terça-feira, 11 de agosto de 2020

A complexa relação entre ser e ter

A relação entre ser e ter é mais complexa do que se imagina. Foi criada uma oposição entre os dois conceitos, como se um fosse bom e o outro ruim, dentro de um pensamento binário do qual se não é uma coisa, é seu total oposto. Dentro disso, você tem o ser como algo bom e o ter como, além de seu oposto, algo ruim.
É comum falar de abrir mão dos bens materiais, das ostentações, dos luxos, em nome de uma vida mais "interiorizada", mais "espiritualizada". Baseando-se em filosofias e religiões nas quais apenas uma minoria abdicava da vida material para um maior desenvolvimento espiritual, enquanto o restante da comunidade sustentava seus ascetas.
Enfim, esse pensamento começou a ser deturpado em nome de um maior controle social, afinal, quem não tem dinheiro ou bens materiais é mais facilmente controlável por não ter meios (materiais e mentais) de se defender. É isso que deve ser levado em consideração: repare que a estrutura social força as pessoas a terem menos reservas financeiras e mesmo busca abalar a alegria interior, gerando um vazio mental.
A pessoa é o que ela vale, e ela vale o que tem. Uma pessoa pode gostar de literatura, de praticar atividade física, de fazer doações para entidades diversas, mas isso não significa nada. Contudo, se ela tem uma família, um emprego, uma casa, ela tem um valor, um real valor.
Esses são os "luxos" que fazem a diferença em situação de adversidade, não o fato de gostar ou não de animais. Mesmo um diploma universitário tem mais valor que você ser uma pessoa extrovertida ou comunicativa. A ideia de ter como algo abominável pode esconder um projeto de escravidão no qual quem nada tem abre mão de si mesmo para poder sobreviver.
Não há problema nenhum em ter, afinal você quem define quem você é, não a opinião alheia - pelo menos assim que deveria ser. "Seja você mesmo" é o que dizem, mas almeje uma posição social mais elevada, um carro ou uma casa, ou mesmo uma vida material estável, já lhe apontam o dedo na cara: "materialista".
Com isso conclui-se que ser é algo mais complicado do que se imagina. Pode-se concluir, inclusive, que quando você tem, não se é, mas se pode viver. Perguntar "quem você é" é uma pergunta que não tem resposta, não porque faltam estudos e reflexões, mas porque ela não chega no ponto principal da questão.

terça-feira, 10 de março de 2020

A Janela de Overton

A Janela de Overton é uma coqueluche do momento atual. Baseada em fatos reais, a obra apresenta como a opinião pública foi manipulada ao longo das décadas para que as liberdades individuais dos norte-americanos pudessem ser solapadas e assim ser imposta uma ditadura aos moldes do 1984. A Janela de Overton em si é um recurso propagandístico para omitir/distorcer notícias e informações passadas para o grande público, como se fosse o lobo a pastorear o rebanho, tendo aceitação e a indiferença deste. Você não precisa mais tomar um governo de assalto, invadir um país com armas e guerras, para ter controle sobre ele. Basta dominar as mentes e os corações das pessoas, permitir que tenham vidas medíocres, ou melhor, que vivam apenas de forma medíocre para se manter o controle. A mediocridade impede a evolução e a tomada de consciência, mantendo a pessoa ocupada apenas com a sua sobrevivência.

Percebo no livro que o autor tenta pintar "heróis e vilões", e talvez seja esta a falha da obra. Não existem vilões no livro além dos criminosos deliberados, e mesmo os atos extremados. Por incrível que pareça, Arthur Gardner quer uma sociedade em ordem tanto quanto os FounderKeepers, tendo argumentos mais sólidos do que estes até. Os FounderKeepers seriam mais um grupo de idealistas por um país melhor do que pessoas realmente empenhadas para tal. O livro lembra o filme O Preço do Amanhã, que já resenhei aqui no blog. Uma visão idealizada de uma revolução social em nome de uma pretensa liberdade contra um suposto sistema opressor. As semelhanças param por aí: enquanto n'A Janela de Overton os FounderKeepers bradam pela manutenção de direitos consolidados há séculos, sendo criminalizados pouco a pouco para se tomar o controle, os protagonistas d'O Preço do Amanhã buscam fazer sua revolução através da criminalidade.

