terça-feira, 20 de outubro de 2020

Sobre a limitação do pensamento


 

Já escrevi aqui sobre o 1984 e sobre a fluidez da linguagem ao longo do tempo, mas acredito que ainda não escrevi nada sobre o uso da linguagem como forma de desenvolvimento das ideias e, consequentemente, da evolução de consciência. O que eu noto hoje em dia é um movimento de limitação da linguagem que acaba por atrapalhar o fluxo de pensamentos na mente da pessoa, já que a mesma acaba por se vigiar de forma tão incisiva, o que prejudica até o desenvolvimento de sua consciência.

Comentei no post sobre o politicamente correto um pouco da limitação da linguagem, pelo fato de pessoas se ofenderem com coisas cada vez mais banais, querendo a todo custo bani-las da existência, transformando em vilões quem ainda as usa. Não se pode mais pensar se algo é ofensivo ou não, pois qualquer coisa pode ser ofensiva - e muitas vezes, o ofensivo é associado ao criminoso diretamente, sem a mínima proporcionalidade.

Se tudo é ofensivo, nada é ofensivo, ou seja, a questão de ofensa torna-se uma mera questão de conveniência para determinadas pessoas: a mesma coisa dita por grupos diferentes toma significados diferentes, dentro do pensamento binário "se não é bom é ruim". Um gesto educado torna-se ofensivo, enquanto que uma grosseria torna-se algo nobre, sem depender do contexto, mas de quem o fez.

O problema não está nas novas formas de comunicação que surgem: isso é normal em qualquer língua viva. O problema está na perseguição e na obrigação feita para serem adotadas apenas determinadas formas, condenando qualquer outra, sobretudo a norma padrão. Deve-se entender que novidades em uma língua sempre serão consideradas vulgaridades ou gírias, sobretudo quando as mesmas podem ser consideradas barbarismos ou neologismos.

O pensamento depende da linguagem para fluir na mente. São exceções os casos de pensamentos que não podem ser descritos com palavras - geralmente associados a níveis de consciência elevados, inacessíveis para maior parte das pessoas. Quanto maior e mais profundo o conhecimento em linguagem e imagens mentais (adquirido através da boa literatura), os pensamentos conseguem se desenvolver mais livremente, inclusive tornando mais consciente aquele processo de download de ideias que Hawkins comenta no Power vs. Force.

É a partir do desenvolvimento do pensamento que se pode progredir a consciência, pois o pensamento livre permite uma maior e melhor visão sobre a realidade. Não se teme pensar sobre mais de um ângulo, mas surge o impulso de refletir sobre os diversos pontos de vista, em busca da Verdade. O processo meditativo é uma forma de manter a consciência sobre os pensamentos através do foco em um determinado ponto - e assim podendo conhecer mais de um ângulo com mais profundidade e assim ver a totalidade de forma mais completa.

Obrigar um tipo de linguagem, buscando banir alternativas, cria uma espécie de vigilância mental na qual a pessoa evita pensar de outras formas, pois evitará usar "palavras proibidas" em seu pensamento para não falá-las em público. Além da energia desperdiçada em controlar o fluxo de pensamento, são criados obstáculos que impedem a pessoa de ver os outros ângulos das situações, impedindo que a consciência evolua.

O próprio engajamento para alterar e limitar o uso da linguagem deriva de uma consciência limitada, que não consegue ver a realidade de forma mais ampla. Conforme a pessoa evolui, ela percebe que as palavras são meras ferramentas, que a linguagem é fluida, e que ambas são necessárias para compreender o que se passa, inclusive para comunicar isso a outras pessoas, e para que estas a entendam.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Em Defesa do Preconceito


Apesar de eu usar o título do livro do Theodore Dalrymple, este post não é uma resenha do livro, o qual achei muito confuso. O autor mistura de forma desproporcional o argumento de autoridade - ele é psiquiatra - com uma linguagem mais informal, para tornar o livro acessível ao grande público. No entanto, o texto fica enfadonho para um leigo, e não muito confiável a nível profissional. Deixando isso de lado, o assunto é realmente interessante e importante, sendo que eu já escrevi sobre aqui no blog.

O preconceito é parte do instinto animal: como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica. É difícil a pessoa mudar seu conceito sobre algo depois deste primeiro contato - as informações subsequentes apenas vão solidificando o que já ficou marcado. É algo natural, mais comum do que se imagina, e não é essencialmente ruim como querem dizer por aí. O preconceito pode livrar a pessoa de situações embaraçosas, assim como a intuição - que comentei sobre os dois conceitos em outro post.

