terça-feira, 20 de outubro de 2020

Sobre a limitação do pensamento


 

Já escrevi aqui sobre o 1984 e sobre a fluidez da linguagem ao longo do tempo, mas acredito que ainda não escrevi nada sobre o uso da linguagem como forma de desenvolvimento das ideias e, consequentemente, da evolução de consciência. O que eu noto hoje em dia é um movimento de limitação da linguagem que acaba por atrapalhar o fluxo de pensamentos na mente da pessoa, já que a mesma acaba por se vigiar de forma tão incisiva, o que prejudica até o desenvolvimento de sua consciência.

Comentei no post sobre o politicamente correto um pouco da limitação da linguagem, pelo fato de pessoas se ofenderem com coisas cada vez mais banais, querendo a todo custo bani-las da existência, transformando em vilões quem ainda as usa. Não se pode mais pensar se algo é ofensivo ou não, pois qualquer coisa pode ser ofensiva - e muitas vezes, o ofensivo é associado ao criminoso diretamente, sem a mínima proporcionalidade.

Se tudo é ofensivo, nada é ofensivo, ou seja, a questão de ofensa torna-se uma mera questão de conveniência para determinadas pessoas: a mesma coisa dita por grupos diferentes toma significados diferentes, dentro do pensamento binário "se não é bom é ruim". Um gesto educado torna-se ofensivo, enquanto que uma grosseria torna-se algo nobre, sem depender do contexto, mas de quem o fez.

O problema não está nas novas formas de comunicação que surgem: isso é normal em qualquer língua viva. O problema está na perseguição e na obrigação feita para serem adotadas apenas determinadas formas, condenando qualquer outra, sobretudo a norma padrão. Deve-se entender que novidades em uma língua sempre serão consideradas vulgaridades ou gírias, sobretudo quando as mesmas podem ser consideradas barbarismos ou neologismos.

O pensamento depende da linguagem para fluir na mente. São exceções os casos de pensamentos que não podem ser descritos com palavras - geralmente associados a níveis de consciência elevados, inacessíveis para maior parte das pessoas. Quanto maior e mais profundo o conhecimento em linguagem e imagens mentais (adquirido através da boa literatura), os pensamentos conseguem se desenvolver mais livremente, inclusive tornando mais consciente aquele processo de download de ideias que Hawkins comenta no Power vs. Force.

É a partir do desenvolvimento do pensamento que se pode progredir a consciência, pois o pensamento livre permite uma maior e melhor visão sobre a realidade. Não se teme pensar sobre mais de um ângulo, mas surge o impulso de refletir sobre os diversos pontos de vista, em busca da Verdade. O processo meditativo é uma forma de manter a consciência sobre os pensamentos através do foco em um determinado ponto - e assim podendo conhecer mais de um ângulo com mais profundidade e assim ver a totalidade de forma mais completa.

Obrigar um tipo de linguagem, buscando banir alternativas, cria uma espécie de vigilância mental na qual a pessoa evita pensar de outras formas, pois evitará usar "palavras proibidas" em seu pensamento para não falá-las em público. Além da energia desperdiçada em controlar o fluxo de pensamento, são criados obstáculos que impedem a pessoa de ver os outros ângulos das situações, impedindo que a consciência evolua.

O próprio engajamento para alterar e limitar o uso da linguagem deriva de uma consciência limitada, que não consegue ver a realidade de forma mais ampla. Conforme a pessoa evolui, ela percebe que as palavras são meras ferramentas, que a linguagem é fluida, e que ambas são necessárias para compreender o que se passa, inclusive para comunicar isso a outras pessoas, e para que estas a entendam.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Em Defesa do Preconceito


Apesar de eu usar o título do livro do Theodore Dalrymple, este post não é uma resenha do livro, o qual achei muito confuso. O autor mistura de forma desproporcional o argumento de autoridade - ele é psiquiatra - com uma linguagem mais informal, para tornar o livro acessível ao grande público. No entanto, o texto fica enfadonho para um leigo, e não muito confiável a nível profissional. Deixando isso de lado, o assunto é realmente interessante e importante, sendo que eu já escrevi sobre aqui no blog.

O preconceito é parte do instinto animal: como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica. É difícil a pessoa mudar seu conceito sobre algo depois deste primeiro contato - as informações subsequentes apenas vão solidificando o que já ficou marcado. É algo natural, mais comum do que se imagina, e não é essencialmente ruim como querem dizer por aí. O preconceito pode livrar a pessoa de situações embaraçosas, assim como a intuição - que comentei sobre os dois conceitos em outro post.

Geralmente nosso preconceito é formatado nos padrões sociais vigentes, o que acaba por anular o instinto e a criar factoides sobre determinadas situações. Hoje comenta-se sobre determinados tipos de preconceito, os quais não irei citar aqui pois já são conhecidos e motivos de debate sempre que citados. No entanto, outros preconceitos, nos quais suas raízes são muito mais reais e acabam por afetar a vida das pessoas, mantém-se ocultos e são considerados como inexistentes ou mesmo superados - podendo causar mais danos do que se pensa.

Isso significa que o preconceito deve ser combatido? De jeito nenhum, pelo contrário: ele deve ser valorizado e trabalhado. A maior parte dos profissionais depende do conceito prévio para poder iniciar seu trabalho: só de olhar já se pode tirar conclusões precisas, cujas análises demorariam tempo desnecessário em determinados casos. Falar de fim do preconceito é abrir mão de uma habilidade valiosa do instinto para apenas parecer legal, ou justo, ou sei lá o quê.

Interessante notar que em alguns casos, ainda levando pro lado profissional, que fica mais fácil de explicar e exemplificar, determinadas áreas usam largamente do preconceito sem serem consideradas preconceituosas, enquanto outras são combatidas a qualquer custo. Ora, se a qualidade profissional depende de conceitos prévios, de bater o olho, por que determinadas áreas o podem fazê-lo, sem falar que o fazem?

Pegar o exemplo do médico e do policial: ambos precisam de conclusões rápidas e precisas para evitar o máximo de revezes possível. No entanto, o primeiro é considerado clínico, técnico; o segundo é considerado preconceituoso. Não se leva em conta que a experiência e a prática levam a reações imediatas às situações, tendo em vista maior eficiência do serviço. Quando isso é levado ao cotidiano, percebe-se que justamente aquelas pessoas "contra o preconceito" são aquelas que escondem intenções escusas por trás disso.

Não digo isso apenas em questões políticas ou sociais: até mesmo entre amigos isso pode acontecer. Tentar uma amizade com alguém com quem não se vai com a cara apenas para superar o preconceito pode terminar de forma mais dolorosa que apenas seguir seu preconceito e instinto. Isso mostra uma coisa interessante do preconceito: ele é individual, ou pelo menos deveria sê-lo. Cada pessoa desenvolve o preconceito da sua forma, o que faz com que quem não seja de seu convívio não entenda suas conclusões preliminares.

Preconceito é algo do qual não se deve ter vergonha, pois ele em si não é negativo. Assim como o ego, ele deve ser trabalhado e desenvolvido, para serem evitados dissabores futuros em função de sua ausência. Quem busca destruir o preconceito pode estar cometendo um erro grave, com ou sem intenção de fazê-lo, pois, como dito aqui, é parte da natureza humana, e como tal, deve ser cuidada.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Sobre o real misticismo


Talvez eu tenha que fazer correções em meus posts anteriores, ou meus leitores devam ler meus posts mais antigos pensando que estes foram escritos em outra época, quando eu tinha outra cabeça. Depois de ler um comentário de um post antigo, fiquei pensando no contexto em que eu encaixei a palavra místico, e pude concluir: aquilo não é o misticismo verdadeiro, a verdadeira experiência espiritual.

Talvez até se possa pensar em separar por palavras, sendo o místico algo verdadeiro e o misticismo algo falso, mas as palavras se misturam, e aí dá problema. E isso vai de encontro ao que diferencia o verdadeiro do falso: o que se realmente sente. Não é um estereótipo, não é uma postura externa, é algo que flui dentro da pessoa, que a maioria não percebe e se deixa enganar.

