terça-feira, 25 de setembro de 2018

Como ler um livro


Há uma obra muito interessante chamada Como ler um livro, no original How to read a book, do professor Mortimer Adler. Ele tinha por princípio a implantação das artes liberais (aquelas da Idade Média) no ensino escolar, numa época em que a educação americana começava a passar por distorções e a perder qualidade - o próprio autor reclama disso em seu livro. O autor argumenta que é essencial que uma pessoa saiba ler para assim adquirir todo o conhecimento de que precisa, mas não apenas absorver palavras passivamente, e sim raciocinar e refletir sobre o que é exposto pela obra, relacionando com experiências e outras obras.

Não vou discorrer sobre seu método de ler um livro, mas faço uma sugestão: a primeira edição possui um método mais genérico e mais simples. A segunda edição acaba complicando as coisas e quer criar métodos para cada tipo de livro. O próprio autor não gosta de resumos ou esquemas de obras: um livro bom é compreensível para todos, sem auxílio - o leitor toma notas do que considera importante para ele para usar como auxiliar. O método chega a ser intuitivo em algumas partes, mas a racionalização do mesmo aumenta sua importância, e mesmo sua eficácia.

Os clássicos assim o são por serem compreensíveis para o grande público, não necessitando de grande conhecimento teórico sobre o assunto - ao contrário do que se imagina hoje em dia. Ler uma grande obra requer capacidade de raciocínio e atenção, algo que vem com o exercício da leitura, e não do diploma acadêmico. Muitos acabam por fugir dos clássicos por considerarem estes complicados ou inacessíveis, recorrendo a resumos e esquemas, que muitas vezes distorcem as obras originais.

Por outro lado, não são todas as obras que devem ser lidas de forma tão profunda, por dois motivos: ou não há tempo hábil, devendo ser relida depois com maior atenção, ou por ser ela muito ruim mesmo. Esses dias eu estava refletindo sobre alguns livros que não leio por inteiro. Muitos comentam que os livros devem ser lidos até o fim, por pior que sejam, ou você não terá argumentos válidos para rejeitá-lo. No entanto, não se toma uma dose completa de veneno para saber se este é ruim ou não: nas primeiras gotas já são percebidos seus malefícios. Obviamente não dá para fazer uma análise completa sobre a má qualidade da obra, mas interromper sua leitura é motivo suficiente para uma avaliação negativa.

Com tanto livro bom por aí, perder tempo com resumos e obras ruins não faz muito sentido. Entenda uma obra ruim como uma obra mal escrita, que não explica ou argumenta, mais próxima a um panfleto do que a um livro. Pessoalmente, acho difícil uma obra começar ruim e terminar boa: o contrário é mais fácil de acontecer, e, dependendo do livro, não chega a ser tão decepcionante assim. Ideias precisam de contexto. Discursos precisam ser analisados. O livro te livra chega a ser uma frase bonita e interessante para o momento. Ao inseri-la no contexto deste post, percebe-se a reserva de mercado a qual pertence: não seriam todos os livros, e, indo além, não seriam só os livros.

O livro em si não é um processo libertador: é a própria pessoa que se liberta. Nesse caso, não existe separar joio do trigo em um primeiro momento: você come ambos, digere ambos, seu organismo aproveita uma parte e descarta o resto. Não é o caso da leitura prazerosa, afinal o objetivo desta é o deleite - se o livro estiver desagradável, você pega outro e ponto.

É aquela sensação de entrar em uma livraria e achar que ao ler todos aqueles livros o leitor tornar-se-á uma pessoa melhor. Porém, conforme lê títulos e mais títulos, a mudança não ocorre, ou ocorre para outra direção, imprevista mas imperceptível. No final das contas, o conhecimento e a sabedoria vêm de uma fonte além dos livros: há pessoas que exalam sua evolução com uma bibliografia diminuta, às vezes inexistente. Ao longo do tempo percebi que não se pode deixar levar pelo conhecimento, e sim utilizá-lo de forma consciente.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Um pouco sobre a Beleza

Depois de a Fifa proibir a filmagem de mulheres bonitas em jogos oficiais, acabei por assistir ao documentário Por que a Beleza importa do filósofo Roger Scruton. Nessa toada, percebi que ainda não escrevi um post sobre o assunto, dando apenas algumas pinceladas em outros posts. A Beleza perdeu lugar no mundo em nome do utilitarismo e do egoísmo se fomos pensar: há pessoas que preferem o Feio abertamente, criticando e julgando aqueles que buscam o Belo; e há outras pessoas que acham o belo pouco funcional.


