terça-feira, 26 de março de 2019

Procurando os limites da zoeira


Estou há algum tempo pretendendo escrever sobre a querida zoeira, esta que causa tanta confusão, mas é tão divertida. O problema está nas constantes reclamações sobre seus limites, cada vez mais estreitos, fazendo divisa firme com a ofensa. Até que ponto a zoeira é brincadeira e a zoeira é ofensa? Já comentei em outro post sobre a fluidez do respeito, pensando naquelas pessoas que ofendem conscientemente mas respondem "foi uma brincadeira". Ou seja, muita coisa que poderia ser engraçada torna-se ofensiva e vice-versa.

O covarde usa a brincadeira para esconder sua ofensa, isso é verdade: talvez seja essa a origem da zoeira. O bobo da corte era aquele cara que falava as verdades que ninguém tinha a coragem de contar e todos davam risada. O comediante, por assim dizer, é aquele que ofende de forma tal que nem todas as pessoas se sentem ofendidas e algumas até acham graça, reduzindo a quantidade de ofendidos. A coisa mudou de figura, certo? Só de pensar assim, já se conclui que a zoeira tem que ter limites, já que é algo ofensivo, mas isso não é certo por dois motivos: há coisas engraçadas realmente inócuas, e as pessoas perderam a noção do que realmente é ofensivo ou não.

Estou tentando escrever alguns posts que acabam por centrar-se na questão de percepção: uma percepção mais ampla permite uma visão mais acurada da situação, colocando-a no devido contexto. Ver que há pessoas que se ofendem com trivialidades mostra o quão inseguras são em relação ao mundo, não que se deve ter cuidado ao fazer uma zoeira. Por outro lado, há coisas que são muito engraçadas sem ofenderem ninguém, mas precisam de uma visão mais ampla de mundo e uma maturidade que poucos têm. Limitar a zoeira, então, acabaria por tirar a graça do que realmente é engraçado (e não ofensivo).

Talvez desmascarar a ofensa disfarçada de brincadeira ajuda a separar o que é engraçado do que é ofensivo. Não é algo relativo, como alguns querem fazer acreditar, mas sim bem definido. No entanto, relativizar as diferenças permite que possa haver esse jogo de ofender sem suscitar a ira alheia, e mesmo que a pessoa fique indignada, esta que passa por uma saia justa, e não quem ofendeu. Pode-se concluir, então, que zoeira tem limites, e dentro destes limites toda brincadeira é válida. Fora desses limites, o respeito deve ser regra.

Zoar é divertido, e muito. Infelizmente há situações nas quais a pessoa se ofende por besteiras, como disse antes, mas para isso, a sinceridade de intenções mostra que realmente não foi essa a intenção, ao contrário daquele que ofende, que se aproveita da sinceridade alheia para seu fim pernicioso. Interessante que pessoas mais maduras acham graça até nas ofensas dirigidas a elas, para desespero de quem ofendeu, que acaba se sentindo ofendido no final das contas.

terça-feira, 19 de março de 2019

O rebanho, a matilha e o Porquinho Atrapalhado


Eu já havia escrito no blog que as pessoas são mero gado, não possuem autonomia nem discernimento para atingir tal estado, tornando-se suscetíveis ao controle de qualquer um que tenha disposição para tanto - geralmente com intenções escusas. Por mais que haja um esforço para desenvolver uma maturidade, uma autonomia nas pessoas, a tendência é que elas continuem a agir como rebanho, de forma instintiva e inconsciente. Mesmo quando essa pessoa acha que saiu do rebanho, na verdade ela está mais dependente e muito mais vulnerável do que estava antes.

O termo gado é meio pesado de usar para essa situação, concordo, mas acredito que esse é um bom sinônimo, já que o utilizei em outro post. São um grupo de animais coletivistas-egoístas, por assim dizer, pois querem uma vida boa para si mesmos através do grupo, ou seja, vivem em grupo apenas pelo próprio bem estar. Não se importam se o outro está bem, ou mesmo se o grupo está com problema, a menos que influencie diretamente a própria situação. Também não gostam de matilhas, que vou abordar depois, pela ferocidade aparente e pela coordenação em grupo que o rebanho não possui, apesar de sonhar com isso.

Quando uma pessoa de rebanho se desgarra do grupo, põe pra fora a agressividade e o egoísmo que já carregava dentro de si, tornando-se mais agressivo, mais egoísta, e mais vulnerável, como eu já tinha dito antes. A pessoa de rebanho não sabe viver por si, por isso depende da agressividade. Uma curiosidade: ao contrário do que dizem, o ser humano não é o único animal que mata por matar; animais desgarrados de rebanho também o fazem. Ou seja, mais outra falha de calibragem do Hawkins, que coloca os animais de rebanho como mais evoluídos que os de matilha.