Foi então que percebi, ao longo dos posts, e mesmo ao longo da vida, que o que eu falava sobre maturidade e evolução era o caminho para a verdadeira experiência mística, pois só com ambos você pode transcender a realidade e ter um contato maior com o divino. É quando você começa a parar para pensar sobre e começa a ver além, realmente além, não apenas um dos lados, mas uma miríade de possibilidades, e se maravilha com isso.

A experiência mística mostra as semelhanças entre as oposições, que formam um todo harmônico. Grupos que se apresentam como diferentes são semelhantes em essência. Doutrinas religiosas possuem visões próximas em conceitos divinos, diferenciando-se apenas na ritualística e nos nomes - a já conhecida reserva de mercado. Tudo é muito parecido, por mais que criem definições e definições - se for parar pra pensar, mesmo em relação ao Reiki as definições caem por terra.

Os problemas surgem porque é uma experiência quase que individual. Ninguém entende pelo que você está passando - se for pensar que pessoas evoluídas são extremamente raras, realmente é difícil encontrar alguém que tenha passado por isso. Nessas horas, em que deveria haver o apoio, por ser um momento importante, a tendência é quem está em sua volta "te puxe para baixo", "te traga para a realidade" (ou melhor, te tire dela!).

Por esse (e outros motivos) os sábios se retiram. É melhor se afastar de quem não entende o que está acontecendo. Buscar ajuda é um problema, pois quem parece ser um bom guia nessas horas acaba mais por atrapalhar do que ajudar, como a maior parte dos líderes religiosos, que apenas receberam um treinamento padrão, mas, por não possuírem, em sua maioria, o mínimo de evolução espiritual, tentam mais controlar o espírito alheio (com direito ao trocadilho) do que permitir que o mesmo siga seu caminho.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Lei do retorno e da atração para leigos


Lembrei-me daquela série de livros "Para Leigos", "For Dummies" no original, algo que seria literalmente para idiotas. Bom, as pessoas no geral acham que a Lei do Retorno nada mais é que alguém faz algo, e logo aquilo volta pra ele. Se realmente fosse assim, bandidos seriam punidos exemplarmente e o mundo seria uma maravilha... Voltemos à realidade.

Eu havia comentado no post sobre os padrões não-lineares que a vida funciona em campos atratores, nas palavras do Hawkins. Logo, tudo está interligado dentro de níveis de consciência, e conforme a pessoa evolui, ela passa a abarcar mais e melhores dados destes campos. Toda a ação não gera uma reação, mas está dentro de uma rede de eventos possíveis em seu campo atrator.

Não significa que uma pessoa de nível de consciência baixo não pode ter uma atitude elevada, pelo contrário, ela pode fazê-lo e isso pode ajudá-la em sua evolução, pois isso irá atrair outras coisas, dentro do novo campo atrator. Isso vai de encontro com a famosa Lei da Atração do livro O Segredo: se você pensar em determinadas coisas constantemente, irá consegui-las.

Infelizmente, este livro é mera propaganda, não trazendo nada de prático ou de específico. Não fala das consequências, não fala de como as coisas funcionam. Pensar em atrair bens materiais não irá atraí-los por si só, assim como ignorar os problemas não irá evitá-los. A pessoa não atrai o que quer, mas o que precisa, dentro do fluxo natural do Universo.

Claro que se a pessoa mudar de padrão de pensamento, vai mudar o campo atrator onde se encontra, progredindo ou regredindo. Contudo, mudar o padrão de pensamento vai muito além de pensar apenas em coisas fofinhas ou evitar a todo custo de pensar nos problemas. Lei do retorno, como a lei da atração, são coisas deveras complexas e muito mal abordadas, geralmente por pessoas que não trabalharam a própria percepção.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Os três quocientes


Há um tempo atrás, fiz um curso virtual de inteligência emocional. O nome do curso havia me chamado a atenção, já que eu ainda não havia me aprofundado no assunto. Ao longo das aulas, porém, percebi que a tal da inteligência emocional tratava-se da boa e velha maturidade, coisa com a qual a maioria das pessoas não sabe lidar hoje em dia. Por esse aspecto, dá até para considerar a ideia de que inteligência emocional não existe, pois a mesma é subjetiva e, portanto, impossível de ser "quantificada".

Bom, é nítido que há um quociente emocional que as pessoas possuem, ligado à capacidade que se tem em lidar com as situações da vida. Não é exatamente uma pessoa alto-astral, que vê tudo lindo e maravilhoso, etc, mas uma pessoa que sabe agir de forma racional, sem se deixar levar pelos sentimentos, muito menos pelo orgulho ou birra. Aceitar as coisas como são e aceitar-se como é são um bom começo para desenvolver isso.

Ao contrário do que as pessoas pensam, quociente de inteligência não é a mesma coisa que quociente de conhecimento. Enquanto este é o quanto você sabe propriamente dito, aquele é o que você consegue desenvolver com o que você sabe. Não adianta você saber determinado assunto de cabo a rabo enquanto não souber o que fazer com tudo isso. E não digo no sentido de criar um projeto ou fazer uma invenção: até mesmo a mais simples atitude diária depende do que você faz com o que você sabe, sem se deixar levar de forma cega pela emoção.

Na escola trabalha-se muito o quociente de conhecimento, mas pouco o quociente de inteligência, apesar de o quociente emocional ser até mais trabalhado. Isso sem levar em conta o sistema pedagógico que não busca desenvolver o raciocínio amplo, apesar de se gabar que sim. É comum nos cursos da área de formação dizer que não se deve decorar, e sim deduzir. No entanto, nem sempre há tempo para deduções, e nem sempre ter a fórmula pronta ajuda.

Os três quocientes, por assim dizer, devem ser trabalhados e desenvolvidos. Muito se fala de quociente de conhecimento como se fosse o de inteligência, acreditando que a mera absorção de conhecimento torna alguém inteligente. E quantas são as pessoas que com um conhecimento mínimo sobre determinado assunto que conseguem fazer coisas incríveis, através de associações e deduções! Isso é fruto da combinação desses três quocientes, pois não adianta ter conhecimento e saber o que fazer com ele, se não possui maturidade para tal tipo de coisa.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Refletindo sobre proatividade


Eu vejo as pessoas reclamaram continuamente sobre proatividade. É uma virtude louvada por superiores e subordinados, a capacidade de antecipar tendências e tomar atitudes precisas. No entanto, ser proativo não depende da própria pessoa, como alguns acreditam, pelo contrário, depende mais do grupo onde ela se encontra receber essas inovações de forma humilde, independente se aquilo vai dar certo ou errado a curto, médio e longo prazos.

Soa estranho falar que proatividade depende mais da equipe (de trabalho, de estudos, etc.) do que do indivíduo. Não se pode pensar em proatividade sem pensar em um grupo, afinal, a ideia é antecipar-se e tomar atitude, o que não faz muito sentido quando se pensa na própria vida. Ser proativo consigo mesmo já deveria ser uma constante, afinal, o grande interessado é o próprio indivíduo.

No entanto, boa parte das pessoas, para não dizer a maioria delas, não é interessada na proatividade alheia, pois, além de tirar-lhes destaque e mérito, pode ser caracterizada como insubordinação, tendo em vista não ser uma atitude prevista pela chefia, sobretudo quando a atitude se revela falha. Proatividade é bem vista porque é associada a acertos, mas quando se erra em busca da mesma, o grupo acaba por rechaçar o inovador e as coisas continuarem como sempre.

Ou seja, por um lado, você tem a questão de errar tentando acertar, algo que não é aceito, por mais que errar seja parte da natureza humana - sabia que pra acertar você tem que errar? Por outro lado, ainda há a questão hierárquica: algumas chefias (líder é apenas um eufemismo, quando não uma tentativa de se tirar autoridade de alguém) veem a proatividade como um descumprimento das ordens, das regras, mesmo quando a pessoa chega a acertar e a ter uma boa ideia.

