terça-feira, 14 de maio de 2019

Ignorância, Fé e Razão

Fé e Razão podem parecer assuntos distantes, para elucubrações filosóficas, mas são temas que deveriam fazer parte da reflexão cotidiana das pessoas. Elas formam um fluxo de conhecimento que permite o desenvolvimento da consciência e do ser como um todo. Ao contrário do que é dito por aí, ou mesmo do que se pode supor, esse fluxo é um ciclo e não um caminho com origem e destino bem demarcados. Mesmo na escala dos níveis de consciência fica a impressão de uma ser superior à outra, o que não é verdade.

Tudo começa na ignorância, e tudo volta para a ignorância. Não há Fé nem Razão sem ignorância. Já comentei em outro post que Razão seria a harmonia entre a parte "lógica" e a parte "emocional". Aparentemente, a Fé seria então a transcendência da Razão - inclusive Hawkins aponta que para superar este nível de consciência é necessário algo "além", e a Fé pode ser considerada como parte disso, já que o nível seguinte na escala é o Amor. Hawkins exemplifica essa questão no Transcending comentando sobre os grandes gênios da humanidade calibrados em 499 por ficarem presos à Razão.

No entanto, conforme a consciência se amplia e se aprofunda, o processo torna-se mais complexo. De aparentemente linear torna-se algo quântico, para não dizer caótico: o que aparentemente é "matéria" para níveis avançados, como Alegria e Paz, tornam-se presentes em níveis como Aceitação e Razão. Percebe-se, então, que a "linha evolutiva" não é exatamente linear, e que não possui, no final das contas, uma forma definida. A escadaria para a Iluminação estaria mais próxima a de uma obra de Escher do que um túnel de uma Experiência de Quase-Morte.


Maurits Cornelis Escher - Relativity (1953)

Com isso, Fé e Razão tornam-se pares, ou melhor dizendo: Ignorância, Fé e Razão formam uma tríade no desenvolvimento da consciência humana. Quem já estudou tarô sabe que o arcano 0 (O Louco) pode ser inserido em qualquer lugar do baralho, seja no começo, no meio ou no final. Ele é a completa ignorância, e a total possibilidade. Quando não se conhece nada, pode-se descobrir tudo. Nisso entra a Fé: pelo meio da crença, ainda que primitiva, tem-se ideia de como as coisas podem funcionar e acontecer. A maioria das pessoas têm uma fé primitiva, mas se pode concluir que todas (com raríssimas exceções) têm algum tipo de fé.

A Fé leva ao conhecimento, à Razão. Muitas pessoas desenvolvem seus primeiros níveis de consciência pela convicção religiosa, e não há nada de errado nisso. O problema é que a Razão trava em si mesma: a pessoa tende a não aceitar que o desconhecido ainda existe, e, consequentemente, a ignorância. Vejo que essa "falha" que o Hawkins aponta na Razão é uma parte de um ciclo mais amplo, que quanto mais é percorrido, mais é refinado. Perceba que a própria Ciência é posta em xeque e relativizada nos dias de hoje - o grande baluarte da Razão.

Não pense que a Ciência ou a Razão, nem mesmo a Fé, são frívolas por conta disso. Muito menos pense que a ignorância é uma bênção, como pode aparentar por um momento. Viver cada fase aceitando as outras é o que permite que o ciclo continue e que a evolução ocorra. Aceitar a Ignorância mostrada pela Razão abre espaço para o surgimento de uma Fé mais refinada, mais evoluída, menos supersticiosa. Uma Fé mais refinada leva a uma Razão mais refinada, e por aí vai, desenvolvendo a consciência e ampliando a percepção.

Em resumo: da Ignorância surge a Fé, da Fé surge a Razão, e a Razão mostra a Ignorância, apontando que o ciclo deve recomeçar. Negar que a Ignorância sempre existirá impede que a própria Razão se desenvolva, além da própria Fé. Desta feita, os níveis de consciência apresentam-se mais complexos do que a análise feita por Hawkins, algo que eu já havia apontado no post sobre falhas de calibragem.

0 comentários:

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Ao clicar em enviar, aparecerá uma caixinha de confirmação.