terça-feira, 24 de julho de 2018

As mentiras em que queremos acreditar


Há um tempo escrevi um post sobre o livro 1984, mas o deixei de lado - talvez eu o publique um dia. O livro me marcou profundamente - para não dizer que me traumatizou. Não tanto pela história em si, mas pela realidade que a obra possui. Às vezes tenho a sensação de que estamos caminhando a passos largos para Oceânia, com o agravante de as pessoas estarem dormindo - inconscientes do que está acontecendo. Dois pontos marcantes, tanto no livro quanto nas notícias, merecem uma reflexão neste post.

O primeiro é a novilíngua ou novafala, idioma oficial da Oceânia. Trata-se de uma redução abrupta do vocabulário de forma que as pessoas não tenham "material" para pensar - já que o pensamento tornou-se crime. Sinônimos e antônimos são podados ano após ano, mas, pelo que consta na história, a língua não "pegou". Nem funcionários do governo nem proletários acostumam-se com o "novo" vocabulário, preferindo ainda o antigo inglês para comunicação. Interessante que há um anexo sobre a língua no final do livro, no formato de texto informativo. Acaba sendo uma forma de "ponte" para a realidade, após o final tão trágico da história. Como se fosse uma mensagem subliminar de que isso estivesse a acontecer.

Temos em nossa sociedade uma mudança vocabular com o intuito de ser o "menos ofensivo" possível. O problema é que quem se ofende é aquele que quer se ofender com o que foi dito, mesmo que a pessoa que fala tem a intenção de ofender. A confusão da frase anterior resume as consequências do que está acontecendo nos dias de hoje. Não existe uma palavra "certa" para as coisas: mesmo a polidez pode ser vista como ofensa. Isso quando não se abre mão das normas ortográficas e gramaticais em nome de modismos, transbordando o léxico de neologismos e redundâncias desnecessárias.

Já o segundo é o controle de informação, na minha opinião o mais grave. Foi por causa dele que decidi escrever o post, sobretudo depois da nova política do Facebook de "etiquetar" informações que considera "verdadeiras ou falsas". A questão não é só política. Qualquer fato "inconveniente" pode ser considerado falso - simples assim. Direciona-se, então, o que as pessoas podem acreditar ou não - como se a Oceânia estivesse sempre em guerra com a Lestásia ou com a Eurásia. Lembra aquela discussão de infância se Papai Noel existe de fato ou não - no final, era escolha da criança (ou mesmo do adulto) acreditar ou não.

O nível de evolução influi no alcance da percepção das pessoas, consequentemente na sua visão de verdade. Quanto mais evoluída, mais próxima da Verdade a pessoa está, simples assim. Não significa que existam várias verdades, nem que uma é melhor do que a outra: é uma questão de percepção. Mesmo a pessoa mais evoluída entende que impor sua visão de verdade sobre o outro não o auxilia em sua evolução - aliás, uma pessoa evoluída não impõe sua visão sobre os demais, esta acaba por se estabelecer sozinha (e os outros não aceitarem).

A questão não é uma notícia ser falsa ou não, mas no que a pessoa pode (ou não) acreditar que é verdadeiro ou falso. Já surgem na rede indicativos de falhas na "avaliação" de notícias, e no tendenciosismo das mesmas. Nem entro no caso de ser uma ideologia política ou não, mas numa manobra ampla de imposição de poder e influência que as pessoas não se defendem ou reagem. Não vejo uma saída massiva do Facebook ou mesmo uma busca por alternativas. Como disse anteriormente, aceitar é diferente de conformar-se, assim como ser flexível é diferente de resistir.

Uma tendência coletiva comum é se deixar levar pela opinião e percepção de outras pessoas ao invés de formular a própria. No entanto, é mais valioso possuir sua própria visão, por mais limitada que seja, do que seguir a de outrem. Mesmo se tratando de "guias", "gurus" e afins - estes te mostram um caminho, mas você criará o seu. Pretendo delongar no post que citei anteriormente meus temores deste livro tão profético, onde o espírito e as emoções inexistem, além de a mente ser dilacerada dia após dia.

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