terça-feira, 2 de abril de 2019

Chrono Trigger - por que eu não gostei


Finalmente consegui terminar o Chrono Trigger, um jogo para SNES. Não irei zerá-lo (há uma diferença fundamental entre terminar um jogo e zerá-lo), pois a história dele já me incomodou demais. Apesar dos gráficos bonitos, trilha sonora profunda, Chrono Trigger não é nada inocente e possui uma temática pesada, indo na linha do Fable. Assim como o Fable, Chrono Trigger também tem escolhas a serem feitas que mudam o rumo da história, gerando uma gama de finais próprios, apesar de previsíveis.

O enredo do jogo é um garoto, Crono, que com a ajuda de suas amigas Marle e Lucca, viajam pelo tempo para evitar a destruição do planeta. Ainda pode parecer inocente, afinal diversas séries infantis (animadas ou não) possuem essa temática. Conforme viajam no tempo e causam mudanças em toda a história, vem à tona o causador dos problemas, o parasita Lavos. Ele vive sob a superfície do planeta, alimentando-se dos restos de seres até atingir um desenvolvimento tal que provocaria a destruição da superfície, talvez o colapso do planeta como um todo.

Para isso ser resolvido, é necessário não só ir ao passado mais remoto como também ir a épocas posteriores, já que algumas pessoas tentam se apropriar do poder de Lavos para dominar o planeta. Se o jogo virasse filme, talvez seria um drama dos pesados, ao contrário do que se pensa sobre o RIPD, que parece terror, mas é uma comédia muito engraçada (com um pouquinho de drama). Ao longo do jogo, comecei a ficar incomodada com a história, desejando terminá-lo a qualquer custo, independente do final que poderia ter.

Em duas épocas Lavos é visto como algo benéfico: na pré-História e na Era Negra. Na primeira, Lavos é esperado por uma espécie de répteis pelo calor que traria ao planeta e pela destruição que causaria aos humanos, seus rivais. Na segunda, esses répteis tornam-se os místicos, seres humanoides com habilidades mágicas, que usam a energia de Lavos para seu conforto e domínio, deixando o resto da humanidade no frio e na fome. Cabe ressaltar que nessa época Lavos é "cultivado" para que transmitisse mais energia. Por isso seu ápice de desenvolvimento é adiantado.

Só não chega a ser uma corrida contra o relógio porque você pode pausar o jogo e tentar ir dormir, risos. Lavos não é difícil de destruir só por estar no subterrâneo, mas por haver pessoas tentando protegê-lo. Nessa Era Negra, quatro pessoas decidem combater Lavos da forma que melhor podiam: os três gurus e o príncipe do Reino de Seal, ou Zeal em algumas versões, lar dos místicos citados anteriormente. O colapso desse reino traz calor de volta ao planeta (Lavos que energiza tudo?), permitindo o surgimento de uma Idade Média onde os místicos confrontam com humanos novamente.

Bom, eu poderia ficar contando do jogo, mas acho que não ajudaria a explicar mais detalhes dos motivos pelos quais não gostei. Em uma das cenas, você precisa salvar a mãe de Lucca, que ficou presa em uma máquina. Se não conseguir desligá-la, a senhora simplesmente perde as pernas. Isso não é mostrado no jogo (ainda bem!), mas é subentendido pelo grito que ela dá com o jogo apagado, e as duas anotações do diário de Lucca se lamentando por não ter conseguido salvá-la. Isso não interfere no desenrolar do jogo, mas causa uma bela dissonância cognitiva aos desavisados.

Enfim, o combate com o Lavos poderia ser um mero combate final se não fossem as coisas reveladas e por serem reveladas. Em um dos diálogos dos personagens, questiona-se por que tais coisas estavam vindo à tona, e quem as estaria provocando. Não sei se a tradução se perdeu, mas se descobre que Lavos tem um núcleo inteligente que direciona todas as coisas, inclusive fatos e seres. Ou seja, os seres são manipulados por Lavos para terem determinada evolução para que pudesse alimentar-se dela depois. Esse calor transmitido por Lavos é uma forma de controlar os seres para que façam o que ele deseja, sem que precise ordenar diretamente.

Lavos havia transformado o planeta em que se encontrava numa Matrix, direcionando os seres para o que considerava ou não conveniente, para alimentar-se de sua evolução e assim desenvolver-se. Com a Era Negra, seu desenvolvimento foi acelerado, permitindo que a destruição do planeta fosse adiantada. Quem se daria bem com toda essa catástrofe seria a rainha Seal, que se tornaria imortal e buscaria dominar o universo. Matar Lavos não é um mero ato de heroísmo, mas um ato desesperado em nome da sobrevivência do planeta, além da própria e das pessoas em torno.

Isso deixa o jogo com um gosto ruim na boca, que nem o Festival da Lua (ou das Estrelas) consegue tirar. É como se Lavos ainda existisse e pudesse voltar a qualquer momento. Como combater este tipo de mal? O desespero de Lucca ao se despedir do Robô é plausível: com o passado alterado, o futuro poderia ser completamente diferente, e Robô poderia deixar de existir. E aí? Robô vai, tentando consolar a amiga. A mãe de Crono cai na passagem temporal por acidente, correndo atrás do gato de estimação, dando a entender que uma nova aventura, muito mais tranquila, começaria. O gosto amargo só persiste.

Chrono Trigger tem diversos finais, sendo este o final padrão. Basicamente, você tem duas categorias de finais: a primeira, é quando você acaba o jogo pela primeira vez; a segunda, é quando você acaba o jogo novamente (você pode recomeçar o jogo com os personagens já upados e equipados). Dessas duas categorias existem duas subcategorias, ligadas à primeira categoria: ressuscitando Crono ou não. Basicamente, ressuscitar Crono é uma tarefa fundamental, já que para isso você utiliza o principal item do jogo, que leva o nome do mesmo: Chrono Trigger, o Gatilho do Tempo.

Os finais variam quando você mata (ou não) Lavos, se salva a mãe de Lucca, ou mesmo se é utilizado o portal do tempo para o combate final (o que evita que a mãe de Crono desapareça no final do jogo). Interessante que há até um final caso você falhe em matar Lavos, ou seja, o jogo não recomeça para você tentar novamente, ele simplesmente acaba com a destruição do mundo e a frase: "mas o futuro se recusou a mudar". Em um final extra, esse assunto é retomado: Lavos destruído se funde com a princesa Schala, transformando-se no Devorador de Sonhos, um ser imbatível, mesmo para os heróis. O jogo acaba com eles voltando no tempo e Magus perdendo a memória.

Enfim: Chrono Trigger não é um jogo legal, no final das contas. É uma história realmente triste, cujo final feliz não compensa nem um pouco as tristezas ao longo da história. Ao contrário do The Legend of Zelda - Ocarina of Time, que o que tem de pesado são apenas uns monstrengos, Chrono Trigger tem uma história depressiva, que pode terminar de forma mais triste ainda.

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