terça-feira, 31 de julho de 2018

Calmaria em meio à Tempestade


Refletir sobre os Cinco Princípios do Reiki deveria ir além dos princípios em si. Isso lembra o Taoismo com a sua definição-não-definição: quando você define o que algo é, define automaticamente o que não é, ou mesmo o que poderia ser ou não. É engraçado você tomar uma atitude enérgica e o reikiano vir com o não se zangue sem ao menos refletir se a pessoa está zangada ou não. Ou mesmo agir contra a má-fé de alguém e o reikiano te lembrar do eu confio.

Recitar os Cinco Princípios todos os dias de manhã e à noite não é ficar repetindo como ladainha, mas dar um sentido para eles: aprender com as situações e superá-las. Vai parecer que você distorceu tudo, mas no fundo, você aprendeu a viver com o Gokai - o que considero mais importante do que o próprio declamar. Seguem algumas conclusões que cheguei vivenciando os princípios:

  • Sou calmo: não significa que eu não vá me defender de uma agressão ou mesmo não ser contundente quando necessário. Com o bônus de estar com a cabeça fria e agir da forma mais eficiente possível.
  • Confio: não significa que não prestarei atenção a todos os detalhes de uma situação - ou pelo menos me esforçar para tal. Não significa que me deixarei levar por uma clara atitude maldosa, achando que algo "milagroso" irá ocorrer.
  • Sou grato: não significa que não vou correr atrás do que eu sonho, ou mesmo não questionar o que há de errado. Ser grato mostra as portas para novas experiências, mas é necessário atravessá-las, e algumas vezes arrombá-las.
  • Trabalho honestamente: não significa que não terei preguiça em alguns momentos, ou mesmo falhar no que estou fazendo. É não simular perfeição ou evolução, afinal, a maioria das pessoas evoluídas são mal vistas pela sociedade.
  • Sou bondoso: não significa que não vou tomar atitudes que parecerão grossas, inflexíveis ou mesmo agressivas. Não significa que passarei a mão na cabeça dos erros ou mesmo deixar a pessoa se ferrar quando for escolha dela, afinal, quem procura, acha.

Reiki não é apenas uma terapia complementar de equilíbrio energético: é um caminho de desenvolvimento da consciência do praticante. De acordo com os reikianos de correntes consideradas tradicionais, como o Johnny De'Carli, o mestre Usui tinha como requisito para o mestrado em Reiki a própria Iluminação, ou mesmo um vislumbre dela. Vejo que os Cinco Princípios são vistos de forma muito rasa, mesmo quando são escritas páginas e páginas sobre. Criou-se uma imagem do "reikiano ideal" que lembra o Creek do filme Trolls.

Mais importante do que ser um "terapeuta reikiano" é ser um reikiano por inteiro, por assim dizer. Aplicar o Reiki como um modo de vida, não apenas como energia em locais desequilibrados. O repeteco é uma forma (das muitas) de trazer os princípios ao cotidiano e evoluir a consciência do reikiano, e, na minha opinião, a parte mais importante do Reiki como um todo, pois o nível de consciência interfere diretamente na aplicação energética. Contudo, com o passar do tempo, os princípios são superados: já fazem parte da vida da pessoa, esta não precisa mais recitá-los, pois já os vive.

terça-feira, 24 de julho de 2018

As mentiras em que queremos acreditar


Há um tempo escrevi um post sobre o livro 1984, mas o deixei de lado - talvez eu o publique um dia. O livro me marcou profundamente - para não dizer que me traumatizou. Não tanto pela história em si, mas pela realidade que a obra possui. Às vezes tenho a sensação de que estamos caminhando a passos largos para Oceânia, com o agravante de as pessoas estarem dormindo - inconscientes do que está acontecendo. Dois pontos marcantes, tanto no livro quanto nas notícias, merecem uma reflexão neste post.

O primeiro é a novilíngua ou novafala, idioma oficial da Oceânia. Trata-se de uma redução abrupta do vocabulário de forma que as pessoas não tenham "material" para pensar - já que o pensamento tornou-se crime. Sinônimos e antônimos são podados ano após ano, mas, pelo que consta na história, a língua não "pegou". Nem funcionários do governo nem proletários acostumam-se com o "novo" vocabulário, preferindo ainda o antigo inglês para comunicação. Interessante que há um anexo sobre a língua no final do livro, no formato de texto informativo. Acaba sendo uma forma de "ponte" para a realidade, após o final tão trágico da história. Como se fosse uma mensagem subliminar de que isso estivesse a acontecer.

