terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Você entendeu a trilogia Matrix?


É comum as pessoas usarem a trilogia Matrix como referência para uma série de coisas. No entanto, a maioria delas apenas "teria entendido" somente o primeiro filme, e ainda assim de forma superficial, reduzindo a complexa sequência de filmes em uma alegoria moralizante. Isso chega a ser mais vulgar do que a mera análise dos efeitos especiais que os filmes possuem, que são um espetáculo à parte, diga-se de passagem. Para mostrar o incrível mundo das mentes humanas, nada como uma nova dimensão de imagens e sons.

Matrix é muito mais complexo e profundo do que de imagina, e, principalmente, expõe coisas que a maioria das pessoas não quer ver, e que uma boa parte não tem maturidade para tal. Seria melhor para os incautos assistirem aos filmes como uma mera diversão de efeitos especiais, mas mesmo o próprio enredo exige maturidade para ser compreendido. Matrix não é uma trilogia para qualquer um: mesmo os mais eruditos "escorregam" ao analisá-la. Interessante como três filmes demandam anos para entendimento, muitas vezes incompleto.

Não é possível falar sobre Matrix sem citar os famosos spoilers. Primeiro porque esta que escreve não gosta de dissociar análise de analisado, e, segundo, pela trama estar também carregada de significados nos mínimos detalhes. Um exemplo interessante para ilustrar esta premissa é a presença da cerveja mexicana Sol. A bebida possui por slogan "Espírito livre" em português. No começo do primeiro filme, quando do primeiro encontro com Trinity, Neo está a beber uma garrafa desta cerveja. Perto do final do mesmo filme, ao Neo perceber-se como o escolhido, há uma propaganda da mesma bebida no metrô: as pontas se unem, o espírito se liberta do sistema.

Desenrolar a trama a partir de uma marca de cerveja pode conduzir a uma embriaguez mental que pouco poderá contribuir para o restante dos filmes, mas já ajuda a perceber a intensidade na qual todos foram elaborados. Por isso que resumir o primeiro filme à "alegoria da caverna" de Platão é destacá-lo dos outros dois, praticamente "matando a história". A famosa alegoria é parte da trama, mas dos três filmes, de certa forma: Neo sai da "caverna" e vê o mundo "como ele é", mas acaba por sacrificar-se pelo status quo para evitar um mal maior. A tal realidade, além das inúmeras máquinas, é constituída por uma cidade promíscua e decadente, Zion. A única coisa que une seus habitantes é a guerra contra as máquinas que foram criadas pelos ascendentes destes humanos séculos antes.

A trilogia Matrix reflete sobre consequências ligadas à mente humana, através da programação, literal e metaforicamente. O "pano de fundo" cibernético, conhecido também por cyberpunk, é único para retratar essa metáfora, ou seja, a mensagem a ser transmitida não teria a mesma nitidez em outro ambiente. Talvez o termo programação descreva melhor a trilogia do que alegoria da caverna. Tudo é programado: máquinas, pessoas, sistemas. Mesmo os erros são previsíveis e possuem o seu lugar. O que não está prevista é a própria atitude humana, imprevisível e determinante. O diálogo entre Neo e o Arquiteto no segundo filme é tão profundo quanto os profundos diálogos entre Neo e Morpheus no primeiro.

Existiram seis Neo que bugaram o sistema, e que permitiram a reconstrução de Zion mesmo após sucessivas destruições. O atual Neo, Thomas Anderson, não é um ponto fora da curva previsível. Mesmo as imprevisões fogem do esperado: trocar a destruição da Matrix pela vida de Trinity, ver o código-fonte de um sistema fora do sistema, além da famosa cena da derradeira luta contra o Agenda Smith "bugado", em nome de humanos e máquinas. Não vejo pessoas conversarem sobre isso, nem escreverem sobre isso: e querem se dizer "especialistas em tirar as pessoas do sistema".

Ao se realmente analisar, estudar, refletir sobre o filme, descobre-se que não há o que ser entendido, mas sim sentido e vivido. O que se pode chamar de entendimento é praticamente impossível de escrever com palavras, apesar de tantas neste post. Pessoas não tiram pessoas da Matrix é algo que se pode concluir do que escrevo aqui: é um processo natural, espontâneo, e, principalmente, individual. Só com isso caem as centenas de escritos, vídeos e mesmo artigos para se sair do sistema.

Para piorar, e enlouquecer alguns, você não sai do sistema: você continua vivendo nele, com a sua própria programação, podendo, inclusive, transitar entre sistemas, algo que muitos não sabem. Ou seja, sair do sistema pode significar apenas uma entrada em outro, com outras reservas de mercado e tudo o mais. Só que como a pessoa acha que se libertou definitivamente, não passa em sua mente a possibilidade de engano.

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