terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dissonância cognitiva: um comentário sobre


Uma das primeiras coisas que vêm à mente quando se fala de lavagem cerebral é alguma ficção, seja um livro, seja um filme, mas uma história na qual as pessoas têm as mentes reprogramadas para agir e pensar dentro de determinado padrão. Mesmo quando eu falo de guerra psicológica, fica um cheiro de ficção no ar, como se só houvesse uma possibilidade remota de tornar-se real.

A manipulação de mentes, além de real, é mais fácil do que se imagina. Antes de tudo, uma especificação: a mente é manipulada e trabalhada o tempo todo, das mais variadas formas. No caso deste post, a manipulação mental refere-se às reprogramações feitas com intuitos escusos por parte de terceiros. A dissonância cognitiva é uma das formas mais sutis, e mais comuns, de manipulação mental, feita em larga escala no mundo todo ao longo das décadas. Chega a parecer um roteiro de filme de ficção científica, mas é apenas o dia a dia da realidade.

A dissonância cognitiva é um processo no qual é gerada uma tensão mental na mente de uma pessoa, forçando-a a fazer algo que não concorda. O inconsciente, para aliviar a tensão, busca concordar com aquilo para aliviar a tensão, fazendo com que a pessoa mude de opinião sem saber. Aquilo que era rejeitado pela pessoa no início passa a ser considerado normal ao longo do tempo, sem que ela perceba que fora manipulada para tal. Inclusive a vítima acredita que isso foi fruto de seu estudo e desenvolvimento.

Esse procedimento é usado principalmente com jovens, afinal, eles possuem a mente mais aberta para manipulações e uma consciência reduzida para defender-se de ideias estranhas à sua programação. Uma das formas nas quais é provocada tal tensão é forçar o aluno a escrever redações com conteúdo diverso à opinião do aluno. De tanto escrever coisas nas quais discorda, acaba por finalmente concordar e desenvolver aquilo na mente. Outro exemplo é a forma na qual o conteúdo televisivo é apresentado: coloca-se o conteúdo discordante em um personagem bom, geralmente o herói; ou mesmo o assunto é tratado no final da história (filme, série ou novela), forçando o espectador a assistir, e de certa forma a aceitar.

Se for mais fundo, a dissonância cognitiva está em todo o lugar. Um romance pode ter uma dissonância cognitiva no meio da trama, totalmente fora de assunto; o jornal pode ser organizado, e mesmo diagramado, para causar contradições mentais e assim forçar um pensamento totalmente estranho ao leitor; mesmo o discurso de pessoas públicas pode ser montado para tal coisa. A solução "mais prática" é a menos eficiente: cortar toda e qualquer fonte de tensão mental. Isso isola a pessoa em uma bolha, tornando-a ainda mais vulnerável a este tipo de ataque.

A solução mais eficiente requer tempo e maturidade: o desenvolvimento da consciência. Antes de tudo, saber que qualquer coisa pode induzir uma manipulação mental, ou seja, trazer para a consciência qualquer tentativa de mudança de opinião. Deve-se ter certeza de que aquilo foi realmente fruto de um raciocínio elaborado pela pessoa ou algo introduzido artificialmente por outrem. O desenvolvimento da consciência permite que essas "iniciativas" tornem-se visíveis e neutralizadas com facilidade. Você pode, então, passar pelas dissonâncias cognitivas sem que haja a tal tensão inconsciente, evitando que sua opinião seja alterada dessa forma.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O amor-próprio e as blusinhas


Nesses dias, comentaram na internet sobre uma menina que havia escrito o seguinte post: "se as pessoas realmente se amassem e se aceitassem como são, imagine quantas empresas fechariam..." O contexto da situação é de uma menina que claramente não se ama e não se aceita, indo na onda do esquerdismo como forma de compensar suas fraquezas emocionais e mentais. Muitos já comentaram sobre essa questão do comércio e dos fluxos econômicos, afinal, comprar uma blusinha (que ela se refere no post) faz girar a "roda da economia", fazendo com que várias pessoas possam sustentar a si e a suas famílias, direta e indiretamente.