Fora que, além de tudo isso, a pessoa pode ter acertado, e o grupo (ou a chefia) roubar para si o mérito. Parece bobagem, ou uma questão de ego: realmente é uma questão de ego, mas sob outro ponto de vista, não ser reconhecido (verdadeiramente) pelo seu mérito significa que não há real interesse da pessoa na equipe. Não é questão de ser elogiado ou bajulado, mas em uma situação desfavorável, receber apoio honesto.

Há pessoas que dizem não se importar se outros são promovidos ou reconhecidos às suas custas. Sugiro pensar não na questão de outro ter sido premiado, mas no fato de que não houve real reconhecimento de seu esforço, e se isso realmente vale a pena, pois, em uma situação desfavorável, não haverá ajuda, mas talvez mais revezes.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Criticando o pensamento crítico


Pensamento crítico é uma daquelas expressões aparentemente inócuas que causam grandes danos na atualidade. É parente do politicamente correto, e como tal, também deve ser exposto. Aparentemente, pensar de forma crítica é analisar o exposto, de forma a processá-lo de forma mais racional; no entanto, é um conceito no qual deve-se apenas criticar a sociedade vigente, mas não o que é proposto para a mesma.

Criticar dá a falsa sensação de superioridade ao que é criticado, gerando um vício por criticar, mesmo sem motivo. Critica-se para reduzir algo indesejável, critica-se para defender-se de algo, e por aí vai. Criticar abala estruturas, quando não as põe no chão. Uma crítica bem feita destrói as melhores ideias e as mais elevadas intenções.

Mas e a crítica construtiva? Ela ajuda a melhorar, é quando você quebra algo para reformar, como uma parede. É pontual, e sempre busca valorizar os bons aspectos de algo - a crítica pela crítica não. Nestes tempos conturbados, mesmo uma crítica destrutiva tem boa aparência: há elogios vazios, apenas para se dizer que outros aspectos foram levados em consideração, mas nada sustentam.

O pensamento crítico, no fundo, tem por objetivo derrubar os pilares da sociedade vigente para criar-se uma nova. Um aspecto interessante é que quem criou e quem promove essa linha de pensamento não aceita críticas ou questionamentos, ou seja, não aceita uma análise racional das ideias. A expressão torna-se armadilha, camuflagem de um grupo de intenção duvidosa ganhar domínio sobre o pensamento alheio.

A verdadeira racionalidade é muito mais difícil de ser alcançada do que se imagina. Não depende apenas de livros e de muito estudo, mas da verdadeira maturidade. Não se pode ser racional pensando apenas em um lado da situação ou querendo tirar vantagem, seja para si ou para o próprio grupo. Deve-se reconhecer os próprios erros e sofrer os próprios revezes, pois é algo muito mais elevado que está sendo levado em consideração.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A pirâmide de necessidades e a opressão sutil


Um dia desses, um amiga desabafou comigo sobre o eterno ciclo das contas a pagar, que sempre haverá contas a serem pagas, e que deverão ser pagas, sem uma esperança de libertação sobre elas. Lembrei-me da Pirâmide de Necessidades de Maslow, que sistematiza as necessidades humanas do nível mais físico a um nível mais sutil, mas ainda sim ligado à vida material - ele buscava estudar as prioridades dos animais em relação a sua existência. Pode ser feito um paralelo dessa pirâmide com os níveis de consciência do Hawkins, nos níveis inferiores.

As pessoas se preocupam, principalmente, com a sobrevivência: isso vem do nosso instinto natural de animal de rebanho. Não há interesse real em crescer como pessoa, apenas na próxima refeição e nas próximas horas de sono, e, quando muito, na formação de uma família para procriação. É uma questão de escolha, que fica limitada ao nível de percepção. Se isso é satisfeito, rara é a pessoa que busca outras coisas além, quando não um aprimoramento da própria sobrevivência. Já comentei aqui que as pessoas confundem contentamento com resignação, achando que ignorar as situações ajudará em superá-las.

Além do mais, é visível que algo (ou alguém) trabalhe para perpetuar essa mentalidade, forçando as pessoas a focarem apenas em sua sobrevivência imediata: algo que aceitam de bom grado, claro - quanto menos esforço, melhor. Quando se desenvolve a consciência das coisas, essa pressão fica mais nítida: percebe-se que há um interesse em tirar vantagem disso, em pessoas que entregam sua responsabilidade sobre sua própria vida para outras pessoas.

No entanto, com um foco de vida mais elevado, questões mais corriqueiras são supridas com maior facilidade. A sociedade é organizada em pagar boletos: pagamos pelos serviços prestados para que outras pessoas também paguem seus boletos e os serviços prestados a elas também. O pagamento de tributos é parte de nossa organização social desde tempos remotos, e não acredito que haverá uma libertação dos boletos. Todas as tentativas de uma sociedade semelhante falharam amargamente, e devemos pensar nesses exemplos antes de pensarmos apenas em nossas contas bancárias.

Um argumento muito comum que escuto é o "viver de amor não paga contas" e correlatos. Há um fundo de verdade: pessoas que fogem da realidade pelo medo de assumir suas responsabilidades, curiosamente confundidas com pessoas que encaram a realidade de forma elevada, que acabam por assustar quem está em volta. Quem tem uma vida espiritual plena, por assim dizer, ou melhor dizendo, quem tem um nível de consciência elevado, consegue viver sem sentir-se preso aos boletos. Cabe notar também que as pessoas que se endividam geralmente possuem a consciência limitada, não encontrando alternativas para suas situações.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Sobre a Liberdade

Ainda no assunto da Teoria da Realidade Simulada, chega-se a uma conclusão importante: a liberdade não existe como a procuram. Ela é muito mais um estado interior do que uma conjuntura social. Você pode exprimi-la pelas leis ou mesmo pelos costumes, mas isso não significa que você seja realmente livre. Assim como em uma ditadura, que não precisa estar estabelecida em um regime de governo, mas ser regida de forma sutil, controlando os processos mentais das pessoas.

É necessário notar que as tentativas de controle das pessoas estão cada vez menos perceptíveis: busca-se mudar a cultura, os padrões de pensamento, e mesmo de linguagem, perseguindo quem discorda, dando a entender que estes não são bem-vindos, e que qualquer divergência será combatida. Tente mostrar outros pontos de vista sobre determinados assuntos que as pessoas afastar-se-ão de você, perderá seu emprego ou mesmo sofrerá revezes dos quais ninguém acreditará que é por conta disso.

Quando eu li 1984, fiquei imaginando uma forma de fugir daquele livro. Como seria viver em um lugar cujo governo possui controle absoluto sobre tudo? Note que governos controladores fornecem uma péssima qualidade de vida à população, como forma de controlá-las ainda mais - apenas alguns favorecidos têm uma vida digna, ou mesmo luxuosa. Como sair desse lugar? Nem digo derrubar o governo, mas algo mais palpável, mais possível: conseguir fugir das garras deste controle absurdo e respirar em paz com as próprias escolhas.

No livro em questão, Winston e sua amada têm momentos de prazer em meio ao caos, em um quarto alugado, e são descobertos pelo "Ministério do Amor", torturados e reprogramados, para logo depois serem vaporizados. Eles tinham passado a acreditar em dias melhores, momentos melhores, na tal liberdade.

E aí vem a Teoria da Realidade Simulada: não existe liberdade, pois tudo está sujeito aos limites da programação. Tudo, inclusive as pessoas, que são meros avatares de jogadores fora do universo programado, por assim dizer. Ou seja, assim como as pessoas são limitadas pela sua programação prévia, Oceânia (o país-continente de 1984 onde se desenrola a história) também é. E mesmo em lugares não-ficcionais onde há controle extremo sobre as pessoas - nem preciso dar exemplo -, existe um limite de programação.

Ter consciência da própria limitação é a verdade que liberta. É quando você percebe onde você é realmente livre: dentro de si mesmo, no próprio espírito. Só seu espírito pode ser realmente livre, e desta forma transcender a programação. Se o espírito é livre, não há mais controle sobre o ser, independente do controle exterior. Podem até controlar mentes, mas não podem controlar um espírito liberto pela verdade.

