terça-feira, 14 de março de 2017

A Vaidade e o Sucesso


Enya disse em uma entrevista uma frase muito interessante: "você pode comprar fama, mas não pode comprar sucesso". Ela não é conhecida aqui no Brasil, não está envolvida em escândalos, nem faz shows ao vivo. Muitas pessoas conhecem suas músicas, mas não fazem a ideia de quem canta, fora as atribuições erradas de uma penca de músicas, sobretudo de trilhas sonoras. O que seria tudo para dar errado nos moldes atuais resultou em mais de 70 milhões de discos vendidos e em uma das maiores fortunas da Irlanda.

Para mim, Enya é um caso de sucesso, sobretudo quando se analisa a fundo: teve que escolher entre os empresários e a família, foi morar com os primeiros, mudando-se para Dublin (ela morava em Donegal, do outro lado do país), além de montar um estúdio quase que por conta própria. Um álbum da Enya - que ela mesma considera ser o trio Eithne, Roma e Nicky Ryan - demora cerca de três anos para ficar pronto, tanto das composições até gravação do disco em si. Disciplina e amor pelo que faz, sem seguir qualquer moda, como ela mesma diz.

Muitos podem achá-la arrogante, mas geralmente é assim: quando uma pessoa é autoconfiante, é vista como arrogante, mas o pior é que quando uma pessoa é arrogante, ela é vista como autoconfiante. Peguei o exemplo da Enya, que pelo seu requinte e humildade, pode não ser vista como uma pessoa simples, ou mesmo modesta. Só que aí entra o diferencial: não adianta querer chamar atenção e ser lembrado por querer chamar a atenção. Para ser reconhecido pelo trabalho, o mesmo deve ser bem feito.

De forma geral, as redes sociais lembram um jogo Pay to Win (pague para vencer): você paga para ser famoso e ser "conhecido", ou mesmo reconhecido. O problema é quando a qualidade é deixada de lado em nome de um reconhecimento vazio. Dever-se-ia primeiro procurar a qualidade, fazer um trabalho profundo e a divulgação ser um meio e não uma prioridade. Reconhecimento vem de algo bem feito, não de divulgação. Fora a sensação de fazer aquilo que gosta, a satisfação de fazer. Isso é sucesso.

Por trás da vontade de aparecer estão a vaidade e a carência. A vaidade de se achar alguma coisa, e que essa coisa é melhor que a dos outros. Aí reside a falta de humildade: a pessoa não se conhece, portanto se acha superior que as demais. Já a carência é a falta de si mesmo, causada pela autonegação. É querer buscar fora algo que está dentro de si, que falta ser reconhecido por si mesmo. Como a pessoa não se aceita como ela é, ela acaba por buscar que os outros a aceitem.

Ao se fazer um trabalho, procure fazer um bom trabalho, para não dizer o melhor trabalho possível. Mas não busque logo de cara fama, não queira chamar a atenção: muita gente acaba por "torcer contra" sem você saber e as coisas misteriosamente não fluem. Não que divulgar seja algo negativo, longe disso: a propaganda é a alma do negócio. Mas ela vem depois, e ela não pode ser sinônimo de trabalho bem-feito, muito menos de sucesso. Deve-se pensar primeiro em atingir profundamente as pessoas, envolver-se profundamente com aquilo que nos faz sorrir.

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