terça-feira, 10 de abril de 2018

Desmistificando O Pequeno Príncipe


Rascunho de uma das aquarelas queimado de cigarro e manchado de café, exposto no The Morgan Museum and Library em 2014

Coisas que aparentam perfeição devem ser analisadas com mais atenção. Muitos acabam por ser levados sem o mínimo questionamento, achando que as coisas são o que dizem ser, não o que realmente seriam. Algumas pessoas chegaram ao estágio de unanimidade forçada: todos concordam, ou melhor dizendo, a maioria concorda, enquanto uma minoria se vê coagida a não criticar. Vi esses dias um vídeo no qual um filósofo afirma que Platão estava errado com o seu Mito da Caverna, contudo não explica o motivo. Ele mais se vangloria por discordar do que explicar porque discorda.

Não é esse o caso. Falo de pessoas nas quais estão cada vez mais difíceis de tecer críticas - quando feitas, o são de forma "controlada". Para ilustrar, com o trocadilho, comentarei um pouco sobre O Pequeno Príncipe e seu autor, o conde Antoine de Saint-Exupéry. Já escrevi anteriormente sobre o filme baseado neste livro, mas as opiniões mudam, e não se deve ter medo da mudança.

Apesar de todo o misticismo sobre ambos, autor e obra, não há nenhum santo propriamente dito - só no título nobiliárquico. Poucos param para refletir sobre a vida do autor, imaginando uma vida extraordinária e frutífera. Não, não foi. Depois de uma doce infância, o autor é jogado num colégio rígido no qual lhe gera traumas profundos - e a própria vida aristocrática acaba por lhe gerar repulsa. Depois de tantas notas baixas e revoltas em ambiente escolar, decide correr atrás do prejuízo para entrar na Escola Naval, indo parar na Força Aérea.

Ele não era um cara de personalidade agradável, não mesmo. Casa-se com a guatemalteca Consuelo em uma viagem à Argentina - dando a entender ser mais por revolta do que por sentimento. Ela também não era lá flor que se cheirasse - mais trocadilhos, rs. Os dois brigam, e muito, e acabam por traírem um ao outro. Nessa celeuma, Saint-Exupéry se refugia nos Estados Unidos, onde escreve a obra que o marcaria. Logo depois, retorna à Europa para lutar na guerra, tendo o avião abatido durante uma sessão nostalgia de voar pelas regiões de sua infância. Seu corpo nunca foi encontrado, e os destroços do avião o foram décadas mais tarde.

Isso não prova nada com coisa alguma, mas já dá para chacoalhar a cabeça. Saint-Exupéry não dedica O Pequeno Príncipe a sua esposa, mas sim ao seu amigo Léon Werth, um escritor com tendências socialistas 20 anos mais velho. Como um conde, educado no seio da nobreza francesa, com educação religiosa e monarquista, poderia ter um amigo assim? Concordando com ele, talvez, por mais que não fique explícito. Fora que o soldado alemão (nazista?) que o abateu lamentou-se por tê-lo matado, segundo alguns depoimentos. Ideais concordantes, através de caminhos diferentes, talvez fossem companheiros.

A obra é publicada em 1943 e não teve lá muito sucesso, que foi aparecendo décadas mais tarde. Em si, ela não tem significado algum, como todas as outras obras de Saint-Exupéry, que são mais desabafos de experiências de viagem com um misticismo cristão fruto dos estudos de escola. Note como os menos ligados ao Cristianismo acabam por ter mais conhecimento que a maior parte dos cristãos praticantes. Quem insere tantos significados são os próprios leitores. Uma pesquisa rápida na internet mostra quantos simbolismos a obra pode ter, mas não exatamente que tenha. Esse é o ponto mais importante.

Se a obra possui múltiplos significados sem uma intenção explícita, ela não possui significado nenhum em si. O castelo desmorona, ou melhor dizendo, o asteroide vira areia. Dê-lhe numerosos significados, serão apenas seus, não da obra. É a sua visão sobrepondo-se à obra. E por permitir múltiplas interpretações, caiu no gosto de muitos, pois cada um a vê da forma que a convém. Como eu mesma o fiz há dois anos atrás. As interpretações giram em torno do tema da Paz Mundial, o famoso clichê de misses.

Uma obra vazia para pessoas vazias - este é o estereótipo das candidatas e vencedoras dos diversos concursos. Quase que como leitura obrigatória, foi uma febre nos tempos áureos dos concursos. A popularidade d'O Pequeno Príncipe foi meio que forçada ao longo das gerações. Quase rejeitado em sua época - tenha em mente que não ganhou nenhum prêmio literário, ao contrário de outras obras menos expressivas do autor - hoje é uma das mais traduzidas e mais vendidas, equiparando-se à Bíblia.

Por não ter uma definição, o bálsamo pode ser um veneno para gerações, por abrir espaço para reprogramações perversas - como um trojan. O que as pessoas veem como salvação pode ser a própria perdição. A interpretação mais bacana que conheci do livro é a da perda do instinto e da masculinidade: o homem que não quer crescer e assumir quem é. Perceba quantas pessoas são assim hoje em dia, recusam-se a crescer e a aceitar as mudanças.

Talvez algumas pessoas pensem que falta uma bibliografia para este post. Existem duas biografias do Saint-Exupéry que fornecem algumas informações sobre o que eu falei: Vida e morte do Principezinho e A Vida Secreta de Antoine Saint-Exupéry. Outras informações foram coletadas aqui e ali na internet - eu quase pirei com tanta pesquisa. As conclusões são minhas. Uma pessoa não é sábia por citar inúmeros outros para confirmar o que diz.

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