terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Regresso tecnológico


Depois da discussão do natureba, passei a perceber que, realmente, o tal progresso tecnológico tem sido cada vez mais lento, para não dizer, regredido. Como se houvesse um desinteresse por parte das pessoas de continuarem a se empenhar por uma melhor sociedade dia após dia. Uma sociedade perfeita não é estática: descobrimos tudo e acabou. O que há de "perfeito" é o aprimoramento constante: estar melhor a cada dia que passa.

Nota-se uma maior preocupação com o vitimismo do que com grandes epidemias; os produtos são fabricados para estragarem de tempos em tempos, e mesmo com características combinadas para não haver concorrência entre empresas. Luta-se não para preservar o planeta, mas para restringir o acesso a bens e serviços de qualidade da maior parte da população. Essa "consciência" de sustentabilidade seria então uma programação para incentivar as pessoas a largarem a tecnologia, apresentando soluções claramente piores como "melhores", forçando as pessoas a voltar a rudimentos desnecessários.

"Vamos largar a tecnologia, os computadores" poderia ser então um "vamos nos deixar de comunicar, de trocar informações". "Vamos utilizar soluções mais naturais" poderia ser um "vamos ficar mais vulneráveis a doenças e pragas". Não sai de minha cabeça o contraste tecnológico em 1984: em uma época de teletelas e métodos de tortura sofisticados, Winston tem uma úlcera varicosa que o incomoda a história inteira, sem a mínima oportunidade de tratamento. Enquanto seu trabalho consiste em modificar jornais, a torneira da vizinha entope constantemente, sem uma reforma definitiva.

Muitos acreditam que uma "postura mais natural" irá economizar recursos naturais e tornar o planeta "mais saudável" para se viver. Engana-se: o desenvolvimento tecnológico é necessário para reduzir a tal poluição e reciclagem de resíduos. Obviamente concordo em evitar desperdícios, mas isso é muito mais um valor a ser ensinado nas mais diversas áreas da vida do que um slogan ambientalista. Repare que a maior parte dos ambientalistas utiliza do medo para impor suas ideias, impedindo qualquer debate ou reflexão: sempre uma mensagem apocalíptica baseada em estudos pouco precisos, deixando no ar a ideia de que se realmente fosse assim, o mundo já haveria acabado.

Acredito eu que estejam restringindo a tecnologia de ponta a apenas um certo número de pessoas, deixando a maioria da população à margem de recursos necessários para a sobrevivência. O economista Mises afirmou na década de 1950 que o que era considerado luxo em uma época, conforme o desenvolvimento tecnológico, tornava-se um artigo comum e necessário, como o papel higiênico e os talheres, para citar exemplos. Agora imagine não haver mais esse desenvolvimento, ou o mesmo tornar-se restrito a alguns privilegiados, impedindo-o de chegar à sociedade como um todo. Não estaríamos caminhando a passos largos a 1984?

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Interstate 60 - Viagem sem Destino

Do mesmo criador da trilogia De Volta para o Futuro, Interstate 60 ou Viagem sem Destino é um filme que lembra muito Matrix, tendo até os protagonistas com nomes homófonos: Neal e Neo. As semelhanças não param aqui: ambos os filmes falam sobre a abertura da percepção para possibilidades nas quais as pessoas são condicionadas a não perceber. Os protagonistas saem de seus mundinhos para conhecer a vida como ela é: seja em um mundo fantástico (a interestadual 60), seja no próprio mundo real (fora da Matrix).

Interstate 60 possui uma linguagem simples e direta, ao contrário de Matrix, que acaba por pedir um cabedal de conhecimentos para entendê-lo em sua profundidade. Porém, assim como Matrix, Interstate 60 também é carregado de simbolismos que renderiam posts e mais posts - e que talvez não levem a lugar algum. Deixando as comparações de lado, Viagem sem Destino conta a história de um guri, Neal Oliver, que quer uma resposta, um rumo para sua vida. Vindo de uma família abastada, não consegue a bolsa de arte tão almejada por não ter o padrão ideal para tal (todo mundo sofre preconceito, viu?).

Enquanto isso, seu pai Daniel, um renomado advogado, abre caminho para Neal na carreira jurídica, projetando nele seus sonhos e desejos, coisas que não têm nada a ver com o rapaz. Esta pressão possui um agravante e um atenuante: o primeiro é sua namorada, mais interessada no que sua rica família tem a oferecer do que o próprio guri; o segundo seria a irmã, que conseguia entender o problema, tentando ajudar Neal no que estava ao seu alcance. A mãe de Neal é claramente mero complementar de seu marido: a mulher do advogado.

As coisas começam a mudar quando um curioso personagem cruza o caminho de Neal: O. W. Grant, mestiço de leprechaun e índia norte-americana que possui a capacidade de realizar desejos. Ele é apresentado no prólogo do filme, como o único personagem da "mitologia americana" capaz de realizar desejos, ao contrário de outras culturas milenares. Grant pode ser comparado a Morpheu, com sua capacidade de mostrar a realidade para as pessoas, que, em geral, não possuem maturidade para vê-la. Nos casos de Neal e Neo, foi necessário esse choque de realidade, seja para que Neal pudesse dar um rumo a sua vida, sabendo como ela realmente é, seja para que Neo pudesse dar um fim à guerra entre máquinas e humanos.

Acho interessante como a realidade é mostrada a Neal: através de um sonho. Eu sei que essa parte fica clara apenas no final do filme, quando ele acorda novamente no hospital, mas é necessário apontar isso agora para mostrar que começam a ocorrer uma série de coincidências que vão lhe mostrando o quanto a mente das pessoas é condicionada a determinadas reações e mesmo determinadas visões de mundo. A Interestadual 60 é então apresentada como uma via onde vários fluxos de possibilidades se encontram, para pessoas que estão atentas a esses fluxos. É necessário que Neal faça uma entrega no dia combinado, devendo atravessar a estrada, com tempo suficiente para conhecer suas paradas e cidades.

Estes locais estão relacionadas ao que acontece na vida de Neal, como o uso de drogas, a cidade dos advogados, e mesmo o assassino que estaria em seu encalço. Este ponto fica em suspenso por quase toda a estrada, mas adianto que não há relação com o agente Smith. Matrix aborda o autoconhecimento dentro de uma perspectiva externa: a guerra entre humanos e máquinas. Viagem sem Destino tem por ponto principal uma viagem por uma estrada "imaginária" rumo ao autoconhecimento, vendo a própria vida sob outros aspectos.

Gostaria de destacar algumas paradas da viagem que considero importantes para analisar. Analisar todas as paradas tiraria a graça do filme, e eu pessoalmente não considero alguns pontos interessantes a tal ponto de serem abordados aqui.

Como fazer a cabeça das pessoas
O filme faz uma reflexão sobre como a mente das pessoas é manipulada e condicionada a perceber e a reagir de determinadas maneiras. Duas cenas interessantes podem ser comentadas sobre: o teste do Dr. Rey quando Neal acorda e a primeira "parada" na estrada. Rey é primo do Grant, e ele quem dá o pontapé inicial da aventura de Neal, ou, melhor dizendo, os dois pontapés iniciais. A primeira parada na estrada, após Grant embarcar no carro de Neal, é um pedido de carona de uma piriguete, que quer ter a "noite de amor perfeita", por assim dizer (vai que o Google me censura por isso).

Neal acorda no hospital e é avaliado por um profissional que faz um teste interessante de cartas: falar qual o naipe da carta apresentada, cada vez mais rápido. Se o então paciente acertou as primeiras, ele acaba por errar as últimas, por conta do automatismo de sua mente: as pessoas são condicionadas pela experiência, e mesmo pelo ambiente, a verem de determinada maneira, deixando de ver detalhes importantes, ou mesmo as coisas como realmente são. Veja pelas pessoas que negam determinado fato como criam factoides sobre o mesmo.

A consciência do condicionamento mental permite que o rapaz consiga ver detalhes que eram ignorados pelas outras pessoas. São estes detalhes que levam o rapaz novamente ao Dr. Rey, que o contrata para fazer uma entrega na Interestadual 60, além de fazê-lo chegar na tal estrada, desconhecida por todos, real para alguns.

Logo após entrar na estrada, Neal aceita dar carona a duas pessoas: O. W. Grant e a piriguete citada anteriormente. A guria começa a encher a paciência de Neal, que acaba por expor a verdadeira situação: ela não procura algo "especial" ou "perfeito", era apenas o prazer pelo prazer. Não era a busca por um ideal, mas a busca por mais um nome em seu caderninho. Para quem estava começando a conhecer os fluxos da estrada mágica, foi uma boa invertida, expondo a verdade por trás de argumento tão convincente.

Em busca do filho perdido
Uma mulher pede ajuda a Neal para encontrar seu filho de 12 anos. Encontram-no em uma cidade vizinha, dominada pelo consumo de uma droga. Ao tentarem tirar a criança de lá, são impedidos pela polícia, que explica que a alternativa que encontraram para combater o tráfico e o consumo de entorpecentes foi a própria cidade monopolizar a tal droga, controlando seus citadinos através do consumo, sobretudo reduzindo a maioridade para 12 anos. Se a mulher quisesse ver seu filho novamente, teria que se mudar para a cidade ou mesmo se viciar.

Se não fosse uma comédia, e o filme é vendido como tal, talvez o filme pudesse ser classificado como um suspense, ou mesmo drama. Neal recusa-se a "participar do esquema", inclusive recusa uma "recompensa" pela mulher ter escolhido se drogar para estar ao lado do filho, tornando-se mais uma "escrava" da cidade. Apenas pede um lugar para dormir, o qual paga com o próprio dinheiro, e vai embora ao amanhecer.

Dois pontos existem de interessantes nesta parte: o primeiro é sobre a própria questão do vício e da criminalidade. Ao invés de serem formadas pessoas mais maduras e fortes mentalmente, livres de vícios, acabam por tornar-se vítimas dos mesmos. Há a questão de levar vantagem sobre os outros também: por que ao invés de libertar de um vício, não usá-lo como controle social? Este é o segundo ponto: para manter a "ordem", a administração da cidade acaba por "monopolizar" a venda, usando a droga como instrumento de chantagem para manipular os habitantes, degradando ainda mais a situação.

A cidade dos advogados
Talvez a parte que eu mais tenha gostado do filme. Neal mal entra na cidade e é acusado de um crime que obviamente não cometeu, sendo forçado a contratar um advogado para que o defenda. Então ele percebe que quase todos os moradores da cidade são profissionais da lei: juízes, promotores e advogados. Não pela ordem, ou pelo amor pelas leis, mas para extorquir dinheiro uns dos outros, através de indenizações e multas, independentemente da verdade dos fatos. Por trás de títulos e argumentos, insegurança e falta de autoconfiança.

