terça-feira, 28 de maio de 2019

A diferença entre Postura e Estereótipo


Muitas coisas objetivas tornaram-se, ao longo do tempo, meros fatores de gosto. Acredito que as pessoas deixaram de sentir as filigranas da vida para se apegar em fatores quase binários: se não é isso, é aquilo, e acabou. Não se pensa mais em beleza como algo objetivo, real, mas como um conjunto de fatores baseados no gosto de alguém. O problema é que tudo está se tornando mera questão de visão, o que não é verdade. Para se ter uma ideia, até para escrever este parágrafo houve dificuldade: como explicar a questão de percepção como evolução, e não como limitação?

Pois bem, isso daria assunto para um post, mas o assunto em questão é como explicar a diferença entre postura e estereótipo. Aparentemente parecem coisas diferentes, mas ao dar exemplos, a pessoa com pouca percepção não consegue diferenciar, ou usa isso com má intenção. Como se a postura fosse mera expressão externa de alguma coisa, ou seja, um estereótipo dessa coisa. Esse é o ponto central da diferença: enquanto que o estereótipo é uma tentativa externa de expressar algo interno, a postura vem de dentro, faz parte da pessoa, é natural. Imitar uma postura é mera caricatura da mesma. Chega a ser engraçada.

Prestar atenção nisso permite perceber quando uma pessoa está sendo verdadeira ou não. É comum com uma pessoa que quer demonstrar um profissionalismo que não possui. Diferente de um profissional inseguro, que está a desenvolver a própria postura. Existe uma linha tênue entre a percepção intuitiva e a percepção lógica. Enquanto que a primeira é difícil ser explicada com palavras, apesar de abarcar a totalidade do que é percebido, a lógica acaba sendo a mais difundida, por ser de fácil transmissão. Infelizmente, essa perda de percepção transformaram coisas óbvias em relativas, e quem percebe o óbvio acaba caindo em descrédito.

Ter postura está ligado à questão de ser e não estar. Por isso que quando uma pessoa tenta copiar o estereótipo fica tão fraco, sem substância. Pessoas com postura possuem essa percepção mais afinada, não caindo facilmente na confusão com o estereótipo. Quem possui pouca percepção acaba sendo convencido facilmente por acreditar em quem não possui atitude e acaba utilizando-se de outros artifícios para manipular.

terça-feira, 21 de maio de 2019

O problema da mesa vazia


A impressão que um funcionário passa ao ter sua mesa vazia é a de que está ocioso. Não se pensa no esforço que ele teve para cumprir suas tarefas, muito menos se ele está em condições para fazer novos serviços. Pensa-se apenas em enchê-lo com mais trabalho, até o limite de não cumprir prazos. Parece que ser um bom funcionário, esforçado e diligente, é algo negativo para quem é honesto e utilizado pela chefia e por colegas mal-intencionados para fazer mais e mais coisas, desproporcional aos seus pares.

Interessante que, na contramão do senso comum, o funcionário de mesa cheia não é esforçado em seus afazeres, mas aquele que não consegue dar conta de seu serviço e acaba o empurrando com a barriga. Quando o serviço está acumulado, as pendências são utilizadas como desculpas pelo trabalhador menos competente para evitar novas atribuições. Quando comecei a trabalhar, meu primeiro chefe comentou: "nunca deixe sua mesa vazia ou irão te encher de trabalho". Dito e feito: parece que cumprir as tarefas antes do prazo traz mais dor de cabeça do que sossego.

Essa questão da mesa vazia faz parte do que é chamado de síndrome do caranguejo no balde. Imagine um balde cheio de caranguejos: dentro há um crustáceo que se esforça em escalar para fugir da incômoda situação. Seus pares, ao invés de tentarem se ajudar para todos saírem, acabam por puxar o corajoso para dentro do balde de novo e continuar sua danação. As pessoas são assim, em um nível que beira o absurdo.

Poucos querem comentar sobre, afinal ninguém gosta de ter seus defeitos trazidos à tona. A primeira defesa que usam é a acusação: se o outro também tem defeitos, não pode acusar defeito de mais ninguém. Ledo engano: apontar o defeito do outro por conta de sua observação não é só assumir o caráter desviado que tem como também querer projetá-lo em quem quer superar os próprios problemas aprendendo com os erros alheios. Não vejo os problemas corporativos serem tratados com a devida atenção, como se a verdade assustasse toda a hierarquia das empresas, chefes e subordinados.