Há pessoas bonitas e feias, em uma questão de gosto pessoal; até aí, isso faz parte do instinto humano de buscar um par para reprodução. No entanto, dentro de todas as pessoas, e de todos os seres, há uma Beleza primordial, oriunda da criação de Deus. Tudo o que Deus criou é belo, e o afastar-se de Deus promove a Feiura - mas o Belo continua lá, escondido, adormecido. Talvez esse exemplo prático ajude a distinguir o que o Scruton comenta sobre o amor erótico e o amor platônico. Essa distorção é o que torna os relacionamentos vazios e frívolos, que são muito bem ilustrados pelas músicas de baixa qualidade de hoje em dia...

Interessante as pessoas afirmarem com tanta convicção que Beleza é questão de gosto: não, não é. Assim como a Verdade, a Beleza é fruto da percepção: quanto mais evoluída, e mais apurada, for a percepção de uma pessoa (seu nível evolutivo), mais próxima da Beleza ela se encontra, assim como da Verdade. Ou seja: falar que a Verdade é relativa e a Beleza é questão de gosto torna-se desculpa de uma pessoa que se recusa a evoluir.

Porque o Belo está dentro de si não significa que ele está presente - ele precisa ser despertado e expressado. E isso é algo absolutamente natural, ou seja, essas "transformações" que vemos em programas de televisão são totalmente falsas. A pessoa apenas colocou uma máscara sobre sua própria incapacidade de descobrir a própria beleza - descobrir e aceitar. Esse ponto é delicado e requer atenção: porque a pessoa precisa expressar sua beleza natural não significa que deva ser desleixada com ela mesma, o que é tão falso quanto se encher de tintas sem motivação interna.

Ao se prestar atenção à Beleza das coisas, a própria Beleza interior é despertada. Isso faz parte do Zen Budismo e da contemplação amorosa do Olavo de Carvalho. Descobre-se o quão feio este mundo se tornou - o quanto as pessoas se afastaram de Deus -, e impulsiona a essa busca da Beleza, que foi incrivelmente retratada n'O Silmarillion. A Beleza tira a pessoa do automatismo e a põe em contato com a Realidade, ou com a Verdade, se preferir. Por isso ao se apaixonar verdadeiramente o amado é tão belo: ele possui esse brilho, esse quê de divino, que nos leva de volta ao que realmente somos.

Eu nem preciso comentar que isso é evoluído por si só, nem fazer referência a Hawkins, que calibra os clássicos em níveis tão elevados. O Belo é algo que se sente, está além da descrição pelas palavras, por isso há várias formas de Arte, caminhos pelos quais a pessoa pode sentir o Belo. Uma obra interessante que enfatiza isso é Sobre Histórias de Fadas do Tolkien. Será que nosso mundo está como está por nos afastarmos de Deus e da Sua Beleza?


O Belo é Bom e Verdadeiro. O Verdadeiro é Belo e Bom. O Bom é Belo e Verdadeiro. Se há uma falha nessas três premissas, é porque algo não é verdadeiramente bom, belo ou verdadeiro. Era algo que eu gostaria de refletir em um post futuro, mas vou adiantar algo do que penso sobre: não faz sentido algo ser Verdadeiro se não for Belo e Bom; não há nada Bom que não seja Belo e Verdadeiro; e não há nada Belo que não seja Bom e Verdadeiro. Parece um jogo de palavras, mas é algo tão simples que muitos passam a vida procurando entender.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Os siddhis, os milagres e o paranormal


Assisti a um vídeo muito tosco no YouTube. Não vou passar o link para não dar confusão, nem vou descrever muita coisa para não haver dedução de qual vídeo estou falando, ao contrário do que o próprio cara faz. Isso vai de encontro com o que eu estudei sobre Projeção Astral, parapsicologia e, sobretudo, com os motivos que me fizeram parar de estudar, e mesmo de praticar. Estão ligados à percepção e ao nível evolutivo que a pessoa tem, ou seja, não deveria ser algo forçado ou mesmo treinado. Quando é pra acontecer, simplesmente acontece dentro do fluxo do Universo.

Hawkins comenta em seus livros sobre os siddhis, fenômenos "sobrenaturais" que lembram os milagres dos santos católicos e os fenômenos psi da parapsicologia. São espontâneos, frutos do nível evolutivo da pessoa, ocorrendo em escala muito menor em pessoas menos evoluídas. Ou seja, não são nem acasos muito menos provocados conscientemente pela pessoa: simplesmente acontecem devido às circunstâncias. Começam a aparecer de forma efetiva no nível 500, Amor, quando a pessoa supera "razões e emoções" e passa a agir com um propósito maior. Não significa que ela deixa de raciocinar ou mesmo de ter emoções, mas sabe trabalhá-los não só para si, mas para as outras pessoas também.