Quem acaba por resolver a questão é o supersincero que força a todos a dizer a verdade, sob a ameaça de explodir tudo. Não deixa de ser uma boa metáfora: a verdade vale a própria vida. Pela Verdade, sacrifícios devem ser feitos, e o resto não importa. Neal é absolvido e segue seu rumo, afinal, ainda há uma entrega por fazer.

Aqui eu faço uma observação: é nesta cidade que Neal encontra o amor da sua vida, a moça dos outdoors que o guiaram por quase toda a jornada. Pessoalmente, não acho importante estender-me nesse ponto. É mais um episódio da história, como o do Museu de Fraude da Arte, que é uma crítica não só à falta de beleza, como também à falta de senso estético vigente. Querer comentar sobre cada detalhe, por mais que existam, é gastar tempo e palavras com observações e reflexões pouco férteis.

Enfim, o assassino
Como Rey havia alertado quando da assinatura do contrato, havia um assassino no encalço de Neal. Poucas vezes ele tomou conta de seus pensamentos, apesar da gravidade. O problema só toma corpo quando do último trecho da jornada, em que havia uma importante decisão a ser tomada: levar a namorada junto, correndo o risco de perdê-la, ou deixá-la em local seguro, podendo nunca mais vê-la. Neal escolhe a segunda alternativa, e o assassino começa a dar sinais de proximidade: uma blitz sugere que mude o rumo, enquanto que a rádio anuncia uma perseguição policial a um carro com as características do de Neal.

Vem à tona a principal característica da Interestadual 60: uma via de fluxos de vida, onde as possibilidades se encontram. Neal entrou em contato com vários aspectos de sua vida ao longo da estrada, mas agora precisa decidir se vai seguir um novo rumo ou não. O carro do assassino tinha as mesmas características do carro de Neal, inclusive uma mancha de tinta branca, e estava a seguir a mesma direção na estrada. Para não ser confundido, Neal acaba por tomar uma importante decisão: jogar o carro em um precipício, assim evitaria ser confundido com o tal criminoso.

Esse ato possui uma importante carga simbólica: não é só um carro que é destruído, mas abre-se mão de um destino que não é pretendido, mas que nunca foi totalmente recusado. Neal não possuía confiança para seguir o próprio caminho, e acabava por aceitar as sugestões do pai. Desta vez, destruir o carro foi também uma atitude de independência da própria vida. O tal assassino é visto então colidir com a barreira policial: Neal não resiste à curiosidade e pergunta por sua história. Era um rapaz que havia matado o pai após ter surtado: estava de saco cheio da vida e das escolhas que havia feito. Pegando um termo bem passado: morre o velho Neal e nasce um novo Neal, como em Matrix, olha só.

Epílogo
Não há muito o que dizer do final: Neal entrega o pacote e acorda do sonho. Acorda novamente no hospital, e as cenas sucedem-se de forma diferente: Neal está seguro do que quer para a vida, e reencontra a amada dos sonhos no mundo real. Nada de surpreendente, depois de tudo o que passou e aprendeu. Eu poderia até continuar com as semelhanças com o Matrix, mas aí o filme tornar-se-ia um Matrix hibernizado (do latim Hibernia, Irlanda), na falta de expressão melhor, já que a trama em si lembra contos de fadas com seus lugares surreais e personagens fantásticos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Você entendeu a trilogia Matrix?


É comum as pessoas usarem a trilogia Matrix como referência para uma série de coisas. No entanto, a maioria delas apenas "teria entendido" somente o primeiro filme, e ainda assim de forma superficial, reduzindo a complexa sequência de filmes em uma alegoria moralizante. Isso chega a ser mais vulgar do que a mera análise dos efeitos especiais que os filmes possuem, que são um espetáculo à parte, diga-se de passagem. Para mostrar o incrível mundo das mentes humanas, nada como uma nova dimensão de imagens e sons.

Matrix é muito mais complexo e profundo do que de imagina, e, principalmente, expõe coisas que a maioria das pessoas não quer ver, e que uma boa parte não tem maturidade para tal. Seria melhor para os incautos assistirem aos filmes como uma mera diversão de efeitos especiais, mas mesmo o próprio enredo exige maturidade para ser compreendido. Matrix não é uma trilogia para qualquer um: mesmo os mais eruditos "escorregam" ao analisá-la. Interessante como três filmes demandam anos para entendimento, muitas vezes incompleto.

Não é possível falar sobre Matrix sem citar os famosos spoilers. Primeiro porque esta que escreve não gosta de dissociar análise de analisado, e, segundo, pela trama estar também carregada de significados nos mínimos detalhes. Um exemplo interessante para ilustrar esta premissa é a presença da cerveja mexicana Sol. A bebida possui por slogan "Espírito livre" em português. No começo do primeiro filme, quando do primeiro encontro com Trinity, Neo está a beber uma garrafa desta cerveja. Perto do final do mesmo filme, ao Neo perceber-se como o escolhido, há uma propaganda da mesma bebida no metrô: as pontas se unem, o espírito se liberta do sistema.

Desenrolar a trama a partir de uma marca de cerveja pode conduzir a uma embriaguez mental que pouco poderá contribuir para o restante dos filmes, mas já ajuda a perceber a intensidade na qual todos foram elaborados. Por isso que resumir o primeiro filme à "alegoria da caverna" de Platão é destacá-lo dos outros dois, praticamente "matando a história". A famosa alegoria é parte da trama, mas dos três filmes, de certa forma: Neo sai da "caverna" e vê o mundo "como ele é", mas acaba por sacrificar-se pelo status quo para evitar um mal maior. A tal realidade, além das inúmeras máquinas, é constituída por uma cidade promíscua e decadente, Zion. A única coisa que une seus habitantes é a guerra contra as máquinas que foram criadas pelos ascendentes destes humanos séculos antes.

A trilogia Matrix reflete sobre consequências ligadas à mente humana, através da programação, literal e metaforicamente. O "pano de fundo" cibernético, conhecido também por cyberpunk, é único para retratar essa metáfora, ou seja, a mensagem a ser transmitida não teria a mesma nitidez em outro ambiente. Talvez o termo programação descreva melhor a trilogia do que alegoria da caverna. Tudo é programado: máquinas, pessoas, sistemas. Mesmo os erros são previsíveis e possuem o seu lugar. O que não está prevista é a própria atitude humana, imprevisível e determinante. O diálogo entre Neo e o Arquiteto no segundo filme é tão profundo quanto os profundos diálogos entre Neo e Morpheus no primeiro.

Existiram seis Neo que bugaram o sistema, e que permitiram a reconstrução de Zion mesmo após sucessivas destruições. O atual Neo, Thomas Anderson, não é um ponto fora da curva previsível. Mesmo as imprevisões fogem do esperado: trocar a destruição da Matrix pela vida de Trinity, ver o código-fonte de um sistema fora do sistema, além da famosa cena da derradeira luta contra o Agenda Smith "bugado", em nome de humanos e máquinas. Não vejo pessoas conversarem sobre isso, nem escreverem sobre isso: e querem se dizer "especialistas em tirar as pessoas do sistema".

Ao se realmente analisar, estudar, refletir sobre o filme, descobre-se que não há o que ser entendido, mas sim sentido e vivido. O que se pode chamar de entendimento é praticamente impossível de escrever com palavras, apesar de tantas neste post. Pessoas não tiram pessoas da Matrix é algo que se pode concluir do que escrevo aqui: é um processo natural, espontâneo, e, principalmente, individual. Só com isso caem as centenas de escritos, vídeos e mesmo artigos para se sair do sistema.

Para piorar, e enlouquecer alguns, você não sai do sistema: você continua vivendo nele, com a sua própria programação, podendo, inclusive, transitar entre sistemas, algo que muitos não sabem. Ou seja, sair do sistema pode significar apenas uma entrada em outro, com outras reservas de mercado e tudo o mais. Só que como a pessoa acha que se libertou definitivamente, não passa em sua mente a possibilidade de engano.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Guerra psicológica e mentalidade revolucionária


Talvez no post Por trás da Disney a ideia de mudança de programação tenha ficado muito rasa, por isso decidi ampliar o contexto para tentar abordar mais coisas, sobretudo de outros rascunhos que eu estava a desenvolver. Gosto de comentar dos meus rascunhos, afinal eu escrevo muito, mas pouco realmente é publicado - isso é parte do processo criativo. Ao contrário do que se pensa, não adianta querer escrever quando a ideia vem à mente: ela vem sempre na hora em que você não vai escrever.

Deixe a coitada da ideia lá, e ao trabalhar seus rascunhos, perceba que a tal ideia fujona aparece aos poucos, principalmente quando você a desenvolve na própria cabeça ao longo dos dias. Pois bem, a ideia de guerra psicológica está há alguns meses na minha cabeça, porém não com este nome, assim como o conceito de mentalidade revolucionária. São nomes bons na falta de nomes melhores, já que o problema é muito mais amplo do que a mera disputa de poder neste planetinha.

Está mais do que claro que existe uma disputa por poder cujos principais embates ocorrem no plano mental. Talvez a disputa física por território não seja mais necessária: basta manipular a mente das pessoas, reprogramá-las ao que se deseja. Qualquer coisa hoje em dia pode ser utilizada como instrumento de reprogramação, até porque toda experiência humana promove alterações na programação; a ideia seria, então, direcionar essa programação a padrões desejáveis.

Para quem começa a perceber isso, corre-se o risco de surgir uma paranoia: mesmo a palavra mais inocente, a frase mal colocada pode ser vista como uma tentativa de reprogramação. Pior: pode ser mesmo, por mais sutil que seja. Hoje em dia reclamam da tal bolha ideológica na qual as pessoas isolam e tentam proteger suas ideias - a falha pode estar justamente em tentar proteger conceitos errôneos.

Alguns estudiosos de hoje em dia ligam essa guerra psicológica à chamada mentalidade revolucionária, que seria uma visão de mundo na qual tudo deve passar por uma grande revolução para que todos os problemas sejam resolvidos de uma vez por todas. Por trás deste impulso, contudo, esconder-se-ia o desejo de dominação da sociedade humana em todos os seus aspectos, em especial o mental. E diversos grupos estariam trabalhando nisso há séculos, e quem teria cantado a bola disso teria sido George Orwell com 1984.