Inveja-se o sucesso alheio, o esforço alheio, até mesmo o sorriso alheio. É triste ver trabalhadores que se esforçam apenas para ver seu colega cair, e mesmo comemorar a queda alheia - na maioria das vezes sem lhe trazer benefício algum. Não se pode comemorar o sucesso de algo, por mais simples que seja. Não se pode comentar que as coisas andam bem - dessa forma simples, sem nenhuma ostentação - que logo o desavisado atrai olhares malignos. Reclama-se de problemas governamentais, mas no dia a dia a velha política ainda é regra.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Ignorância, Fé e Razão

Fé e Razão podem parecer assuntos distantes, para elucubrações filosóficas, mas são temas que deveriam fazer parte da reflexão cotidiana das pessoas. Elas formam um fluxo de conhecimento que permite o desenvolvimento da consciência e do ser como um todo. Ao contrário do que é dito por aí, ou mesmo do que se pode supor, esse fluxo é um ciclo e não um caminho com origem e destino bem demarcados. Mesmo na escala dos níveis de consciência fica a impressão de uma ser superior à outra, o que não é verdade.

Tudo começa na ignorância, e tudo volta para a ignorância. Não há Fé nem Razão sem ignorância. Já comentei em outro post que Razão seria a harmonia entre a parte "lógica" e a parte "emocional". Aparentemente, a Fé seria então a transcendência da Razão - inclusive Hawkins aponta que para superar este nível de consciência é necessário algo "além", e a Fé pode ser considerada como parte disso, já que o nível seguinte na escala é o Amor. Hawkins exemplifica essa questão no Transcending comentando sobre os grandes gênios da humanidade calibrados em 499 por ficarem presos à Razão.

No entanto, conforme a consciência se amplia e se aprofunda, o processo torna-se mais complexo. De aparentemente linear torna-se algo quântico, para não dizer caótico: o que aparentemente é "matéria" para níveis avançados, como Alegria e Paz, tornam-se presentes em níveis como Aceitação e Razão. Percebe-se, então, que a "linha evolutiva" não é exatamente linear, e que não possui, no final das contas, uma forma definida. A escadaria para a Iluminação estaria mais próxima a de uma obra de Escher do que um túnel de uma Experiência de Quase-Morte.


Maurits Cornelis Escher - Relativity (1953)

Com isso, Fé e Razão tornam-se pares, ou melhor dizendo: Ignorância, Fé e Razão formam uma tríade no desenvolvimento da consciência humana. Quem já estudou tarô sabe que o arcano 0 (O Louco) pode ser inserido em qualquer lugar do baralho, seja no começo, no meio ou no final. Ele é a completa ignorância, e a total possibilidade. Quando não se conhece nada, pode-se descobrir tudo. Nisso entra a Fé: pelo meio da crença, ainda que primitiva, tem-se ideia de como as coisas podem funcionar e acontecer. A maioria das pessoas têm uma fé primitiva, mas se pode concluir que todas (com raríssimas exceções) têm algum tipo de fé.

A Fé leva ao conhecimento, à Razão. Muitas pessoas desenvolvem seus primeiros níveis de consciência pela convicção religiosa, e não há nada de errado nisso. O problema é que a Razão trava em si mesma: a pessoa tende a não aceitar que o desconhecido ainda existe, e, consequentemente, a ignorância. Vejo que essa "falha" que o Hawkins aponta na Razão é uma parte de um ciclo mais amplo, que quanto mais é percorrido, mais é refinado. Perceba que a própria Ciência é posta em xeque e relativizada nos dias de hoje - o grande baluarte da Razão.

Não pense que a Ciência ou a Razão, nem mesmo a Fé, são frívolas por conta disso. Muito menos pense que a ignorância é uma bênção, como pode aparentar por um momento. Viver cada fase aceitando as outras é o que permite que o ciclo continue e que a evolução ocorra. Aceitar a Ignorância mostrada pela Razão abre espaço para o surgimento de uma Fé mais refinada, mais evoluída, menos supersticiosa. Uma Fé mais refinada leva a uma Razão mais refinada, e por aí vai, desenvolvendo a consciência e ampliando a percepção.

Em resumo: da Ignorância surge a Fé, da Fé surge a Razão, e a Razão mostra a Ignorância, apontando que o ciclo deve recomeçar. Negar que a Ignorância sempre existirá impede que a própria Razão se desenvolva, além da própria Fé. Desta feita, os níveis de consciência apresentam-se mais complexos do que a análise feita por Hawkins, algo que eu já havia apontado no post sobre falhas de calibragem.

terça-feira, 7 de maio de 2019

O Recomeço da Internet


Com tantos vídeos e artigos sobre o fim da internet, resolvi colocar um título diferente. É fácil falar de fim, mas é difícil pensar em um recomeço, mas este é tão presente quanto aquele. Não sei se eu deveria começar tão esperançosa, mas perante tanto drama, talvez seja necessário. Pois bem, com a aprovação da legislação de direitos autorais do Parlamento Europeu, é questão de tempo para que a produção de conteúdo na internet como conhecemos seja mudada completamente, ou mesmo desapareça.

