terça-feira, 5 de junho de 2018

Esse discurso do Saruman...

Indo no embalo do post sobre o Tolkien, gostaria de ressaltar um personagem muito peculiar na trilogia O Senhor dos Anéis: o mago Saruman. Assim como os outros magos, ele tinha por objetivo de fazer frente a Sauron, porém sem medir forças com este, muito menos dominar os habitantes locais. Não é o que acontece com Saruman: ao invejar o poder de Sauron, acaba agindo igual a ele, criando seus exércitos e dominando a região na qual vivia. Por fim, tenta suplantá-lo, e acaba sendo destruído em sua política duas caras.

Essa política teve por base o "belo" discurso do mago. Palavras bonitas e envolventes, que acabavam por convencer os desavisados que o ouviam. Mesmo seu servidor, Língua de Cobra, era perito nesta "arte". Confesso que ao ler suas falas eu ficava meio fora de mim e perdia o raciocínio da história. Pessoas que falam bem convencem e acabam por inverter situações desfavoráveis. A razão é perdida.


Isso serve de alerta aos "belos discursos" que existem hoje em dia. Pessoas que falam bem e conseguem convencer pelos "floreios" de suas palavras. Quando o encanto passa, para os espíritos atentos, percebe-se seu engodo: não existe matéria prática para agir ou base para pensar. O discurso é certo porque é bonito. Isso é parte da estratégia de manipulação mental que existe hoje em dia: a programação não oferece "defesa". Geralmente quem tem razão não apela para discursos "bonitinhos": expressa seu raciocínio e ponto - perdeu a discussão.

Quem nunca ficou com uma sensação amarga de ter razão e não ser compreendido, ou mesmo de "ter perdido" uma discussão para algo sem pé nem cabeça? Seria um efeito do discurso à Saruman, digamos assim. O interlocutor não busca entender ou aceitar seu raciocínio, mas busca "brechas" para derrubá-lo, com palavras bonitas e discursos idílicos de preferência. Pessoalmente, tentar usar a mesma estratégia acaba por não transmitir a ideia, mas a torna igual a do mago, e não ajuda ninguém.

Por não ter base, o efeito do discurso não dura muito tempo. Doses prolongadas podem até provocar um entorpecimento do raciocínio, mas ele pode acabar de uma hora pra outra. Aí entra Gandalf, o único mago que conseguiu cumprir a missão. Os outros acabaram perdidos, provavelmente dominados por Saruman. Só quem realmente conhecia o Gandalf sabia da sabedoria que trazia em seu discurso nem um pouco elaborado e bonito - pra mim bonito por ser sábio. Foi assim que o rei Théoden foi curado do discurso do Língua de Cobra - e ainda saiu "vacinado", repelindo o discurso de Saruman tempos depois, enquanto seus cavaleiros quase caíram no encanto.

Interessante que quem não gostava de Gandalf o reduzia a arauto de desgraças, pois, no final das contas, ele que tinha que dar as "más notícias", ou melhor dizendo, "falar a verdade nua e crua". A beleza do discurso de Gandalf era a verdade contida no mesmo, a sinceridade e a honestidade presentes. Não se buscava convencer ou dominar, mas falar o necessário. Pense nos discursos de hoje em dia: eles são mais Saruman ou Gandalf? Esse reducionismo aparente acaba por mostrar a imensidão da obra de Tolkien ao retratar assuntos tão reais em um ambiente fantástico.

Um coração forte repele discursos bonitinhos. Lembra a manipulação mental feita pelos jedi em Star Wars: era utilizada quando julgavam necessário, mas surtia efeito apenas pessoas de "coração fraco". Seria pegar o que foi dito e o analisar à luz da razão: não se deixar levar pelo famoso canto da sereia. Mesmo após algum tempo, como a trama mostra, a manipulação jedi deixa de ser eficiente, mesmo com "corações fracos". Isso demanda esforço por parte das pessoas, tanto para se livrar do discurso quanto para conter a raiva que dá quando alguém é manipulado e convencido.

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