Então vamos falhar das matilhas! Diferente dos rebanhos, elas agem em um coletivismo-altruísta, sempre pelo bem do grupo, mesmo que neste grupo exista um rebanho a ser pastoreado. Enquanto que o gado abandona um membro em perigo, a matilha busca auxiliá-lo até conseguir resolver a situação, mesmo que custe a vida de outros membros. Hawkins explica que a involução se encontra na atitude predatória de carnívoros, ou seja, pelo simples fato de comer carne, sem levar em conta o estilo de vida que o grupo vive. Os animais de rebanho têm uma visão curta ao que está acontecendo em torno, ao contrário dos animais de matilha, que percebem muito além - por isso uma associação ao misticismo.

Note que um cão pastor, um animal de matilha inserido num contexto de rebanho, trabalha a todo custo para proteger seu gado. Mapeia os perigos para evitar que o rebanho sofra algum dano, e o defende com a própria vida de predadores. O cão pastor tem no seu dono um líder e protetor, por isso a lealdade sem par existente no animal. Contudo, para proteger o rebanho, é necessário força e atitude, latidos, rosnados e algumas mordidas. Isso é desagradável, mas necessário. Se cada animal do rebanho se dispersar para um lugar, este acaba. O cão e o pastor ainda podem se virar juntos, mas o rebanho não.

Aí que entra o Babe, o porquinho atrapalhado: um animalzinho de rebanho sem família que sonha em ser pastor de ovelhas. Ele é aceito pelos cães pelo único motivo de os humanos o aceitarem - entenda isso. Interessante a forma com a qual Babe pastoreia as ovelhas: com muita educação, orientando-as para onde devem ir. Para o filme, isso é muito fofo e dá certo. Na vida real, lembra a ação de lobos em pele de cordeiro que se disfarçam para se aproximar de suas presas. Esse jeito meiguinho não defende rebanho nenhum de predadores, parecendo muito mais uma estratégia dos mesmos do que a ação de alguém com boa intenção.

Um protetor verdadeiro não vai ser sempre um cara legal, mas o mal intencionado sempre irá aparentar um companheirismo inexistente. Isso o rebanho não vê, por isso acaba preferindo o segundo ao primeiro. Deve-se lembrar que o pastor, no final das contas, é uma figura adorada, porém considerada distante pelo seu rebanho, apesar de o cão pastor o considerar próximo como um semelhante. Isso mexe com a vaidade das pessoas-rebanho, que acreditam ser mais que meras ovelhas, quando na verdade são mesmo meras ovelhas, balindo e ruminando.

terça-feira, 12 de março de 2019

Escondendo o ouro


Enquanto eu rascunhava um post sobre a diferença entre postura e estereótipo, este post surgiu com uma determinada urgência em escrevê-lo. Eu já sabia que as artes marciais, em especial o Kung Fu estão em ampla decadência, mas hoje veio à tona o real motivo de isso estar acontecendo: não é a baixa procura per si, não é por conta de outras lutas estarem na moda (modas vêm e vão), muito menos por motivos técnicos (há pessoas que são fascinadas por Kung Fu). O que repele as pessoas das academias que ainda existem é a vaidade insistente nos praticantes, sejam eles mestres ou alunos, fora o controle da circulação de informação, impedindo que mais pessoas aprendam e que o conhecimento se difunda.

Não estamos mais em uma época em que o conhecimento em mãos erradas causava desastres para todos. O conhecimento transmitido pela internet, principalmente as redes sociais, faz com que qualquer pessoa possa aprender qualquer coisa. O que um esconde é facilmente revelado por outros, que não têm a vaidade de limitar a difusão. Contudo, quando é padrão de determinado ramo cercear a informação, nem a internet pode contribuir para a sobrevivência desse ramo. Como treinar Kung Fu se quase não há o que se falar sobre, pois o que se pergunta não é respondido?

Entenda esse conhecimento do Kung Fu como todo o conhecimento da arte marcial: formas (taolus), manejo de armas, técnicas de combate, exercícios, acrobacias, etc. Ou seja, se não há pessoas divulgando esse conhecimento, o mesmo tende a desaparecer. E muitos acabam por preferir o fim do que a continuidade em outras mãos que não as suas. Aí que está o problema: a restrição de informação existente no meio marcial tem por finalidade forçar a submissão de alunos a níveis humilhantes. Alguns anos de experiência no meio marcial revelam casos de alunos agredidos por professores, tentativas de puxar o tapete para ganhar vantagens...

Se por um lado existe a justificativa de que tal pessoa não estaria pronta para progredir, por trás existe quase sempre a vaidade de não permitir que o outro aprenda e cresça mais do que ele. Ao invés de as academias tornarem-se espaços de companheirismo e valores, acabam se tornando tão acirradas quanto alguns ambientes de trabalho. Uma pessoa, sobretudo aquela que não tem tempo para se dedicar a arte marcial como alguns mestres acreditam que deveria ser (parecem alguns professores de faculdade, que desprezam alunos que trabalham e estudam), quer um tempo e espaço para descontrair do nervosismo pelo qual tem que conviver diariamente.

