terça-feira, 15 de agosto de 2017

Não, nunca, jamais: reaprendendo a usá-las

Dizem que viralizou na internet (que termo doentio, com trocadilho e tudo o mais) uma discussão entre duas mulheres a respeito de uma delas não ter deixado o filho da outra brincar com uma action figure (existe um termo para isso que a reportagem esqueceu de pesquisar - e pelo visto nem a dona sabia). A briga gerou em torno do fato do objeto em questão ser um brinquedo, e por ser um brinquedo, a criança poderia brincar com ele.

A questão vai mais fundo: e se realmente fosse um brinquedo de brincar, a criança poderia pegá-lo, mesmo sem o consentimento da sua dona? Apenas o "não" não seria justificável? Independente do que seja, de brinquedos a panelas, o não, porque eu não quero é um argumento por si só, e deve ser levado em conta como qualquer outra justificativa. No caso, ao invés de a mãe trabalhar a frustração do filho e ensinar-lhe sobre respeito e aceitação, a mesma tomou as dores para brigar por algo vazio.


O não impõe limites, e isso não é uma coisa negativa. Da mesma forma que o não é não em relacionamentos (lembre das propagandas sobre estupro), também o é em outras situações. Hoje em dia é normal inventar desculpas complexas apenas para substituir o não quero, o não posso, pois os mesmos são considerados tão vazios quanto vou dar banho no meu peixe.

Chegaram ao ponto de dizer que a mente humana não reconhece a palavra não. Fica o questionamento: a mente humana não reconhece ou não quer reconhecer? O não faz parte da vida cotidiana, e mesmo esse post não faria sentido algum sem esta palavra - ela não precisaria existir no léxico. Quando explanam que o não deve ser substituído porque a mente não o entende, é apenas uma nova programação para não entender o não, e mesmo não aceitá-lo.

O pensamento positivo não está ligado a frases afirmativas - aliás, o pensamento positivo é forçar a mente a pensar coisas que ela não aceita. É mais fácil, e muito mais natural, aceitar o não como parte da vida do que ficar gastando tempo para reformular uma frase só para não dizer não - ou nunca, ou jamais. Por exemplo: na frase "eu não quero ser assim", a pessoa não deixa claro como ela quer ser, apenas o que ela não quer ser. Já é uma coisa, mas falta a outra, mas não se sabe se, no fundo, ela quer ser daquela forma, mas não consegue aceitar.

O mesmo raciocínio serve para as palavras nunca e jamais. Nunca diga nunca é contraditório por si só e se auto-anula. Para aquele momento, o eterno torna-se necessário. Por exemplo: eu nunca vou beber álcool, significa que algum dia eu vou beber? Não! Por mais que passe o tempo, as circunstâncias mudem e a pessoa comece a ingerir álcool, nunca continua significando nunca. Interessante notar que as pessoas não reconhecem o peso da palavra não, mas até temem o peso da palavra nunca.

Há alguns anos, disseram-me que no irlandês não existia a palavra não, pois sempre usavam uma afirmação para negar outra. Nunca pude confirmar o fato, além de ter minhas dúvidas: talvez não exista o não de outra forma, assim como saudade é traduzido como sentir falta em outras línguas. O não existe, e funciona: depende de como a própria mente está condicionada. Talvez para determinadas pessoas o não lhe seja um obstáculo para atingir objetivos, mas ao invés de adaptar-se e desenvolver o próprio potencial, acusam uma mera palavra.

0 comentários:

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Ao clicar em enviar, aparecerá uma caixinha de confirmação.