terça-feira, 26 de junho de 2018

Quem quer ser iluminado?


Uma pergunta me chamou a atenção no livro Power vs. Force: se fôssemos parar cem pessoas na rua, começa Hawkins, e as perguntássemos "qual a sua maior ambição na vida?", quantas iriam dizer "tornar-se iluminado"? O título do post é uma analogia ao filme Quem quer ser um milionário, no qual um garoto indiano ganha o prêmio máximo de um programa de televisão respondendo a pergunta decisiva no chute. As pessoas travam quando ouvem por resposta que a meta de vida é a Iluminação, paz interior ou afins. Eu não conheço um pseudo-místico que tenha por meta de vida a evolução.

Existe a pirâmide de Maslow, que mostra as necessidades das pessoas de forma hierárquica. Quanto mais próximas da base, mais físicas são, e talvez "mais importantes". Se for prestar atenção, a maioria das pessoas concentra-se na base, com o raciocínio de que paz interior não enche barriga. A situação, contudo, é inversa: com paz interior as outras necessidades são sanadas de forma definitiva. Não que os problemas acabam, mas acaba a postura de vítima ou de sofrimento em cima disso.

A questão no caso é que as pessoas ficam tentando tanto "encher barriga" e "pagar contas" que ignoram que a vida não é só isso. Quantas pessoas evitam tomar atitudes decisivas na vida para que esta não mude, depois lamentam por nada ter feito? No fundo, lá no fundo, a pessoa tenta se contentar de que se tivesse feito algo, sua vida talvez fosse mais sofrida ou mesmo abreviada, sendo que o sofrimento é questão de postura, não de situação. "Quem quer ser um milionário?" é mais uma questão de segurança material do que de realização pessoal: ser um milionário poderia ser visto como fruto de um trabalho árduo e bem feito, não mera satisfação de necessidades a longo prazo.

Ao contrário do que se imagina, se a pessoa não focar nos degraus mais altos da pirâmide, nunca os alcançará. Não existe realização pessoal se a pessoa só pensa no próximo feriado para dormir. Buscar a evolução já faz com que a pessoa tenha uma situação mais tranquila, ou melhor, uma postura mais serena perante os problemas dos degraus inferiores. No Truth vs. Falsehood, que aborda os níveis de consciência no cotidiano, Hawkins mostra as consequências sociais dos níveis de consciência: não é a "sociedade" que faz com que as pessoas ajam de determinadas formas, mas o contrário. Mesmo a pirâmide não vai muito longe, indo de encontro com o começo do post: quem busca a evolução de consciência como meta de vida?

terça-feira, 19 de junho de 2018

Sobre Reiki e artes marciais


Vejo que o Reiki e as artes marciais - sobretudo as japonesas - têm muito em comum. Só de pensar que o próprio mestre Usui praticava uma delas antes de fundar o Reiki (de acordo com as palavras da época), significa que há muito a se relacionar e muito a aprender com isso. Mas antes de começar é bom frisar que a arte marcial está longe de ser uma arte de pancadaria, como alguns pseudopacifistas pensam. A arte marcial é o trabalho de corpo, mente e espírito para melhoria do indivíduo enquanto ser humano. Seria a arte de parar a agressão, e não de promovê-la. É um caminho para paz interior tão rico quanto o Reiki, pela sua complexidade e plasticidade.

Em um aspecto teórico, as filosofias das artes marciais estão ligadas à não-agressão e ao autocontrole. Como disse antes, parece contraditório à primeira vista, mas olhando mais a fundo, ou melhor dizendo, sem preconceitos, faz total sentido. Geralmente a pessoa de índole violenta não consegue suportar o treinamento de uma escola de artes marciais, pois essa violência é direcionada e trabalhada para outros fins. Quem tem prazer por agredir os outros não busca técnicas "eficazes" para tal, apenas expulsar aquela energia agressiva da melhor forma possível para si. Outro motivo pelo qual o "violento" não gosta de arte marcial: o artista de verdade não se deixa levar pela provocação, mas ao precisar utilizar suas técnicas, o violento não terá defesa, acabando assim a brincadeira, risos.

As artes marciais orientais carregam consigo uma grande carga filosófica, assim como o Reiki - e mesmo da mesma fonte, o Budismo. Isso não significa que o Reiki tenha um vínculo formal com a instituição religiosa. Continuando a falar sobre não-agressão, o Reiki possui como o primeiro princípio o Sou Calmo: não se deixar levar pela impulsividade da raiva, de modo a não tomar atitudes destrutivas (que em outro post vou observar sobre). Em arte marcial, a não-agressão transforma a luta em defesa, não em ataque. Ao agredir o outro, o artista/lutador busca se defender e neutralizar o oponente.

O equilíbrio de corpo e mente (e espírito?) é parte da arte marcial como também do Reiki. Entenda o equilíbrio não como algo estático, mas como uma melhoria constante de ambos os aspectos através da prática. Você pratica o Reiki buscando se equilibrar e se melhorar, transmitindo esse equilíbrio através da terapia. Praticar uma arte marcial equilibra o corpo (exercícios, posturas) e a mente (concentração, disciplina), formando uma pessoa melhor do que ela já foi, e com consciência desta mudança.

