terça-feira, 6 de junho de 2017

A ignorância seria mesmo uma bênção?


A resposta é não, e ponto. Poderia acabar o post aqui, mas aí seria mais prático escrever no Facebook, além do quê a ideia é convidar à reflexão. Após uma situação estafante, onde se descobre tanta coisa amarga, esse mote acaba por resetar a informação recém-inserida na mente. Quem viu o primeiro filme da trilogia Matrix pode já ter imaginado como tudo seria após ingerir a pílula azul, ou mesmo se fosse possível reverter os efeitos da pílula vermelha (mesmo que a simples ingestão da pílula não cause grandes efeitos por si só). Um dos personagens tenta voltar à Matrix, e quase põe a perder toda a missão do Nabucodonosor, expondo a questão de que viver na Matrix seria realmente negativo.

Pode-se criar a partir disso três tipos de visão: a ignorância é uma bênção (o caminho de ida), viver imerso na realidade (o que é realidade?), aprenda a forma-esqueça a forma (o caminho de volta). Por mais que o terceiro tipo seja praticamente igual ao primeiro, a diferença é um fator fundamental, apesar de aparentar ser tão pequeno: a questão do sofrimento. Conhecer o sofrimento e aceitá-lo é outra forma de aprenda a forma, esqueça a forma: é ter consciência do que ocorre, mas isso não causar danos. Isso não se alcança apenas se isolando e aceitando "de fora": deve-se imergir no mundo e conhecer a realidade - e o sofrimento também.

Não adianta iluminar-se em um lugar tranquilo, se esta "iluminação" é quebrada na primeira buzina de carro. Essa é a primeira visão de que falei: a calma vem do desconhecimento (aquilo não existe, aquilo não me alcança). Infelizmente, as pessoas continuam a seguir este caminho achando que este é o certo. Ele é "certo" apenas no começo, mas não significa que ele é "necessário". Essa sensação é "ilusoriamente boa" (lembra do nível de consciência do Orgulho? Falsa sensação de bem-estar), e muitos negam-se a sair dela. Quando a vida bate à porta, negam-na ainda mais, como um círculo vicioso.

Matar um leão por dia é a expressão referente à rotina das pessoas de forma geral. Sofre-se, vive-se, conhece-se. O conhecimento, a verdade, a realidade, é preferível à ilusão e à mentira. Entretanto, continua-se a viver a ilusão do sofrimento. Alguém precisa fazer o trabalho sujo. É daqui que saem conceitos reais, sólidos das coisas. Mas ainda há cegueira: as pessoas ofendem-se por qualquer coisa, e acham que qualquer coisa pode ofender, atingir. Apesar de parecer um estágio inferior ao anterior, é o contrário: é mais fácil abrir os olhos ao que está além, abrir à mente e despertar.

A terceira visão é muito parecida com a primeira, pode-se usar as mesmas palavras, e a diferença é tão sutil que fazer uma diferenciação com palavras é muito delicado. Resumindo: aquilo tudo que as pessoas da primeira visão buscam encontram na terceira de forma profunda e efetiva. O sofrimento passa, mas não se sofre. Mesmo que alguém tenha a intenção de ofender, ferir, não há resistência. Sabe-se que a verdade é amarga, mas não rejeita o gosto, não se opina sobre. Não seria uma frieza emocional: as emoções estão lá, mas no papel delas, como uma criança que obedece aos pais e não o contrário.

Buscar saber, buscar sofrer com isso, é o que torna a pessoa forte. E faltam pessoas fortes no mundo. Não se deixar nivelar por baixo - porque uma pessoa não o quer, não significa que os outros não devam crescer. Ignorância ilude, voa-se sem aprender a voar: a queda é muito mais dolorosa, apesar do voo despreocupado e confortável. E é possível ter um voo despreocupado e confortável sabendo voar, dependendo apenas da própria capacidade de adaptar-se ao vento.

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