Temos em nossa sociedade uma mudança vocabular com o intuito de ser o "menos ofensivo" possível. O problema é que quem se ofende é aquele que quer se ofender com o que foi dito, mesmo que a pessoa que fala tem a intenção de ofender. A confusão da frase anterior resume as consequências do que está acontecendo nos dias de hoje. Não existe uma palavra "certa" para as coisas: mesmo a polidez pode ser vista como ofensa. Isso quando não se abre mão das normas ortográficas e gramaticais em nome de modismos, transbordando o léxico de neologismos e redundâncias desnecessárias.

Já o segundo é o controle de informação, na minha opinião o mais grave. Foi por causa dele que decidi escrever o post, sobretudo depois da nova política do Facebook de "etiquetar" informações que considera "verdadeiras ou falsas". A questão não é só política. Qualquer fato "inconveniente" pode ser considerado falso - simples assim. Direciona-se, então, o que as pessoas podem acreditar ou não - como se a Oceânia estivesse sempre em guerra com a Lestásia ou com a Eurásia. Lembra aquela discussão de infância se Papai Noel existe de fato ou não - no final, era escolha da criança (ou mesmo do adulto) acreditar ou não.

O nível de evolução influi no alcance da percepção das pessoas, consequentemente na sua visão de verdade. Quanto mais evoluída, mais próxima da Verdade a pessoa está, simples assim. Não significa que existam várias verdades, nem que uma é melhor do que a outra: é uma questão de percepção. Mesmo a pessoa mais evoluída entende que impor sua visão de verdade sobre o outro não o auxilia em sua evolução - aliás, uma pessoa evoluída não impõe sua visão sobre os demais, esta acaba por se estabelecer sozinha (e os outros não aceitarem).

A questão não é uma notícia ser falsa ou não, mas no que a pessoa pode (ou não) acreditar que é verdadeiro ou falso. Já surgem na rede indicativos de falhas na "avaliação" de notícias, e no tendenciosismo das mesmas. Nem entro no caso de ser uma ideologia política ou não, mas numa manobra ampla de imposição de poder e influência que as pessoas não se defendem ou reagem. Não vejo uma saída massiva do Facebook ou mesmo uma busca por alternativas. Como disse anteriormente, aceitar é diferente de conformar-se, assim como ser flexível é diferente de resistir.

Uma tendência coletiva comum é se deixar levar pela opinião e percepção de outras pessoas ao invés de formular a própria. No entanto, é mais valioso possuir sua própria visão, por mais limitada que seja, do que seguir a de outrem. Mesmo se tratando de "guias", "gurus" e afins - estes te mostram um caminho, mas você criará o seu. Pretendo delongar no post que citei anteriormente meus temores deste livro tão profético, onde o espírito e as emoções inexistem, além de a mente ser dilacerada dia após dia.

terça-feira, 17 de julho de 2018

A importância do Contexto


Hawkins conclui o Power vs. Force afirmando que as pessoas não sabem discernir a verdade da falsidade. Esta seria a ausência de verdade, ao contrário da mentira, que seria uma verdade deslocada de seu contexto. Essa falta de discernimento é o que provocaria então a pouca evolução do ser humano. No entanto, para saber discernir é necessário analisar as coisas dentro de seu contexto. Parece até exercício de escola, quando o professor vai ensinar algo de humanas. Porém, isso também existe nas exatas e mesmo nas biológicas, por assim dizer.

Como aparenta na frase anterior, contexto seria algo de pouca importância. Com a relativização das coisas, o contexto é deixado de lado, e tudo pode ser qualquer coisa. Analisar o contexto é uma constante no cotidiano, permitindo a evolução. A ampliação do horizonte de percepção consequentemente apresenta a ligação de todas as coisas e dá aquela sensação de que o véu caiu. Dessa forma, Hawkins liga o final com o começo do livro, onde ele mostra que a sequência de fatos é uma percepção limitada de todo um conjunto que ele nomeia de campo atrator.

