terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Crises de vida - a "manutenção periódica" do ser


A pessoa possui um impulso inato de sair do sistema, uma espécie de Neo interior. Ao longo da vida, esse impulso a faz questionar o mundo que a rodeia, podendo causar rupturas ou uma fixação definitiva no sistema. Seria um bug da programação que força a pessoa a fazer uma manutenção periódica de sua vida para lidar com sua crise. Essa crise ocorre a cada dez anos aproximadamente, vindo como que em ondas, atingindo o apogeu e amainando em vales. Essas ondas infelizmente são tratadas de forma generalizada, com o intuito de reinserir a pessoa no sistema, e geralmente são conhecidas como crises da adolescência, da meia-idade, entre outras.

Claro que essas crises podem ser postergadas ou adiantadas, conforme a situação de vida da pessoa. Uma pessoa mais madura pode antecipar suas crises ou as trabalhar de forma menos dramática. O casamento, ou mesmo o trabalho, podem adiar as tais crises e as acumular a ponto de serem desencadeadas de uma vez. O sistema força a um padrão de vida, ou a uma faixa de padrões, que quando uma pessoa o questiona é "direcionada" a voltar. Praticamente todos os tratamentos são formas de manutenção da pessoa dentro do sistema.

Interessante que por mais evoluída que seja a pessoa, ela irá passar por essas crises, pois fazem parte de seu corpo. Isso mostra que mesmo iluminados têm problemas, maus hábitos e defeitos. Não vou entrar no mérito de que o iluminado digere melhor uma crise do que uma pessoa de nível baixo de consciência, porque isso abre espaço para uma visão idealizada da iluminação, e eu gostaria de deixar uma visão mais humana da mesma. Ninguém quer atingir a iluminação propriamente dita, apenas pavonear um estado de falsa perfeição.

Assim como a crise é uma manutenção para manter a pessoa no sistema, a crise também pode ser a melhor oportunidade de sair do mesmo, principalmente nas primeiras. Apesar de a pessoa ser imatura para entender o processo, ela está mais aberta a novas possibilidades, mais flexível. O questionamento deve ser levado como um processo individual, único, não como uma crise coletiva de hormônios. Esse processo individual que torna a pessoa o que ela realmente é, não um mero produto da programação, rigorosamente encaixado, sem chance de fuga.

Quem consegue escapar desse controle, entra em um processo de solidão. A pessoa se sente isolada, mas com a incrível capacidade de ver a situação em diversos ângulos, sem se deixar levar por discursos, aparências, ou mesmo pela programação. O problema é que a solidão é um fardo a ser carregado, e conviver com pessoas imersas no sistema apenas agrava a situação, forçando a pessoa a voltar ao seu estábulo. O ideal é conseguir depositar essa solidão em alguém, que o escute sem julgamentos, de preferência fora do sistema. Dessa forma, a pessoa percebe que ela é normal, e sobretudo que é livre para fazer suas escolhas, independente da faixa de padrões.

A crise permite que o questionamento mude o ser. Enquanto o sistema se utiliza disso para controlar as pessoas cada vez mais, sobretudo nas idades mais avançadas, a pessoa pode usar disso para se libertar, independente dos rótulos que possa ser marcado depois. Repare nas pessoas que buscam cuidar de si após determinada idade: são vistas como imaturas, ao contrário das frustradas que abriram mão de seus sonhos em nome de um ideal que era mais externo do que interno. Quando a pessoa atinge a maturidade e a autonomia livre do sistema, ela pode realizar seus sonhos mais puros e sinceros de forma completa e feliz.

2 comentários:

  1. "Quem consegue escapar desse controle, entra em um processo de solidão. A pessoa se sente isolada, mas com a incrível capacidade de ver a situação em diversos ângulos, sem se deixar levar por discursos, aparências, ou mesmo pela programação. O problema é que a solidão é um fardo a ser carregado, e conviver com pessoas imersas no sistema apenas agrava a situação, forçando a pessoa a voltar ao seu estábulo. O ideal é conseguir depositar essa solidão em alguém, que o escute sem julgamentos, de preferência fora do sistema. Dessa forma, a pessoa percebe que ela é normal, e sobretudo que é livre para fazer suas escolhas, independente da faixa de padrões."
    Perfeito!!!!!!!

    Ass: (Pseudo) Professor

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