terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Editorial: Viver como as Flores


- Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas. Sofro com as que caluniam.

- Pois viva como as flores! - Advertiu o mestre.

- Como é viver como as flores? - perguntou o discípulo.

- Repare nestas flores. - continuou o mestre, apontando lírios que cresciam no jardim - Elas nascem no esterco, entretanto, são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas.

É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento.

Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora.

Isso é viver como as flores.

Trabalhar com História muitas vezes (para não dizer todas) requer trabalhar com coisas desagradáveis a respeito do que pesquisamos. Ser historiador não é tarefa fácil, e as pessoas acabam não levando a sério, surpreendendo-se e se frustrando com o que encontram. A Verdade tem gosto amargo, muitas vezes de sangue, desonra, egoísmo. Nessa hora temos que ser imparciais, objetivos, afinal não se pode mudar o Passado, mas o Presente pode mudar com essas coisas vindo à tona.

Indo na contramão de uma parcela importante dos pesquisadores, acredito que haja sim uma Verdade a ser encontrada, através das diversas mentiras e meias verdades. Imparcialidade é possível, objetividade é necessário, e o Amor pela profissão deve permear tudo isso. Quando você realmente ama História, você não se deixa levar pelas tristezas que amargam a boca. É um mal necessário, e um trabalho sério a ser feito.

Um desabafo que eu gostaria de fazer, aproveitando a ocasião, é sobre a questão dos arquivos. Eu sinceramente não confio na gestão dos arquivos aqui no Brasil. Tenho a impressão que se perde muita documentação, o que acaba prejudicando a pesquisa. Sem saber o máximo de lados possíveis, a pesquisa fica algo manco. Alguns estudos mais polêmicos pecam por acabarem fazer o papel de justiceiros e não de historiadores, e muitas vezes isso é devido à falta de documentação. Não carregamos espadas, carregamos trombetas. Somos testemunhas.

E isso é bom para se levar para a vida toda: busque as entrelinhas, busque o não-dito. Uma ferramenta interessante de pesquisa é a gravação de relatos, seja áudio ou vídeo. Eu vejo a História se perder como areia entre os dedos. As pessoas vão morrer um dia, e muita coisa se apaga junto. Na maior parte das vezes, cheguei à conclusão que os fatos passam por distorções tendenciosas e acabam se tornando livros. É muito comum falarem que historiadores e jornalistas são mentirosos, não sem razão.

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