Essa é a saída do 1984: libertar o espírito, independente do ambiente. Os exercícios físicos, as torturas, a teletela, a novilíngua e tudo o mais perdem o sentido, e podem ser voltadas contra os controladores. Desta forma pode-se até pensar em derrubar o regime, mas continua não sendo o caso - este irá cair com o tempo, apesar de o livro não dar mostras de tal coisa. Nem aquela sala horrorosa, cujo número não vem à mente, pode destruir esse tipo de coisa: é mais fácil vaporizar a pessoa.

"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" talvez seja o versículo bíblico mais famoso dos últimos anos, e traz uma lição muito importante: a liberdade vem com a verdade. Não importa o controle, as leis, os processos e as pessoas, alcançar a verdade liberta o espírito. Vale fazer uma paráfrase com A Janela de Overton: ao se conhecer a verdade, deve-se vivê-la.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Chegamos à Teoria de Tudo?


Dizem que irão lançar um quarto filme da série Matrix. Já se especulou sobre tudo, e o tal filme nem trailer tem. Bom, o boato (ou notícia, chame do que quiser) de um novo episódio da série ganhou vulto pelos 20 anos de lançamento do primeiro filme completados ano passado.

Curiosamente, ano passado que a Teoria da Realidade Simulada ganhou corpo e vulto. A mesma foi publicada no começo deste século, mas desacreditada pelos físicos (sim, é uma teoria da Física). Deve-se lembrar que a ideia de que vivemos em uma ilusão remonta os tempos mais remotos, a Maya (ilusão) hindu, o Mito da Caverna platônico e a Teoria do Primeiro Motor aristotélica.

Mesmo Descartes acreditava na hipótese de nossos cérebros estarem imersos em um barril, acreditando estarem tendo experiências em um mundo, induzidos por um ser maléfico. Outras teorias do tipo encontram-se no livro Matrix: Bem-vindo ao Deserto do Real, organizado por William Irwin, que faz análises filosóficas de filmes e séries populares.

A Teoria da Realidade Simulada baseia-se no fato de que determinados elementos do Universo possuem limites bem definidos: a quantidade de energia carregada pelos raios cósmicos e a velocidade da luz são dois bons exemplos. Ainda mais este último, já que nada no Universo possui velocidade superior à mesma.

Para isso ser possível, é necessário que haja um fator externo programando o Universo: chame-o do que quiser. Ou seja, se há algo fora do Universo, é bem provável que existam outros universos, e mesmo uma realidade extra-universal, que aí você pode chamar de além, outro mundo e tudo o mais.

E nós, humanos? Meros avatares, iguais aos dos jogos de computador (tá que algumas pessoas parecem mais NPCs, aqueles bonequinhos que são parte do jogo, mas não jogadores). Se nós somos avatares, logo há jogadores nos controlando (uma consciência superior?). Pode-se então pensar que somos limitados e não temos vontade própria: bom, não é bem assim.

No caso da Realidade Simulada, temos uma inteligência artificial complexa: temos vontades, desejos e exercemos nossas escolhas, dentro de uma gama do que já foi programado. Temos relativa autonomia e (quase) nenhuma conexão com os nossos jogadores. Nós estamos nos desenvolvendo e evoluindo para eles.

Essa teoria torna a experiência religiosa, e mesmo os fenômenos considerados paranormais ou sobrenaturais (dê o nome que quiser), possíveis dentro de uma realidade programada. Fenômenos incompreensíveis para as pessoas atualmente podem ser apenas linhas de códigos a serem decifradas - ou seja, naturais para quem os programou.

A ideia marxista/materialista de um universo puramente material cai por terra. Se há uma programação, então há um programador, um criador, o arquiteto do sistema. A "realidade" não é tão "material" assim, muito menos "real", apreendido apenas pelos sentidos - que sempre enganam e confundem com frequência.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

A complexa relação entre ser e ter

A relação entre ser e ter é mais complexa do que se imagina. Foi criada uma oposição entre os dois conceitos, como se um fosse bom e o outro ruim, dentro de um pensamento binário do qual se não é uma coisa, é seu total oposto. Dentro disso, você tem o ser como algo bom e o ter como, além de seu oposto, algo ruim.
É comum falar de abrir mão dos bens materiais, das ostentações, dos luxos, em nome de uma vida mais "interiorizada", mais "espiritualizada". Baseando-se em filosofias e religiões nas quais apenas uma minoria abdicava da vida material para um maior desenvolvimento espiritual, enquanto o restante da comunidade sustentava seus ascetas.
Enfim, esse pensamento começou a ser deturpado em nome de um maior controle social, afinal, quem não tem dinheiro ou bens materiais é mais facilmente controlável por não ter meios (materiais e mentais) de se defender. É isso que deve ser levado em consideração: repare que a estrutura social força as pessoas a terem menos reservas financeiras e mesmo busca abalar a alegria interior, gerando um vazio mental.
A pessoa é o que ela vale, e ela vale o que tem. Uma pessoa pode gostar de literatura, de praticar atividade física, de fazer doações para entidades diversas, mas isso não significa nada. Contudo, se ela tem uma família, um emprego, uma casa, ela tem um valor, um real valor.
Esses são os "luxos" que fazem a diferença em situação de adversidade, não o fato de gostar ou não de animais. Mesmo um diploma universitário tem mais valor que você ser uma pessoa extrovertida ou comunicativa. A ideia de ter como algo abominável pode esconder um projeto de escravidão no qual quem nada tem abre mão de si mesmo para poder sobreviver.
Não há problema nenhum em ter, afinal você quem define quem você é, não a opinião alheia - pelo menos assim que deveria ser. "Seja você mesmo" é o que dizem, mas almeje uma posição social mais elevada, um carro ou uma casa, ou mesmo uma vida material estável, já lhe apontam o dedo na cara: "materialista".
Com isso conclui-se que ser é algo mais complicado do que se imagina. Pode-se concluir, inclusive, que quando você tem, não se é, mas se pode viver. Perguntar "quem você é" é uma pergunta que não tem resposta, não porque faltam estudos e reflexões, mas porque ela não chega no ponto principal da questão.

terça-feira, 10 de março de 2020

A Janela de Overton

A Janela de Overton é uma coqueluche do momento atual. Baseada em fatos reais, a obra apresenta como a opinião pública foi manipulada ao longo das décadas para que as liberdades individuais dos norte-americanos pudessem ser solapadas e assim ser imposta uma ditadura aos moldes do 1984. A Janela de Overton em si é um recurso propagandístico para omitir/distorcer notícias e informações passadas para o grande público, como se fosse o lobo a pastorear o rebanho, tendo aceitação e a indiferença deste. Você não precisa mais tomar um governo de assalto, invadir um país com armas e guerras, para ter controle sobre ele. Basta dominar as mentes e os corações das pessoas, permitir que tenham vidas medíocres, ou melhor, que vivam apenas de forma medíocre para se manter o controle. A mediocridade impede a evolução e a tomada de consciência, mantendo a pessoa ocupada apenas com a sua sobrevivência.

Percebo no livro que o autor tenta pintar "heróis e vilões", e talvez seja esta a falha da obra. Não existem vilões no livro além dos criminosos deliberados, e mesmo os atos extremados. Por incrível que pareça, Arthur Gardner quer uma sociedade em ordem tanto quanto os FounderKeepers, tendo argumentos mais sólidos do que estes até. Os FounderKeepers seriam mais um grupo de idealistas por um país melhor do que pessoas realmente empenhadas para tal. O livro lembra o filme O Preço do Amanhã, que já resenhei aqui no blog. Uma visão idealizada de uma revolução social em nome de uma pretensa liberdade contra um suposto sistema opressor. As semelhanças param por aí: enquanto n'A Janela de Overton os FounderKeepers bradam pela manutenção de direitos consolidados há séculos, sendo criminalizados pouco a pouco para se tomar o controle, os protagonistas d'O Preço do Amanhã buscam fazer sua revolução através da criminalidade.