Geralmente nosso preconceito é formatado nos padrões sociais vigentes, o que acaba por anular o instinto e a criar factoides sobre determinadas situações. Hoje comenta-se sobre determinados tipos de preconceito, os quais não irei citar aqui pois já são conhecidos e motivos de debate sempre que citados. No entanto, outros preconceitos, nos quais suas raízes são muito mais reais e acabam por afetar a vida das pessoas, mantém-se ocultos e são considerados como inexistentes ou mesmo superados - podendo causar mais danos do que se pensa.

Isso significa que o preconceito deve ser combatido? De jeito nenhum, pelo contrário: ele deve ser valorizado e trabalhado. A maior parte dos profissionais depende do conceito prévio para poder iniciar seu trabalho: só de olhar já se pode tirar conclusões precisas, cujas análises demorariam tempo desnecessário em determinados casos. Falar de fim do preconceito é abrir mão de uma habilidade valiosa do instinto para apenas parecer legal, ou justo, ou sei lá o quê.

Interessante notar que em alguns casos, ainda levando pro lado profissional, que fica mais fácil de explicar e exemplificar, determinadas áreas usam largamente do preconceito sem serem consideradas preconceituosas, enquanto outras são combatidas a qualquer custo. Ora, se a qualidade profissional depende de conceitos prévios, de bater o olho, por que determinadas áreas o podem fazê-lo, sem falar que o fazem?

Pegar o exemplo do médico e do policial: ambos precisam de conclusões rápidas e precisas para evitar o máximo de revezes possível. No entanto, o primeiro é considerado clínico, técnico; o segundo é considerado preconceituoso. Não se leva em conta que a experiência e a prática levam a reações imediatas às situações, tendo em vista maior eficiência do serviço. Quando isso é levado ao cotidiano, percebe-se que justamente aquelas pessoas "contra o preconceito" são aquelas que escondem intenções escusas por trás disso.

Não digo isso apenas em questões políticas ou sociais: até mesmo entre amigos isso pode acontecer. Tentar uma amizade com alguém com quem não se vai com a cara apenas para superar o preconceito pode terminar de forma mais dolorosa que apenas seguir seu preconceito e instinto. Isso mostra uma coisa interessante do preconceito: ele é individual, ou pelo menos deveria sê-lo. Cada pessoa desenvolve o preconceito da sua forma, o que faz com que quem não seja de seu convívio não entenda suas conclusões preliminares.

Preconceito é algo do qual não se deve ter vergonha, pois ele em si não é negativo. Assim como o ego, ele deve ser trabalhado e desenvolvido, para serem evitados dissabores futuros em função de sua ausência. Quem busca destruir o preconceito pode estar cometendo um erro grave, com ou sem intenção de fazê-lo, pois, como dito aqui, é parte da natureza humana, e como tal, deve ser cuidada.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Sobre o real misticismo


Talvez eu tenha que fazer correções em meus posts anteriores, ou meus leitores devam ler meus posts mais antigos pensando que estes foram escritos em outra época, quando eu tinha outra cabeça. Depois de ler um comentário de um post antigo, fiquei pensando no contexto em que eu encaixei a palavra místico, e pude concluir: aquilo não é o misticismo verdadeiro, a verdadeira experiência espiritual.

Talvez até se possa pensar em separar por palavras, sendo o místico algo verdadeiro e o misticismo algo falso, mas as palavras se misturam, e aí dá problema. E isso vai de encontro ao que diferencia o verdadeiro do falso: o que se realmente sente. Não é um estereótipo, não é uma postura externa, é algo que flui dentro da pessoa, que a maioria não percebe e se deixa enganar.

Foi então que percebi, ao longo dos posts, e mesmo ao longo da vida, que o que eu falava sobre maturidade e evolução era o caminho para a verdadeira experiência mística, pois só com ambos você pode transcender a realidade e ter um contato maior com o divino. É quando você começa a parar para pensar sobre e começa a ver além, realmente além, não apenas um dos lados, mas uma miríade de possibilidades, e se maravilha com isso.

A experiência mística mostra as semelhanças entre as oposições, que formam um todo harmônico. Grupos que se apresentam como diferentes são semelhantes em essência. Doutrinas religiosas possuem visões próximas em conceitos divinos, diferenciando-se apenas na ritualística e nos nomes - a já conhecida reserva de mercado. Tudo é muito parecido, por mais que criem definições e definições - se for parar pra pensar, mesmo em relação ao Reiki as definições caem por terra.

Os problemas surgem porque é uma experiência quase que individual. Ninguém entende pelo que você está passando - se for pensar que pessoas evoluídas são extremamente raras, realmente é difícil encontrar alguém que tenha passado por isso. Nessas horas, em que deveria haver o apoio, por ser um momento importante, a tendência é quem está em sua volta "te puxe para baixo", "te traga para a realidade" (ou melhor, te tire dela!).

