terça-feira, 17 de setembro de 2019

O Demolidor (1993)

Primeiramente, não confundir com o super-herói que parece o Chapolin Colorado. Este filme policial estrelado pelo Stallone em seus anos áureos mistura ação e ficção científica com um toque de comédia, cujo resultado é uma crítica social a algo que vem se materializando nos dias de hoje, conhecido por politicamente correto. Spartan (o nome do personagem de Stallone) é um policial durão conhecido por detonar tudo para cumprir suas missões. Em uma dessas, cai em uma cilada armada pelo bandido Simon Phoenix e ambos acabam sendo condenados a ficar congelados por décadas. Phoenix foge da prisão e transforma a cidade em um caos. Para resolver esse problema, Spartan é liberado e tem que lidar com uma sociedade totalmente diferente da que conheceu.

Até aí, um filme bem normal, sobretudo para a época. No entanto, o filme chama a atenção pela crítica que é feita do futuro, e isso é o que tem feito o longa ganhar destaque nos últimos tempos. Nunca se imaginou que nossa sociedade se tornasse tão próxima ao que é apresentado em cena: as pessoas evitam ao máximo o contato físico, e mesmo de utilizar diversas palavras consideradas "negativas". Em alguns casos, o que é falado acarreta multa, emitida pelas várias máquinas espalhadas na cidade. Ou seja, além disso há um monitoramento constante de todos, através de tecnologia avançada, aceita pelos habitantes. Sabe-se onde se está cada um, o que dizem, como dizem, com exceção de um indesejado grupo do qual falarei mais adiante.

Os cidadãos não percebem que são manipulados por seu líder, que controla toda a cidade não só de forma física como mentalmente: os condenados na crioprisão, uma inovação tecnológica à época da prisão da Spartan, têm sua mente reformulada por novos pensamentos e novas habilidades, sendo reprogramados para voltar à sociedade. Spartan aprendeu corte, costura, tricô e crochê, enquanto que Phoenix aprendeu táticas de guerra e sobrevivência na cidade de San Angeles, a fusão da megalópole que teria sido destruída em 2010 por conta de um terremoto. Obviamente não era isso que deveria aprender, e foi isso que gerou o tumulto que acabou por liberar condicionalmente Spartan para recapturá-lo.

A maioria comenta sobre a polícia do futuro retratada no filme. Extremamente pacífica, quem teria por obrigação impor a ordem, utilizando a violência se necessário fosse, acaba por ser subjugada facilmente por um Simon Phoenix conhecedor dos sistemas de segurança da cidade com uma missão implantada em sua mente: destruir a resistência que habita os esgotos da cidade. Pessoas que se recusaram a viver de forma controlada e passaram a viver nas profundezas. Spartan conhece o grupo quando tentam saquear um caminhão de comida e são repelidos pelo policial. A verdade vem à tona e as coisas não parecem ser tão absurdas quanto aparentam.

Como o próprio Phoenix esbraveja no filme: "as pessoas precisam ter direito a serem idiotas". Essa imposição de uma nova mentalidade acaba se mostrando mais nociva do que a "barbárie" que acreditam ter sido o final do século XX. Spartan é visto como um homem das cavernas, bruto, primitivo, comedor de carne, mas tolerado por conta de uma missão na qual ninguém tinha sequer ideia do que fazer - exceto a tenente Huxley (sim, o filme possui alusões ao Admirável Mundo Novo, o qual ainda não li), uma aficionada pelo século XX que vê no "policial das antigas" a única forma de deter um "bandido das antigas". Apesar de inserida na nova mentalidade, Huxley possui mente aberta para compreender o novo colega e ajudá-lo a entender o novo mundo que se abriu diante dele.

A tal resistência existente na cidade, como eu havia falado antes, não tinha nenhum interesse a não ser viver alheia aos desmandos do Dr. Cocteau, inventor do novo modo de vida e uma espécie de guru iluminado da cidade. Tudo aquilo que se acreditava ter desaparecido encontrava-se no subterrâneo: armas, bebidas alcoólicas, carne (de rato, mas era carne). Isso de certa forma incomodava o Dr. Cocteau, que acabou por lançar mão de um plano desastroso: programar e soltar Simon Phoenix para matar o líder da resistência. Por isso o bandido recebeu uma programação diferente da dos outros criopresos, inclusive sabendo manipular os sistemas de informação da cidade e não tendo um chip de monitoramento.

As coisas saem de controle, como era de se esperar. Phoenix não iria aceitar ser manipulado por ninguém, mesmo essa pessoa tendo-lhe fornecido tanta coisa (até a senha das algemas) para uma missão relativamente pequena, e exige que outros bandidos sejam soltos para formar seu grupo, que acaba por levar o caos à cidade inteira. Dr. Cocteau é morto e Phoenix vai até a crioprisão para liberar todos os detentos, sendo impedido por Spartan, como era de se esperar neste tipo de filme (lembre-se de que é um filme policial, apesar do toque futurista).

Estaria então tudo resolvido? Não, as coisas começariam a mudar agora. O chefe de polícia, que não suportava Spartan e só esperava que a missão terminasse para que ele voltasse à crioprisão, estava desorientado: e agora? Voltaremos ao passado? Spartan não pensava no futuro, mas sim no presente: há uma vida a ser vivida, não um mundo melhor a ser criado. Isso vai de encontro com a questão da mentalidade revolucionária, que busca um futuro utópico ao custo de vidas humanas. Por mais violenta que fosse a sociedade do século XX, ela ainda possuía uma certa liberdade e espontaneidade que se perdeu em San Angeles.

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