terça-feira, 10 de julho de 2018

Culpa e Responsabilidade


Há um pouco mais de quatro anos atrás escrevi um post sobre a questão da culpa e da responsabilidade e há alguns dias atrás tive uma discussão sobre a responsabilidade da vítima. Percebi que as pessoas tendem a não entender, ou mesmo não aceitar, que a vítima também tem responsabilidade sobre o que ocorre em sua vida. É algo automático: joga-se a culpa no "agressor", no "autor", seja lá o nome que se dê, e a vítima é carregada no colo e colocada em uma redoma de vidro, impedindo-a de tomar qualquer atitude. Falar que ela teve parte no infortúnio chega a ser "ofensivo", afinal, ela não teve culpa de nada.

Aí que está a questão: ninguém tem culpa de nada, e as pessoas tendem a confundir esta com a responsabilidade. Primeiramente, culpa não é responsabilidade. Culpa é um sentimento extremamente negativo e doentio, que não traz aprendizado, muito menos contribui com o processo evolutivo. Torna a vítima mais vítima e o "culpado" mais culpado ainda. Interessante notar que a culpa é sempre de um, nunca de todos: este irá receber uma punição sobre o ocorrido, geralmente desproporcional ao merecido e mesmo ao necessário, com o agravante de que não há oportunidade de aprendizado. O "culpado" gera mais culpa, além de rancor, desembocando em uma postura vingativa, ainda mais negativa.

Responsabilidade é um ponto de mudança, de consciência sobre o ocorrido. Quando a responsabilidade é assumida, abrem-se as portas do aprendizado e do crescimento, promovendo a verdadeira mudança. Dizer que não existe punição é um pouco exagerado, afinal, assumir a responsabilidade do feito não isenta a pessoa de sua devida punição - sobretudo num âmbito legal -, mas a mesma muda de figura, tornando-se caminho para o amadurecimento. E todos têm responsabilidade, oportunidades de aprendizado, mesmo aqueles que julgam não ter envolvimento com o ocorrido. A vítima não é mera injustiçada: ela deve avaliar conscientemente o que a levou para aquela situação, ao invés de jogar o peso da culpa no outro.

Interessante notar que ao apontar isso, as pessoas usam como exemplo as situações mais trágicas que conhecem como uma forma de dizer que aquilo foi "independente de sua vontade". Não existem acasos, por menos que faça sentido o desenrolar de um fato. É a postura como um todo, é o contexto da situação. Não deve ser visto como "se o agressor não tem culpa, a culpa é da vítima", como se a culpa tivesse que ser de uma pessoa só. Muito menos deve ser visto como "se a responsabilidade é de todos, a vítima deve ser punida": esta já teve seu infortúnio pela sua postura e consciência. Cabe a ela aprender com o que ocorreu e crescer com isso, por mais doloroso que seja.

A pessoa que se recusa a aprender acaba por passar pela mesma situação diversas vezes, mesmo que com roupagens diferentes. Ela pode escolher entre aprender com aquilo e quebrar o círculo vicioso ou continuar a passar por aquela situação até dizer chega. Geralmente quando isso ocorre e ela decide por fim assumir a responsabilidade por si, o salto de consciência é imenso, pois toda aquela espiral negativa é revertida transformando-se em uma mola evolutiva. Obviamente discordo de uma pessoa o fazer de forma deliberada, mas isso é uma sugestão interessante para quem se encontra nessa situação e finalmente percebe que jogar a culpa no outro não resolve nada.

0 comentários:

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Ao clicar em enviar, aparecerá uma caixinha de confirmação.