Ao analisar-se o contexto de uma coisa (pessoa, situação, objeto, etc.), a percepção sobre aumenta. Ver além do alcance então seria ver todo o contexto da situação e não apenas a coisa em si. E, como dito antes, nada de sobrenatural. É muito mais um processo de aprendizado mais amplo e profundo, que poderia então entrar no terreno chamado de extrassensorial. É o que derruba preconceitos e valida intuições: esta se mostra como uma análise de contexto de forma instantânea, permitindo conclusões antecipadas, mas não precipitadas.

Mesmo para descrever o contexto fica difícil com palavras. Discernir verdade da falsidade não depende só do contexto em que se encontra, mas o que isso gera para a pessoa que analisa, e mesmo para quem participa daquilo. Hawkins resume em "forte" ou "fraco", "faz bem" ou "faz mal". A partir daí, toda sua obra é desenvolvida. A forma que ele usa para "verificar" o forte ou fraco não é muito "eficaz", na minha opinião, mas já é um bom começo. A própria percepção pode analisar conforme se desenvolve, transformando a calibragem em algo secundário.

A impressão que dá é que a humanidade está fora dos trilhos, ou mesmo fora de rumo, necessitando de uma bússola para se orientar. Está claro que interpretar do jeito que convém é imaturo, ou mesmo absurdo. Não estamos jogados, por assim dizer. No final das contas, quanto mais evoluídas são as mensagens, mais parecidas são umas com as outras, uma espécie de convergência. Isso explicaria porque não existe dualidade e afins. Contudo, depende do contexto e da percepção.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Culpa e Responsabilidade


Há um pouco mais de quatro anos atrás escrevi um post sobre a questão da culpa e da responsabilidade e há alguns dias atrás tive uma discussão sobre a responsabilidade da vítima. Percebi que as pessoas tendem a não entender, ou mesmo não aceitar, que a vítima também tem responsabilidade sobre o que ocorre em sua vida. É algo automático: joga-se a culpa no "agressor", no "autor", seja lá o nome que se dê, e a vítima é carregada no colo e colocada em uma redoma de vidro, impedindo-a de tomar qualquer atitude. Falar que ela teve parte no infortúnio chega a ser "ofensivo", afinal, ela não teve culpa de nada.

Aí que está a questão: ninguém tem culpa de nada, e as pessoas tendem a confundir esta com a responsabilidade. Primeiramente, culpa não é responsabilidade. Culpa é um sentimento extremamente negativo e doentio, que não traz aprendizado, muito menos contribui com o processo evolutivo. Torna a vítima mais vítima e o "culpado" mais culpado ainda. Interessante notar que a culpa é sempre de um, nunca de todos: este irá receber uma punição sobre o ocorrido, geralmente desproporcional ao merecido e mesmo ao necessário, com o agravante de que não há oportunidade de aprendizado. O "culpado" gera mais culpa, além de rancor, desembocando em uma postura vingativa, ainda mais negativa.

Responsabilidade é um ponto de mudança, de consciência sobre o ocorrido. Quando a responsabilidade é assumida, abrem-se as portas do aprendizado e do crescimento, promovendo a verdadeira mudança. Dizer que não existe punição é um pouco exagerado, afinal, assumir a responsabilidade do feito não isenta a pessoa de sua devida punição - sobretudo num âmbito legal -, mas a mesma muda de figura, tornando-se caminho para o amadurecimento. E todos têm responsabilidade, oportunidades de aprendizado, mesmo aqueles que julgam não ter envolvimento com o ocorrido. A vítima não é mera injustiçada: ela deve avaliar conscientemente o que a levou para aquela situação, ao invés de jogar o peso da culpa no outro.

Interessante notar que ao apontar isso, as pessoas usam como exemplo as situações mais trágicas que conhecem como uma forma de dizer que aquilo foi "independente de sua vontade". Não existem acasos, por menos que faça sentido o desenrolar de um fato. É a postura como um todo, é o contexto da situação. Não deve ser visto como "se o agressor não tem culpa, a culpa é da vítima", como se a culpa tivesse que ser de uma pessoa só. Muito menos deve ser visto como "se a responsabilidade é de todos, a vítima deve ser punida": esta já teve seu infortúnio pela sua postura e consciência. Cabe a ela aprender com o que ocorreu e crescer com isso, por mais doloroso que seja.

