terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Mundo de Sofia

Para mim, este livro talvez seja um parente distante do Matrix ou mesmo do Divergente, já que todos eles abordam o mesmo assunto de diversas formas: vive-se num mundo ilusório, e sair dele é parte da trama (objetivo ou não), além de toda uma reflexão a respeito. Enquanto que em Matrix sair do sistema é tomar as rédeas da própria vida e ter consciência das próprias escolhas, em Divergente não há uma noção clara do mundo em que se vive, até que outro mundo se descortina para além dos limites então conhecidos.

Já n'O Mundo de Sofia, é visto um pouco de cada aspecto: ao estudar filosofia, toma-se conhecimento de que vivem em uma ilusão, e sair da obra torna-se imperativo ante os "desmandos" do autor. Assim como Divergente, é um mundo dentro de outro mundo: Sofia nada mais é que uma personagem de um livro de filosofia que será dado de presente à filha de um militar em missão pela ONU. As realidades se cruzariam e interagiriam entre si: cartões postais ao longo da história que serão "entregues" no futuro tornam-se o exemplo mais emblemático.

A coluna vertebral da história é um curso de filosofia ministrado à protagonista, que aborda a questão da existência e da realidade. Um presente de 15 anos que ajudaria a entender o mundo em que vive e a se orientar dentro dele. A ênfase recai nos clássicos, que dão origem ao conceito de filosofia. Conforme o curso vai progredindo, Sofia começa a criar uma nova consciência sobre ela e sua realidade, o que permite descobrir seu propósito. A mera curiosidade em descobrir sobre os cartões postais a leva a ter noção de toda a situação. E o plano de sair do controle do major é consequência do conhecimento de si mesmo.

A diferença de consciência de Sofia para os outros personagens vai ficando mais latente ao longo da obra, até atingir seu ápice no final do livro, durante sua festa de 15 anos. As pessoas não aceitam que são personagens de uma história e o caos se instala na festa. O jardim é destruído e sair da história deixa de ser uma escolha para tornar-se uma necessidade. Desenvolver a consciência é um caminho sem volta. Por maior que seja a vontade de desistir, seguir em frente é questão de sobrevivência. O conhecimento leva a isso.

Por mais que o conhecimento seja de matéria mental e a evolução seja um processo além da mente, trabalhar a mesma é necessário. Tudo começa por ela. A mudança de pensamento abre caminho para uma mudança de consciência e consequentemente para uma mudança de atitude. É o que permite uma visão mais suave das coisas, ao invés de se ficar no útil/inútil que não leva a nada. No começo, busca-se beber de boas fontes, para depois descobrir que qualquer fonte é boa quando se sabe aproveitá-la.

E talvez seja nisso que o livro "peque". No final, o filósofo apresenta à Sofia a seção de Nova Era (New Age no livro) de uma livraria. Livros sobre espíritos, tarô, magia, entre outros assuntos afins. Essa cena vai de encontro com o início do curso, no qual é abordado que a primeira "missão" dos filósofos clássicos era combater a "superstição" de uma sociedade mergulhada em mitos. Caberia ao filósofo, através da razão, dispersar esse misticismo - ao invés de se aprender com ele? Ou seja, mesmos problemas, mesmas perguntas, mesmas formas de agir?

Parece até que é algo contraditório: o conhecimento como forma de conhecer o mundo e a si mesmo, mas determinadas coisas são mera superstição, mera experiência mal interpretada. Que vende, aliás. Retornando à coluna vertebral, vê-se que o autor do livro (não o personagem, o real mesmo) busca ligar os autores clássicos ao racionalismo do renascimento, e com isso à noção que se tem hoje em dia de ciência. Por isso essa visão alternativa é tratada com desprezo - e os casos "sobrenaturais" da história podem muito bem ser racionalizados.

Isso poderia ser visto como um exemplo de limitação a outras visões de mundo. No final do livro, Sofia e o filósofo ficam presos a uma realidade paralela do major e sua filha, tentando interferir no que é possível. É algo não possível de ser explicado com a filosofia racional apresentada ao longo do livro, mas aberto a todo tipo de reflexões e discussões. É um livro que pode ser interpretado de duas formas: como mera apostila de Filosofia, ou como um mundo de possibilidades para a própria vida.

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