Com isso se pode chegar a várias conclusões: o "sobrenatural" é um mero natural para uma percepção mais elevada, ou seja, não tem graça alguma. Se não tem "graça", não é um diferencial, devendo ser levado a sério, como uma bênção, uma dádiva, e não como uma "habilidade" a ser treinada. Ao invés de "praticar", deve ser trabalhada a própria evolução da consciência, deixar-se levar pelo fluxo do Universo, independente de acontecer algo diferente ou não.

Interessante notar que alguns "praticantes" de projeção astral ou mesmo pessoas que "treinam paranormalidade" buscam um propósito maior como objetivo. Para ter melhores resultados, recomendam desenvolver o amor incondicional, superar preconceitos, entre outras coisas que apontam a uma progressão do nível de consciência. Esses grupos acabam restritos a programações de suas reservas de mercado, e a prática associada à baixa percepção e um nível reduzido de consciência transforma factoides em viagens a outros planetas e conversas com seres inexistentes.

Repare que existe um imaginário comum de outras dimensões, que varia entre as reservas de mercado. Pode-se supor que são frutos do acúmulo dos relatos estudados e não da percepção de cada "praticante". Uma pessoa de nível de consciência elevado não vai obrigatoriamente ter um contato com o outro lado. Se o tiver, fugirá dos padrões consagrados pela literatura. Por isso há tantas contradições onde não há certezas pautadas em correntes de conhecimento evoluídas, além de pouca seriedade.

Como disse em outros posts: uma pessoa evoluída é normal como qualquer outra, possui suas alegrias, tristezas, fica de mau humor até. A diferença está na percepção dessas oscilações e na consciência sobre. O processo evolutivo beneficia muito mais a si mesmo do que aos outros, por isso fica a questão se realmente vale a pena. Inconscientemente, quem está perto de uma pessoa evoluída sente a diferença: é comum sentir-se bem, apesar do incômodo da elevada vibração.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Pérolas aos porcos

Quem nunca teve a sensação de estar certo em uma multidão de errados? Ou de ser a única pessoa acordada no meio de tantos que dormem? Isso dá a falsa sensação de que a situação é contrária: eu estou errado, eles estão certos; eles estão acordados, eu estou dormindo. Acaba minando um pouco a autoconfiança, mas é só continuar o processo para ter certeza de que, realmente, as pessoas estão dormindo, as pessoas não entendem, ou qualquer outra expressão que prefira usar. Evolução é um troço meio egoísta e cruel, como pode perceber.


Egoísta porque só você entende, raramente encontrando alguém que consiga enxergar também. A luz irradiada começa a ofuscar quem está em volta, e as pessoas começam a se afastar e a te rejeitar por isso. Você acha que irá ajudar muita gente com o conhecimento adquirido e que as coisas melhorarão para todos, mas é o contrário que acontece: as pessoas acabam por preferir a própria ignorância, achando que você é o involuído da questão.

Cruel porque você no final passa por cima das pessoas que simplesmente não entendem o que está acontecendo e acabam por te atacar como uma forma de se defender. A força gera a compreensão, mas sem aceitação a mudança não ocorre. Pessoas evoluídas tendem a elevar o nível de consciência de quem está em torno. Como a tendência é nivelar para baixo, a situação é desconfortável. Só se sente realmente bem quem se deixa levar, quem realmente sabe que aquilo é bom.

Parece presunçoso e vaidoso fazer essas observações para quem desenvolveu a consciência. Aí está a armadilha: as pessoas acham (ou querem fazer você achar) que humildade é se diminuir ao máximo. Humildade é assumir quem realmente é, sobretudo os "pontos fortes", sem vaidade (a afamada modéstia). Assumir que pode fazer, que cresceu, é mérito seu, que não podem tirar, apesar de tentarem apagar. Obviamente não é pavonear ou "esmagar" os outros com isso.

Ser evoluído não significa ser perfeito, estando a pessoa sujeita a falhas como qualquer outra. A forma de lidar com elas que é diferente. Geralmente o vitimista acha que tem que ser pajeado, mimado, e faz resistência ferrenha a qualquer mudança. Quando evolui, a pessoa deixa de lado essa postura, buscando se melhorar e se adaptar - é o que promove a mudança da situação como um todo. Ela talvez precise ser amparada, na fase de luto, mas não ser conduzida, como se não pudesse caminhar com as próprias pernas.