terça-feira, 12 de maio de 2015

A Grande Falha do Feminismo Atual


Pompeii Ruins, por Svetlana Tikhonova

Durante o intervalo de um dia estressante de trabalho, deparei-me com uma notícia da BBC onde uma jovem chamou a polícia por sofrer assédio dos pedreiros de uma obra. Até aí tudo bem, virou moda isso. Entretanto, talvez pelo sangue ter fervido, acabei soltando um comentário até que rude no link do facebook. A resposta veio em peso, mas não em forma de debate ou troca de ideias: a linguagem ofensiva e as opiniões infantis foram um balde de água fria para mim. Não consigo entender por que tantas pessoas eximem a vítima de sua responsabilidade pela situação em que se encontra.

O que eu entendi da notícia: a guria em questão fazia o mesmo caminho todos os dias, e neste caminho havia uma obra, cujos pedreiros ficavam assoviando. Por algum motivo (duvido que foi do nada...), o assédio chegou ao ponto dos pedreiros bloquearem seu caminho para que contornasse os mesmos para seguir (não sei qual é o problema disso). A jovem não aguentou mais a humilhação e chamou a Polícia para denunciar (aliás, a Polícia aliás só serve pra isso hoje em dia...). O caso está sendo investigado, e ainda não houve conclusão. Obviamente, centenas de pessoas foram "tomar as dores" da inglesa que nunca viram - e ai que quem expresse um comentário contrário. Lá fui eu.

Uma falha da notícia é que ela não mostra as reações da menina aos primeiros assovios. Como dar opinião sobre algo se não temos uma informação importante? Ou a reação dela foi tão óbvia que pareceu clichê noticiar? Vamos lá: vítimas são pessoas, e como tais possuem ações e reações. Ser vítima não isenta ninguém de nada, muito menos de ação. Independente da reação, ela primeiramente aceitou aquilo como ofensa. Se ela não o tivesse feito (seja ignorando, ou levando como elogio), pararia tudo por aí. Sério: agressão só existe quando a "vítima" aceita como tal.

Quando a situação piora, uma pergunta me vem à mente: por que ela não mudou de caminho? O que dá a entender na notícia é que ela continuou fazendo o mesmo caminho, por sua conta em risco, usando fones de ouvido e óculos escuros. Olha como a situação muda de figura: é como se ela procurasse o problema e aceitasse aquilo como ofensa. Usar óculos escuros e fones de ouvido não significam absolutamente nada. A rua é de todos? Sim. Liberdade de ir e vir? Não sei como é lá, mas se alguém de confiança fala pra mim que determinado lugar é perigoso, obviamente não passo por lá. Entenda isso não como uma crítica à garota, mas às atitudes que muitas pessoas têm ao ver situações como essa - e aos comentários, muitas vezes infantis.

Repare que não há uma agressão física à garota: os pedreiros estavam no meio do caminho, assim como ela também passa pelo ele. Será que a intenção era mesmo incomodar? Não há informações precisas para tanto - você pode até considerar a menina paranoica que terá argumentos para tal. Depois de chegar a este ponto - depois de um mês, como ela aguentou tanto tempo? - ela chamou a Polícia e fez a denúncia. Disse que conversou com o dono da obra, pra falar como era ofensiva a atitude de seus subordinados. Em outras palavras: sim, eu me ofendo com isso. Passe livre para continuarem, afinal, ela aceitava aquilo.

O caso fez sucesso, e a guria ganhou louros por manter uma atitude imatura sobre a situação. O que se vê é que ela nada aprendeu a respeito - e ainda quis ensinar algo. Ensinar que se um homem está interessado em uma mulher, ele tem que se aproximar de forma respeitosa, que fiu-fiu é algo ultrapassado. Só que os pedreiros não estavam interessados nela e fiu-fiu não é uma forma de dizer que tem interesse. Fiu-fiu é o que podemos chamar de provocação: se ofende quem quer. Lembro da música Vida Louca Vida do Cazuza: "Quando ninguém olha quando você passa/Você logo acha "Eu tô carente"/"Eu sou manchete popular""...

O mais interessante disso tudo foram as respostas ao meu comentário no facebook. Duas ofensas, alguns argumentos infantis, um querendo pagar de inteligente, e uma concordância (na verdade eu não entendi o que a pessoa quis dizer). O nível de diálogo das pessoas está muito baixo - não vejo pessoas argumentando, apenas concordando ou discordando baseando-se em sua própria opinião, sem querer aprender com isso. A agressividade é constante e dolorosa - como se o outro devesse ser punido por expressar uma opinião diferente. São crianças que querem que tudo seja do jeito que elas pensam - por pior que seja.

Isso está ligado justamente ao cerne da reportagem: o fato de uma pessoa não aceitar a atitude/postura de outra pessoa, ofender-se com isso e não aprender com a situação, tomando até atitudes mais negativas. Tem gente que se ofende com o fiu-fiu, mas é problema da pessoa, não da sociedade. A vida não dá colo pra ninguém, então não adianta sentarmos e chorarmos porque nos ofenderam. Não vamos mudar as pessoas, mas a nós mesmos - como repito no blog constantemente, ir pra rua sem amadurecimento nenhum só piora a situação.

2 comentários:

  1. Eu ia perguntar mas como você já mencionou no texto eu apenas não paro de pensar: por que não mudou o caminho? E mesmo que não quisesse mudar de caminho, e o outro lado da rua? Tem caminho que não dá pra mudar mas se é pra evitar problemas, por que não?

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    Respostas
    1. Pois é, o pessoal não sabe quando partir para um confronto ou não (estou escrevendo sobre isso, hehehe). Aí a pessoa parte pro 8 ou 80: ou enche o saco de todo mundo ou vira tapete de todo mundo.
      Os comentários são tão piores quanto a reportagem...

      Beijos

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