Esta legislação, em especial os artigos 11 e 13 (que tomaram outras posições na redação final), cria uma burocracia intransponível para a maioria dos criadores de conteúdo virtual, como blogueiros, podcasters, youtubers, etc., além de transferir a responsabilidade pela violação de direito autoral para a plataforma onde estes conteúdos estão hospedados, não mais para o autor, forçando a mesma a criar uma outra burocracia intransponível para disponibilização e bloqueio de conteúdos. Não está especificado o que pode ou não ser considerada violação, ao contrário do que alegam, podendo até mesmo uma frase ser passível de processo e bloqueio por violação de direito autoral.

Duas coisas podem acontecer quando essa legislação passar a viger: a primeira é a saída de sites como Google, Instagram, Facebook entre outros da União Europeia, e consequentemente o bloqueio do acesso a esses sites pelos europeus, que ficariam isolados em uma redoma de informações promovida por agentes do governo e seus queridinhos. A segunda coisa que pode acontecer é a moda pegar. A China já possui um acesso restrito à internet, punindo cidadãos que entram em sites de má reputação, além de uma série de conteúdos bloqueados. Há projetos aqui no Brasil de controle da internet, que podem ganhar força com a aprovação e aplicação desta legislação que está a ser implantada na Europa.

Além do mais, a nova legislação europeia de direitos autorais iguala a notícia à obra artística, e, além da atribuição já corrente, obriga uma taxação, inclusive por cada link para as reportagens, ou seja, o alvo dessa legislação não é a atribuição de direitos autorais, mas sim dificultar a difusão de informações através de agregadores de notícias e veículos menores, considerados difusores de notícias falsas. Porém, basta uma pequena reflexão para se perceber o óbvio: notícias falsas sempre existiram, e o que se busca é um controle na circulação de informações que permite a formulação de outras visões de mundo, indesejáveis para determinados grupos.

Se você ainda não pensou no livro 1984, sugiro ler este post. Será que é possível através da internet um controle total de informações, ou mesmo o surgimento de uma ditadura perfeita? Talvez seja questão de refletir sobre a própria capacidade do ser humano de se adaptar e superar as situações.

Primeiramente: não existe uma ditadura perfeita, porque o gênio humano sempre se supera, a cada dia que passa. Por mais que aleguem que a sociedade está decadente, e realmente está, sempre haverá um Neo para bugar o sistema. Ao contrário do que se pode pensar num primeiro momento, esse Neo está em cada pessoa, aguardando o momento certo para despertar. Note que uma falha, em qualquer coisa, raramente é descoberta por apenas uma pessoa, mas sim por várias, quase que simultaneamente. É praticamente impossível não haver falhas nos controles de informação: mesmo com uma política tão dura, será encontrado um jeito para a informação continuar circulando, independente dos "veículos oficiais".

Talvez essa seja a falha do 1984: a impressão de não haver saída. Perguntas podem surgir a cada página do livro, que parece clarear como o sol saindo das nuvens. Sim, sempre há uma saída, uma falha, e esta sempre é descoberta, ou mesmo criada. A adaptação é a principal habilidade do ser humano, que o faz sobreviver em condições extremas. Note que tentam constantemente reduzir a habilidade de adaptação para aumentar o controle sobre a sociedade. Isso pode se voltar a qualquer momento de forma desagradável para todos, colocando em risco a sobrevivência da espécie.

Por fim, penso que a internet envelheceu muito rápido. Atingiu um nível de desenvolvimento tal em pouquíssimo tempo. Já não vejo mais o frescor que havia há dez anos atrás, com mais recursos e conteúdo do que hoje em dia. Atualmente, parece que tudo está centralizado e concentrado, sem alternativas. O que houve de mudança foi a tal da deep web, que se dividiu em duas: a parte criminosa, que continua lá, e agora sites que foram relegados ao esquecimento, por conta dessa centralização de conteúdo.

Uma renovação da internet está por vir, por isso o título deste post tão longo. Acredito que a forma como a internet existe hoje em dia irá acabar em breve - uma questão de tempo, independente de legislações e de tentativas de controle. Hoje o WhatsApp tem mais repercussão que outras redes sociais, o que criou uma nova forma de difusão da informação. A criatividade humana não possui limites, muito menos pode ser comparada às máquinas, como muitos tentam comparar. Mais do que próximo, o fim é necessário para que novas coisas surjam. Os problemas se agravam por conta da resistência ao ciclo natural de nascimento e perecimento, ou mesmo com tentativas de direcioná-lo para algum fim específico. Devemos pensar nisso antes de reclamar e protestar contra alguma coisa.