Contudo, não se deve pensar que o sistema seria apenas isso, não! Existem vários sistemas, que nada mais são que reservas de mercado que buscam fagocitar outras reservas na sua. Ou seja: quem acha que por descobrir um sistema está livre e imune dos outros, engana-se. No máximo a pessoa saiu de um sistema para entrar em outro.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A fluidez do respeito


Vive-se em uma sociedade fluida. Tudo oscila e muda a cada minuto, para não dizer a cada segundo. Talvez isso tenha sido sempre assim, apesar de ter vindo à tona apenas nos últimos tempos - pelo menos para mim. Com a "descoberta" desta fluidez, as coisas passaram a mudar de forma mais visível, e até mesmo mais rápida. Um exemplo interessante a se notar é o do respeito, que as pessoas dizem ter umas com as outras, reclamam que não o recebem de volta, mas todos acham necessário para uma convivência social.

As pessoas estão em um nível de vitimismo tal que qualquer coisa é motivo de ofensa - basta ler os vários posts que já escrevi a respeito. Contudo, não se busca entender a expressão de respeito do outro, mas apenas tentar entender a atitude do outro baseada nos próprios padrões do que seria respeitoso. Cada pessoa possui suas formas de expressar respeito, assim como os próprios parâmetros de bom senso. Isso varia com a percepção de cada um.

Ou seja, dentro do vitimismo existente na sociedade atual, qualquer coisa pode ser considerada ofensiva, pois irá depender da pessoa considerar aquilo respeitoso ou não. Por mais que alguém tente ser educado e gentil com outra pessoa, esta poderá se vitimizar em relação à primeira, como se sua atitude fosse a mais desrespeitosa possível. No entanto, ao invés de tentar entender o significado daquela atitude, apenas se julga o que a própria pessoa considera por agradável ou não.

Isso causa uma inversão no fluxo natural da espécie: ao invés do predomínio do que há de melhor entre as pessoas, estas acabam tendo que se curvar perante um grupo de pessoas fracas e imaturas. Ao contrário do que se imagina, isso não promove o sonhado equilíbrio social, pelo contrário: com pessoas imaturas "no comando", as coisas só tendem a degringolar cada vez mais, até que alguém "mais apto" assuma o comando para resolver a situação. É o que vem acontecendo nos dias de hoje com o que é chamado de intolerância: o vitimismo atingiu seu ponto de saturação e as pessoas não aguentam mais isso. E isso precisa mudar.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Entre a lógica e a emoção


É um erro reduzir a Razão ao raciocínio lógico, ao contrário do que muitos fazem, por conta da imagem que se tem dos sentimentos e das emoções. Estas seriam parte do arcabouço instintivo humano, cuja imagem é de algo a ser combatido. Comentei em outro post que os seres humanos são animais e que, por conta disso, precisam aprender a trabalhar seus instintos. Consequentemente, as emoções serão melhor trabalhadas e equilibradas, ligando-se naturalmente ao lado lógico, podendo a pessoa ser considerada racional a partir deste ponto.

Como a emoção é considerado algo "irracional", por ser ligado ao instinto, é comum as pessoas buscarem "reduzi-la". Isso as afasta de sua verdadeira natureza, e de Deus - algo a se observar. Longe de Deus, as pessoas se deformam - repare no "visual" das pessoas de hoje em dia, com suas cores sombrias e destoantes, e reflita sobre o post que escrevi a respeito da beleza. Cuidar do instinto, para que possa crescer e amadurecer, aproxima a pessoa dela mesma, suprindo-a de uma das várias coisas de que sente falta. Muitas vezes, quando uma pessoa se acha emocional demais é quando ela está sendo emocional de menos.

O raciocínio lógico, apesar de bem visto, é muito mal trabalhado. Requer treino e habilidade, tanto quanto as emoções e os instintos precisam ser trabalhados e aprimorados. É o que permite seguir o caminho, por assim dizer: o que fazer e como fazer. Só que sem algo que dê direcionamento, você pode ir para qualquer lugar - até mesmo os menos agradáveis - pensando seguir o melhor rumo possível. Isso é o que as pessoas tendem a chamar por "sociopatia": sem sentimentos, a pessoa não consegue se ver no lugar da outra, analisando apenas o que lhe é vantajoso ou não. Ao contrário do que se imagina, uma pessoa realmente egoísta é aquela que não sabe trabalhar os próprios sentimentos; já a que cuida dos seus sentimentos e instintos realmente se ama - esta seria uma diferença básica entre amor-próprio e egoísmo.

Quando combinados, pode-se chegar a tal Razão de que muito se fala e pouco se conhece. Não é escolher um, mas ambos: ser uma pessoa completa, natural. Saber raciocinar sem se deixar levar por paixões vazias, mas tendo por direcionamento valores elevados. A pessoa sabe se colocar no lugar do outro tendo consciência de sua própria posição. A partir dessa harmonia pode-se desenvolver de forma profunda a Fé - esta não pode existir sem uma Razão desenvolvida. Relacionando à escala Hawkins, para chegar aos níveis acima de 500 (Amor), é necessário ir além da própria Razão, que acaba por fechar em si mesma. Interessante notar que a partir do nível 500, como expliquei neste post, o que é conhecido por "sobrenatural" começa a acontecer com frequência.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sobre autoajuda


Sempre insisti aqui que a evolução é um processo individual, sendo praticamente impossível, pelo menos neste planeta, alcançar dimensões coletivas. No máximo o que pode haver no processo evolutivo é uma interação mestre-discípulo - mais do que isso, o ensinamento vira doutrina, corrompendo-se. O processo evolutivo varia com a consciência e experiência individuais, ou seja, o que funciona para um pode gerar o efeito inverso para outro. Outra coisa importante a ser levada em conta é a diferença que criam entre Salvação e Iluminação, como se a primeira não dependesse da segunda. Nesta linha de raciocínio, a Iluminação de consciência poderia ter efeitos nefastos, sobretudo em pessoas imaturas.

O importante no processo evolutivo é o caminho, não o destino - por isso ele é individual. E através do caminho você "salva sua alma", que nada mais é do que superar os problemas mundanos em nome de algo maior. Veja como isso é importante, independente de instituições religiosas inculcando em sua cabeça o que deve ou não ser feito. No máximo ao seguir uma doutrina virtuosa você pode ter uma outra vida melhorzinha, mas você não saiu do lugar no processo evolutivo - isso não é interessante para doutrinadores.

Se você encontrou alguém que você sente te mostrar um caminho, mestre ou guia, preste atenção: ele sempre te deixará livre para agir, nunca te mandará fazer isso ou aquilo. Esse detalhe é o mais importante: um guia sempre sugere, nunca manda. Além de guiar uma pessoa de cada vez, sem criar grupinhos, pelos mesmos motivos que citei anteriormente. Não pense que seguir o caminho evolutivo com alguém é melhor que sozinho: pode ser até pior, pois essa pessoa pode literalmente inverter seu rumo.

Alguns livros de autoajuda são bons, mesmo sem trabalhar o tema diretamente. Creio eu que, assim como outros ramos editoriais, o de autoajuda é pouco valorizado pelo destaque que dão a determinadas obras e não a outras, que fogem do estereótipo receita de bolo e dão outra visão de mundo para a pessoa. E são geralmente estes que mostram que você pode ir além desses livros e de outros tantos. O grande perigo da sociedade não é um grupo político ou social, muito menos um grupo religioso: é a pessoa evoluída, livre das reservas de mercado. A Iluminação, no caso, apenas coroa e conclui um processo, levando a pessoa para outros processos evolutivos.

E sim, existe evolução negativa, mas ela não é fruto de imaturidade. Para atingir determinados níveis de consciência, de forma positiva ou negativa, é necessário que a pessoa cresça e amadureça - infantilidade acaba por encerrar a pessoa em um nível evolutivo limitado. Talvez um "erro" dos livros de autoajuda seja esquecer que a pessoa precisa de maturidade para evoluir. E maturidade é realmente uma coisa que falta hoje em dia.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O empoderamento e a diluição de conceitos


Palavras são só palavras, que em si não significam nada. E por não significarem nada, as palavras podem significar tudo. O que é chamado de Vazio, ou mesmo percebido como tal, não está literalmente vazio, mas cheio-e-vazio ao mesmo tempo. Por isso que palavras não conseguem definir a realidade - pelo menos não em sua totalidade. E não, não adianta estudar, ter um vasto léxico, ou mesmo conhecer as regras gramaticais de uma língua: pessoas realmente sábias conseguem transmitir suas mensagens mesmo com erros de sintaxe.

Percebi isso ao analisar a palavra empoderamento, um termo muito usado hoje em dia, inclusive pelo Hawkins. Um termo do qual eu não gostava, por se remeter a pessoas com problemas de vitimização que ficam jogando a culpa nos outros ao invés de cuidar da própria vida. Contudo, pode ser uma palavra que resume o processo de desenvolvimento da consciência, já que, para Hawkins, é o processo de desenvolvimento do verdadeiro Poder.

Isso me jogou numa dúvida tal que, pessoalmente, ainda não a resolvi de todo - talvez não se resolva, ou se resolva sem se resolver. Discordo da visão de Hawkins sobre o tal empowerment, já que tal processo seria mais um contato do que um desenvolvimento - as coisas estão lá, só precisam ser acessadas. Como acessar, ou mesmo se é necessário acessar, é outro assunto. E, cabe ressaltar, esse processo é interno, não externo: apesar de os conceitos usados remeterem-se a coisas "de fora", tudo acontece "dentro" da pessoa - ou seja, o famoso sair do sistema é muito mais um processo interior do que exterior.

Outro exemplo que pode ser usado nessa diluição é a própria questão de dúvida-certeza: não quer dizer que por não ter mais dúvida eu tenha uma certeza - eu posso ter apenas um raciocínio sobre que já me orienta por determinado caminho. Talvez certezas tendam mais pro erro do que as dúvidas - e isso eu digo por experiência. Fica a sensação que diz tudo, mas que não explica nada - e talvez, sempre talvez, em outro momento tudo fique claro.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Por trás da Disney


Em outro post, fiz uma análise rápida sobre dois filmes da Disney: Moana e A Bela e a Fera. Apesar deste último ser mais recente que outros contos de fadas "clássicos", ele se baseia nestas obras mais antigas. Já o primeiro é um filme recente, com uma linguagem mais contemporânea. Contudo, ambos possuem o que eu considero por marca dos filmes da Disney: a presença de duas mensagens, uma externa e outra interna. A externa seria a mensagem que o grande público absorve pelo consciente; e a interna seria o que realmente pretendem passar, que requer mais atenção e uma outra visão de mundo.