A pessoa que se recusa a aprender acaba por passar pela mesma situação diversas vezes, mesmo que com roupagens diferentes. Ela pode escolher entre aprender com aquilo e quebrar o círculo vicioso ou continuar a passar por aquela situação até dizer chega. Geralmente quando isso ocorre e ela decide por fim assumir a responsabilidade por si, o salto de consciência é imenso, pois toda aquela espiral negativa é revertida transformando-se em uma mola evolutiva. Obviamente discordo de uma pessoa o fazer de forma deliberada, mas isso é uma sugestão interessante para quem se encontra nessa situação e finalmente percebe que jogar a culpa no outro não resolve nada.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Sobre a seriedade do misticismo


Assisti a um vídeo interessante do filósofo Olavo de Carvalho sobre Astrologia e me surpreendi com a postura a qual abordou o assunto. Diferente de boa parte dos cristãos e conservadores, que acabam por tratar o assunto como mero charlatanismo, Olavo ressalta neste vídeo a questão da responsabilidade em estudar o assunto e analisar a prática, apresentando a Astrologia com sensatez e maturidade.

Como disse no outro post, não é porque a pessoa tem Mercúrio em Câncer que ela vai ser x, y ou z, mas que o Mercúrio em Câncer representa algo que ela é, que pode ser trabalhado e melhorado, se assim o quiser. O mesmo com o tarô: ele não diz o futuro, ele apresenta uma situação sobre outro viés, e cabe a pessoa decidir se é aquilo que ela quer ou não.

A questão central é a imaturidade que existe no "meio místico". Pessoalmente, acho que isso não deveria ocorrer neste meio, afinal estamos falando de pessoas supostamente evoluídas, que transcenderam o corriqueiro para ver além. O problema é que essas pessoas acabam sendo tão mundanas quanto as "realmente" mundanas, risos, justamente por ostentarem uma postura que não condiz com a realidade, e mesmo pavonear conhecimentos não condizentes com a verdade, ou simplesmente, não factíveis. Mesmo Hawkins detona esse tipo de conduta no Verdade contra Falsidade: é algo ligado a níveis baixos de consciência, calibrado a menos de 200.

Interessante que Hawkins calibrou o tarô em 190, o Reiki em 340 e a Astrologia entre 210-405. No livro citado, há tantas calibragens que, além de me ater às anteriormente citadas, sugiro a leitura e estudo dessa obra. A oscilação da Astrologia depende da responsabilidade do profissional, de acordo com a justificativa dada por Hawkins. O tarô calibrado em 190 é justificado pela visão do mesmo como um mero leitor de sorte ou leitor do futuro. Por mais que existam pessoas que digam "o tarô é um instrumento para autoconhecimento", e o mesmo para a Astrologia, as pessoas tendem a buscar ambos apenas para saber o que vai acontecer.

Já o Reiki considero aquém do que poderia ser - onde foi parar a iluminação do mestre Usui? Não vou entrar no mérito se foi uma iluminação plena (calibrada a 700+) ou se foi a experiência do satori, calibrada em 580. A calibragem se justifica por alguns fatores: a visão do Reiki como "terapia" e a postura dos reikianos, a amostragem da qual Hawkins tinha disponível, além das divergências de aplicação do método em si. A "amostragem" e a "visão" variam nos diversos ramos do "misticismo". Lembre-se de que Mandela foi calibrado em 500, mesmo tendo sua vida manchada por atos terroristas comprovados posteriormente. Isso abriria espaço para outras calibragens do Reiki, podendo o mesmo ser colocado em outro nível.

Veio à mente o famoso zen de Facebook, pessoas que têm uma postura de "iluminação" nas redes sociais, baseada em uma mistura de conceitos contraditórios entre si. Interessante notar o ego inflado que estas pessoas possuem, ofendendo-se com questionamentos e exposição das contradições. Ao solicitar um argumento, um motivo mais consistente a respeito, o relativismo torna-se regra. Aliás, ao atingir-se um nível de percepção mais aprofundado, percebe-se que a vida social é uma trama de posturas e aparências, e a atitude realmente evoluída é irritante por si só.

É uma questão de estudo e aprendizado: discernir o que faz evoluir o espírito daquilo que só cresce o ego e a vaidade. Não que o Reiki seja "involuído", mas a postura de boa parte dos reikianos é, e o mesmo vale para tarólogos e astrólogos, e mesmo outras profissões. Seriedade implica postura, e esta implica maturidade, e esta implica estudo, prática e, principalmente, experiência de vida.