A Janela pode ser considerada um livro pré-1984, como teriam ocorrido as mudanças que desembocariam no sistema ditatorial do Grande Irmão. E a base de ambos os livros é a difusão de informações, factuais e ficcionais. Manipulando esta difusão, e mesmo distorcendo-as, uma pessoa ou grupo pode tomar o controle de países inteiros, fazendo com que as pessoas mudem de opinião de forma extremamente sutil de forma progressiva - deslocando a janela. Isso é bem ilustrado no livro, quase que literalmente, quando a descrição da apresentação de slides mostra as metas atingidas em relação à opinião pública sobre diversos assuntos, o protagonista Noah Gardner, filho de Arthur, descreve o método. Em uma das conversas, Arthur, pai de Noah, se justifica: as pessoas não sabem se controlar; dar liberdade a elas é colocar a humanidade em risco. A maioria das pessoas viventes não acrescenta nada à sociedade, de acordo com o magnata. E ele não deixa de ter razão, mesmo se utilizando de uma metodologia tão cruel.

Como já disse em outro post, as pessoas são como gado, só pensam em seus interesses e sacrificam seu rebanho em proveito próprio. As pessoas realmente são assim. Liberdade é questão de merecimento: luta-se por ela, há o peso da responsabilidade para ser realmente livre. Sempre haverá pessoas-rebanho, logo sempre haverá pessoas-lobo, prontas para devorá-las aos montes. Mas sempre haverá esperança, sempre haverá um Neo para bugar o sistema, sempre haverá pessoas que conquistarão sua liberdade - algo que não existe no 1984. Ao terminar de ler este livro, questionei-me se o mesmo não possuía uma saída - não exatamente reverter a situação, mas uma brecha na qual algumas pessoas pudessem "fugir" disso. Não há resposta, como se fosse uma caixa fechada. A Janela de Overton mostra que sempre haverá uma saída. E é isso que importa, mesmo que quase todos não se importem com isso.

terça-feira, 3 de março de 2020

Desabafo da realidade


O Brasil parece um país devastado por um apocalipse, mas que as pessoas ainda não deram conta de tal. Andam sobre as ruínas e a desgraça, achando que tudo está bem, e que num futuro, por inércia, tudo irá melhorar. As pessoas no Brasil não têm consciência do que se passa por elas, mais reagindo do que agindo, como sonâmbulas que, caso forem despertas em meio à crise, poderão ter um ataque cardíaco.

Dizem que o brasileiro é conservador por natureza: a favor de liberdades individuais, cristão, contra o aborto e a legalização das drogas. Realmente o é, pero no mucho. É aquele que gosta de fuçar a vida alheia; aquele que em cada dia está em uma igreja, celebrando credos às vezes contraditórios; que cria exceções à regra para levar vantagem, e por aí vai.

Do mesmo modo, o brasileiro também não é um esquerdista convicto: quer pagar menos impostos, além do que já foi dito anteriormente. No entanto, o brasileiro tem a cabeça socializante: gosta de cuidar da vida do outro. Gosta de regulação do Estado, do Estado interferindo na própria vida - afinal, essa intromissão também é usada como bode expiatório para os próprios problemas.

Brasileiro gosta de dinheiro - e como gosta. Os grandes movimentos sociais dos últimos anos foram movidos por causa do dinheiro, ou de sua falta: de centavos a bilhões. Questionam por que as pessoas voltaram ao seu recolhimento e mediocridade, e a resposta é óbvia: garantindo o pão nosso de cada dia, não há com o que se preocupar, ou pelo que brigar. Deixe que os outros se depenem por aí...

Ao mesmo tempo em que o brasileiro se diz caridoso, é de uma mesquinharia e um egoísmo vis. Ele quer ganhar, mas ganhar sozinho. Se ele perder, mas o outro também, está tudo bem. Se ambos ganharem, ele e o outro, de nada valeu. Por isso os oligopólios, os monopólios, o jeitinho. Há enraizada a vontade de ganhar sozinho, não de ver o outro ganhar também. Aquele conceito de soma-zero: se um ganha, é porque o outro perdeu; logo preciso fazer o outro perder para que eu realmente possa ganhar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Por que os sábios se retiram


Praticamente todo mundo conhece aquele clichê da ficção em que o personagem sábio (monge, guru, ou algo do gênero) está recolhido em algum lugar isolado e seus conselhos fazem toda a diferença no desenvolvimento e na conclusão da história. Muitos devem se perguntar porque pessoas tão evoluídas assim decidem se afastar do convívio social, sendo que são elas que poderiam fazer a diferença para o todo. Esse clichê é mais real do que se pensa: com a evolução da consciência, percebe-se que nada pode ser feito para mudar o mundo, e se retirar acaba sendo a única saída - pelo seu próprio bem.

Parece haver uma contradição: a pessoa mais evoluída parece tornar-se mais egoísta, pois aparentemente parece agir mais para si do que para os outros - como se, inclusive, houvesse uma obrigação dos mais evoluídos "ajudarem" os que ainda não se desenvolveram, o que soa muito estranho. Na verdade, o evoluído ama a si mesmo verdadeiramente, e percebe que, para amar o outro, é necessário se amar. Não adianta fazer tudo para os outros e esquecer de si mesmo: o resultado é duplamente doloroso. Sem conhecer os próprios limites, não se conhece a limitação do outro; sem entender a si mesmo, não se entende o outro.

Bom, se a pessoa evoluída se ama e ama o outro, por que ela se retira? Porque o outro não a entende: tenta encaixá-la no seu padrão limitado, de forma cada vez mais agressiva. Pessoas que sabem ser realmente livres causam medo, e tenta-se, inconscientemente, controlá-las. Chega uma hora que esse combate cansa, simples assim. E chega outra hora em que o evoluído sente-se deslocado de seus semelhantes, como se estivesse em outro planeta. Nada mais daquele mundo mundano faz mais sentido: surge então um desejo de partir. Falar sobre a Verdade para uma pessoa, digamos, não desperta é praticamente impossível, como já disse aqui outras (tantas) vezes.

Seguir o fluxo do Universo põe as coisas em seus devidos lugares, e mesmo os anseios mais profundos parecem entrar em harmonia com o Todo. Não se força a barra para mais nada, mas as coisas simplesmente surgem, de forma inesperada ou não - isso se a pessoa ainda continua esperando por algo. O afastamento também permite que seja possível perceber essas oscilações, essas vibrações - quase que um contato com o divino. A pessoa evoluída ajuda o outro com o que precisa, não com o que se quer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Abstraia: a geração pseudo-zen



Seria tolo de minha parte pensar que o deboísmo é um fenômeno recente mas com consequências profundas. Na verdade, ele é consequência de anos de programação de uma sociedade anestesiada e apática à vida. Apatia, já dizia Hawkins, é um dos níveis negativos de consciência: nele nada se faz por se achar que nada dará certo, que não depende da atitude da pessoa, e sim de fatores externos apenas. Hoje em dia, isso é vendido como tranquilidade, ou mesmo como paz de espírito. Pior do que isso, é que qualquer atitude, defensiva ou não, ser vista como algo negativo, até como crime.

Já comentei sobre o politicamente incorreto aqui no blog. Ele é uma das ferramentas dentro da programação que fomentam a apatia nas pessoas. Também já comentei que os níveis abaixo de 200 são instáveis, e as pessoas ficam "circulando" entre eles. Como tudo o que pode ser dito (ou mesmo pensado) acaba por passar por crivos estreitos de fragilidade, e se defender é visto como algo negativo, abre-se espaço para o desenvolvimento da apatia em relação a tudo, sobretudo para as coisas importantes.

Não é necessário dizer que uma postura mais tranquila perante coisas realmente pequenas é algo a ser praticado. O problema é mais sério: coisas que realmente importam, certas e erradas, estão sendo abstraídas da mente, como se as pessoas desaprendessem a lidar com o sofrimento e tentassem, a todo custo, evitá-lo, mesmo que as omissões gerem muito mais sofrimento que o combate propriamente dito.