Não entenda que apenas meia dúzia pode captar conscientemente esta segunda mensagem. Essa dita meia dúzia de seis pode apenas "ver" a roupa do imperador, e não que ele está nu. Uma das estratégias de controle social é a inserção consciente de valores involuídos com o intuito de causar confusão nas pessoas. Só que essa inserção de valores se dá pela via inconsciente: esta não diferencia realidade de ficção, então leva aquilo que não passa pelo crivo do consciente como verdade.

Enquanto o consciente é distraído pela "mensagem externa" do filme - que é assunto dos estudiosos, inclusive -, a mensagem interna vai alterando a programação da pessoa sem que esta o perceba. Com isso, conceitos que ela nem imaginava existir, ou mesmo não possuía ainda uma opinião formada, são sedimentados e solidificados, e quando a mensagem vem de forma consciente, a aceitação é instantânea. Ou seja, a mensagem externa dos filmes deveria ser analisada com base na mensagem interna, para que esta seja neutralizada.

Pode-se pensar que a mensagem interna seria apenas uma outra visão da mensagem externa, baseada em outra visão de mundo. Não deixa de estar certo, afinal, a mensagem interna precisa de uma camuflagem para não ser descoberta de forma tão fácil. A ideia de uma mensagem oculta infelizmente suscita nas pessoas aquela ideia de algo anormal, o que obviamente não é. Conforme se desenvolve uma maior percepção de mundo, percebe-se o que se quer realmente transmitir através desses filmes, e mesmo como as pessoas nem sequer pensam que isso pode acontecer.

Não pense que esse tipo de coisa só ocorre com filmes da Disney, longe disso. Esse é um pequeno exemplo do que a chamada indústria cultural está a fazer nos dias de hoje para inculcar uma programação específica. Não que a pessoa não deva mais ter seus entretenimentos de final de semana, ao contrário: transformar a análise dessas mensagens de programação em um extra para a diversão. Também não pense que as pessoas irão aceitar que estão sendo manipuladas de forma tão sutil, e esteja pronto para um provável Efeito Matrix - mas saiba que isso vale, e muito, a pena.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A importância das muletas psicológicas


Todas as pessoas possuem muletas psicológicas, com exceção talvez daquelas evoluídas, de um nível extremamente avançado. Mesmo a maioria das pessoas evoluídas também precisam das ditas muletas, por conta da carga pesada que têm de aguentar neste planetinha. Não adianta a pessoa querer largá-las de uma vez, acreditando que assim conseguirá dar um grande salto evolutivo rumo à Iluminação. Não mesmo. No máximo acaba por estagnar-se no processo, sem perceber que está usando de forma inconsciente tais muletas para manterem-se onde estão.

Pois bem, as muletas psicológicas podem ser qualquer coisa: hábitos nos quais as pessoas se apegam para poder superar determinadas situações, como comer um doce, tomar café, jogar horas a fio, entre outros. O importante é que transmitam segurança durante o momento de tensão, como uma criança que dorme abraçada a um bichinho de pelúcia com medo de pesadelos. Entenda que não há nada de negativo nisso, e mesmo durante o processo evolutivo, para não dizer que durante a vida inteira, as muletas psicológicas são necessárias.

O aspecto mais conhecido das muletas psicológicas é quando crescem a ponto de tornarem-se vícios: aquele docinho para acalmar torna-se uma obsessão por comida, a taça de vinho para relaxar no final do dia transforma-se num alcoolismo descontrolado. Por isso as pessoas tendem a acreditar que para evoluir precisam largar disso de uma vez. Controlar os vícios com certeza, mas principalmente ter consciência deles. Ter consciência de que você se apoia neles por conta de uma insegurança que existe em determinada situação.

Como uma pessoa que está acamada e precisa de muletas para voltar a caminhar, as pessoas precisam de muletas psicológicas para seguir em seu processo evolutivo. E assim como o acamado deve ter consciência de se esforçar para abandonar suas muletas pouco a pouco, as pessoas devem ir largando aos poucos suas muletas psicológicas, seja reduzindo seu uso, seja trocando por outras menos "agressivas" ao organismo e à mente. O importante é ter consciência de usá-las apenas quando necessário, de que é necessário usá-las, e que não há nada de mau nisso.

Negar suas muletas psicológicas é relegá-las ao inconsciente e continuar usando-as, mas de forma a travar o próprio processo evolutivo. Assumir que precisa dessas muletas permite usá-las quando necessário e controlá-las para que não seja controlado por elas. É libertador saber que pode se apoiar em algo aparente bobo por um determinado tempo para superar problemas realmente difíceis. No entanto, deve-se ter em mente que logo que o problema é sanado, as muletas psicológicas devem ser deixadas de lado, e a cada novo problema, esforçar-se para usá-las cada vez menos.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O 1984 da vida real


Como comentei anteriormente, uma obra que me marcou muito – quase um trauma – foi o livro 1984, um clássico da literatura mundial. O trauma não foi só pelo tom pesado que permeia a trama como um todo, mas pelo seu realismo: como se a humanidade caminhasse a passos largos em direção a uma sociedade semelhante a cada dia que passa. Recentemente terminei o livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin, o que acabou me inspirando a melhorar o artigo que havia escrito anteriormente sobre o livro de Orwell.

O livro de Bernardin mostra como a reforma educacional que estava em vigor na França (creio eu que ainda esteja) não tinha por objetivo melhorar o ensino e o aprendizado, mas sim formatar as pessoas desde a mais tenra idade para submeter-se a um regime global. Isso é claramente perceptível no Brasil com a educação doutrinária e a queda dos índices educacionais. O objetivo não é mais transmitir conteúdo, conhecimento, muito menos formas de adquiri-lo, mas evitá-lo, formatando a mente em processos de lavagem cerebral.

Não tem como não lembrar o próprio filme Matrix, onde as pessoas vivem presas a um sistema de computador, enquanto seus corpos estão encapsulados fornecendo energia às máquinas. O próprio agente Smith comenta que safras de humanos foram desperdiçadas ao tentar-se criar um mundo perfeito para viverem. Então aquela versão do sistema seria um ambiente mais “natural” para uma pessoa sobreviver – sob controle total.

Por menos que eu acredite em livre-arbítrio, eu ainda acredito que a individualidade da pessoa deve se sobrepor a uma coletividade amorfa. Percebe-se que um dos principais alvos de ataques dentro dessa revolução mundial, parafraseando Utena, é a religião. Esta não é uma mera fuga da realidade, mas um guia que mantém a sociedade em ordem, e mesmo um refúgio quando todo o resto encontra-se desordenado. As ideologias políticas mais vorazes de hoje em dia buscam suplantar a religião, seja negando-a ou distorcendo-a.

No 1984 não existe religião: a única igreja que aparece está em ruínas e nem uma nota sobre é feita. Ela é apenas um ninho de pombos e ratos, além do esconderijo do protagonista e sua namorada. Assim como não existe religião, o próprio amor é sufocado: na terceira parte, não se busca apenas destruir a mente de Winston, mas o próprio espírito. O ápice da tortura é quando ele trai o próprio amor que sente, acabando com qualquer esperança de mudança que possa haver.

Essa parte merece uma reflexão mais profunda. O Amor é o remédio contra todos os males do mundo e a principal forma de conexão com Deus - e a religião um dos melhores caminhos para tal. Duas coisas inexistentes em 1984, o que permite uma ditadura total. Para que controlar corpos se pode-se controlar mentes? Pode dar mais trabalho, ou não, mas causa menos destruição - e muito menos resistência. Como é contado na segunda parte do livro, o mundo passa por dez bombas atômicas, e então a sociedade toma os moldes vigentes. Se é pesado escrevendo, imagine lendo ou visualizando.

Essa é a minha preocupação que se agravou com o Maquiavel Pedagogo: o controle mental está vigente a pleno vapor, e as pessoas não percebem. Como já devo ter dito em outros posts, ou dado a entender, é mais fácil deixar-se levar do que ter consciência do que está ocorrendo, contudo a responsabilidade é a mesma. Em 1984, as pessoas vivem apaixonadas pelo Grande Irmão e pela guerra constante, sem ao menos questionar por que ela não acaba, ou por que não existe paz além do nome do ministério.

Por falar em vapor, a noção de verdade perde-se na ficção. Existe uma repartição pública dedicada a alterar textos, livros, reportagens, e tudo o mais, para adaptar-se ao presente. Não existe História, e o desenrolar do tempo, se existe, é totalmente artificializado. Winston não tem ideia do ano em que está – talvez 1984. Morpheu não sabe explicar a Neo em que ano estão, apesar da Nabucodonosor ter sido fabricada em 2099. Por mais que o tempo seja mera ilusão, a maioria das pessoas ainda depende dele para situar-se na vida, o que não tem nada de errado. Distorcer o tempo, sobretudo o Passado, é mais uma forma de tirar toda e qualquer base na qual possa existir oposição. Os opositores que ousam surgir, ou mesmo pessoas que manifestem um mínimo de má vontade, são apagadas da História, principalmente dos registros. Como se ela nunca tivesse nascido.

Uma característica interessante nos tempos reais de hoje em dia é o sufocamento das oposições. Hoje não se pode discordar de nada, por melhores que sejam seus motivos. Você não pode dizer que o aquecimento global antropogênico não existe, ou mesmo discordar dos novos planos de educação. Discordar tornou-se sinônimo de ofensa – como eu já disse, as pessoas se ofendem por qualquer coisa hoje em dia. De uns tempos pra cá surgiram pessoas conscientes da necessidade de oposição: mesmo a Ciência precisa de opositores para que as pesquisas se desenvolvam.

Por falar em Ciência, no 1984 a tecnologia é esparsa, com exceção dos métodos de controle. Apesar dos prédios em ruínas e da péssima qualidade de vida, os ministérios ostentam tecnologia: seja para editar obras, para mentir números, para controlar e torturar pessoas. A famosa teletela transmite informação ao mesmo tempo em que vigia a casa das pessoas, sem descanso. Os próprios filhos são educados a espionar os pais (!), que acham bonito, por sinal. Ou seja, a família também deixa de ser refúgio contra a massificação completa da população.

Temo que hoje em dia a tecnologia seja literalmente relegada para esse tipo de coisa. Em alguns estudos vê-se que a alimentação "orgânica" não tem capacidade para sustentar a população mundial, podendo causar uma catástrofe. Na mesma toada, a alimentação "tradicional" não seria tão negativa quanto pregam na escola, talvez necessitando mais de manutenção e melhoramento constantes do que de críticas e alternativas. Imagine áreas como a medicina, nas quais a tecnologia é necessária dia após dia. Um detalhe é que nada é dito sobre hospitais, saúde ou doença no livro.

