terça-feira, 2 de agosto de 2016

Um Eu de muitas caras e muitos jeitos


A expressão duas caras possui uma conotação negativa ao se referir a uma pessoa de posturas e atitudes diferentes com o propósito de prejudicar outrem. Busca-se então ser a mesma pessoa em qualquer situação, em qualquer ambiente, e isso acaba causando muita frustração, porque as coisas não são bem assim. Em cada situação temos que ser uma pessoa diferente, porque a mesma demanda isto. Não é possível ser a mesma pessoa no trabalho, na escola, na faculdade, na academia. Nós devemos então nos utilizar de máscaras nas mais diversas situações, para nossa própria preservação.

Diria que estes são apenas partes de nós, partes necessárias. Não dá para ser completo em qualquer lugar, isso pode ser seriamente danoso. Isso fica visível na transição da adolescência para a idade adulta, quando começamos a trabalhar e vemos que qualquer postura não é aceitável neste tipo de ambiente. Pode parecer absurdo no começo, mas com a devida orientação, é possível desenvolver um "eu profissional" que transmite segurança e confiança aos seus pares e superiores e sabe lidar com as situações da forma mais profissional possível.

Mesmo na escola não somos nós mesmos por inteiro, porém a criação deste "eu escolar" é bem mais sutil, já que acompanha nosso crescimento. Na faculdade, por mais que nos soltemos, não dá para sermos "inteiros": é um novo eu que se destaca, pronto para se adaptar às atividades acadêmicas e fora dela. Como saber que não somos "completos" em determinada situação? Pelas limitações: quais posturas você não pode adotar no trabalho, na escola ou na faculdade? Como demonstrar respeito, gratidão ou mesmo alegria? Não se engane: é possível ser a gente mesmo nesses ambientes, respeitado estes limites, fazendo do nosso jeito.

Isso está longe de ser uma padronização. Aquelas regras de como se portar em uma entrevista devem ser utilizadas como base, como inspiração, não como um manual a ser seguido à risca. Tornar-se camaleão, sabendo se portar em diversas situações, de forma original e criativa, é o ideal, que vem com o tempo e com a prática. Isso está longe de ser falso: ainda é você, é parte de você. Não é como uma unha que cortamos fora quando nos desagrada: acabou a utilidade daquilo, torno-me outra pessoa. Perceba aí a intenção: esses "eus protocolares" têm apenas por finalidade adaptar a pessoa às diversas situações da vida, enquanto que a falsidade possui por fim específico o benefício próprio em detrimento de outrem.

E quando somos realmente nós mesmos? Quando sentimos a total liberdade de agir e pensar: não quer dizer que podemos fazer qualquer coisa, mas que não existem limitações sociais, como posturas. Quando estamos em casa, ou fazendo algo que gostamos, ou quando estamos com aquela pessoa especial. Não digo quando estamos em família, pois cada uma possui suas próprias limitações, e não é sempre que podemos ser nós mesmos. Mas se não conseguimos detectar nosso "eu livre" em nenhuma situação, aí está o problema: quem sou eu? Nosso "eu livre", que alguns chamam de Self, é a nossa essência, da qual derivam todos os outros "protocolares": é quando não há limites às situações cotidianas.

Um relacionamento pode ser analisado pelo nosso comportamento junto com aquela pessoa: se não há necessidade de um "eu protocolar", é porque aquela pessoa é realmente especial para nós e existe um sentimento por ela, sobretudo quando esta aceita o "eu livre", com todas as suas nuances. O problema é quando existe o relacionamento de fachada: usamos um eu protocolar para viver com o companheiro e filhos, ou mesmo com os amigos. Quem sou eu? Para que eu sirvo?

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