terça-feira, 29 de outubro de 2019

Você quer ser feliz ou você quer ter razão Parte 2


Eu andei relendo meu post sobre esse ditado e fiquei pensando mais sobre. A pergunta em si traz um sofisma, ou seja, é necessário desmontá-lo antes de responder. Sofismas dão a entender que determinado encadeamento de ideias é verdadeiro, sendo difícil discordar em um primeiro momento. É um argumento retórico interessante, sobretudo em situações nas quais a pessoa não tem oportunidade de desenvolver toda uma linha de raciocínio para se defender. A diferença entre um sofisma e um encadeamento lógico de ideias verdadeiro é que o núcleo do primeiro é falso.

Onde estaria, então, o erro da pergunta? Na ideia de que felicidade e razão são coisas distintas: você não teria paz se buscasse a verdade. Essa ideia é recorrente em nossa sociedade: o verbo lutar por alguma coisa mostra o desgaste que se tem para que o certo prevaleça (apesar de alguns lutarem por coisas erradas, mas não é o caso). Ao contrário do que se diz, a verdade é algo inconveniente e trazê-la à tona pode ser doloroso para todos. No entanto, mais dolorosa que a descoberta da verdade é viver em mentiras, pois aquela irá aparecer, de uma forma ou de outra.

Só pode existir Paz onde houver Razão. Isso não significa que haverá descanso: a verdade é uma constante a ser buscada continuamente. A paz estará no interior da pessoa, não fora. Inclusive ao analisar a escala de consciência do Hawkins, a Paz está acima da Razão: apenas desenvolvendo plenamente a segunda é que se pode alcançar a primeira. Claro que para isso deverá ingressar no nível do Amor, mas isso pode ficar para outros posts. Desta forma, o sofisma é quebrado: para ser feliz é necessário ter razão, é necessário buscar a verdade. Uma vida tranquila na mentira traz agonia para o interior: fica a sensação de que algo está errado, apesar do marasmo.

Um detalhe a ser visto é a locução "ter razão", muito utilizada nos dias de hoje, que significa impor sua opinião sobre os demais. Isso muda em parte o contexto da pergunta, pois questiona-se então se a pessoa quer viver sua própria vida ou ficar julgando as atitudes alheias. Isso tornaria a pergunta então plausível? Não, essa é a aparência de verdade do sofisma. Em outras palavras: pare de dar palpite em minha vida e vá cuidar da sua, viva com a sua própria opinião sem influenciar a dos outros. Como visto anteriormente, as coisas não são bem assim: se você encontra sua razão, você é feliz, você não precisa impô-la aos outros, pois estes também sentirão o peso da verdade, uma hora ou outra.

Isso pode servir de ideia para outros sofismas que são correntemente usados e criados, com sua falsa impressão de verdade. Infelizmente, é quase impossível rebater um sofisma na mesma velocidade em que ele cria raízes, sendo o ideal processar a ideia antes de aceitá-la de todo. Quanto às outras pessoas, é necessário paciência para possíveis confusões. Em resumo, para desmontar um sofisma é necessário encontrar sua "ideia central", que acaba por desconstruir a ideia como um todo. Dessa forma, descobre-se a ideia que quer ser passada e a verdade por trás dela.

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