A educação traz uma nova forma de linguagem, e mesmo a popularização da destruição da língua. Em 1984, está em pleno desenvolvimento a novilíngua ou novafala, algo que já comentei em outro post. A ideia é bloquear o fluxo de pensamento das pessoas, evitando que pensem, e consequentemente reflitam e questionem - o famoso pensamento-crime. As ideias na sociedade de hoje passam por problemas literalmente cognitivos. As pessoas desaprenderam a pensar e a conversar, tornando-se mais vulneráveis ainda a qualquer forma de manipulação, e prato cheio para essa conspiração mental.

Enquanto houver fé, amor e consciência, as coisas poderão ser revertidas, creio eu. Conhecimento tornou-se tão vital quanto uma alimentação balanceada e atividade física. Defesa pessoal é dever de todos. Uma grande lição da Aceitação é aceitar que o 1984 pode tornar-se realidade em algumas décadas. Não significa concordar, mas tomar consciência da angústia que isso gera, aprendendo a dar espaço às emoções sem que estas interfiram na reflexão e na tomada de decisões.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Imunização cognitiva


Recebi recentemente um texto no WhatsApp sobre esse processo, que seria a causa de algumas pessoas não aceitariam determinados raciocínios, por mais lógicos que fossem. Uma pesquisa rápida na internet me apontou que seria mais um texto que circula como corrente, e não um conceito acadêmico ou científico. Contudo, isso não o faz menos interessante, muito menos falso, principalmente porque ele explica de forma simples como funciona a programação coletiva da sociedade, podendo ser aplicado para tudo, não só para o caso que ele utiliza como exemplo (há versões em que se fala do Lula, em outras do bispo Macedo).

Comentei em outro post sobre o conceito de Salvação, que nada mais é que a aceitação e superação dos problemas do mundo. Esse processo é totalmente individual, não podendo ser alcançado através de grupos: no máximo um guia/mentor. Ao entrar mais pessoas, o ensinamento é distorcido para abarcar (e controlar) um número cada vez maior, criando uma reserva de mercado.

O texto acaba mostrando uma parte do processo de doutrinação, que precisa de uma blindagem contra qualquer outro tipo de raciocínio. Além dessa blindagem, é necessária uma retroalimentação, para que a mensagem fique cada vez mais forte: isso é possível através da ação em grupo, que acaba por repetir essa mensagem constantemente, de formas diversas, além de isolar a pessoa de fontes de pensamento contrárias e mesmo combatê-las. Note que isso funciona para qualquer doutrinação, seja ela política, religiosa, ou mesmo para inserir conceitos como o aquecimento global é causado pelo ser humano.

Mesmo o jargão que falei em outro post aparece no texto em questão como recurso - a repetição. No caso, a repetição seria uma forma de resetar a tentativa de reprogramação, e manter a programação vigente - ou mesmo reforçá-la. Isolar-se de pessoas de opiniões distintas ou mesmo não ler fontes divergentes é uma tarefa quase impossível, que pode, inclusive, surtir o efeito contrário: vem à tona que a pessoa está passando por tal processo e ela pode tomar consciência disso.

Interessante notar que as pessoas aceitam a existência da imunização cognitiva quando se fala de um grupo divergente ao seu, mas não que o próprio grupo o faça. Não veja isso como mera estratégia nefasta para dominar o mundo, mas sim como uma forma de programação aplicável à mente humana. Existe a teoria de que a psicologia surgiu primeiro como uma forma de manipulação da mente humana, depois como terapia. Se for pensar que diversos utensílios que usamos hoje em dia foram inventados para a guerra, a teoria é no mínimo plausível.

Pode haver o questionamento se existe uma imunidade contra a imunização, para fazer um trocadilho. Sim e não. Não porque isso faz parte da programação humana, e sim porque você pode usar isso pela sua própria evolução, trilhando seu próprio caminho. O verdadeiro místico é solitário, pois sua evolução acaba por isolá-lo das demais pessoas: estas não o compreendem. Você pode escrever, fazer palestras e vídeos, mas poucos realmente irão entender: quase todos irão seguir seus ensinamentos como mera doutrina.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Maturidade de expressão


Uma coisa que chega a ser irritante nas redes sociais é a mania das pessoas quererem ser donas da razão. Todas querem falar, mas nenhuma quer ouvir. Todos querem ensinar, mas ninguém quer aprender. Veja os novos astros da internet: sempre ensinando uma coisa nova, a pedido de um público amorfo. Mesmo em conversas mais restritas, as pessoas estão mais interessadas em expor sua opinião como realidade última do que realmente trocar ideias e formar um conhecimento mais sólido.

Isso vai de encontro à busca de redes sociais alternativas, já que as hegemônicas buscam cercear o conteúdo publicado que diverge de sua opinião. Talvez se isso fosse assumido publicamente, houvesse maior tolerância. Pessoalmente, acho que essa busca por redes alternativas está indo mais lenta que o aceitável, como se as pessoas lutassem pela batalha perdida de se manter no Facebook e Twitter. Eu sinto falta do Orkut por causa de sua simplicidade, e também pelo modelo de fórum das comunidades: as conversas eram organizadas e podiam ser aprofundadas, algo que nunca mais encontrei na internet.

Estendendo-me um pouco mais nisso: repare que o modelo de timeline de grupos impede que aquela boa conversa feita no dia anterior fique visível nos outros dias. Será necessária uma nova conversa, e aquilo não se desenvolve, ou seja, o conhecimento não é trocado. Por outro lado, é cada vez mais difícil encontrar pessoas com algum conhecimento real para trocar, que queiram pelo menos ouvir e aprender mais.

Pois bem, surgem novas redes sociais cujos conteúdos não podem ser excluídos pela administração, permitindo que a pessoa diga o que bem entender. Imagine a diarreia mental que surge da maioria dos perfis: se por um lado essa livre expressão permite que bons usuários possam escrever sem que haja discriminação política, por outro expõe a imaturidade de uma grande parte de usuários da internet.

Percebo que boa parte das questões atuais requerem sobretudo maturidade para que decisões melhores sejam tomadas. A luta pelo fim das restrições à liberdade de expressão mostra o quanto as pessoas ainda precisam crescer para terem uma sociedade melhor. Entende-se que as restrições buscam tirar manifestações impróprias de circulação, mas elas se mostram falhas devido à falta de maturidade (ou seria sanha pelo poder?) do moderador delas.

Exemplo disso é a reação exagerada a ofensas bobas. Pessoas mais maduras nem se manifestam, quanto outras partem para escândalos e mesmo ações judiciais. Isso mostra que o problema realmente não está na liberdade de expressão, mas sim na maturidade em se expressar.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Como ler um livro


Há uma obra muito interessante chamada Como ler um livro, no original How to read a book, do professor Mortimer Adler. Ele tinha por princípio a implantação das artes liberais (aquelas da Idade Média) no ensino escolar, numa época em que a educação americana começava a passar por distorções e a perder qualidade - o próprio autor reclama disso em seu livro. O autor argumenta que é essencial que uma pessoa saiba ler para assim adquirir todo o conhecimento de que precisa, mas não apenas absorver palavras passivamente, e sim raciocinar e refletir sobre o que é exposto pela obra, relacionando com experiências e outras obras.

Não vou discorrer sobre seu método de ler um livro, mas faço uma sugestão: a primeira edição possui um método mais genérico e mais simples. A segunda edição acaba complicando as coisas e quer criar métodos para cada tipo de livro. O próprio autor não gosta de resumos ou esquemas de obras: um livro bom é compreensível para todos, sem auxílio - o leitor toma notas do que considera importante para ele para usar como auxiliar. O método chega a ser intuitivo em algumas partes, mas a racionalização do mesmo aumenta sua importância, e mesmo sua eficácia.

Os clássicos assim o são por serem compreensíveis para o grande público, não necessitando de grande conhecimento teórico sobre o assunto - ao contrário do que se imagina hoje em dia. Ler uma grande obra requer capacidade de raciocínio e atenção, algo que vem com o exercício da leitura, e não do diploma acadêmico. Muitos acabam por fugir dos clássicos por considerarem estes complicados ou inacessíveis, recorrendo a resumos e esquemas, que muitas vezes distorcem as obras originais.

Por outro lado, não são todas as obras que devem ser lidas de forma tão profunda, por dois motivos: ou não há tempo hábil, devendo ser relida depois com maior atenção, ou por ser ela muito ruim mesmo. Esses dias eu estava refletindo sobre alguns livros que não leio por inteiro. Muitos comentam que os livros devem ser lidos até o fim, por pior que sejam, ou você não terá argumentos válidos para rejeitá-lo. No entanto, não se toma uma dose completa de veneno para saber se este é ruim ou não: nas primeiras gotas já são percebidos seus malefícios. Obviamente não dá para fazer uma análise completa sobre a má qualidade da obra, mas interromper sua leitura é motivo suficiente para uma avaliação negativa.

Com tanto livro bom por aí, perder tempo com resumos e obras ruins não faz muito sentido. Entenda uma obra ruim como uma obra mal escrita, que não explica ou argumenta, mais próxima a um panfleto do que a um livro. Pessoalmente, acho difícil uma obra começar ruim e terminar boa: o contrário é mais fácil de acontecer, e, dependendo do livro, não chega a ser tão decepcionante assim. Ideias precisam de contexto. Discursos precisam ser analisados. O livro te livra chega a ser uma frase bonita e interessante para o momento. Ao inseri-la no contexto deste post, percebe-se a reserva de mercado a qual pertence: não seriam todos os livros, e, indo além, não seriam só os livros.

O livro em si não é um processo libertador: é a própria pessoa que se liberta. Nesse caso, não existe separar joio do trigo em um primeiro momento: você come ambos, digere ambos, seu organismo aproveita uma parte e descarta o resto. Não é o caso da leitura prazerosa, afinal o objetivo desta é o deleite - se o livro estiver desagradável, você pega outro e ponto.

É aquela sensação de entrar em uma livraria e achar que ao ler todos aqueles livros o leitor tornar-se-á uma pessoa melhor. Porém, conforme lê títulos e mais títulos, a mudança não ocorre, ou ocorre para outra direção, imprevista mas imperceptível. No final das contas, o conhecimento e a sabedoria vêm de uma fonte além dos livros: há pessoas que exalam sua evolução com uma bibliografia diminuta, às vezes inexistente. Ao longo do tempo percebi que não se pode deixar levar pelo conhecimento, e sim utilizá-lo de forma consciente.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Um pouco sobre a Beleza

Depois de a Fifa proibir a filmagem de mulheres bonitas em jogos oficiais, acabei por assistir ao documentário Por que a Beleza importa do filósofo Roger Scruton. Nessa toada, percebi que ainda não escrevi um post sobre o assunto, dando apenas algumas pinceladas em outros posts. A Beleza perdeu lugar no mundo em nome do utilitarismo e do egoísmo se fomos pensar: há pessoas que preferem o Feio abertamente, criticando e julgando aqueles que buscam o Belo; e há outras pessoas que acham o belo pouco funcional.


