terça-feira, 19 de março de 2019

O rebanho, a matilha e o Porquinho Atrapalhado


Eu já havia escrito no blog que as pessoas são mero gado, não possuem autonomia nem discernimento para atingir tal estado, tornando-se suscetíveis ao controle de qualquer um que tenha disposição para tanto - geralmente com intenções escusas. Por mais que haja um esforço para desenvolver uma maturidade, uma autonomia nas pessoas, a tendência é que elas continuem a agir como rebanho, de forma instintiva e inconsciente. Mesmo quando essa pessoa acha que saiu do rebanho, na verdade ela está mais dependente e muito mais vulnerável do que estava antes.

O termo gado é meio pesado de usar para essa situação, concordo, mas acredito que esse é um bom sinônimo, já que o utilizei em outro post. São um grupo de animais coletivistas-egoístas, por assim dizer, pois querem uma vida boa para si mesmos através do grupo, ou seja, vivem em grupo apenas pelo próprio bem estar. Não se importam se o outro está bem, ou mesmo se o grupo está com problema, a menos que influencie diretamente a própria situação. Também não gostam de matilhas, que vou abordar depois, pela ferocidade aparente e pela coordenação em grupo que o rebanho não possui, apesar de sonhar com isso.

Quando uma pessoa de rebanho se desgarra do grupo, põe pra fora a agressividade e o egoísmo que já carregava dentro de si, tornando-se mais agressivo, mais egoísta, e mais vulnerável, como eu já tinha dito antes. A pessoa de rebanho não sabe viver por si, por isso depende da agressividade. Uma curiosidade: ao contrário do que dizem, o ser humano não é o único animal que mata por matar; animais desgarrados de rebanho também o fazem. Ou seja, mais outra falha de calibragem do Hawkins, que coloca os animais de rebanho como mais evoluídos que os de matilha.

Então vamos falhar das matilhas! Diferente dos rebanhos, elas agem em um coletivismo-altruísta, sempre pelo bem do grupo, mesmo que neste grupo exista um rebanho a ser pastoreado. Enquanto que o gado abandona um membro em perigo, a matilha busca auxiliá-lo até conseguir resolver a situação, mesmo que custe a vida de outros membros. Hawkins explica que a involução se encontra na atitude predatória de carnívoros, ou seja, pelo simples fato de comer carne, sem levar em conta o estilo de vida que o grupo vive. Os animais de rebanho têm uma visão curta ao que está acontecendo em torno, ao contrário dos animais de matilha, que percebem muito além - por isso uma associação ao misticismo.

Note que um cão pastor, um animal de matilha inserido num contexto de rebanho, trabalha a todo custo para proteger seu gado. Mapeia os perigos para evitar que o rebanho sofra algum dano, e o defende com a própria vida de predadores. O cão pastor tem no seu dono um líder e protetor, por isso a lealdade sem par existente no animal. Contudo, para proteger o rebanho, é necessário força e atitude, latidos, rosnados e algumas mordidas. Isso é desagradável, mas necessário. Se cada animal do rebanho se dispersar para um lugar, este acaba. O cão e o pastor ainda podem se virar juntos, mas o rebanho não.

Aí que entra o Babe, o porquinho atrapalhado: um animalzinho de rebanho sem família que sonha em ser pastor de ovelhas. Ele é aceito pelos cães pelo único motivo de os humanos o aceitarem - entenda isso. Interessante a forma com a qual Babe pastoreia as ovelhas: com muita educação, orientando-as para onde devem ir. Para o filme, isso é muito fofo e dá certo. Na vida real, lembra a ação de lobos em pele de cordeiro que se disfarçam para se aproximar de suas presas. Esse jeito meiguinho não defende rebanho nenhum de predadores, parecendo muito mais uma estratégia dos mesmos do que a ação de alguém com boa intenção.

Um protetor verdadeiro não vai ser sempre um cara legal, mas o mal intencionado sempre irá aparentar um companheirismo inexistente. Isso o rebanho não vê, por isso acaba preferindo o segundo ao primeiro. Deve-se lembrar que o pastor, no final das contas, é uma figura adorada, porém considerada distante pelo seu rebanho, apesar de o cão pastor o considerar próximo como um semelhante. Isso mexe com a vaidade das pessoas-rebanho, que acreditam ser mais que meras ovelhas, quando na verdade são mesmo meras ovelhas, balindo e ruminando.

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