A Janela pode ser considerada um livro pré-1984, como teriam ocorrido as mudanças que desembocariam no sistema ditatorial do Grande Irmão. E a base de ambos os livros é a difusão de informações, factuais e ficcionais. Manipulando esta difusão, e mesmo distorcendo-as, uma pessoa ou grupo pode tomar o controle de países inteiros, fazendo com que as pessoas mudem de opinião de forma extremamente sutil de forma progressiva - deslocando a janela. Isso é bem ilustrado no livro, quase que literalmente, quando a descrição da apresentação de slides mostra as metas atingidas em relação à opinião pública sobre diversos assuntos, o protagonista Noah Gardner, filho de Arthur, descreve o método. Em uma das conversas, Arthur, pai de Noah, se justifica: as pessoas não sabem se controlar; dar liberdade a elas é colocar a humanidade em risco. A maioria das pessoas viventes não acrescenta nada à sociedade, de acordo com o magnata. E ele não deixa de ter razão, mesmo se utilizando de uma metodologia tão cruel.

Como já disse em outro post, as pessoas são como gado, só pensam em seus interesses e sacrificam seu rebanho em proveito próprio. As pessoas realmente são assim. Liberdade é questão de merecimento: luta-se por ela, há o peso da responsabilidade para ser realmente livre. Sempre haverá pessoas-rebanho, logo sempre haverá pessoas-lobo, prontas para devorá-las aos montes. Mas sempre haverá esperança, sempre haverá um Neo para bugar o sistema, sempre haverá pessoas que conquistarão sua liberdade - algo que não existe no 1984. Ao terminar de ler este livro, questionei-me se o mesmo não possuía uma saída - não exatamente reverter a situação, mas uma brecha na qual algumas pessoas pudessem "fugir" disso. Não há resposta, como se fosse uma caixa fechada. A Janela de Overton mostra que sempre haverá uma saída. E é isso que importa, mesmo que quase todos não se importem com isso.

terça-feira, 3 de março de 2020

Desabafo da realidade


O Brasil parece um país devastado por um apocalipse, mas que as pessoas ainda não deram conta de tal. Andam sobre as ruínas e a desgraça, achando que tudo está bem, e que num futuro, por inércia, tudo irá melhorar. As pessoas no Brasil não têm consciência do que se passa por elas, mais reagindo do que agindo, como sonâmbulas que, caso forem despertas em meio à crise, poderão ter um ataque cardíaco.

Dizem que o brasileiro é conservador por natureza: a favor de liberdades individuais, cristão, contra o aborto e a legalização das drogas. Realmente o é, pero no mucho. É aquele que gosta de fuçar a vida alheia; aquele que em cada dia está em uma igreja, celebrando credos às vezes contraditórios; que cria exceções à regra para levar vantagem, e por aí vai.

Do mesmo modo, o brasileiro também não é um esquerdista convicto: quer pagar menos impostos, além do que já foi dito anteriormente. No entanto, o brasileiro tem a cabeça socializante: gosta de cuidar da vida do outro. Gosta de regulação do Estado, do Estado interferindo na própria vida - afinal, essa intromissão também é usada como bode expiatório para os próprios problemas.

Brasileiro gosta de dinheiro - e como gosta. Os grandes movimentos sociais dos últimos anos foram movidos por causa do dinheiro, ou de sua falta: de centavos a bilhões. Questionam por que as pessoas voltaram ao seu recolhimento e mediocridade, e a resposta é óbvia: garantindo o pão nosso de cada dia, não há com o que se preocupar, ou pelo que brigar. Deixe que os outros se depenem por aí...