Há pessoas bonitas e feias, em uma questão de gosto pessoal; até aí, isso faz parte do instinto humano de buscar um par para reprodução. No entanto, dentro de todas as pessoas, e de todos os seres, há uma Beleza primordial, oriunda da criação de Deus. Tudo o que Deus criou é belo, e o afastar-se de Deus promove a Feiura - mas o Belo continua lá, escondido, adormecido. Talvez esse exemplo prático ajude a distinguir o que o Scruton comenta sobre o amor erótico e o amor platônico. Essa distorção é o que torna os relacionamentos vazios e frívolos, que são muito bem ilustrados pelas músicas de baixa qualidade de hoje em dia...

Interessante as pessoas afirmarem com tanta convicção que Beleza é questão de gosto: não, não é. Assim como a Verdade, a Beleza é fruto da percepção: quanto mais evoluída, e mais apurada, for a percepção de uma pessoa (seu nível evolutivo), mais próxima da Beleza ela se encontra, assim como da Verdade. Ou seja: falar que a Verdade é relativa e a Beleza é questão de gosto torna-se desculpa de uma pessoa que se recusa a evoluir.

Porque o Belo está dentro de si não significa que ele está presente - ele precisa ser despertado e expressado. E isso é algo absolutamente natural, ou seja, essas "transformações" que vemos em programas de televisão são totalmente falsas. A pessoa apenas colocou uma máscara sobre sua própria incapacidade de descobrir a própria beleza - descobrir e aceitar. Esse ponto é delicado e requer atenção: porque a pessoa precisa expressar sua beleza natural não significa que deva ser desleixada com ela mesma, o que é tão falso quanto se encher de tintas sem motivação interna.

Ao se prestar atenção à Beleza das coisas, a própria Beleza interior é despertada. Isso faz parte do Zen Budismo e da contemplação amorosa do Olavo de Carvalho. Descobre-se o quão feio este mundo se tornou - o quanto as pessoas se afastaram de Deus -, e impulsiona a essa busca da Beleza, que foi incrivelmente retratada n'O Silmarillion. A Beleza tira a pessoa do automatismo e a põe em contato com a Realidade, ou com a Verdade, se preferir. Por isso ao se apaixonar verdadeiramente o amado é tão belo: ele possui esse brilho, esse quê de divino, que nos leva de volta ao que realmente somos.

Eu nem preciso comentar que isso é evoluído por si só, nem fazer referência a Hawkins, que calibra os clássicos em níveis tão elevados. O Belo é algo que se sente, está além da descrição pelas palavras, por isso há várias formas de Arte, caminhos pelos quais a pessoa pode sentir o Belo. Uma obra interessante que enfatiza isso é Sobre Histórias de Fadas do Tolkien. Será que nosso mundo está como está por nos afastarmos de Deus e da Sua Beleza?


O Belo é Bom e Verdadeiro. O Verdadeiro é Belo e Bom. O Bom é Belo e Verdadeiro. Se há uma falha nessas três premissas, é porque algo não é verdadeiramente bom, belo ou verdadeiro. Era algo que eu gostaria de refletir em um post futuro, mas vou adiantar algo do que penso sobre: não faz sentido algo ser Verdadeiro se não for Belo e Bom; não há nada Bom que não seja Belo e Verdadeiro; e não há nada Belo que não seja Bom e Verdadeiro. Parece um jogo de palavras, mas é algo tão simples que muitos passam a vida procurando entender.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Os siddhis, os milagres e o paranormal


Assisti a um vídeo muito tosco no YouTube. Não vou passar o link para não dar confusão, nem vou descrever muita coisa para não haver dedução de qual vídeo estou falando, ao contrário do que o próprio cara faz. Isso vai de encontro com o que eu estudei sobre Projeção Astral, parapsicologia e, sobretudo, com os motivos que me fizeram parar de estudar, e mesmo de praticar. Estão ligados à percepção e ao nível evolutivo que a pessoa tem, ou seja, não deveria ser algo forçado ou mesmo treinado. Quando é pra acontecer, simplesmente acontece dentro do fluxo do Universo.

Hawkins comenta em seus livros sobre os siddhis, fenômenos "sobrenaturais" que lembram os milagres dos santos católicos e os fenômenos psi da parapsicologia. São espontâneos, frutos do nível evolutivo da pessoa, ocorrendo em escala muito menor em pessoas menos evoluídas. Ou seja, não são nem acasos muito menos provocados conscientemente pela pessoa: simplesmente acontecem devido às circunstâncias. Começam a aparecer de forma efetiva no nível 500, Amor, quando a pessoa supera "razões e emoções" e passa a agir com um propósito maior. Não significa que ela deixa de raciocinar ou mesmo de ter emoções, mas sabe trabalhá-los não só para si, mas para as outras pessoas também.

Com isso se pode chegar a várias conclusões: o "sobrenatural" é um mero natural para uma percepção mais elevada, ou seja, não tem graça alguma. Se não tem "graça", não é um diferencial, devendo ser levado a sério, como uma bênção, uma dádiva, e não como uma "habilidade" a ser treinada. Ao invés de "praticar", deve ser trabalhada a própria evolução da consciência, deixar-se levar pelo fluxo do Universo, independente de acontecer algo diferente ou não.

Interessante notar que alguns "praticantes" de projeção astral ou mesmo pessoas que "treinam paranormalidade" buscam um propósito maior como objetivo. Para ter melhores resultados, recomendam desenvolver o amor incondicional, superar preconceitos, entre outras coisas que apontam a uma progressão do nível de consciência. Esses grupos acabam restritos a programações de suas reservas de mercado, e a prática associada à baixa percepção e um nível reduzido de consciência transforma factoides em viagens a outros planetas e conversas com seres inexistentes.

Repare que existe um imaginário comum de outras dimensões, que varia entre as reservas de mercado. Pode-se supor que são frutos do acúmulo dos relatos estudados e não da percepção de cada "praticante". Uma pessoa de nível de consciência elevado não vai obrigatoriamente ter um contato com o outro lado. Se o tiver, fugirá dos padrões consagrados pela literatura. Por isso há tantas contradições onde não há certezas pautadas em correntes de conhecimento evoluídas, além de pouca seriedade.

Como disse em outros posts: uma pessoa evoluída é normal como qualquer outra, possui suas alegrias, tristezas, fica de mau humor até. A diferença está na percepção dessas oscilações e na consciência sobre. O processo evolutivo beneficia muito mais a si mesmo do que aos outros, por isso fica a questão se realmente vale a pena. Inconscientemente, quem está perto de uma pessoa evoluída sente a diferença: é comum sentir-se bem, apesar do incômodo da elevada vibração.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Pérolas aos porcos

Quem nunca teve a sensação de estar certo em uma multidão de errados? Ou de ser a única pessoa acordada no meio de tantos que dormem? Isso dá a falsa sensação de que a situação é contrária: eu estou errado, eles estão certos; eles estão acordados, eu estou dormindo. Acaba minando um pouco a autoconfiança, mas é só continuar o processo para ter certeza de que, realmente, as pessoas estão dormindo, as pessoas não entendem, ou qualquer outra expressão que prefira usar. Evolução é um troço meio egoísta e cruel, como pode perceber.


Egoísta porque só você entende, raramente encontrando alguém que consiga enxergar também. A luz irradiada começa a ofuscar quem está em volta, e as pessoas começam a se afastar e a te rejeitar por isso. Você acha que irá ajudar muita gente com o conhecimento adquirido e que as coisas melhorarão para todos, mas é o contrário que acontece: as pessoas acabam por preferir a própria ignorância, achando que você é o involuído da questão.

Cruel porque você no final passa por cima das pessoas que simplesmente não entendem o que está acontecendo e acabam por te atacar como uma forma de se defender. A força gera a compreensão, mas sem aceitação a mudança não ocorre. Pessoas evoluídas tendem a elevar o nível de consciência de quem está em torno. Como a tendência é nivelar para baixo, a situação é desconfortável. Só se sente realmente bem quem se deixa levar, quem realmente sabe que aquilo é bom.

Parece presunçoso e vaidoso fazer essas observações para quem desenvolveu a consciência. Aí está a armadilha: as pessoas acham (ou querem fazer você achar) que humildade é se diminuir ao máximo. Humildade é assumir quem realmente é, sobretudo os "pontos fortes", sem vaidade (a afamada modéstia). Assumir que pode fazer, que cresceu, é mérito seu, que não podem tirar, apesar de tentarem apagar. Obviamente não é pavonear ou "esmagar" os outros com isso.

Ser evoluído não significa ser perfeito, estando a pessoa sujeita a falhas como qualquer outra. A forma de lidar com elas que é diferente. Geralmente o vitimista acha que tem que ser pajeado, mimado, e faz resistência ferrenha a qualquer mudança. Quando evolui, a pessoa deixa de lado essa postura, buscando se melhorar e se adaptar - é o que promove a mudança da situação como um todo. Ela talvez precise ser amparada, na fase de luto, mas não ser conduzida, como se não pudesse caminhar com as próprias pernas.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Reiki é simples


Estou há anos tentando redigir esse post, dando a impressão de que a afirmação do título é falsa. Pelo contrário: é tão verdadeira que palavras não conseguem explicar. Mesmo assim, gostaria de escrever algumas palavras sobre. Por muitas vezes o reikiano se sufoca em meio a técnicas e informações, que acabam por interferir na rotina e tornando a prática "artificializada". Como já disse sobre o Gokai, é algo para ver vivido, indo além da mera repetição de palavras, e mesmo das fórmulas prontas.

Primeiramente, Reiki é uma filosofia de vida. É algo que faz parte da visão de mundo, temperando a vida, por assim dizer. Através disso, melhora-se mente e corpo, de si e consequentemente das outras pessoas. Aí entra a parte terapêutica do Reiki: depois de todo um cuidado consigo pode-se cuidar dos outros. Depois de tornar-se uma pessoa melhor que se pode fazer outras pessoas melhores. É necessário, além do conhecimento, amadurecimento, consciência e evolução: mudar o paradigma da própria vida.

Sob este ponto de vista, uma visão puramente terapêutica e profissional do Reiki perde força. Claro que um reikiano que não se cuida não deixará de transmitir energia, mas a qualidade do trabalho será inferior, comparado a um reikiano que "vive" o Reiki. Obviamente não estou falando de fanatismo, como alguns podem pensar, mas buscar sentir a energia, a si mesmo e as coisas, reprogramando-se.