Vou focar no ponto do amor-próprio, pois foi algo que passou batido e percebo que muitas pessoas passam por isso sem dar a devida atenção. A ausência de amor-próprio e de autoconfiança está cada vez mais visível e presente nas pessoas, como se desaprendessem a se amar ao longo das gerações. Se antes as pessoas ainda se esforçavam por cuidar de si para se dar o mínimo de amor e atenção, hoje o desleixo ganhou força e as pessoas procuram aceitação através de outras pessoas expondo a própria vitimização.

No outro lado da situação, temos a pessoa que investe em demasia em si mesma e a pessoa que investe "na medida certa". No primeiro caso, existe a falta de amor, mas como dito antes, ela se esforça em se amar: essas "mudanças de visual" têm por finalidade a aceitação de si. O problema é o excesso de gastos para a pessoa ficar deprimida logo depois. O problema não está nos cosméticos que usa nem nas blusinhas que veste, mas se ambos estão em harmonia com o que a pessoa se percebe e se gosta. Além do mais, existe a questão social, na qual direciona a pessoa a apresentar-se de uma forma "melhor compatível" em determinados lugares.

Já no segundo caso, a pessoa investe em si porque realmente se ama e se aceita como é. Há uma diferença entre ser largado e ser desleixado: o largado investe em si na medida certa e sem remorso; já o desleixado busca a economia como uma desculpa para não investir em si mesmo, como uma casa que vai acumulando pó ao longo dos dias. Já dizia o gyosei 80, Poeira: "Não deixes o pó acumular-se por muito tempo. Torna-se difícil de o limpares". Aí quando a casa está naquele estado caótico, e a pessoa decide finalmente dar cabo da bagunça, lá se vão dinheiro, tempo e esforço para pôr tudo em ordem. É a mesma coisa com a própria pessoa.

E isso vai de encontro com o potencial acerolático: você se ama, você investe em si, melhora o ambiente, permitindo que mais pessoas se amem. Não é só o dinheiro que permite que outras pessoas possam viver bem, mas o seu amor-próprio e sua autoconfiança permite que outras pessoas possam dar o seu melhor. Existem diferenças entre gastar em demasia em busca de aceitação (de si e dos outros), gastar de forma consciente, e mesmo evitar de gastar por mero desleixo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Modas do futuro


Repare na expressão profissão do futuro: sempre há uma profissão que "será tendência" nos próximos anos, fazendo com que as pessoas gastem tempo e dinheiro para tornarem-se os melhores peritos nela e assim serem bem sucedidos na área. O que poucos prestam atenção é que o futuro mal chega a tornar-se presente para já ser um passado obsoleto e pouco produtivo. Obviamente, isso não é só assim com o mercado de trabalho, como também é com as tendências em geral.

Vejo isso com as tendências da internet: você tem uma novidade na qual um grupo seleto de pessoas são bem sucedidas, tornando-se famosas e ganhando bastante dinheiro. Quando essa novidade se populariza, torna-se algo sem graça e sem retorno, enquanto desponta uma "nova novidade" na qual outro grupo seleto se destaca. Note que esse grupo seleto é praticamente escolhido para "divulgar" a novidade: mesmo pessoas que começaram antes a seguir a tal tendência são eclipsadas por esse grupo.

Se você ainda não percebeu, lembra a escravidão do filme Matrix: pessoas sendo usadas como pilhas. Estas gastam tempo, dinheiro, energia e seja lá mais o que for para, no final das contas, correr atrás de outra tendência, sofrer outro prejuízo, na esperança de que vai ser tudo diferente, dessa vez vai dar certo. Quantos blogueiros tornaram-se youtubers para ganhar mais dinheiro? E quantos blogueiros realmente ganharam dinheiro, ou mesmo ganham alguma coisa com seus blogs?

Note que esse tipo de coisa tem por alvo o público mais jovem, inculcando uma programação que é arrastada ao longo dos anos, nas sucessivas crises. Como o jovem não tem ideia da crise que está passando, esta se acumula com as seguintes. Poderia até ser chamada de síndrome de Seu Madruga: tenta-se de tudo, não tem sucesso em nada. O motivo: as pessoas não são programadas para serem bem sucedidas na vida, mas para correrem atrás de um "sucesso" efêmero e restrito a pessoas escolhidas previamente.