Por esse (e outros motivos) os sábios se retiram. É melhor se afastar de quem não entende o que está acontecendo. Buscar ajuda é um problema, pois quem parece ser um bom guia nessas horas acaba mais por atrapalhar do que ajudar, como a maior parte dos líderes religiosos, que apenas receberam um treinamento padrão, mas, por não possuírem, em sua maioria, o mínimo de evolução espiritual, tentam mais controlar o espírito alheio (com direito ao trocadilho) do que permitir que o mesmo siga seu caminho.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Lei do retorno e da atração para leigos


Lembrei-me daquela série de livros "Para Leigos", "For Dummies" no original, algo que seria literalmente para idiotas. Bom, as pessoas no geral acham que a Lei do Retorno nada mais é que alguém faz algo, e logo aquilo volta pra ele. Se realmente fosse assim, bandidos seriam punidos exemplarmente e o mundo seria uma maravilha... Voltemos à realidade.

Eu havia comentado no post sobre os padrões não-lineares que a vida funciona em campos atratores, nas palavras do Hawkins. Logo, tudo está interligado dentro de níveis de consciência, e conforme a pessoa evolui, ela passa a abarcar mais e melhores dados destes campos. Toda a ação não gera uma reação, mas está dentro de uma rede de eventos possíveis em seu campo atrator.

Não significa que uma pessoa de nível de consciência baixo não pode ter uma atitude elevada, pelo contrário, ela pode fazê-lo e isso pode ajudá-la em sua evolução, pois isso irá atrair outras coisas, dentro do novo campo atrator. Isso vai de encontro com a famosa Lei da Atração do livro O Segredo: se você pensar em determinadas coisas constantemente, irá consegui-las.

Infelizmente, este livro é mera propaganda, não trazendo nada de prático ou de específico. Não fala das consequências, não fala de como as coisas funcionam. Pensar em atrair bens materiais não irá atraí-los por si só, assim como ignorar os problemas não irá evitá-los. A pessoa não atrai o que quer, mas o que precisa, dentro do fluxo natural do Universo.

Claro que se a pessoa mudar de padrão de pensamento, vai mudar o campo atrator onde se encontra, progredindo ou regredindo. Contudo, mudar o padrão de pensamento vai muito além de pensar apenas em coisas fofinhas ou evitar a todo custo de pensar nos problemas. Lei do retorno, como a lei da atração, são coisas deveras complexas e muito mal abordadas, geralmente por pessoas que não trabalharam a própria percepção.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Os três quocientes


Há um tempo atrás, fiz um curso virtual de inteligência emocional. O nome do curso havia me chamado a atenção, já que eu ainda não havia me aprofundado no assunto. Ao longo das aulas, porém, percebi que a tal da inteligência emocional tratava-se da boa e velha maturidade, coisa com a qual a maioria das pessoas não sabe lidar hoje em dia. Por esse aspecto, dá até para considerar a ideia de que inteligência emocional não existe, pois a mesma é subjetiva e, portanto, impossível de ser "quantificada".

Bom, é nítido que há um quociente emocional que as pessoas possuem, ligado à capacidade que se tem em lidar com as situações da vida. Não é exatamente uma pessoa alto-astral, que vê tudo lindo e maravilhoso, etc, mas uma pessoa que sabe agir de forma racional, sem se deixar levar pelos sentimentos, muito menos pelo orgulho ou birra. Aceitar as coisas como são e aceitar-se como é são um bom começo para desenvolver isso.

Ao contrário do que as pessoas pensam, quociente de inteligência não é a mesma coisa que quociente de conhecimento. Enquanto este é o quanto você sabe propriamente dito, aquele é o que você consegue desenvolver com o que você sabe. Não adianta você saber determinado assunto de cabo a rabo enquanto não souber o que fazer com tudo isso. E não digo no sentido de criar um projeto ou fazer uma invenção: até mesmo a mais simples atitude diária depende do que você faz com o que você sabe, sem se deixar levar de forma cega pela emoção.

Na escola trabalha-se muito o quociente de conhecimento, mas pouco o quociente de inteligência, apesar de o quociente emocional ser até mais trabalhado. Isso sem levar em conta o sistema pedagógico que não busca desenvolver o raciocínio amplo, apesar de se gabar que sim. É comum nos cursos da área de formação dizer que não se deve decorar, e sim deduzir. No entanto, nem sempre há tempo para deduções, e nem sempre ter a fórmula pronta ajuda.

Os três quocientes, por assim dizer, devem ser trabalhados e desenvolvidos. Muito se fala de quociente de conhecimento como se fosse o de inteligência, acreditando que a mera absorção de conhecimento torna alguém inteligente. E quantas são as pessoas que com um conhecimento mínimo sobre determinado assunto que conseguem fazer coisas incríveis, através de associações e deduções! Isso é fruto da combinação desses três quocientes, pois não adianta ter conhecimento e saber o que fazer com ele, se não possui maturidade para tal tipo de coisa.