terça-feira, 6 de setembro de 2016

A utilidade do inútil

Pessoas próximas a mim reclamam das Olimpíadas, assim como reclamaram da Copa do Mundo. "Ah, preferimos escolas, hospitais, melhores condições de vida, do que essas coisas inúteis..." Depois de respirar fundo, contar até dez, segurar a vontade de sentar a mão na cara (esse discursinho frívolo ainda me causa náuseas), passei a refletir sobre. Sim, antes de tudo temos a fase do luto, a fase da raiva, a fase do espera pra esfriar. Não dá para refletir sobre nada estando com raiva, triste, ou sentindo alguma coisa muito forte que impede nosso raciocínio. Pois bem.

Essa busca pela utilidade das coisas remonta nosso Passado, onde sempre buscaram dar utilidade pra tudo. O que era considerado inútil era sumariamente descartado. Hoje em dia, com toda a tecnologia, ser útil é fundamental, ser inútil é algo a ser constantemente aparado para não crescer e proliferar. Só que duas coisas surgem disso: a própria taxação de útil/inútil e o valor a ser dado a ambos. Afinal, o inútil pode ser tão útil quanto o próprio útil, dependendo do momento. Não se vive só comida, bebida, sono e sexo. O corpo também pede chocolate, filme sem sentido e uma notícia boba de vez em quando.


Primeiramente deve-se pensar sobre o que é realmente útil: o importante é o que importa, certo? Independente de sua utilidade. O que é útil para alguns é inútil para outros, e vice-versa. Muitos me questionam sobre a utilidade da História: respondo-lhes que eu a História para mim permite ver o mundo de forma panorâmica, mas não é só isso. Cada um dá a utilidade que quiser, conforme sua visão de mundo e nível evolutivo. Também entra a questão da necessidade: naquele momento, aquilo é necessário para mim, em outro momento não.

O que se fazer com o inútil, com o que sobra? Se algo não é útil, ele é automaticamente inútil, certo? Talvez. Olhando de outra forma, o que não é útil forma um mar de incertezas - pode vir a ser útil, pode nunca ser útil, pode ser esquecido, pode ser lembrado... Pode até mesmo ser necessário pela sua total inutilidade. É algo libertador, que dá gosto de abraçar, que nos faz esquecer, pelo menos por um momento, de um mundinho regradinho e quadradinho, feito de utilidades. Não adianta só pensar que utilidade é algo relativo - a própria questão se desdobra e se mostra fascinante, independentemente de ser útil ou não. Que coisa!

Não adianta reclamar, as coisas não voltarão para trás. O dinheiro já foi gasto, as coisas já foram feitas. É o preço da experiência. Aproveitar o momento é fundamental, tirando todo o proveito da situação. Não se preocupe com a utilidade do negócio, afinal, tudo possui seu lugar e seu momento. E, sobretudo, as pessoas têm o que merecem ter, nem a mais, nem a menos: pode parecer bizarro, absurdo, mas não adianta querer forçar situações de mudança, pois o Universo tem seu rumo e seu ritmo.

4 comentários:

  1. Num mundo de recursos ilimitados, utilidade vira apenas questão de gosto. O problema é que dificilmente contamos com esse privilégio. E gastar bilhões para afagar o ufanismo alheio enquanto que o estado do RJ decretava falência é uma irresponsabilidade das mais vis. É o sangue de pessoas sem policiamento que está nas mãos de quem sacode bandeirinha.

    Há também outro problema. "Cada um dá a utilidade que quer", mas as Olimpíadas foram, ao menos parcialmente, financiadas com dinheiro público. Quando se toma verba do contribuinte para fazer algo, é obrigatório que o resultado atenda à definição de utilidade da maioria.

    Por fim, reclamar tem um propósito: o de tentar evitar que o desastre se repita. Se as autoridades tivessem ouvido os detratores do Pan 2007, a Copa e a Rio 2016 provavelmente não teriam sido feitas. Dada a cobertura positiva da Olimpíada, no entanto, é muito provável que o Brasil não aprenda a lição, e o faça de novo em um futuro distante.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Vini, como tá?