Isso abre uma questão importante: como atingir a satisfação pessoal em algo, independente da opinião alheia? Note que aqui não estou falando de fazer sucesso como se imagina. A questão está em realmente viver a vida, sem seguir as "tendências". Eu tenho um blog porque gosto de escrever, e sei que meu blog não será um "sucesso". Não é questão de "ah, vou melhorar tais e tais coisas para ampliar o acesso", mas sim de "acho que essa imagem realça o que eu escrevi neste post". Colocar amor no que se faz não é uma mera força de expressão, mas realmente fazer o que gosta e gostar do que faz.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Crises de vida - a "manutenção periódica" do ser


A pessoa possui um impulso inato de sair do sistema, uma espécie de Neo interior. Ao longo da vida, esse impulso a faz questionar o mundo que a rodeia, podendo causar rupturas ou uma fixação definitiva no sistema. Seria um bug da programação que força a pessoa a fazer uma manutenção periódica de sua vida para lidar com sua crise. Essa crise ocorre a cada dez anos aproximadamente, vindo como que em ondas, atingindo o apogeu e amainando em vales. Essas ondas infelizmente são tratadas de forma generalizada, com o intuito de reinserir a pessoa no sistema, e geralmente são conhecidas como crises da adolescência, da meia-idade, entre outras.

Claro que essas crises podem ser postergadas ou adiantadas, conforme a situação de vida da pessoa. Uma pessoa mais madura pode antecipar suas crises ou as trabalhar de forma menos dramática. O casamento, ou mesmo o trabalho, podem adiar as tais crises e as acumular a ponto de serem desencadeadas de uma vez. O sistema força a um padrão de vida, ou a uma faixa de padrões, que quando uma pessoa o questiona é "direcionada" a voltar. Praticamente todos os tratamentos são formas de manutenção da pessoa dentro do sistema.

Interessante que por mais evoluída que seja a pessoa, ela irá passar por essas crises, pois fazem parte de seu corpo. Isso mostra que mesmo iluminados têm problemas, maus hábitos e defeitos. Não vou entrar no mérito de que o iluminado digere melhor uma crise do que uma pessoa de nível baixo de consciência, porque isso abre espaço para uma visão idealizada da iluminação, e eu gostaria de deixar uma visão mais humana da mesma. Ninguém quer atingir a iluminação propriamente dita, apenas pavonear um estado de falsa perfeição.

Assim como a crise é uma manutenção para manter a pessoa no sistema, a crise também pode ser a melhor oportunidade de sair do mesmo, principalmente nas primeiras. Apesar de a pessoa ser imatura para entender o processo, ela está mais aberta a novas possibilidades, mais flexível. O questionamento deve ser levado como um processo individual, único, não como uma crise coletiva de hormônios. Esse processo individual que torna a pessoa o que ela realmente é, não um mero produto da programação, rigorosamente encaixado, sem chance de fuga.

Quem consegue escapar desse controle, entra em um processo de solidão. A pessoa se sente isolada, mas com a incrível capacidade de ver a situação em diversos ângulos, sem se deixar levar por discursos, aparências, ou mesmo pela programação. O problema é que a solidão é um fardo a ser carregado, e conviver com pessoas imersas no sistema apenas agrava a situação, forçando a pessoa a voltar ao seu estábulo. O ideal é conseguir depositar essa solidão em alguém, que o escute sem julgamentos, de preferência fora do sistema. Dessa forma, a pessoa percebe que ela é normal, e sobretudo que é livre para fazer suas escolhas, independente da faixa de padrões.

A crise permite que o questionamento mude o ser. Enquanto o sistema se utiliza disso para controlar as pessoas cada vez mais, sobretudo nas idades mais avançadas, a pessoa pode usar disso para se libertar, independente dos rótulos que possa ser marcado depois. Repare nas pessoas que buscam cuidar de si após determinada idade: são vistas como imaturas, ao contrário das frustradas que abriram mão de seus sonhos em nome de um ideal que era mais externo do que interno. Quando a pessoa atinge a maturidade e a autonomia livre do sistema, ela pode realizar seus sonhos mais puros e sinceros de forma completa e feliz.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Fable: entre o bem e o mal


