terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Interstate 60 - Viagem sem Destino

Do mesmo criador da trilogia De Volta para o Futuro, Interstate 60 ou Viagem sem Destino é um filme que lembra muito Matrix, tendo até os protagonistas com nomes homófonos: Neal e Neo. As semelhanças não param aqui: ambos os filmes falam sobre a abertura da percepção para possibilidades nas quais as pessoas são condicionadas a não perceber. Os protagonistas saem de seus mundinhos para conhecer a vida como ela é: seja em um mundo fantástico (a interestadual 60), seja no próprio mundo real (fora da Matrix).

Interstate 60 possui uma linguagem simples e direta, ao contrário de Matrix, que acaba por pedir um cabedal de conhecimentos para entendê-lo em sua profundidade. Porém, assim como Matrix, Interstate 60 também é carregado de simbolismos que renderiam posts e mais posts - e que talvez não levem a lugar algum. Deixando as comparações de lado, Viagem sem Destino conta a história de um guri, Neal Oliver, que quer uma resposta, um rumo para sua vida. Vindo de uma família abastada, não consegue a bolsa de arte tão almejada por não ter o padrão ideal para tal (todo mundo sofre preconceito, viu?).

Enquanto isso, seu pai Daniel, um renomado advogado, abre caminho para Neal na carreira jurídica, projetando nele seus sonhos e desejos, coisas que não têm nada a ver com o rapaz. Esta pressão possui um agravante e um atenuante: o primeiro é sua namorada, mais interessada no que sua rica família tem a oferecer do que o próprio guri; o segundo seria a irmã, que conseguia entender o problema, tentando ajudar Neal no que estava ao seu alcance. A mãe de Neal é claramente mero complementar de seu marido: a mulher do advogado.

As coisas começam a mudar quando um curioso personagem cruza o caminho de Neal: O. W. Grant, mestiço de leprechaun e índia norte-americana que possui a capacidade de realizar desejos. Ele é apresentado no prólogo do filme, como o único personagem da "mitologia americana" capaz de realizar desejos, ao contrário de outras culturas milenares. Grant pode ser comparado a Morpheu, com sua capacidade de mostrar a realidade para as pessoas, que, em geral, não possuem maturidade para vê-la. Nos casos de Neal e Neo, foi necessário esse choque de realidade, seja para que Neal pudesse dar um rumo a sua vida, sabendo como ela realmente é, seja para que Neo pudesse dar um fim à guerra entre máquinas e humanos.

Acho interessante como a realidade é mostrada a Neal: através de um sonho. Eu sei que essa parte fica clara apenas no final do filme, quando ele acorda novamente no hospital, mas é necessário apontar isso agora para mostrar que começam a ocorrer uma série de coincidências que vão lhe mostrando o quanto a mente das pessoas é condicionada a determinadas reações e mesmo determinadas visões de mundo. A Interestadual 60 é então apresentada como uma via onde vários fluxos de possibilidades se encontram, para pessoas que estão atentas a esses fluxos. É necessário que Neal faça uma entrega no dia combinado, devendo atravessar a estrada, com tempo suficiente para conhecer suas paradas e cidades.

Estes locais estão relacionadas ao que acontece na vida de Neal, como o uso de drogas, a cidade dos advogados, e mesmo o assassino que estaria em seu encalço. Este ponto fica em suspenso por quase toda a estrada, mas adianto que não há relação com o agente Smith. Matrix aborda o autoconhecimento dentro de uma perspectiva externa: a guerra entre humanos e máquinas. Viagem sem Destino tem por ponto principal uma viagem por uma estrada "imaginária" rumo ao autoconhecimento, vendo a própria vida sob outros aspectos.

Gostaria de destacar algumas paradas da viagem que considero importantes para analisar. Analisar todas as paradas tiraria a graça do filme, e eu pessoalmente não considero alguns pontos interessantes a tal ponto de serem abordados aqui.

Como fazer a cabeça das pessoas
O filme faz uma reflexão sobre como a mente das pessoas é manipulada e condicionada a perceber e a reagir de determinadas maneiras. Duas cenas interessantes podem ser comentadas sobre: o teste do Dr. Rey quando Neal acorda e a primeira "parada" na estrada. Rey é primo do Grant, e ele quem dá o pontapé inicial da aventura de Neal, ou, melhor dizendo, os dois pontapés iniciais. A primeira parada na estrada, após Grant embarcar no carro de Neal, é um pedido de carona de uma piriguete, que quer ter a "noite de amor perfeita", por assim dizer (vai que o Google me censura por isso).

Neal acorda no hospital e é avaliado por um profissional que faz um teste interessante de cartas: falar qual o naipe da carta apresentada, cada vez mais rápido. Se o então paciente acertou as primeiras, ele acaba por errar as últimas, por conta do automatismo de sua mente: as pessoas são condicionadas pela experiência, e mesmo pelo ambiente, a verem de determinada maneira, deixando de ver detalhes importantes, ou mesmo as coisas como realmente são. Veja pelas pessoas que negam determinado fato como criam factoides sobre o mesmo.

A consciência do condicionamento mental permite que o rapaz consiga ver detalhes que eram ignorados pelas outras pessoas. São estes detalhes que levam o rapaz novamente ao Dr. Rey, que o contrata para fazer uma entrega na Interestadual 60, além de fazê-lo chegar na tal estrada, desconhecida por todos, real para alguns.

Logo após entrar na estrada, Neal aceita dar carona a duas pessoas: O. W. Grant e a piriguete citada anteriormente. A guria começa a encher a paciência de Neal, que acaba por expor a verdadeira situação: ela não procura algo "especial" ou "perfeito", era apenas o prazer pelo prazer. Não era a busca por um ideal, mas a busca por mais um nome em seu caderninho. Para quem estava começando a conhecer os fluxos da estrada mágica, foi uma boa invertida, expondo a verdade por trás de argumento tão convincente.