Ao mesmo tempo em que o brasileiro se diz caridoso, é de uma mesquinharia e um egoísmo vis. Ele quer ganhar, mas ganhar sozinho. Se ele perder, mas o outro também, está tudo bem. Se ambos ganharem, ele e o outro, de nada valeu. Por isso os oligopólios, os monopólios, o jeitinho. Há enraizada a vontade de ganhar sozinho, não de ver o outro ganhar também. Aquele conceito de soma-zero: se um ganha, é porque o outro perdeu; logo preciso fazer o outro perder para que eu realmente possa ganhar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Por que os sábios se retiram


Praticamente todo mundo conhece aquele clichê da ficção em que o personagem sábio (monge, guru, ou algo do gênero) está recolhido em algum lugar isolado e seus conselhos fazem toda a diferença no desenvolvimento e na conclusão da história. Muitos devem se perguntar porque pessoas tão evoluídas assim decidem se afastar do convívio social, sendo que são elas que poderiam fazer a diferença para o todo. Esse clichê é mais real do que se pensa: com a evolução da consciência, percebe-se que nada pode ser feito para mudar o mundo, e se retirar acaba sendo a única saída - pelo seu próprio bem.

Parece haver uma contradição: a pessoa mais evoluída parece tornar-se mais egoísta, pois aparentemente parece agir mais para si do que para os outros - como se, inclusive, houvesse uma obrigação dos mais evoluídos "ajudarem" os que ainda não se desenvolveram, o que soa muito estranho. Na verdade, o evoluído ama a si mesmo verdadeiramente, e percebe que, para amar o outro, é necessário se amar. Não adianta fazer tudo para os outros e esquecer de si mesmo: o resultado é duplamente doloroso. Sem conhecer os próprios limites, não se conhece a limitação do outro; sem entender a si mesmo, não se entende o outro.

Bom, se a pessoa evoluída se ama e ama o outro, por que ela se retira? Porque o outro não a entende: tenta encaixá-la no seu padrão limitado, de forma cada vez mais agressiva. Pessoas que sabem ser realmente livres causam medo, e tenta-se, inconscientemente, controlá-las. Chega uma hora que esse combate cansa, simples assim. E chega outra hora em que o evoluído sente-se deslocado de seus semelhantes, como se estivesse em outro planeta. Nada mais daquele mundo mundano faz mais sentido: surge então um desejo de partir. Falar sobre a Verdade para uma pessoa, digamos, não desperta é praticamente impossível, como já disse aqui outras (tantas) vezes.

Seguir o fluxo do Universo põe as coisas em seus devidos lugares, e mesmo os anseios mais profundos parecem entrar em harmonia com o Todo. Não se força a barra para mais nada, mas as coisas simplesmente surgem, de forma inesperada ou não - isso se a pessoa ainda continua esperando por algo. O afastamento também permite que seja possível perceber essas oscilações, essas vibrações - quase que um contato com o divino. A pessoa evoluída ajuda o outro com o que precisa, não com o que se quer.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Abstraia: a geração pseudo-zen



Seria tolo de minha parte pensar que o deboísmo é um fenômeno recente mas com consequências profundas. Na verdade, ele é consequência de anos de programação de uma sociedade anestesiada e apática à vida. Apatia, já dizia Hawkins, é um dos níveis negativos de consciência: nele nada se faz por se achar que nada dará certo, que não depende da atitude da pessoa, e sim de fatores externos apenas. Hoje em dia, isso é vendido como tranquilidade, ou mesmo como paz de espírito. Pior do que isso, é que qualquer atitude, defensiva ou não, ser vista como algo negativo, até como crime.

Já comentei sobre o politicamente incorreto aqui no blog. Ele é uma das ferramentas dentro da programação que fomentam a apatia nas pessoas. Também já comentei que os níveis abaixo de 200 são instáveis, e as pessoas ficam "circulando" entre eles. Como tudo o que pode ser dito (ou mesmo pensado) acaba por passar por crivos estreitos de fragilidade, e se defender é visto como algo negativo, abre-se espaço para o desenvolvimento da apatia em relação a tudo, sobretudo para as coisas importantes.

