divergência de interpretação ou conclusão ser considerada analfabetismo funcional - uma grande confusão do momento. A linguagem não é algo exato, o que permite múltiplas interpretações. O contexto é importante, mas é mais complexo do que se aparenta.

Qual é a real diferença entre divergência de interpretação e analfabetismo funcional? É se a pessoa de fato conseguiu interligar a ideia do que leu com outras, ou seu encadeamento textual fez sentido: essa percepção pode ser mais ideológica do que lógica. Infelizmente, as pessoas preferem considerar como absurdo algo que pode ser apenas divergente de sua visão de mundo. Desconsiderar o que a pessoa entendeu é um recurso de argumentação usado para anular o que o outro disse e deixá-lo sem argumentos. Como disse antes, a linguagem é fluida, e mesmo raciocínios dos mais "malucos" podem fazer todo o sentido.

Talvez seja necessário, antes de tudo, entender que a linguagem é fluida, e que, sim, as pessoas podem tirar diversas conclusões do que foi dito e/ou escrito, independente de sua boa ou má intenção. A partir daí, trabalhar uma linguagem sempre mais clara, mais simples, obviamente sem ser simplista: podar um raciocínio complexo achando que está simplificando. O rebuscamento pode parecer um recurso que eleva o tom da mensagem, mas em boa parte das vezes acaba por criar uma névoa que provoca interpretações por vezes contraditórias e frágeis, e acaba por tornar a mensagem "imune" a críticas, pois uma interpretação pode ser anulada por outra.

Um exemplo que posso dar é o da obra de Paulo Freire Pedagogia do Oprimido: extremamente rebuscada, não traz nada de novo à Pedagogia ou ao ensino além da aplicação da militância ideológica em sala de aula, desprezando o conhecimento acumulado ao longo dos séculos em nome da formação de uma classe intelectual revolucionária. Interessante que o próprio autor afirma que os alunos devem buscar seu próprio conhecimento ("o professor não ensina, são os alunos que se educam mediados pelo mundo") dentro de uma lógica revolucionária, o que não deixa de ser uma contradição: então o aluno pode atingir um conhecimento não revolucionário? Não, isso é considerado por Freire uma lógica "bancária" ainda enraizada na pessoa. Bancária no caso seria a formação do aluno voltada para o mercado de trabalho e para a vida em uma sociedade capitalista.

Só de apontar essa questão, uma das primeiras respostas é você não entendeu o que ele quis dizer, ou você precisa estudá-lo mais. Acontece é que o excesso de rebuscamento cria ambiguidades fora de seus contextos, e quando uma crítica é feita, é facilmente rebatida com outra interpretação da mesma ideia, como se a anterior fosse falsa. Nisso entra-se em outra questão: isso é burrice ou má intenção do autor? Ele pode escrever de forma complicada por querer melhorar seu estilo de escrita ou justamente para evitar críticas de outros profissionais - ou mesmo ambas as coisas. A impressão que eu tenho é a de que burrice e má intenção andam juntas, não só neste caso.


Não adianta buscar um purismo de linguagem de apenas um sentido apenas. Sempre será possível distorcer palavras e contextos, por mais claros que sejam. Contudo vale o esforço para uma linguagem mais nobre e palatável. Buscar superar o analfabetismo funcional é uma tarefa árdua, tendo em vista que o indivíduo tem mais dificuldade para aprender coisas novas conforme os anos passam. No entanto, é algo possível e racional de ser feito, sobretudo para fugir da armadilha do erro de interpretação conduzido por outras pessoas por conta de opiniões e visões discordantes.