      Acho que essa situação pede uma visão mais ampla, mais aprofundada e, de preferência, sem discursos de lugar-comum.

      Uma reclamação para surtir efeito precisa de uma atitude, coisa que a maioria da sociedade não toma. O blá-blá-blá é uma armadilha perigosa, pois o indivíduo se sente satisfeito em reclamar, mas a situação não muda.

      E esta atitude tem que vir primeiro da aceitação - aceita-se que esta situação existe (não se muda o que não existe), e se aceita que antes do outro mudar, tem que mudar a si mesmo. Aceitar é algo difícil pra caramba, porque é confundido com diversas coisas, como resignação e submissão, por exemplo.

      Gratidão por momentos que consideramos ruins é abrir-se ao próprio aprendizado. Se por um lado temos que crescer e evoluir, por outro não significa que seremos independentes dos demais, pelo contrário - aprende-se a ser dependente um do outro.

      Tenha uma tarde feliz!

      Excluir
  2. sobre a questão das olimpíadas, eu sempre penso que o governo tem um montante de dinheiro, e uma porcentagem vai pra cada área. então se fazemos olimpíadas, estamos usando o dinheiro x que é voltado para a área y. o dinheiro dos hospitais, segurança e etc., existe em paralelo. os jogos são nossos, o que não pode é nosso dinheiro financiar farras privadas. eu não via graça em olimpíadas mas respeitava o direito dos atletas, é importante pra eles, como para nós historiadores e funcionários de instituições de ensino e cultura é importante a verba da cultura e educação, mesmo que outros digam que é supérfluo diante da questão dos hospitais.

    concordo totalmente com o útil e o inútil se adequarem a momentos de nossas vidas, me aconteceu demais. abri um livro aos 10 anos que não me disse nada, desisti sabendo que chegaria o momento. li anos depois e foi um dos favoritos, por exemplo. sempre acontece. uma coisa inútil que alivia minhas melancolias é pintar as unhas. um café que a gente toma faz a gente sorrir. eu acabei por amar as olimpíadas, foi muito divertido. e bonito. os países se dando bem por 15 dias pode ser falsidade mas a gente se diverte. numa aula de filosofia na escola minha mana aprendeu com algum filósofo grego que precisamos de nossos momentos de auto-alienação. é um descanso para o cérebro. se fôssemos 100% seríamos deuses. mas ainda penso que somos máquinas biológicas que pifam de vez em quando, então é melhor trabalhar às vezes no modo economia de bateria. nem enlouquecer nos estudos, nem ser afogar no ócio desconstrutivo (porque o construtivo eu quero esbanjar).

    é algo por aí!

    beijão!

    um velho mundo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom dia, Helen!

      Esse é um ponto importante que você ressaltou: para nossos atletas, os Jogos Olímpicos terem sido aqui foi de suma importância. Nem estou falando dos atletas "de elite", já consagrados, mas aqueles cujos esportes não são apreciados pela nossa população e que ganham visibilidade neste período.

      Está claro que as pessoas hoje em dia não possuem conhecimento historiográfico. E não falo de datas e fatos - estes bem distorcidos - mas de organizar o conhecimento ao longo do tempo e trabalhar suas relações. Entender que a História não está só lá, mas também aqui. Investimento em pesquisa, cadê e pra quê?

      Acho lindo ver pessoas tão diferentes reunidas em algo comum, o esforço, a superação. Ir à casa de minha mãe para ver os jogos - sair do "isolamento". Eu gosto de jogar, e gasto dinheiro com isso - o que muitos acham inútil. Eu dou valor ao que gosto e ao que faço. Se as pessoas preferem o gratuito para jogar fora depois... Problema delas, não?

      Só não acho que seja uma autoalienação - para mim este termo tem uma carga negativa que não é necessária ao caso. É estar no mundo de qualquer forma, apesar de sua ação não ser aparentemente construtiva. "Deuses" - espíritos de elevado potencial - já somos, mas ainda estamos aprendendo a tirar melhor proveito disso.

      Um beijo!

      Excluir

Deixe seu comentário. Ao clicar em enviar, aparecerá uma caixinha de confirmação.