Outro ponto em comum dentro da parte filosófica é a concentração. Ambos necessitam disso, assim como a vida da pessoa como um todo. Concentração, foco, atenção, etc. deveriam ser ensinados de forma mais direta. Não falo de meditação, pois acaba dando uma conotação de prática separada que acaba por não adicionar nada no cotidiano. Sem concentração, o Reiki fica tão robotizado quanto um movimento recém-aprendido na arte marcial. Interessante apontar que com a constância, a prática fica inconsciente, natural. Há relatos de reikianos cujo automatismo de movimentos é fruto da percepção, e não de um roteiro a ser seguido.

E como não relacionar um mestre de artes marciais com o mestre Reiki? Pessoas que de certa forma ultrapassaram o conhecimento ordinário sobre o assunto e criaram seu próprio caminho. Por mais que não seja assim, a ideia é por aí. Mesmo alguns reikianos e pesquisadores afirmam que para Usui o nível de maestria era concedido quando o praticante alcançava a iluminação, ou pelo menos tivesse um satori, algo assim. Seria o ideal inclusive para artes marciais: se não na faixa preta, pelo menos em alguns graus acima. Contudo, isso não faz parte da "cultura", principalmente no Ocidente, onde Iluminação é um assunto restrito a um grupo que acha que sabe de evolução.

Também pode-se falar da questão da repetição como outro aspecto coincidente de ambos. Tanto o Reiki quanto as artes marciais precisam ser praticadas arduamente para terem efeito. Isso desenvolve disciplina e foco, algo que já deu a entender anteriormente. E como o Reiki, a arte marcial deve ser praticada em casa também. Um artista marcial é formado não só na aula, mas fora dela também. Assim como o reikiano não o é apenas durante cursos e aplicações. E pessoalmente, um reikiano que não atua profissionalmente não é "menos reikiano" que o terapeuta que não pratica os Cinco Princípios.

Um reikiano, assim como um artista marcial, possui uma postura social, por assim dizer, diferente de quem não o é. Seja em palavras, gestos ou mesmo atitudes. Ao percorrer um caminho, a pessoa muda, sem deixar de mudar: ela apenas deixa vir à tona o que ela mesma é. Claro que boa parte das vezes a pessoa apenas reproduz atitudes da tribo, mas reduzir a apenas isso é tirar todo o mérito que o Reiki e as artes marciais possuem. Elas buscam formar indivíduos, pelo menos mais evoluídos do que foram. Não que elas sejam "diferenciadas", ou melhores do que qualquer outro caminho: qualquer prática que seja feita com Amor promove a evolução do ser, seja o Reiki, meditação, Yoga, artes marciais, tricô ou culinária. O resultado final é o mesmo, apesar de uns fazerem pratos maravilhosos ou outros saberem se defender de situações complicadas.

terça-feira, 12 de junho de 2018

As falhas de calibragem


Por mais que eu goste do trabalho do Hawkins, eu tenho minhas críticas a fazer. Apesar das descrições sobre os níveis de consciência e as formas de progressão sejam precisas e eficientes, vejo um problema em como calibrar estes níveis. Hawkins usa um método cinesiológico de "forçar o braço" para obter suas respostas sim ou não. O que pode ser eficiente em um aspecto acaba tornando as coisas meio rasas.

Percebi isso lendo o livro Truth vs. Falsehood, literalmente Verdade contra Falsidade, obra que também não possui tradução para português. Algumas coisas foram bem calibradas como a Coca-Cola, cujos estudos de danos à saúde são cediços. Mesmo algumas obras foram calibradas em nível baixo, como o filme Matrix, por conta de "detalhes". No caso deste filme, as cenas de violência despencaram a calibragem.

Tolkien (sua obra) foi calibrado aquém do que eu mesma avaliei. Não é mera questão de opinião, como pode parecer, mas uma análise mais objetiva sem balançar o braço. No caso, devido ao objeto de análiser ser a trilogia O Senhor dos Anéis, deixando de lado sua principal obra, O Silmarillion. Ou seja, Hawkins é preciso e objetivo em diversos aspectos, mas é necessária uma visão mais ampla sobre a calibragem para que esta seja mais precisa e abrangente.

Além de alguns aspectos como a precisão das perguntas, e mesmo o método em si de forçar o braço, ainda insisto na questão da evolução negativa, na qual algumas pessoas (ou mesmo filmes, músicas, e a Coca-Cola) possuem um alto grau de consciência, mas tendendo ao caos. Hitler, que foi calibrado em 80, está mais para um -700 (iluminação negativa), pela sua consciência voltada à destruição.

Outro exemplo é o Nelson Mandela, calibrado em 500 pela sua imagem de "pacificador", quando que poderia ser calibrado em -500 (amor negativo), já que foi líder de um grupo terrorista, matando dezenas de inocentes, para depois "pagar de bonzinho", por assim dizer. O próprio Hawkins acusa essas imprecisões para calibrar criminosos e psicopatas: no Truth vs. Falsehood, ele apresenta o caso de um traidor que possuía duas calibragens: uma de sua imagem pública e outra relativa a sua conspiração. Neste caso, a calibragem negativa uniria ambos os aspectos, mostrando que a pessoa tem a consciência de fazer o mal, tanto quanto de fazer o bem.