A maioria dos praticantes (remanescentes?) de Kung Fu não quer saber de campeonatos, badalação, competições. Querem aprender uma arte diferente, seus meandros cada vez mais profundamente. Imagine treinar anos a fio, e pior que descobrir que tudo aquilo foi em vão, descobrir que não aprenderá mais coisas por não ser digno, simples assim? Ou começar a ser boicotado pelos próprios professores e mestres por não ser um atleta de competição e não poder ser exposto como um troféu? Sim, há academias que hierarquizam seus alunos entre atletas e não-atletas, sendo estes últimos deixados de lado, servindo como meros pagantes e mantenedores do espaço.

Quando o aluno resolve aprender mais por conta também sofre boicote. A impressão que dá é a de que ele só pode aprender aquilo que a academia leciona, e mesmo assim com restrições: um colega, por exemplo, não pode ajudar, não pelo fato de ele não ter experiência, mas para não criar vínculos de amizade. Os cursos extras, que muitas academias vendem (sim, você paga por fora), acabam sendo restrito aos alunos de campeonato, ou aos queridinhos. Sem contar que estes dois grupos muitas vezes nem pagam mensalidade ou as provas de faixa para graduar-se, sendo sustentados pelo grupo que tem apenas o interesse em aprender, mas não ostentar.

Eu já havia falado sobre o acesso ao conhecimento ano passado, mas agora eu o estou mostrando por outro ângulo. Enquanto que o conhecimento pode ser mal utilizado por pessoas de pouca percepção, fazendo uma ponte, mostrei como algumas pessoas fazem mal cerceando o acesso ao conhecimento. Isso lembra a experiência patética que passei no Voluntariado Emílio Ribas: pessoas cerceando o acesso ao conhecimento prático por mera vaidade. Interessante que estas pessoas, tanto as do Reiki quanto as do Kung Fu, acusam os outros de arrogância e vaidade, quando na verdade estão elas projetando as próprias falhas em pessoas humildes e esforçadas.

terça-feira, 5 de março de 2019

Sobre vício em música


Há algumas semanas, caí na real: eu sou viciada em música. Ao invés de tê-la como mero entretenimento ou muleta psicológica, finalmente percebi que a música, de forma geral, estava conduzindo a minha vida. Eu estava me deixando levar pelo que eu estava ouvindo, fazendo coisas que não gostaria de ter feito. Talvez tenha sido uma dissonância cognitiva constante, e só tenha percebido agora.

O fato é que eu percebi, e esse é um passo importante para tomar controle da situação. Já fazem alguns dias que não estou ouvindo música, no máximo alguns programas de rádio e videoaulas, e passei a refletir sobre esse vício e mesmo sobre os vícios em si. Para quem não sabe, música pode ser tão viciante quanto drogas. A pessoa não percebe que está viciada, cada vez mais e mais dependente. Pode ser por um estilo de música, por uma banda ou mesmo por um álbum. Aquilo passa a viver com ela e ditar suas atitudes, mesmo sem saber.

Interessante notar que, como em qualquer vício, há uma ilusão de que você pode parar a qualquer momento, e uma realidade de que você não consegue parar com aquilo. Você acha que vai parar com aquele som quando quiser, que irá se enjoar um dia e acabar ouvindo por acaso anos depois: isso foi o que aconteceu a vida inteira comigo. Contudo, dessa vez o som não parou, por mais que eu quisesse. Mesmo trocando de música, eu voltava ao meu vício. No começo, tratei meu problema como algo pequeno até o dia em que percebi que era necessária uma atitude madura minha. E parei de ouvir música por enquanto.

Desse fato pude notar que passei minha vida inteira ouvindo música para me proteger do mundo exterior, para não ouvir o que eu considerava desagradável. Sem música, passei a ouvir mais as pessoas e a aceitar o que elas tinham a me dizer. É doloroso trabalhar com um problema de tão profunda gravidade, mas o alívio e o aprendizado sobre valem a pena. Mesmo após essas semanas, sinto ainda a fragilidade pela ausência do som da música. Talvez daqui a alguns anos eu possa ter a música como algo no qual eu possa me entreter sem tantos riscos.

Outro aprendizado importante que tirei com isso foi que qualquer coisa que nos dá prazer e contentamento pode nos viciar, já que o que vicia não é o objeto, mas o neurotransmissor referente à sensação (infelizmente não encontrei eu vídeo de referência sobre para linkar aqui). Por isso que não adianta trocar o vício por outra forma de contentamento: tornar-se-á vício também. Isso também explica por que algumas pessoas se apegam a determinados comportamentos, como os vitimistas, os raivosos, etc. O problema está no neurotransmissor liberado por aquele comportamento, não pelo comportamento em si. Superar isso requer coragem, evolução e maturidade.