terça-feira, 16 de outubro de 2018

O 1984 da vida real


Como comentei anteriormente, uma obra que me marcou muito – quase um trauma – foi o livro 1984, um clássico da literatura mundial. O trauma não foi só pelo tom pesado que permeia a trama como um todo, mas pelo seu realismo: como se a humanidade caminhasse a passos largos em direção a uma sociedade semelhante a cada dia que passa. Recentemente terminei o livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin, o que acabou me inspirando a melhorar o artigo que havia escrito anteriormente sobre o livro de Orwell.

O livro de Bernardin mostra como a reforma educacional que estava em vigor na França (creio eu que ainda esteja) não tinha por objetivo melhorar o ensino e o aprendizado, mas sim formatar as pessoas desde a mais tenra idade para submeter-se a um regime global. Isso é claramente perceptível no Brasil com a educação doutrinária e a queda dos índices educacionais. O objetivo não é mais transmitir conteúdo, conhecimento, muito menos formas de adquiri-lo, mas evitá-lo, formatando a mente em processos de lavagem cerebral.

Não tem como não lembrar o próprio filme Matrix, onde as pessoas vivem presas a um sistema de computador, enquanto seus corpos estão encapsulados fornecendo energia às máquinas. O próprio agente Smith comenta que safras de humanos foram desperdiçadas ao tentar-se criar um mundo perfeito para viverem. Então aquela versão do sistema seria um ambiente mais “natural” para uma pessoa sobreviver – sob controle total.

Por menos que eu acredite em livre-arbítrio, eu ainda acredito que a individualidade da pessoa deve se sobrepor a uma coletividade amorfa. Percebe-se que um dos principais alvos de ataques dentro dessa revolução mundial, parafraseando Utena, é a religião. Esta não é uma mera fuga da realidade, mas um guia que mantém a sociedade em ordem, e mesmo um refúgio quando todo o resto encontra-se desordenado. As ideologias políticas mais vorazes de hoje em dia buscam suplantar a religião, seja negando-a ou distorcendo-a.

No 1984 não existe religião: a única igreja que aparece está em ruínas e nem uma nota sobre é feita. Ela é apenas um ninho de pombos e ratos, além do esconderijo do protagonista e sua namorada. Assim como não existe religião, o próprio amor é sufocado: na terceira parte, não se busca apenas destruir a mente de Winston, mas o próprio espírito. O ápice da tortura é quando ele trai o próprio amor que sente, acabando com qualquer esperança de mudança que possa haver.

Essa parte merece uma reflexão mais profunda. O Amor é o remédio contra todos os males do mundo e a principal forma de conexão com Deus - e a religião um dos melhores caminhos para tal. Duas coisas inexistentes em 1984, o que permite uma ditadura total. Para que controlar corpos se pode-se controlar mentes? Pode dar mais trabalho, ou não, mas causa menos destruição - e muito menos resistência. Como é contado na segunda parte do livro, o mundo passa por dez bombas atômicas, e então a sociedade toma os moldes vigentes. Se é pesado escrevendo, imagine lendo ou visualizando.

Essa é a minha preocupação que se agravou com o Maquiavel Pedagogo: o controle mental está vigente a pleno vapor, e as pessoas não percebem. Como já devo ter dito em outros posts, ou dado a entender, é mais fácil deixar-se levar do que ter consciência do que está ocorrendo, contudo a responsabilidade é a mesma. Em 1984, as pessoas vivem apaixonadas pelo Grande Irmão e pela guerra constante, sem ao menos questionar por que ela não acaba, ou por que não existe paz além do nome do ministério.

Por falar em vapor, a noção de verdade perde-se na ficção. Existe uma repartição pública dedicada a alterar textos, livros, reportagens, e tudo o mais, para adaptar-se ao presente. Não existe História, e o desenrolar do tempo, se existe, é totalmente artificializado. Winston não tem ideia do ano em que está – talvez 1984. Morpheu não sabe explicar a Neo em que ano estão, apesar da Nabucodonosor ter sido fabricada em 2099. Por mais que o tempo seja mera ilusão, a maioria das pessoas ainda depende dele para situar-se na vida, o que não tem nada de errado. Distorcer o tempo, sobretudo o Passado, é mais uma forma de tirar toda e qualquer base na qual possa existir oposição. Os opositores que ousam surgir, ou mesmo pessoas que manifestem um mínimo de má vontade, são apagadas da História, principalmente dos registros. Como se ela nunca tivesse nascido.

Uma característica interessante nos tempos reais de hoje em dia é o sufocamento das oposições. Hoje não se pode discordar de nada, por melhores que sejam seus motivos. Você não pode dizer que o aquecimento global antropogênico não existe, ou mesmo discordar dos novos planos de educação. Discordar tornou-se sinônimo de ofensa – como eu já disse, as pessoas se ofendem por qualquer coisa hoje em dia. De uns tempos pra cá surgiram pessoas conscientes da necessidade de oposição: mesmo a Ciência precisa de opositores para que as pesquisas se desenvolvam.

Por falar em Ciência, no 1984 a tecnologia é esparsa, com exceção dos métodos de controle. Apesar dos prédios em ruínas e da péssima qualidade de vida, os ministérios ostentam tecnologia: seja para editar obras, para mentir números, para controlar e torturar pessoas. A famosa teletela transmite informação ao mesmo tempo em que vigia a casa das pessoas, sem descanso. Os próprios filhos são educados a espionar os pais (!), que acham bonito, por sinal. Ou seja, a família também deixa de ser refúgio contra a massificação completa da população.

Temo que hoje em dia a tecnologia seja literalmente relegada para esse tipo de coisa. Em alguns estudos vê-se que a alimentação "orgânica" não tem capacidade para sustentar a população mundial, podendo causar uma catástrofe. Na mesma toada, a alimentação "tradicional" não seria tão negativa quanto pregam na escola, talvez necessitando mais de manutenção e melhoramento constantes do que de críticas e alternativas. Imagine áreas como a medicina, nas quais a tecnologia é necessária dia após dia. Um detalhe é que nada é dito sobre hospitais, saúde ou doença no livro.

A educação traz uma nova forma de linguagem, e mesmo a popularização da destruição da língua. Em 1984, está em pleno desenvolvimento a novilíngua ou novafala, algo que já comentei em outro post. A ideia é bloquear o fluxo de pensamento das pessoas, evitando que pensem, e consequentemente reflitam e questionem - o famoso pensamento-crime. As ideias na sociedade de hoje passam por problemas literalmente cognitivos. As pessoas desaprenderam a pensar e a conversar, tornando-se mais vulneráveis ainda a qualquer forma de manipulação, e prato cheio para essa conspiração mental.

Enquanto houver fé, amor e consciência, as coisas poderão ser revertidas, creio eu. Conhecimento tornou-se tão vital quanto uma alimentação balanceada e atividade física. Defesa pessoal é dever de todos. Uma grande lição da Aceitação é aceitar que o 1984 pode tornar-se realidade em algumas décadas. Não significa concordar, mas tomar consciência da angústia que isso gera, aprendendo a dar espaço às emoções sem que estas interfiram na reflexão e na tomada de decisões.

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