Em busca do filho perdido
Uma mulher pede ajuda a Neal para encontrar seu filho de 12 anos. Encontram-no em uma cidade vizinha, dominada pelo consumo de uma droga. Ao tentarem tirar a criança de lá, são impedidos pela polícia, que explica que a alternativa que encontraram para combater o tráfico e o consumo de entorpecentes foi a própria cidade monopolizar a tal droga, controlando seus citadinos através do consumo, sobretudo reduzindo a maioridade para 12 anos. Se a mulher quisesse ver seu filho novamente, teria que se mudar para a cidade ou mesmo se viciar.

Se não fosse uma comédia, e o filme é vendido como tal, talvez o filme pudesse ser classificado como um suspense, ou mesmo drama. Neal recusa-se a "participar do esquema", inclusive recusa uma "recompensa" pela mulher ter escolhido se drogar para estar ao lado do filho, tornando-se mais uma "escrava" da cidade. Apenas pede um lugar para dormir, o qual paga com o próprio dinheiro, e vai embora ao amanhecer.

Dois pontos existem de interessantes nesta parte: o primeiro é sobre a própria questão do vício e da criminalidade. Ao invés de serem formadas pessoas mais maduras e fortes mentalmente, livres de vícios, acabam por tornar-se vítimas dos mesmos. Há a questão de levar vantagem sobre os outros também: por que ao invés de libertar de um vício, não usá-lo como controle social? Este é o segundo ponto: para manter a "ordem", a administração da cidade acaba por "monopolizar" a venda, usando a droga como instrumento de chantagem para manipular os habitantes, degradando ainda mais a situação.

A cidade dos advogados
Talvez a parte que eu mais tenha gostado do filme. Neal mal entra na cidade e é acusado de um crime que obviamente não cometeu, sendo forçado a contratar um advogado para que o defenda. Então ele percebe que quase todos os moradores da cidade são profissionais da lei: juízes, promotores e advogados. Não pela ordem, ou pelo amor pelas leis, mas para extorquir dinheiro uns dos outros, através de indenizações e multas, independentemente da verdade dos fatos. Por trás de títulos e argumentos, insegurança e falta de autoconfiança.

Quem acaba por resolver a questão é o supersincero que força a todos a dizer a verdade, sob a ameaça de explodir tudo. Não deixa de ser uma boa metáfora: a verdade vale a própria vida. Pela Verdade, sacrifícios devem ser feitos, e o resto não importa. Neal é absolvido e segue seu rumo, afinal, ainda há uma entrega por fazer.

Aqui eu faço uma observação: é nesta cidade que Neal encontra o amor da sua vida, a moça dos outdoors que o guiaram por quase toda a jornada. Pessoalmente, não acho importante estender-me nesse ponto. É mais um episódio da história, como o do Museu de Fraude da Arte, que é uma crítica não só à falta de beleza, como também à falta de senso estético vigente. Querer comentar sobre cada detalhe, por mais que existam, é gastar tempo e palavras com observações e reflexões pouco férteis.

Enfim, o assassino
Como Rey havia alertado quando da assinatura do contrato, havia um assassino no encalço de Neal. Poucas vezes ele tomou conta de seus pensamentos, apesar da gravidade. O problema só toma corpo quando do último trecho da jornada, em que havia uma importante decisão a ser tomada: levar a namorada junto, correndo o risco de perdê-la, ou deixá-la em local seguro, podendo nunca mais vê-la. Neal escolhe a segunda alternativa, e o assassino começa a dar sinais de proximidade: uma blitz sugere que mude o rumo, enquanto que a rádio anuncia uma perseguição policial a um carro com as características do de Neal.

Vem à tona a principal característica da Interestadual 60: uma via de fluxos de vida, onde as possibilidades se encontram. Neal entrou em contato com vários aspectos de sua vida ao longo da estrada, mas agora precisa decidir se vai seguir um novo rumo ou não. O carro do assassino tinha as mesmas características do carro de Neal, inclusive uma mancha de tinta branca, e estava a seguir a mesma direção na estrada. Para não ser confundido, Neal acaba por tomar uma importante decisão: jogar o carro em um precipício, assim evitaria ser confundido com o tal criminoso.

Esse ato possui uma importante carga simbólica: não é só um carro que é destruído, mas abre-se mão de um destino que não é pretendido, mas que nunca foi totalmente recusado. Neal não possuía confiança para seguir o próprio caminho, e acabava por aceitar as sugestões do pai. Desta vez, destruir o carro foi também uma atitude de independência da própria vida. O tal assassino é visto então colidir com a barreira policial: Neal não resiste à curiosidade e pergunta por sua história. Era um rapaz que havia matado o pai após ter surtado: estava de saco cheio da vida e das escolhas que havia feito. Pegando um termo bem passado: morre o velho Neal e nasce um novo Neal, como em Matrix, olha só.

Epílogo
Não há muito o que dizer do final: Neal entrega o pacote e acorda do sonho. Acorda novamente no hospital, e as cenas sucedem-se de forma diferente: Neal está seguro do que quer para a vida, e reencontra a amada dos sonhos no mundo real. Nada de surpreendente, depois de tudo o que passou e aprendeu. Eu poderia até continuar com as semelhanças com o Matrix, mas aí o filme tornar-se-ia um Matrix hibernizado (do latim Hibernia, Irlanda), na falta de expressão melhor, já que a trama em si lembra contos de fadas com seus lugares surreais e personagens fantásticos.

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