terça-feira, 5 de março de 2019

Sobre vício em música


Há algumas semanas, caí na real: eu sou viciada em música. Ao invés de tê-la como mero entretenimento ou muleta psicológica, finalmente percebi que a música, de forma geral, estava conduzindo a minha vida. Eu estava me deixando levar pelo que eu estava ouvindo, fazendo coisas que não gostaria de ter feito. Talvez tenha sido uma dissonância cognitiva constante, e só tenha percebido agora.

O fato é que eu percebi, e esse é um passo importante para tomar controle da situação. Já fazem alguns dias que não estou ouvindo música, no máximo alguns programas de rádio e videoaulas, e passei a refletir sobre esse vício e mesmo sobre os vícios em si. Para quem não sabe, música pode ser tão viciante quanto drogas. A pessoa não percebe que está viciada, cada vez mais e mais dependente. Pode ser por um estilo de música, por uma banda ou mesmo por um álbum. Aquilo passa a viver com ela e ditar suas atitudes, mesmo sem saber.

Interessante notar que, como em qualquer vício, há uma ilusão de que você pode parar a qualquer momento, e uma realidade de que você não consegue parar com aquilo. Você acha que vai parar com aquele som quando quiser, que irá se enjoar um dia e acabar ouvindo por acaso anos depois: isso foi o que aconteceu a vida inteira comigo. Contudo, dessa vez o som não parou, por mais que eu quisesse. Mesmo trocando de música, eu voltava ao meu vício. No começo, tratei meu problema como algo pequeno até o dia em que percebi que era necessária uma atitude madura minha. E parei de ouvir música por enquanto.

Desse fato pude notar que passei minha vida inteira ouvindo música para me proteger do mundo exterior, para não ouvir o que eu considerava desagradável. Sem música, passei a ouvir mais as pessoas e a aceitar o que elas tinham a me dizer. É doloroso trabalhar com um problema de tão profunda gravidade, mas o alívio e o aprendizado sobre valem a pena. Mesmo após essas semanas, sinto ainda a fragilidade pela ausência do som da música. Talvez daqui a alguns anos eu possa ter a música como algo no qual eu possa me entreter sem tantos riscos.

Outro aprendizado importante que tirei com isso foi que qualquer coisa que nos dá prazer e contentamento pode nos viciar, já que o que vicia não é o objeto, mas o neurotransmissor referente à sensação (infelizmente não encontrei eu vídeo de referência sobre para linkar aqui). Por isso que não adianta trocar o vício por outra forma de contentamento: tornar-se-á vício também. Isso também explica por que algumas pessoas se apegam a determinados comportamentos, como os vitimistas, os raivosos, etc. O problema está no neurotransmissor liberado por aquele comportamento, não pelo comportamento em si. Superar isso requer coragem, evolução e maturidade.

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