Não vejo no momento calibragens negativas abaixo do nível 200: pode haver pessoas desenvolvendo consciência da vontade de dominar outras mas sem que a mesma esteja apurada. Assim como pessoas abaixo de 200 desenvolvendo uma consciência para o bem de si e dos outros. Como até 200 os níveis são instáveis, fica difícil precisar níveis negativos, podendo até serem compartilhados com a consciência negativa: ao superar o orgulho, a pessoa pode desenvolver uma coragem positiva (200) ou uma coragem negativa (-200).

Seria interessante que as pessoas estudassem e trabalhassem essas ideias em seu cotidiano, aprimorando a forma de calibragem e mesmo a descrição dos níveis e suas passagens. Uma escala negativa faz sentido em um planeta pouco evoluído (85% das pessoas calibradas abaixo de 200), pois discerniria pessoas de pouca consciência apenas das pessoas que possuem consciência do que estão fazendo, mas para outro lado.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Esse discurso do Saruman...

Indo no embalo do post sobre o Tolkien, gostaria de ressaltar um personagem muito peculiar na trilogia O Senhor dos Anéis: o mago Saruman. Assim como os outros magos, ele tinha por objetivo de fazer frente a Sauron, porém sem medir forças com este, muito menos dominar os habitantes locais. Não é o que acontece com Saruman: ao invejar o poder de Sauron, acaba agindo igual a ele, criando seus exércitos e dominando a região na qual vivia. Por fim, tenta suplantá-lo, e acaba sendo destruído em sua política duas caras.

Essa política teve por base o "belo" discurso do mago. Palavras bonitas e envolventes, que acabavam por convencer os desavisados que o ouviam. Mesmo seu servidor, Língua de Cobra, era perito nesta "arte". Confesso que ao ler suas falas eu ficava meio fora de mim e perdia o raciocínio da história. Pessoas que falam bem convencem e acabam por inverter situações desfavoráveis. A razão é perdida.


Isso serve de alerta aos "belos discursos" que existem hoje em dia. Pessoas que falam bem e conseguem convencer pelos "floreios" de suas palavras. Quando o encanto passa, para os espíritos atentos, percebe-se seu engodo: não existe matéria prática para agir ou base para pensar. O discurso é certo porque é bonito. Isso é parte da estratégia de manipulação mental que existe hoje em dia: a programação não oferece "defesa". Geralmente quem tem razão não apela para discursos "bonitinhos": expressa seu raciocínio e ponto - perdeu a discussão.

Quem nunca ficou com uma sensação amarga de ter razão e não ser compreendido, ou mesmo de "ter perdido" uma discussão para algo sem pé nem cabeça? Seria um efeito do discurso à Saruman, digamos assim. O interlocutor não busca entender ou aceitar seu raciocínio, mas busca "brechas" para derrubá-lo, com palavras bonitas e discursos idílicos de preferência. Pessoalmente, tentar usar a mesma estratégia acaba por não transmitir a ideia, mas a torna igual a do mago, e não ajuda ninguém.

Por não ter base, o efeito do discurso não dura muito tempo. Doses prolongadas podem até provocar um entorpecimento do raciocínio, mas ele pode acabar de uma hora pra outra. Aí entra Gandalf, o único mago que conseguiu cumprir a missão. Os outros acabaram perdidos, provavelmente dominados por Saruman. Só quem realmente conhecia o Gandalf sabia da sabedoria que trazia em seu discurso nem um pouco elaborado e bonito - pra mim bonito por ser sábio. Foi assim que o rei Théoden foi curado do discurso do Língua de Cobra - e ainda saiu "vacinado", repelindo o discurso de Saruman tempos depois, enquanto seus cavaleiros quase caíram no encanto.

Interessante que quem não gostava de Gandalf o reduzia a arauto de desgraças, pois, no final das contas, ele que tinha que dar as "más notícias", ou melhor dizendo, "falar a verdade nua e crua". A beleza do discurso de Gandalf era a verdade contida no mesmo, a sinceridade e a honestidade presentes. Não se buscava convencer ou dominar, mas falar o necessário. Pense nos discursos de hoje em dia: eles são mais Saruman ou Gandalf? Esse reducionismo aparente acaba por mostrar a imensidão da obra de Tolkien ao retratar assuntos tão reais em um ambiente fantástico.

Um coração forte repele discursos bonitinhos. Lembra a manipulação mental feita pelos jedi em Star Wars: era utilizada quando julgavam necessário, mas surtia efeito apenas pessoas de "coração fraco". Seria pegar o que foi dito e o analisar à luz da razão: não se deixar levar pelo famoso canto da sereia. Mesmo após algum tempo, como a trama mostra, a manipulação jedi deixa de ser eficiente, mesmo com "corações fracos". Isso demanda esforço por parte das pessoas, tanto para se livrar do discurso quanto para conter a raiva que dá quando alguém é manipulado e convencido.