São as mesmas pessoas que reclamam de tudo, como se a vida dependesse de algo ou alguém distantes - apesar de eu desconfiar que tentam implantar algo assim a qualquer custo. Se por um lado deve-se ter empatia e buscar entender o problema no ponto de vista alheio, por outro fica patente a diferença de consciência de quem está abaixo e de quem está acima de 200 - cerca de 5% da população mundial. Fugir do jargão para não resetar o próprio sistema pode ser útil para superar a apatia e tomar atitudes sobre as coisas importantes da vida.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Fluidez da linguagem e analfabetismo funcional


Analfabetismo funcional é quando uma pessoa sabe ler e escrever sem entender plenamente o que leu e/ou o que escreveu - ou seja, sem expressar uma ideia com suas próprias palavras, ou mesmo interligá-la a outras. Aparentemente pode parecer um problema de interpretação, no entanto, é uma real questão de cognição, na qual a pessoa não consegue relacionar ideias, encadeá-las e formar raciocínios completos. E isso pode ser distorcido a ponto de qualquer divergência de interpretação ou conclusão ser considerada analfabetismo funcional - uma grande confusão do momento. A linguagem não é algo exato, o que permite múltiplas interpretações. O contexto é importante, mas é mais complexo do que se aparenta.

Qual é a real diferença entre divergência de interpretação e analfabetismo funcional? É se a pessoa de fato conseguiu interligar a ideia do que leu com outras, ou seu encadeamento textual fez sentido: essa percepção pode ser mais ideológica do que lógica. Infelizmente, as pessoas preferem considerar como absurdo algo que pode ser apenas divergente de sua visão de mundo. Desconsiderar o que a pessoa entendeu é um recurso de argumentação usado para anular o que o outro disse e deixá-lo sem argumentos. Como disse antes, a linguagem é fluida, e mesmo raciocínios dos mais "malucos" podem fazer todo o sentido.

Talvez seja necessário, antes de tudo, entender que a linguagem é fluida, e que, sim, as pessoas podem tirar diversas conclusões do que foi dito e/ou escrito, independente de sua boa ou má intenção. A partir daí, trabalhar uma linguagem sempre mais clara, mais simples, obviamente sem ser simplista: podar um raciocínio complexo achando que está simplificando. O rebuscamento pode parecer um recurso que eleva o tom da mensagem, mas em boa parte das vezes acaba por criar uma névoa que provoca interpretações por vezes contraditórias e frágeis, e acaba por tornar a mensagem "imune" a críticas, pois uma interpretação pode ser anulada por outra.

Um exemplo que posso dar é o da obra de Paulo Freire Pedagogia do Oprimido: extremamente rebuscada, não traz nada de novo à Pedagogia ou ao ensino além da aplicação da militância ideológica em sala de aula, desprezando o conhecimento acumulado ao longo dos séculos em nome da formação de uma classe intelectual revolucionária. Interessante que o próprio autor afirma que os alunos devem buscar seu próprio conhecimento ("o professor não ensina, são os alunos que se educam mediados pelo mundo") dentro de uma lógica revolucionária, o que não deixa de ser uma contradição: então o aluno pode atingir um conhecimento não revolucionário? Não, isso é considerado por Freire uma lógica "bancária" ainda enraizada na pessoa. Bancária no caso seria a formação do aluno voltada para o mercado de trabalho e para a vida em uma sociedade capitalista.

Só de apontar essa questão, uma das primeiras respostas é você não entendeu o que ele quis dizer, ou você precisa estudá-lo mais. Acontece é que o excesso de rebuscamento cria ambiguidades fora de seus contextos, e quando uma crítica é feita, é facilmente rebatida com outra interpretação da mesma ideia, como se a anterior fosse falsa. Nisso entra-se em outra questão: isso é burrice ou má intenção do autor? Ele pode escrever de forma complicada por querer melhorar seu estilo de escrita ou justamente para evitar críticas de outros profissionais - ou mesmo ambas as coisas. A impressão que eu tenho é a de que burrice e má intenção andam juntas, não só neste caso.


Não adianta buscar um purismo de linguagem de apenas um sentido apenas. Sempre será possível distorcer palavras e contextos, por mais claros que sejam. Contudo vale o esforço para uma linguagem mais nobre e palatável. Buscar superar o analfabetismo funcional é uma tarefa árdua, tendo em vista que o indivíduo tem mais dificuldade para aprender coisas novas conforme os anos passam. No entanto, é algo possível e racional de ser feito, sobretudo para fugir da armadilha do erro de interpretação conduzido por outras pessoas por conta de opiniões e visões discordantes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O Preço do Amanhã


Esse filme parte da máxima que ficou conhecida pelo mote do personagem Super Sam, do Chapolin Colorado: "Time is money, oh yeah!" Tempo é dinheiro, e a cobrança de juros já foi considerada crime na Idade Média, por considerarem o tempo pertencente a Deus, portanto o homem não poderia cobrá-lo de outrem. Este filme de 2011 tem feito a cabeça de muitas pessoas nos dias de hoje, pois dá a impressão de ser aquela metáfora do carpe diem. Contudo, a mensagem implícita no filme é o melhor exemplo de mentalidade revolucionária que já encontrei para explicá-la.

Apesar de considerarem o filme futurista, eu o penso como surrealista, assim como A Origem, pois ambos têm a realidade atual com apenas um diferencial tecnológico: no caso d'O Preço do Amanhã, a moeda corrente passou a ser o próprio tempo de vida da pessoa, que ao atingir os 25 anos de idade deverá trabalhar para poder se sustentar, pagar as contas, além de sobreviver. A maioria das pessoas vive na miséria, competindo com os outros por alguns minutos a mais, tendo que se sacrificar para sobreviver a cada aumento dos preços - afinal, não há espaço no planeta para todos serem imortais e viverem bem... Isso soa conhecido? Prazer, teoria malthusiana, na qual fala que chegará uma época na qual não haverá recursos suficientes para todas as pessoas, portanto a população mundial terá de ser reduzida drasticamente.

Nesse contexto surge Will, que ao ver a mãe morrer em seus braços (porque faltou-lhe tempo para chegar em casa) resolveu tirar o tempo de quem o havia roubado - parece até a guria da ONU esbravejando - bem quando ele ganha 110 anos de tempo-dinheiro de alguém que havia perdido o sentido de viver. Enquanto rastreiam a transferência milionária, Will resolve curtir a vida em meio à alta sociedade. Literalmente se infiltra nesse meio, tendo em vista os altos pedágios a serem pagos de uma região para outra, e em um cassino acaba por ganhar mais de 1000 anos do tal tempo-dinheiro. Digo dessa forma pois ainda é necessário comer e dormir, além de que é possível ser morto mesmo com tempo a gastar.

Will é localizado pela polícia local (os guardiões do tempo) e tem seu tempo apreendido. O guri então resolve fugir levando a filha de um milionário como refém, Silvia. Por um momento, ela teme o criminoso, negando-lhe tempo como uma forma de evitar o prolongamento do cativeiro, e, logo após um acidente de carro, Will lhe doa tempo para mantê-lo. Ao contrário do que aparenta, esse não é um gesto generoso, apesar de todo o arranjo da cena. A ideia é embelezar a revolução, tanto é que quem faz o papel de Will é o cantor Justin Timberlake - que dispensa qualquer apresentação. Pode ter certeza de que muitos foram assistir ao filme apenas para ver o cantor em cena - e se deixar levar pela mensagem do filme.

O filme lembra a Escola de Frankfurt romanceada: ricos oprimindo pobres, uma pessoa resolvendo então se revoltar contra o sistema, e através da criminalidade fazer "justiça social". Nisso leva a burguesinha fútil consigo, que se encanta com a ideia, e passa a ser tão radical quanto - ao ponto de roubar o próprio pai. Will e Silvia tornam-se procurados pelos guardiões do tempo, mas não são encontrados, pois as pessoas começam a ter tempo o suficiente e perdem o interesse pela recompensa. Note que são guardiões do tempo, do dinheiro, não da sociedade. Nada fazem a não ser evitar que muito dinheiro saia das áreas ricas para as pobres - contudo não se deixam corromper pelo sistema.

