terça-feira, 12 de março de 2019

Escondendo o ouro


Enquanto eu rascunhava um post sobre a diferença entre postura e estereótipo, este post surgiu com uma determinada urgência em escrevê-lo. Eu já sabia que as artes marciais, em especial o Kung Fu estão em ampla decadência, mas hoje veio à tona o real motivo de isso estar acontecendo: não é a baixa procura per si, não é por conta de outras lutas estarem na moda (modas vêm e vão), muito menos por motivos técnicos (há pessoas que são fascinadas por Kung Fu). O que repele as pessoas das academias que ainda existem é a vaidade insistente nos praticantes, sejam eles mestres ou alunos, fora o controle da circulação de informação, impedindo que mais pessoas aprendam e que o conhecimento se difunda.

Não estamos mais em uma época em que o conhecimento em mãos erradas causava desastres para todos. O conhecimento transmitido pela internet, principalmente as redes sociais, faz com que qualquer pessoa possa aprender qualquer coisa. O que um esconde é facilmente revelado por outros, que não têm a vaidade de limitar a difusão. Contudo, quando é padrão de determinado ramo cercear a informação, nem a internet pode contribuir para a sobrevivência desse ramo. Como treinar Kung Fu se quase não há o que se falar sobre, pois o que se pergunta não é respondido?

Entenda esse conhecimento do Kung Fu como todo o conhecimento da arte marcial: formas (taolus), manejo de armas, técnicas de combate, exercícios, acrobacias, etc. Ou seja, se não há pessoas divulgando esse conhecimento, o mesmo tende a desaparecer. E muitos acabam por preferir o fim do que a continuidade em outras mãos que não as suas. Aí que está o problema: a restrição de informação existente no meio marcial tem por finalidade forçar a submissão de alunos a níveis humilhantes. Alguns anos de experiência no meio marcial revelam casos de alunos agredidos por professores, tentativas de puxar o tapete para ganhar vantagens...

Se por um lado existe a justificativa de que tal pessoa não estaria pronta para progredir, por trás existe quase sempre a vaidade de não permitir que o outro aprenda e cresça mais do que ele. Ao invés de as academias tornarem-se espaços de companheirismo e valores, acabam se tornando tão acirradas quanto alguns ambientes de trabalho. Uma pessoa, sobretudo aquela que não tem tempo para se dedicar a arte marcial como alguns mestres acreditam que deveria ser (parecem alguns professores de faculdade, que desprezam alunos que trabalham e estudam), quer um tempo e espaço para descontrair do nervosismo pelo qual tem que conviver diariamente.

A maioria dos praticantes (remanescentes?) de Kung Fu não quer saber de campeonatos, badalação, competições. Querem aprender uma arte diferente, seus meandros cada vez mais profundamente. Imagine treinar anos a fio, e pior que descobrir que tudo aquilo foi em vão, descobrir que não aprenderá mais coisas por não ser digno, simples assim? Ou começar a ser boicotado pelos próprios professores e mestres por não ser um atleta de competição e não poder ser exposto como um troféu? Sim, há academias que hierarquizam seus alunos entre atletas e não-atletas, sendo estes últimos deixados de lado, servindo como meros pagantes e mantenedores do espaço.

Quando o aluno resolve aprender mais por conta também sofre boicote. A impressão que dá é a de que ele só pode aprender aquilo que a academia leciona, e mesmo assim com restrições: um colega, por exemplo, não pode ajudar, não pelo fato de ele não ter experiência, mas para não criar vínculos de amizade. Os cursos extras, que muitas academias vendem (sim, você paga por fora), acabam sendo restrito aos alunos de campeonato, ou aos queridinhos. Sem contar que estes dois grupos muitas vezes nem pagam mensalidade ou as provas de faixa para graduar-se, sendo sustentados pelo grupo que tem apenas o interesse em aprender, mas não ostentar.

Eu já havia falado sobre o acesso ao conhecimento ano passado, mas agora eu o estou mostrando por outro ângulo. Enquanto que o conhecimento pode ser mal utilizado por pessoas de pouca percepção, fazendo uma ponte, mostrei como algumas pessoas fazem mal cerceando o acesso ao conhecimento. Isso lembra a experiência patética que passei no Voluntariado Emílio Ribas: pessoas cerceando o acesso ao conhecimento prático por mera vaidade. Interessante que estas pessoas, tanto as do Reiki quanto as do Kung Fu, acusam os outros de arrogância e vaidade, quando na verdade estão elas projetando as próprias falhas em pessoas humildes e esforçadas.

2 comentários:

  1. Oiis fofix o/
    Eu até entendo querer segurar conhecimento ou parte dele para conseguir alunos, mas segurar conhecimento e escolher entre os que "merece" ou não é filhadaputagem demais. A pessoa está pagando para ter o negocio completo independente pra quê ela queria, e não pra ficar escolhendo entre os que gostam por hobby ou famosinhos. Isso é revoltante.

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    1. Oie, fofix :D

      Pois é, e isso existe em todo lugar. Esses favoritismos destroem com tudo, e depois fica aquela nostalgia falsa de que "já foi bom". Será mesmo?

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