terça-feira, 1 de outubro de 2019

Levar as coisas a sério


Além do jeitinho brasileiro, outro costume comum aqui no Brasil é o de não levar as coisas a sério. Talvez seja consequência do jeitinho, já que se dá um jeito para que as coisas não aconteçam de forma efetiva. Seja um projeto, uma promessa, ou mesmo um contrato, quando a coisa precisa ficar mais séria, ela é deixada de lado, como se não fosse importante. O medo da responsabilidade que faz com que a pessoa não se comprometa e acabe empurrando com a barriga as situações do cotidiano.

Comprometimento requer responsabilidade e maturidade, seguir cada passo do que foi assumido para se chegar ao objetivo, com seus ônus e bônus. Temem-se os ônus a tal ponto que se abrem mão dos bônus: vive-se uma vida morna por medo de um balde de água fria, que inevitavelmente cai, congelando até os ossos. Então para que evitar riscos se, além de uma vida vazia, problemas virão? O que está por dentro deste medo de que as coisas aconteçam? É uma reflexão corajosa a ser feita. Mesmo que haja consciência de que algo não vai dar certo, a experiência é válida na maioria dos casos - e será mesmo que algo não vai dar certo?

Por outro lado, é impressionante o engajamento das pessoas a coisas tão bobas, como, por exemplo, o "combate" ao canudo de plástico. Uma coisa que realmente poderia ser ignorada (resolver a questão do lixo como um todo é muito mais eficaz que a mera questão de canudinhos) é levada a cabo pelas pessoas de forma tão intensa que é de se surpreender como, em poucos meses, os canudos de plástico foram substituídos por canudos de papel ou "biodegradáveis" (na verdade, plásticos de qualidade inferior, assim como as sacolas). Outro exemplo é o esforço que vejo muitos fazerem para retirar a carne da alimentação: ao invés do esforço de ter uma alimentação mais balanceada, a pessoa busca alternativas pouco saudáveis para substituir um alimento vital para sua saúde.

No fundo, o canudo de plástico não faz diferença nenhuma na quantidade de lixo produzido, mas dá a sensação de que foi feito algo. A mesma coisa o consumo de carne: os problemas de saúde subsequentes são "efeito da desintoxicação", não decorrentes da ausência de nutrientes essenciais ao organismo. Pode-se dizer que é uma motivação vazia, pois não leva a lugar algum. Se for tentar aplicar esse engajamento em algo realmente importante, como desenvolver uma nova habilidade, ampliar a percepção em relação ao mundo, a coisa não anda.

Volta-se, assim, ao começo da questão. E como desenvolver essa motivação verdadeira e levar a sério a vida? Depende do que impede cada pessoa, mas de forma geral é a falta de maturidade frente às crises da vida. É quando se acha que pode escolher entre ser feliz ou ter razão: ambos andam juntos, mas depende do crescimento do indivíduo em perceber a profundidade disso.

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