E por que digo isso? Porque Silvia também se torna procurada por participar ativamente das ações criminosas - ela deixa de ser refém para se tornar comparsa. Os guardiões do tempo não hesitam em inseri-la na lista de procurados após atirar em um, o que irrita seu pai, que como todo metacapitalista, tem tanto dinheiro que quer influenciar a sociedade. Os guardiões do tempo são desprezados tanto pelos pobres quanto pelos ricos, apenas por serem honestos e tentarem cumprir seu trabalho da melhor forma possível. Em um mundo sem Deus, sem religião, você só possui o presente e o prazer imediato: corromper-se por tempo-dinheiro é mera questão de conveniência. A única "ética" existente é a do ladrão que rouba apenas dentro dos guetos (bolsões de pobreza) para não ser rastreado ou preso.

Há uma crítica sutil ao Matrix: os guardiões do tempo vestem-se à Neo, Morpheus e Trinity; viajam entre "os mundos" para por as coisas em seus devidos lugares, tendo por antagonistas todo mundo: dos metacapitalistas que os veem como objetos, aos mais pobres, que os veem como inimigos. Quem mostra a "realidade" não é uma pessoa "diferenciada" como Morpheus, mas um bêbado deprimido que como red pill doa 110 anos de tempo-dinheiro, não para sair do sistema, mas para entrar. Ao contrário de Matrix, que o final não é o romantizado fim do sistema, Will consegue dar início à revolução através do roubo sistemático de tempo e distribuição às pessoas dos guetos. É noticiado que as fábricas esvaziam-se, pois as pessoas não têm mais interesse em trabalhar. Mostram pessoas dando as mãos e dando risada, como novos amigos.

Aí que está a falha do final do filme: como disse antes, o tempo-dinheiro não é apenas o tempo restante de vida da pessoa, mas sua conta bancária para pagar suas contas. Quem irá produzir alimentos? Quem construirá casas? Por um momento, e isso o filme não mostra, todos poderão comprar tudo, mas o preço irá subir absurdamente pela lei de oferta e demanda, já que faltarão recursos. Isso gerará um caos na sociedade, não o paraíso da igualdade como Will e Silvia sonham: talvez eles mesmos tenham dificuldade em sobreviver ao caos que criaram, e faleçam com séculos nos braços. Quem se deixou levar pela aventura de Justin Timberlake acaba por não prestar atenção no que poderia acontecer após um final tão surreal.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Uma crítica (necessária) aos minions


Vira e mexe comento aqui sobre como eu não gosto dos minions, aquelas figurinhas amareladas que seguem um vilão. Digo amareladas, pois a origem do termo minion vem do latim e significa vermelho: era a inicial vermelha dos manuscritos medievais, conhecidas atualmente por miniatura. Apesar da "pequenez" (algumas miniaturas medievais possuíam cerca de um metro e meio de tamanho), miniatura está mais ligada à representação do que ao tamanho: uma miniatura de qualquer coisa representa algo, e não algo em tamanho menor somente.

Minions são tão malvados que as pessoas não percebem o tamanho de sua maldade - a pretensa "fofura amarela" os camufla dos desatentos e incautos. Eles buscam um vilão para servir: qual é a intenção de um filme infantil transmitir esse tipo de ensinamento? Ver os filmes com esses personagens sob essa ótica assusta mais que esse novo filme do Coringa: afinal, neste você sabe que está a falar de um vilão, de uma pessoa má que não esconde sua maldade (e o seu prazer em fazer o mal). Os minions, ao contrário, escondem suas maldades em travessuras, em atitudes descontraídas, o que os tornam bem mais perigosos.

Um detalhe interessante é que os minions acabam por destruir seus senhores. Uma atrapalhada ou outra e puft! o vilão-chefe já era. A forma engraçada como é transmitido esconde (pra variar) aquela associação entre burrice e má fé que muitas pessoas mal intencionadas utilizam, o famoso eu não sabia de nada. É necessário um vilão que consiga controlá-los para que seus danos não o afetem ou mesmo o destruam. Nem parece que estou falando de uma animação infantil da Dream Works - e ainda mais essa, não é criação da Disney.

O que se pode aprender, então, com estes filmes? Que a maldade mais perigosa está oculta em coisas supostamente boas, e mesmo o próprio mal tem que se controlar para não se autodestruir. Isso é muito mais uma temática adulta do que infantil, e da forma como é transmitida, é necessária uma orientação para não se deixar cair nas atrapalhadas fofinhas de seres tão ruins. Deve-se lembrar, também, que crianças têm comportamentos maldosos, e sentem prazer com a maldade, como por exemplo quando enganam ou mentem para alguém com sucesso.

As crianças então seriam como aprendizes de minions? Talvez. Se não forem bem cuidadas ou educadas, podem chegar a destruir a própria família. E assim como não se reconhece a maldade dos minions, não se reconhece a maldade infantil: o bullying existe porque as crianças sentem prazer em perseguir outras crianças. Se não há limites impostos (e infelizmente são impostos às vítimas), podem gerar casos sérios - adultos demais.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Por que a Verdade é inconveniente


Em uma das críticas que ouvi sobre o "documentário" Uma Verdade Inconveniente, discordam da associação do termo "verdade" à "inconveniência". O crítico em questão argumenta que não existe verdade inconveniente, que toda verdade é conveniente e necessária. No entanto, nos últimos tempos, percebo que a Verdade (com maiúscula, com minúscula, que seja!) é inconveniente quase que o tempo todo. As pessoas tendem a ter uma repulsa à Verdade que raia o absurdo, se for pensar que da boca pra fora ela a busca: se você mostra a verdade, ou mesmo algo muito próximo, as pessoas tendem a te rejeitar e a te boicotar, por não quererem admitir o fato de estarem erradas.

Quanto mais você evolui sua consciência, mais perto da Verdade você está, e mais fácil é para você ver a situação como um todo, em seus detalhes e ângulos. Não há preconceitos, não há interesses egoístas, apenas o interesse cada vez mais puro de que a Verdade se revele, por mais inconveniente que seja, mesmo pra si próprio. O problema é que a maioria das pessoas não aceita disso, sem perceber: por mais que digam que buscam a verdade, acreditam que a mesma é relativa, e mesmo contraditória. A verdade não é relativa, e sim depende da percepção da pessoa: por isso os diferentes ângulos e as divergências em relação aos fatos, fora o próprio nível de percepção, que distorce os fatos, gerando factoides.

Lembrei-me do Efeito Matrix, quando as pessoas se voltam contra você apenas por mudar sua visão de mundo. É difícil aceitar os fatos, é difícil aceitar a Verdade: quando você a mostra, a pessoa se revolta, achando que você quer impor sua razão sobre ela. Há pessoas que chegam ao absurdo de acreditar que se deve aceitar o que o outro diz pelo simples motivo do lugar de fala, independente do quanto você saiba do assunto, ou mesmo se há boa intenção em quem fala.

Não se iluda: você realmente quer saber a verdade das coisas ou apenas impor sua opinião? A diluição do conceito de verdade é mais um anestésico para controlar o rebanho do que algo factual. Essa percepção vai além do nível de consciência da maioria das pessoas do planeta: cerca de 15% da população mundial está acima de 200, ou seja, apenas uma ínfima minoria tem consciência de si e da sua responsabilidade sobre sua própria vida. Mesmo assim, 200 dá uma visão difusa sobre a Verdade, que ganha nitidez conforme a pessoa evolui.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Balada do Peixe-Vento


Essa é uma resenha do jogo The Legend of Zelda - Link's Awakening que ganhou uma nova versão recentemente. Neste jogo, Link é atingido por um raio em alto mar e acaba por ser encontrado por uma moça chamada Marin na ilha Koholint. Para Link sair da ilha, ele precisa acordar o Peixe-Vento, e para tanto, é necessário encontrar os oito instrumentos musicais e assim acordá-lo. Contudo, a ilha nada mais é que um sonho do Peixe-Vento, lembrando (e muito) o processo descrito na trilogia Matrix. Contudo, enquanto em Matrix você tem a coexistência de dois mundos, em Link's Awakening a ilha precisa desaparecer para Link voltar ao mundo real.

