terça-feira, 13 de junho de 2017

Divergente

Um livro realmente viciante e interessante. Fiquei de tal forma absorta por ele que não conseguia parar de ler. O interessante é que a história em si não é muito profunda, e o excesso de objetividade deixa a desejar em diversos pontos. Para um livro tão ruim ser tão bom, é porque o que importa é realmente bom. A ideia foi trabalhada a seu tempo, para agradar sua geração - para mim, ela foi mal aproveitada, mas deixa pra lá. Dizer que é uma versão mais atualizada de Matrix também seria exagerado, mas é uma boa analogia.

A trama gira em torno do domínio mental entre as pessoas das cinco facções existentes na sociedade: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. São perfis sociais que trabalham em áreas específicas de forma a promover a paz e evitar a guerra. Entretanto, pessoas são pessoas, e algumas delas querem poder. Para tanto, irão se utilizar as sutilezas mentais para conseguir seu intento. Ao contrário de Harry Potter, onde as casas de Hogwarts formam perfis psicológicos positivos, que incentivam as pessoas a darem seu melhor, as facções de Divergente são como rotulações nas quais as pessoas se limitaram para não se destruírem.

Além das cinco facções, existem os sem-facção: os párias da sociedade. Por algum motivo, essas pessoas não pertencem a nenhuma facção (como o nome diz) e são excluídas socialmente. Vivem de empregos pequenos e da caridade, conduzida principalmente pela Abnegação. Também existem os Divergentes: pessoas cujos perfis extrapolam uma facção, demonstrando características além da média. São considerados perigosos, pois, ao contrário dos membros de facções serem facilmente manipuláveis em nome de seus grupos (inclusive com biotecnologia), estes não são controláveis, formando seus próprios juízos. Engraçado que dependendo da palavra a se utilizar, a imagem de um Divergente parece realmente perigosa.

Os Divergentes nada mais são que pessoas que transcendem a própria mente e os padrões sociais estabelecidos. São conscientes de suas ações e do todo, livres de qualquer tentativa de manipulação. Olhar por este ângulo torna o livro fascinante (e mesmo viciante). Enquanto os membros das facções vestem-se e pensam dentro de determinados padrões (não que sejam iguais, mas previsíveis), os Divergentes acabam por pegar elementos dos mais diversos grupos aos quais tendem. Não significa que tenham características de todas as facções, mas são abertos aos diversos grupos. Não é um padrão da moda (por isso o livro não colou tanto), a pessoa nasce e se desenvolve daquele jeito.

Outra sacada legal é o mecanismo da simulação. Através de substâncias injetáveis e programas de computador, a pessoa passa por simulações de situações como forma de autoconhecimento e superação. Como se entrassem em uma Matrix, mesmo vivendo em uma - um sistema dentro de outro sistema? Mesmo sendo algo simulado, as sensações são reais. E quando se passa por uma situação real, após ter vivido uma simulação da mesma? Talvez seja isso que diferencie: a consciência. É ela que permite as modificações das simulações - já que as pessoas comuns apenas a vivem como mais uma, enquanto os Divergentes a moldam ao seu bel-prazer. Lembra Neo modificando a Matrix: o sistema não é real, mas o que é real?

Talvez as pessoas não gostaram de Divergente porque ela trabalha de forma simples um conjunto de ideias que é considerado complexo ou mesmo restrito a um grupo de pessoas que se acham especiais. Algo abordado pelos clássicos da literatura e do cinema que não deveria ter sua versão teen. Também há a questão da qual as pessoas não gostam de ser questionadas se aquilo que vivem é realmente real, vivendo absortas em uma ilusão criada por elas mesmas, cheia de sofrimento e alegrias efêmeras.

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