Não é necessário dizer que uma postura mais tranquila perante coisas realmente pequenas é algo a ser praticado. O problema é mais sério: coisas que realmente importam, certas e erradas, estão sendo abstraídas da mente, como se as pessoas desaprendessem a lidar com o sofrimento e tentassem, a todo custo, evitá-lo, mesmo que as omissões gerem muito mais sofrimento que o combate propriamente dito.

São as mesmas pessoas que reclamam de tudo, como se a vida dependesse de algo ou alguém distantes - apesar de eu desconfiar que tentam implantar algo assim a qualquer custo. Se por um lado deve-se ter empatia e buscar entender o problema no ponto de vista alheio, por outro fica patente a diferença de consciência de quem está abaixo e de quem está acima de 200 - cerca de 5% da população mundial. Fugir do jargão para não resetar o próprio sistema pode ser útil para superar a apatia e tomar atitudes sobre as coisas importantes da vida.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Fluidez da linguagem e analfabetismo funcional


Analfabetismo funcional é quando uma pessoa sabe ler e escrever sem entender plenamente o que leu e/ou o que escreveu - ou seja, sem expressar uma ideia com suas próprias palavras, ou mesmo interligá-la a outras. Aparentemente pode parecer um problema de interpretação, no entanto, é uma real questão de cognição, na qual a pessoa não consegue relacionar ideias, encadeá-las e formar raciocínios completos. E isso pode ser distorcido a ponto de qualquer divergência de interpretação ou conclusão ser considerada analfabetismo funcional - uma grande confusão do momento. A linguagem não é algo exato, o que permite múltiplas interpretações. O contexto é importante, mas é mais complexo do que se aparenta.

Qual é a real diferença entre divergência de interpretação e analfabetismo funcional? É se a pessoa de fato conseguiu interligar a ideia do que leu com outras, ou seu encadeamento textual fez sentido: essa percepção pode ser mais ideológica do que lógica. Infelizmente, as pessoas preferem considerar como absurdo algo que pode ser apenas divergente de sua visão de mundo. Desconsiderar o que a pessoa entendeu é um recurso de argumentação usado para anular o que o outro disse e deixá-lo sem argumentos. Como disse antes, a linguagem é fluida, e mesmo raciocínios dos mais "malucos" podem fazer todo o sentido.

Talvez seja necessário, antes de tudo, entender que a linguagem é fluida, e que, sim, as pessoas podem tirar diversas conclusões do que foi dito e/ou escrito, independente de sua boa ou má intenção. A partir daí, trabalhar uma linguagem sempre mais clara, mais simples, obviamente sem ser simplista: podar um raciocínio complexo achando que está simplificando. O rebuscamento pode parecer um recurso que eleva o tom da mensagem, mas em boa parte das vezes acaba por criar uma névoa que provoca interpretações por vezes contraditórias e frágeis, e acaba por tornar a mensagem "imune" a críticas, pois uma interpretação pode ser anulada por outra.

Um exemplo que posso dar é o da obra de Paulo Freire Pedagogia do Oprimido: extremamente rebuscada, não traz nada de novo à Pedagogia ou ao ensino além da aplicação da militância ideológica em sala de aula, desprezando o conhecimento acumulado ao longo dos séculos em nome da formação de uma classe intelectual revolucionária. Interessante que o próprio autor afirma que os alunos devem buscar seu próprio conhecimento ("o professor não ensina, são os alunos que se educam mediados pelo mundo") dentro de uma lógica revolucionária, o que não deixa de ser uma contradição: então o aluno pode atingir um conhecimento não revolucionário? Não, isso é considerado por Freire uma lógica "bancária" ainda enraizada na pessoa. Bancária no caso seria a formação do aluno voltada para o mercado de trabalho e para a vida em uma sociedade capitalista.