O jogo está mais próximo apenas do primeiro filme, e acaba não permitindo muita reflexão sobre a ilha ou mesmo o estado de sono em que Link e o Peixe-Vento se encontram, meio que empurrando o jogador a destruir a ilha e acordar a "baleia voadora". Não vou entrar no mérito de que baleias são mamíferos, pois o nome do ser é Peixe-Vento (Wind Fish) e se parece uma baleia - ficam aqui o apelido e a observação.

Continuando a história, Link acorda assustado na casa de Marin, que diz não conhecer Zelda e se apresenta. Ela ainda fala que algumas coisas dele estavam na praia e que não tinha conseguido resgatá-las por conta dos monstros de apareceram. Link recebe de volta seu escudo e desce à praia para buscar sua espada, e encontra com uma coruja, que conta sobre a ilha e da necessidade de acordar o Peixe-Vento. Essa coruja o orienta sobre o que fazer ao longo do jogo para encontrar os instrumentos musicais, além de contar a história da ilha, que vou explicar melhor mais pra frente.

É um jogo da franquia Zelda como os posteriores (a primeira versão foi lançada no final da década de 1980), só que sem a princesa Zelda ou mesmo a Triforce, que são pontos em comum de (quase) todos os jogos. Você coleta moedas, ganha itens, faz missões paralelas, mata monstros, e faz compras. Ao longo da jornada, Marin está presente, e mesmo em uma parte do jogo ela te acompanha, tecendo comentários sobre suas atitudes, e te ensina a famosa Balada do Peixe-Vento, que nada mais é que a canção que desperta a baleia voadora de seu sono profundo.

Em uma parte do jogo, finalmente Link descobre que está em um sonho, o pesadelo do Peixe-Vento. Toda a ilha, inclusive Marin, é uma ilusão. Se essa história não fosse tão batida e tão conhecida, talvez este fosse um ponto de virada do jogo. Acordar o Peixe-Vento não é uma "autorização" para sair da ilha, mas uma necessidade de se voltar à realidade. Tanto é que a partir deste ponto, os chefes das instâncias bradam que Link também irá desaparecer se a ilha sumir. Se não fosse o fluxo do jogo, daria para refletir sobre a possibilidade de se resgatar Marin da ilha, mas ela também é uma ilusão - como a Mulher de Vermelho.

Uma parte que me chamou a atenção no jogo é a possibilidade de furtar itens da loja. Se não estiver enganada, é o único jogo que permite que você leve os itens da loja sem pagar. Claro que, se você voltar à loja, o dono irá matá-lo, mas até aí você não perde o item. Esse ponto precisa ser mais levado em consideração do que é atribuído, afinal, você está cometendo um ato imoral, mesmo sendo num jogo, mesmo sendo num sonho dentro do jogo. Lembre que a mente não diferencia realidade de ficção, ou seja, você só furta no jogo porque há condições para tal, e você o faria na vida real se também tivesse. Isso influencia o resto da história? Tirando o fato de que o dono da loja te mata, mas depois você pode retornar e comprar outras coisas, sem perder o item furtado, não.

Estendendo mais neste ponto, este é um jogo no qual você está em um sonho, lembrando o filme A Origem, no qual o protagonista manipula pessoas através dos sonhos, e mesmo criando sonhos dentro de sonhos. O jogo é um sonho dentro de uma ficção, ou seja, o fato de furtar não vai trazer "nenhuma" consequência ao mundo do jogo - apenas na realidade. Ou seja, um ato aparentemente bobo ou mesmo "necessário" pode ter efeitos catastróficos depois de jogar: leia os comentários dos vídeos que têm no YouTube explicando essa parte. É possível juntar dinheiro para comprar estes itens? Claro que é, mas dá trabalho - muito trabalho.

Por fim, hora de acordar. O Peixe-Vento está dormindo por conta do pesadelo que invadiu sua mente, criando a ilha e tentando se tornar dono dela. A coruja que guia Link é uma manifestação direta do próprio Peixe-Vento, e talvez Marin seja fruto de ambos os seres: por um lado, Marin ensina a Link a Balada que fará despertar o Peixe-Vento, por outro, há a apreensão em vê-la desaparecer junto com a ilha - que poderia ser melhor trabalhado, diga-se de passagem. Diferentemente de Fable ou do Chrono Trigger, você não tem escolhas: derrote o pesadelo, acorde o Peixe-Vento, deixe Koholint desaparecer.

Em um dos diálogos do jogo, Marin diz que gostaria de ser uma gaivota para voar além da ilha. São gaivotas que aparecem quando Link acorda no meio do mar, além do Peixe-Vento seguindo seu caminho. A ilha Koholint passa então a existir nos sonhos de Link, e talvez Marin tenha conseguido realizar seu sonho de tornar-se uma gaivota para sair de ilha...

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

No final, ninguém gostou de Matrix


Tenho a impressão de que boa parte das pessoas não gosta da trilogia Matrix, por um motivo muito simples: o final não é agradável ou mesmo o esperado. Estragando a surpresa de quem pretende assistir à trilogia, ou mesmo ao The Matrix: Revolutions, ocorre um acordo de paz entre humanos e máquinas através do sacrifício de Neo lutando contra o Agente Smith bugado. As máquinas continuarão existindo, utilizando-se dos humanos como baterias, vivendo na Matrix, mas quem está em Zion poderá transitar livremente pelo planeta.

Dá-se a entender que quem quiser sair estará livre para tal, sem a necessidade de sentinelas protegendo as portas. Olhando por esse aspecto, o final é mais feliz do que se poderia esperar. Chega a ser ingenuidade nossa pensar que a trilogia acabará com o sistema destruído e todas as pessoas reconstruindo o planeta ferro-velho sem máquinas - voltando para uma sociedade primitiva, por assim dizer. Contudo, uma cena do segundo filme mostra que escolhas devem ser feitas e que, por menores que sejam, podem mudar tudo.

O segundo filme do Matrix é conhecido pelas conversas do Arquiteto, mas deixam de prestar atenção que é neste filme que Zion é apresentada ao telespectador pela primeira vez - apesar de Neo já conhecê-la. A cidade da resistência humana é primitiva e involuída, apesar de seus complexos tecnológicos, o que não a difere muito das cidades dentro da Matrix. Isso vai de encontro com a frase de Morpheus no primeiro filme: as pessoas estão tão acostumadas com o sistema que vão lutar para se manter nele. Ou seja, a pessoa saiu da Matrix, mas a Matrix não saiu dela.

Então não há muito o que ser feito em relação à Zion ou à Matrix, então entram dois fatores realmente importantes: Trinity e o Agente Smith. Ela toma um tiro e quase morre se não é a ação "milagrosa", por assim dizer de Neo, que tinha duas escolhas: salvá-la ou destruir a Matrix. Para quem uma mente mais ideológica, é a chance de ouro de por fim em tudo, mesmo que passando por cima do amor de sua vida. No entanto, Trinity valia mais que a Matrix, que Zion e tudo o mais: de que adiantaria destruir o sistema, e, construindo o tal mundo maravilhoso, ela não estivesse lá?

E, bem provavelmente, não seria esse mundo. Smith tinha bugado, e estava com projetos para dominar a Matrix, além de destruir os humanos de Zion. O que Neo faz no terceiro filme nada mais é do que se aliar com a Matrix contra um inimigo comum. A guerra entre humanos e máquinas era inútil perto do real risco à existência de ambos. O sacrifício de Neo simboliza o acordo de paz após as tentativas de se criar um núcleo de resistência ao domínio das máquinas: as coisas realmente mudaram. Neo era uma pessoa que sempre aparecia para recriar Zion após suas constantes destruições pelas máquinas, mas este Neo tomou consciência da situação como um todo - e mesmo a situação era diferente das anteriores.

No segundo filme, Neo percebe que é humano, que há coisas das quais ele não entende, que Zion não é um lugar a ser salvo, e que há coisas mais importantes do que a destruição da Matrix. Note que o pensamento revolucionário faz com que qualquer coisa torne-se positiva se voltada à causa, por mais nociva que seja. As pessoas de Zion querem libertar as pessoas da Matrix sem saber que estas não querem sair de lá. Talvez a verdadeira revolução seja esta, se fomos pensar na fala do Oráculo.