Taí um jogo em que eu tive muita dificuldade de entender. Apesar de antigo, é possível considerá-lo atemporal: é um jogo que trabalha valores e a responsabilidade sobre as decisões tomadas. Ao contrário da maioria dos jogos, em que você é impelido a tomar determinadas atitudes, em Fable você tem uma gama de opções a seguir, porém você sofrerá as consequências de cada ato que realizar, boas ou más. Este jogo não é para relativistas ou desconstrucionistas: mesmo à época, o jogo recebeu uma má avaliação por seu realismo. Se tomar atitudes más, tornar-se-á um monstro; se tomar atitudes boas, tornar-se-á um herói. E a vida é assim, apesar do que tentam incutir hoje em dia.

Fable é um jogo de computador relativamente leve, com seus 2,5GB aproximados, para a quantidade de recursos existente. Tantos recursos e comandos que exigem praticamente o uso de todo o teclado, apesar de que um joystick para ser útil para locomoção. Se bem que com teclados e mouses gamers, a tarefa fica menos penosa. Diferente dos RPG's, em que você escolhe um perfil predeterminado ao criar o personagem, em Fable o personagem vai se desenvolvendo aos poucos, podendo se tornar o que o jogador queira: um guerreiro, mago, comerciante, pai de família, etc.

Ao longo do jogo, você é obrigado a tomar decisões boas ou más, que lhe darão pontos positivos ou negativos. Esses pontos meio que representam seu caráter, e com isso você pode se tornar um herói, um cara qualquer (digamos oportunista) ou um monstro. No primeiro caso, as pessoas te amam e te respeitam; no segundo, você fica à mercê das reviravoltas do jogo; no terceiro caso, no entanto, todos têm medo de você, inclusive os vilões. É uma questão de tomar as decisões corretas, como disse antes: se tomar atitudes boas, tornar-se-á um herói; se tomar atitudes más, tornar-se-á um monstro. Imagino algumas pessoas jogando e não entendendo por que seu personagem é odiado se só tinha uma boa intenção.

É um jogo que requer maturidade por conta da dissonância cognitiva que ele gera. Para quem não sabe, a dissonância cognitiva é um fenômeno psicológico no qual a pessoa gera uma "tensão mental", por assim dizer, por conta de uma atitude que toma, mesmo sem concordar. Para amenizar tal tensão, o inconsciente passa a concordar com tal conceito, e a pessoa acaba por mudar de opinião sem perceber. É uma estratégia utilizada nas escolas para fomentar determinadas programações e visões de mundo, como já devem conhecer. Agora imagine essa dissonância cognitiva no jogo: você toma atitudes que considera inocentes, mas que acabam por mexer lá no fundo, causando mudanças dentro e fora do jogo.

Como a mente não diferencia realidade de ficção, tomar atitudes más, criar um monstro dentro do jogo é a mesma coisa que se tornar um monstro "na vida real". Obviamente você não ficará repugnante na aparência como no jogo, ou mesmo não destruirá cidades inteiras ao seu bel prazer, mas não verá os atos negativos que está fazendo. No jogo, você pode se redimir, e voltar a ser uma pessoa comum, mas não conseguirá se tornar um herói, assim como você pode escorregar como herói e se tornar um homem comum. Aliás, a arma mais poderosa do jogo você só consegue atingindo a maldade máxima, imagine o porquê, assim como você pode imaginar o motivo de o herói não precisar de uma arma assim.

Fable só termina quando você mata o grande vilão. Enquanto isso, você vive em uma espécie de Second Life ou mesmo The Sims. Comparando os três jogos, apesar de Fable situar-se em um mundo fantástico, ele é muito mais realista que os outros dois, por conta do fator responsabilidade ser tão marcante. Além da dissonância cognitiva, suas cenas de combate são realistas demais, podendo chegar ao gore até. Não é um jogo para fracos ou curiosos. Para finalizar, este jogo lembra os filmes Jumanji: quando o jogo torna-se uma realidade a ser vivida, com a finalidade de voltar para "o mundo real". Mesmo não tendo a profundidade de Fable, os personagens voltam com uma grande carga de experiência e aprendizado, passando pela tal dissonância cognitiva comentada anteriormente.