Superando as programações, o próprio Reiki é deixado de lado, pois também é uma reserva de mercado, assim como outras técnicas de transmissão de energia, e mesmo outras filosofias de vida. A pessoa se apresenta como reikiana por mera questão formal nesse caso: como explicar que a transmissão de energia é a mesma coisa em qualquer técnica, ou mesmo que os princípios estão presentes na natureza, não sendo uma "exclusividade" do Reiki?

Veja que não me aprofundei nas técnicas, nem mesmo comentei sobre os gyosei. Contudo, assim como o Gokai, o reikiano não deve se prender neles. Citando novamente a máxima do filme O Reino Proibido: "Aprenda a forma, mas busque o disforme. [...] Aprenda o caminho, depois encontre seu próprio caminho." São coisas que palavras não explicam, que ficam na boca, mas não se encontram para formular o que se sente.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

O limite do natureba


Parei para refletir sobre a questão ecológica, que tem um peso tão grande no pensamento que as pessoas deixaram de questionar sobre seus limites. Se é ecológico, é bom e verdadeiro, e ponto. Se não o é, deve ser corrigido imediatamente, sem ao menos ser questionado ou refletido. Parei para pensar nisso depois de ver um documentário sobre uma série de estudos que mostram que o aquecimento global não é tão culpa do ser humano assim, e a censura que há sobre o assunto.

O que chama mais a atenção, para começar, é a censura existente sobre a discussão. Simplesmente não é possível discordar sem ser boicotado ou desacreditado de alguma forma. O clima é demasiado complexo para o ser humano querer entender com algumas décadas de observações mais precisas. Alguns questionamentos lógicos, como a questão galática, tiram do ser humano a "total" responsabilidade sobre a situação. Concordo que é necessário cuidar do meio ambiente e não ficar destruindo a torto e a direito, mas será que isso não está virando desculpa demais, a ponto de a sociedade começar a regredir estruturalmente?

A impressão que eu tenho é que há pessoas que querem voltar à Idade da Pedra, deixando de lado todo o conforto conquistado pelo progresso humano para se submeter a revezes desnecessários. Sabe-se que o que permitiu a sobrevivência da espécie no planeta foi justamente o desenvolvimento do intelecto, já que não havia outro diferencial biológico, como asas, garras e afins. Ou seja, negar o intelecto e adaptação ao ambiente de forma racional é extinguir a própria espécie. Um exemplo disso está na alimentação: a valorização exagerada dos alimentos orgânicos esconde a baixa capacidade de se produzi-los, assim como a questão do vegetarianismo e veganismo.

Outro exemplo está nas "alternativas natureba" para problemas simples. Recentemente, tive problema de formigas em casa, e ao procurar na internet uma solução, encontrei receitas que utilizavam café, pimenta, coisas que serviam apenas para espantá-las. O que realmente resolveu foi uma única aplicação de veneno, que nunca mais utilizei. Fora as receitas de bicarbonato de sódio para tudo, da limpeza da casa a substituir o desodorante. Deve-se ter em mente que mesmo as coisas "artificiais" foram extraídas da natureza de alguma forma: o ser humano não as "criou do nada", apenas lhe dando nova configuração. Claro que algumas coisas são prejudiciais, como algumas coisas da própria natureza.

Infelizmente, a intenção política se sobrepõe à boa intenção. Tome por exemplo uma usina hidrelétrica: ela não produz poluentes em sua operação, mas tem um impacto ambiental gigante em sua construção. Até conseguir por em funcionamento, deve-se "vencer" aqueles que são contra a construção, por mais que insistam que a energia tem que ser "limpa". As fontes eólica e solar são pouco eficientes, necessitando de mais e mais estudos para uma produção em larga escala - mas será que existe essa intenção, ou seria um mero mecanismo de controle? Impedem países em desenvolvimento de usar petróleo e carvão como matriz energética em nome do "desenvolvimento sustentável", mas até que ponto isso é praticável ou factível?

Ciência é discussão, é troca de ideias de forma racional. Onde não há discordância, não há ciência: veja a própria treta entre Einstein e Heisenberg sobre a Física Quântica. Não é quem está certo ou errado, mas quem vê melhor determinada situação e qual teoria resiste aos questionamentos ao longo do tempo, de forma racional, não política. E é esse racionalismo que permite que o meio ambiente seja menos agredido e o ser humano se perpetue no planeta da melhor forma possível sempre.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Reiki Conciliation - ao longo do caminho da maestria

Há um bom tempo eu estava com este documentário salvo no meu navegador para dar uma boa analisada. Ele conta a tentativa da mestre Reiki Phyllis Lei Furumoto, neta da mestre Hawayo Takata, de se conciliar com a mestre Barbara Weber Ray, também iniciada por Takata. O conflito reside na questão de quem assumiria a grão-maestria do Reiki após a morte de Hawayo, que acabou "pendendo" para Furumoto, apesar de não ter a mesma experiência de Ray. Esse documentário foi legendado para português pelo mestre João Magalhães, que também participou do documentário.

No final das contas, foram criadas duas organizações reikianas em separado, a The Radiance Technique e a Reiki Alliance. Não se pode esquecer que a Usui Reiki Ryoho Gakkai não reconhece a mestre Takata como reikiana, anulando qualquer reclamação de grão-maestria por parte de seus sucessores. A impressão que dá é que a vaidade sempre esteve presente nos círculos reikianos, criando reservas de mercado e desunindo pessoas. Sempre foi uma premissa reikiana o desenvolvimento interior, e sempre se nota que a filosofia do Reiki era preterido à prática terapêutica.

Contudo, quero observar um detalhe importante: após 35 anos um reikiano resolve promover a conciliação entre ambas as mestres, só que a Barbara Ray não aparece, apenas algumas pessoas próximas. Não consegui confirmar se Ray está viva ou morta, o que deixa em aberto a questão. Talvez não seja uma mera conciliação, podendo ser mesmo uma tentativa de se impor definitivamente após tanto tempo, sem chance para defesa ou questionamento. Note que Furumoto ainda possui uma característica impositiva, que fica patente ao citar o livro de Don Miguel Ruiz, Os Quatro Compromissos.

Neste ponto, eu bato na tecla dos Cinco Princípios, pois estes deveriam ser a linha guia de qualquer reikiano, sobretudo quando o assunto envolve a própria prática do Reiki. Outra impressão que eu tenho nesse documentário é que Phyllis substitui o Gokai pelos compromissos de Ruiz. O próprio conceito de grão-maestria é "suprimido": antes era o grão-mestre (IIIb) que iniciava mestres (nível IIIa), reikianos que poderiam iniciar pessoas nos outros níveis (I e II); agora qualquer mestre poderia "transmitir este conhecimento" (o IIIb) se considerasse oportuno.

Isso puxa um conceito muito profundo: o mestre Reiki era aquele que havia passado pela experiência da Iluminação, assim como Usui, e deveria transmiti-la ao novo mestre. Contudo, destes mestres, apenas um deveria estar acima e formá-los: o tal grão-mestre, que passaria esse "conhecimento espiritual", além de guiar o grupo de outros mestres. Furumoto insiste com a história de um "corpo mestre", que "deliberaria em conjunto" sobre a prática. No final, ela insiste em uma reconciliação global entre reikianos, na qual ela acabaria sendo o ponto central desse movimento. Se isso não for se impor como grão-mestre de todos os reikianos - tá muito bonitinho o discurso.

O que se sabe é que Takata havia falecido sem nomear nenhum sucessor, talvez por decisão dela ou não. Os outros mestres haviam reconhecido Furumoto como sucessora, talvez por um motivo de consanguinidade, mesmo que esta tenha sido formada mestre há menos tempo que os outros. Um pequeno grupo acaba por questionar esta escolha, apontando para Ray. Esta tenta se impor sobre os demais, e a cisão acontece. Triste que ao pesquisar pouca coisa é encontrada, e este documentário possa ser apenas uma tentativa de mostrar um lado da história como verdadeiro, talvez sem possibilidade de ver o outro lado.

Cabe notar que quando Chujiro Hayashi nomeou Takata como sua sucessora, não deve ter sido por um motivo lá muito elevado: era conveniente levar o Reiki para fora do Japão, em especial os Estados Unidos, onde haveria guarida para continuar a se desenvolver, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Depois deste conflito, o Reiki no Japão ficou restrito a um punhado de praticantes fechado à linhagem de Takata, enquanto que nos Estados Unidos pôde se espalhar pelo mundo. A própria Takata distorceu, e muito, o conhecimento sobre Reiki, que aos poucos é recuperado e justificado.

Só uma parte do documentário está disponível para acesso, que é o vídeo abaixo. Os Sessenta e seis passos no caminho da reconciliação podem ser adquiridos em partes ou de uma vez, inclusive está disponível à venda um pendrive com todos os vídeos e suas legendas. Ainda não pude adquirir, talvez num futuro, o que pode (ou não) causar alguma alteração no conteúdo deste post, ou mesmo abrir caminho para um novo post a respeito.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Uma aplicação prática dos pilares


Assim como eu comentei que as ideologias de esquerda podem ser consideradas doentias, passo a comentar sobre o que eu considero como "problemas" dentro do que é considerado Conservadorismo. Faço essa crítica porque a força que o "esquerdismo" ganhou ao longo das décadas consiste em uma convergência de ideias e movimentos que foram ignorados pelos conservadores. Como se tivesse parado no tempo, o conservador se aferra com tanta força a suas tradições que acaba por ignorar o que está ao redor.

Sempre houve uma força "rebelde" na sociedade, sobretudo na juventude. Isso não deixa de ser o mero impulso de fazer algo novo, diferente, que pode ser bom ou não. Como essa rebeldia bate de frente com os valores vigentes, claro que surgem conflitos. Imagine gerações passadas: ser diferente era não seguir valores conservadores, e hoje em dia, segui-los contra valores progressistas (esquerdistas). Isso soa próximo aos quatro pilares do outro post, pois nossa sociedade se assenta sobre estes pilares.

Os movimentos de esquerda se aproveitam da rebeldia juvenil para inculcar-lhes outros valores - o melhor exemplo disso são as universidades de hoje em dia. Muitos abandonam essas ideias ao atingir a maturidade, ou mesmo quando chegam os boletos. Contudo, está cada vez maior a proporção de pessoas que postergam o amadurecimento. Quantos idosos hoje em dia não possuem maturidade alguma, parecendo crianças de cabelos brancos suplicando por respeito.

