terça-feira, 9 de agosto de 2016

Entre Fatos e Factoides

Fico imaginando se na graduação em História, e mesmo no ensino escolar, deveria haver maior trato com a historiografia e com a construção do conhecimento historiográfico. Aliás, acho que a História é uma grande Mestra da Vida justamente por ensinar a lidar com fatos passados, presentes, e mesmo futuros. Lidar com este tipo de coisa contribui para nossa formação como ser humano e ajudaria na construção de uma sociedade melhor. Um dos pontos que deveriam ser tratados seria a questão do fato e do factoide, como diferenciá-los e mesmo utilizá-los na construção historiográfica e na própria evolução.


Pesquisei um pouco na internet sobre o factoide, e vi que ele possui uma definição levemente diferente da que eu costumo utilizar: realmente é um fato falso considerado verdadeiro, no caso pela intensa veiculação, sendo que eu considero como uma interpretação distorcida de um fato legítimo por interesse pessoal. No final, ambos conferem: a intensa veiculação de um fato falso possui interesse pessoal, marcado tanto pelo vitimismo quanto pelo egoísmo. Há alguns problemas nisso: como destrinchar o factoide em busca do fato verdadeiro (ele existe, não é relativo como alguns "factoidistas" pregam) e como distinguir um fato de um factoide.

As pessoas fabricam os factoides sobretudo quando querem levar vantagem em uma situação: o fato ocorre, mas por este ser desfavorável de alguma forma, ele é interpretado de forma distorcida: um processo natural. Alguns acontecimentos que fazem parte da História são factoides que ganharam vulto e força. Separar joio do trigo é uma tarefa árdua, que atinge o ego de muitas pessoas. Ou seja, tanto a nível historiográfico quanto a nível pessoal, é um processo de transformação importante e delicado. No filme Uma Cidade Sem Passado, os factoides preenchem o espaço de onde deveria estar a História da cidade, e quando Sonja busca investigar mais a fundo, começa a sofrer com a revolta dos próprios habitantes. Estamos em uma época assim.

Resolver o factoide pessoal ajuda a resolver os factoides coletivos. Encarar o fato como ele é pode ser doloroso de início, mas o sofrimento é uma questão de escolha. Na maior parte das vezes, as coisas não são como queríamos - podem ser melhores ou piores. E mesmo o julgamento de melhor/pior depende mais do ponto de vista do que do ocorrido em si. A relatividade do fato se deve à forma como o vemos não ao fato em si. Distorcê-lo agrava a situação de vítima e anula forças de mudar a situação. Torna-se cômodo ser vítima, criando-se factoides dos acontecimentos subsequentes para manter esta posição. Não seria um vício a prática em si, mas um recurso constantemente empregado pelas pessoas para terem razão.

Com um ensino de História fraco e repleto de factoides, os estudantes são condicionados a criar os próprios ao invés de vencê-los. Parece que estamos em um mundo de factoides sem fim, em que cada vez mais e mais são criados para não se ver a Verdade. Mas não se engane: os factoides caem, a verdade aparece. As pessoas tendem a cair em conflito quando os factoides se desmancham. Isso é bom, pois um grande passo pode ser dado rumo ao amadurecimento, já que se abre oportunidade para o questionamento, não da situação, mas da própria pessoa.

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