Veja o próprio movimento ambientalista. No fundo, faz todo o sentido cuidar da natureza e dos recursos existentes. Entretanto, como o próprio Gênesis foi mal interpretado, acredita-se que o ser humano pode (e deve) interferir a torto e a direito no planeta, sem o mínimo de ética. E o que aconteceu? O ambientalismo transformou-se em movimento político, com teorias estapafúrdias e que não aceitam questionamento ou oposição, como se o mundo fosse acabar amanhã se não voltarmos a uma condição neolítica, que vou abordar em outro post.

As pessoas em geral acabam aceitando o ambientalismo por concordar com a ideia de que devem cuidar da natureza, abrindo brecha na programação e permitindo que o ecoterrorismo ganhe força. Isso foge das doutrinas religiosas "tradicionais", e acaba por afastar os fiéis de suas igrejas. Ressalto que estas, como sinônimo de instituições religiosas, devem ser um meio, um caminho para alcançar o divino, e não uma mera ferramenta de controle social.

Indo por essa toada, vi um vídeo no YouTube no qual uma religiosa apregoa que as pessoas devem casar virgens. Com um pouco de progressão de consciência percebe-se que a questão é muito mais profunda: antigamente, a virgindade era uma garantia dos casamentos arranjados, em sua maioria ausentes de sentimento. Hoje, em fuga desse padrão, o sexo tornou-se algo vulgar e vazio, e o relacionamento sério apenas uma forma de controle.

Em outro aspecto, o Reiki e outras terapias complementares são mal vistas pelos profissionais de saúde mais tradicionais, e acabaram por se tornar "bandeira política". Vejo que os reikianos abraçam de forma geral essas ideias voltadas à esquerda, porque são os movimentos destas ideologias que os promovem. Infelizmente, perdi uma crítica feita por um padre que afirma que o Reiki é de base budista. Ao invés de esclarecer se existe algo dentro da doutrina católica que impede a prática do Reiki, critica-se a prática pelo seu fundador ser de outra religião.

O mundo muda, não adianta. No entanto, a impressão que fica é que os movimentos de esquerda aproveitam isso de forma mais eficaz que os de direita: as mudanças são ignoradas por estes e aproveitadas por aqueles. Superar o preconceito e abraçar novas ideias pode ser o salto de consciência que falta para o conservadorismo se restabelecer na sociedade. Não digo aceitar o vitimismo e o caos social, mas aceitar, de forma racional, que as coisas mudam e serão diferentes.

Faltou observar que o próprio Hawkins considera o movimento conservador algo racional - calibrado em 415 em 2004 -, ao contrário dos movimentos de esquerda, que se encontram todos abaixo de 200. Contudo, o excesso de racionalismo torna-se obstáculo à própria evolução: os grandes gênios da humanidade estão, em sua maioria, calibrados em 499, por não conseguir superar o racionalismo em nome de "algo maior", e chegar ao nível do Amor.

Ao conversar com conservadores, percebo os preconceitos que permeiam suas mentes. Talvez esse "conflito" com o progressismo seja uma forma para aprender sobre a impermanência e a dar valor a outras visões de mundo. Quando uma ideia é realmente evoluída, ela ressoa com suas semelhantes: a mesma mensagem foi passada de formas diferentes às pessoas, que ao invés de ligarem-nas, acabaram por separá-las em reservas de mercado. A evolução está em ir além das teorias políticas, sejam elas de esquerda ou direita, e mesmo ir além das doutrinas religiosas, buscando a própria experiência com o divino. Transitar pelos pilares, sem se deixar envolver ou se influenciar por eles.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Calmaria em meio à Tempestade


Refletir sobre os Cinco Princípios do Reiki deveria ir além dos princípios em si. Isso lembra o Taoismo com a sua definição-não-definição: quando você define o que algo é, define automaticamente o que não é, ou mesmo o que poderia ser ou não. É engraçado você tomar uma atitude enérgica e o reikiano vir com o não se zangue sem ao menos refletir se a pessoa está zangada ou não. Ou mesmo agir contra a má-fé de alguém e o reikiano te lembrar do eu confio.

Recitar os Cinco Princípios todos os dias de manhã e à noite não é ficar repetindo como ladainha, mas dar um sentido para eles: aprender com as situações e superá-las. Vai parecer que você distorceu tudo, mas no fundo, você aprendeu a viver com o Gokai - o que considero mais importante do que o próprio declamar. Seguem algumas conclusões que cheguei vivenciando os princípios:

  • Sou calmo: não significa que eu não vá me defender de uma agressão ou mesmo não ser contundente quando necessário. Com o bônus de estar com a cabeça fria e agir da forma mais eficiente possível.
  • Confio: não significa que não prestarei atenção a todos os detalhes de uma situação - ou pelo menos me esforçar para tal. Não significa que me deixarei levar por uma clara atitude maldosa, achando que algo "milagroso" irá ocorrer.
  • Sou grato: não significa que não vou correr atrás do que eu sonho, ou mesmo não questionar o que há de errado. Ser grato mostra as portas para novas experiências, mas é necessário atravessá-las, e algumas vezes arrombá-las.
  • Trabalho honestamente: não significa que não terei preguiça em alguns momentos, ou mesmo falhar no que estou fazendo. É não simular perfeição ou evolução, afinal, a maioria das pessoas evoluídas são mal vistas pela sociedade.
  • Sou bondoso: não significa que não vou tomar atitudes que parecerão grossas, inflexíveis ou mesmo agressivas. Não significa que passarei a mão na cabeça dos erros ou mesmo deixar a pessoa se ferrar quando for escolha dela, afinal, quem procura, acha.

Reiki não é apenas uma terapia complementar de equilíbrio energético: é um caminho de desenvolvimento da consciência do praticante. De acordo com os reikianos de correntes consideradas tradicionais, como o Johnny De'Carli, o mestre Usui tinha como requisito para o mestrado em Reiki a própria Iluminação, ou mesmo um vislumbre dela. Vejo que os Cinco Princípios são vistos de forma muito rasa, mesmo quando são escritas páginas e páginas sobre. Criou-se uma imagem do "reikiano ideal" que lembra o Creek do filme Trolls.

Mais importante do que ser um "terapeuta reikiano" é ser um reikiano por inteiro, por assim dizer. Aplicar o Reiki como um modo de vida, não apenas como energia em locais desequilibrados. O repeteco é uma forma (das muitas) de trazer os princípios ao cotidiano e evoluir a consciência do reikiano, e, na minha opinião, a parte mais importante do Reiki como um todo, pois o nível de consciência interfere diretamente na aplicação energética. Contudo, com o passar do tempo, os princípios são superados: já fazem parte da vida da pessoa, esta não precisa mais recitá-los, pois já os vive.

terça-feira, 24 de julho de 2018

As mentiras em que queremos acreditar


Há um tempo escrevi um post sobre o livro 1984, mas o deixei de lado - talvez eu o publique um dia. O livro me marcou profundamente - para não dizer que me traumatizou. Não tanto pela história em si, mas pela realidade que a obra possui. Às vezes tenho a sensação de que estamos caminhando a passos largos para Oceânia, com o agravante de as pessoas estarem dormindo - inconscientes do que está acontecendo. Dois pontos marcantes, tanto no livro quanto nas notícias, merecem uma reflexão neste post.

O primeiro é a novilíngua ou novafala, idioma oficial da Oceânia. Trata-se de uma redução abrupta do vocabulário de forma que as pessoas não tenham "material" para pensar - já que o pensamento tornou-se crime. Sinônimos e antônimos são podados ano após ano, mas, pelo que consta na história, a língua não "pegou". Nem funcionários do governo nem proletários acostumam-se com o "novo" vocabulário, preferindo ainda o antigo inglês para comunicação. Interessante que há um anexo sobre a língua no final do livro, no formato de texto informativo. Acaba sendo uma forma de "ponte" para a realidade, após o final tão trágico da história. Como se fosse uma mensagem subliminar de que isso estivesse a acontecer.

Temos em nossa sociedade uma mudança vocabular com o intuito de ser o "menos ofensivo" possível. O problema é que quem se ofende é aquele que quer se ofender com o que foi dito, mesmo que a pessoa que fala tem a intenção de ofender. A confusão da frase anterior resume as consequências do que está acontecendo nos dias de hoje. Não existe uma palavra "certa" para as coisas: mesmo a polidez pode ser vista como ofensa. Isso quando não se abre mão das normas ortográficas e gramaticais em nome de modismos, transbordando o léxico de neologismos e redundâncias desnecessárias.

Já o segundo é o controle de informação, na minha opinião o mais grave. Foi por causa dele que decidi escrever o post, sobretudo depois da nova política do Facebook de "etiquetar" informações que considera "verdadeiras ou falsas". A questão não é só política. Qualquer fato "inconveniente" pode ser considerado falso - simples assim. Direciona-se, então, o que as pessoas podem acreditar ou não - como se a Oceânia estivesse sempre em guerra com a Lestásia ou com a Eurásia. Lembra aquela discussão de infância se Papai Noel existe de fato ou não - no final, era escolha da criança (ou mesmo do adulto) acreditar ou não.

O nível de evolução influi no alcance da percepção das pessoas, consequentemente na sua visão de verdade. Quanto mais evoluída, mais próxima da Verdade a pessoa está, simples assim. Não significa que existam várias verdades, nem que uma é melhor do que a outra: é uma questão de percepção. Mesmo a pessoa mais evoluída entende que impor sua visão de verdade sobre o outro não o auxilia em sua evolução - aliás, uma pessoa evoluída não impõe sua visão sobre os demais, esta acaba por se estabelecer sozinha (e os outros não aceitarem).

A questão não é uma notícia ser falsa ou não, mas no que a pessoa pode (ou não) acreditar que é verdadeiro ou falso. Já surgem na rede indicativos de falhas na "avaliação" de notícias, e no tendenciosismo das mesmas. Nem entro no caso de ser uma ideologia política ou não, mas numa manobra ampla de imposição de poder e influência que as pessoas não se defendem ou reagem. Não vejo uma saída massiva do Facebook ou mesmo uma busca por alternativas. Como disse anteriormente, aceitar é diferente de conformar-se, assim como ser flexível é diferente de resistir.

Uma tendência coletiva comum é se deixar levar pela opinião e percepção de outras pessoas ao invés de formular a própria. No entanto, é mais valioso possuir sua própria visão, por mais limitada que seja, do que seguir a de outrem. Mesmo se tratando de "guias", "gurus" e afins - estes te mostram um caminho, mas você criará o seu. Pretendo delongar no post que citei anteriormente meus temores deste livro tão profético, onde o espírito e as emoções inexistem, além de a mente ser dilacerada dia após dia.