Só de apontar essa questão, uma das primeiras respostas é você não entendeu o que ele quis dizer, ou você precisa estudá-lo mais. Acontece é que o excesso de rebuscamento cria ambiguidades fora de seus contextos, e quando uma crítica é feita, é facilmente rebatida com outra interpretação da mesma ideia, como se a anterior fosse falsa. Nisso entra-se em outra questão: isso é burrice ou má intenção do autor? Ele pode escrever de forma complicada por querer melhorar seu estilo de escrita ou justamente para evitar críticas de outros profissionais - ou mesmo ambas as coisas. A impressão que eu tenho é a de que burrice e má intenção andam juntas, não só neste caso.


Não adianta buscar um purismo de linguagem de apenas um sentido apenas. Sempre será possível distorcer palavras e contextos, por mais claros que sejam. Contudo vale o esforço para uma linguagem mais nobre e palatável. Buscar superar o analfabetismo funcional é uma tarefa árdua, tendo em vista que o indivíduo tem mais dificuldade para aprender coisas novas conforme os anos passam. No entanto, é algo possível e racional de ser feito, sobretudo para fugir da armadilha do erro de interpretação conduzido por outras pessoas por conta de opiniões e visões discordantes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O Preço do Amanhã


Esse filme parte da máxima que ficou conhecida pelo mote do personagem Super Sam, do Chapolin Colorado: "Time is money, oh yeah!" Tempo é dinheiro, e a cobrança de juros já foi considerada crime na Idade Média, por considerarem o tempo pertencente a Deus, portanto o homem não poderia cobrá-lo de outrem. Este filme de 2011 tem feito a cabeça de muitas pessoas nos dias de hoje, pois dá a impressão de ser aquela metáfora do carpe diem. Contudo, a mensagem implícita no filme é o melhor exemplo de mentalidade revolucionária que já encontrei para explicá-la.

Apesar de considerarem o filme futurista, eu o penso como surrealista, assim como A Origem, pois ambos têm a realidade atual com apenas um diferencial tecnológico: no caso d'O Preço do Amanhã, a moeda corrente passou a ser o próprio tempo de vida da pessoa, que ao atingir os 25 anos de idade deverá trabalhar para poder se sustentar, pagar as contas, além de sobreviver. A maioria das pessoas vive na miséria, competindo com os outros por alguns minutos a mais, tendo que se sacrificar para sobreviver a cada aumento dos preços - afinal, não há espaço no planeta para todos serem imortais e viverem bem... Isso soa conhecido? Prazer, teoria malthusiana, na qual fala que chegará uma época na qual não haverá recursos suficientes para todas as pessoas, portanto a população mundial terá de ser reduzida drasticamente.

Nesse contexto surge Will, que ao ver a mãe morrer em seus braços (porque faltou-lhe tempo para chegar em casa) resolveu tirar o tempo de quem o havia roubado - parece até a guria da ONU esbravejando - bem quando ele ganha 110 anos de tempo-dinheiro de alguém que havia perdido o sentido de viver. Enquanto rastreiam a transferência milionária, Will resolve curtir a vida em meio à alta sociedade. Literalmente se infiltra nesse meio, tendo em vista os altos pedágios a serem pagos de uma região para outra, e em um cassino acaba por ganhar mais de 1000 anos do tal tempo-dinheiro. Digo dessa forma pois ainda é necessário comer e dormir, além de que é possível ser morto mesmo com tempo a gastar.

Will é localizado pela polícia local (os guardiões do tempo) e tem seu tempo apreendido. O guri então resolve fugir levando a filha de um milionário como refém, Silvia. Por um momento, ela teme o criminoso, negando-lhe tempo como uma forma de evitar o prolongamento do cativeiro, e, logo após um acidente de carro, Will lhe doa tempo para mantê-lo. Ao contrário do que aparenta, esse não é um gesto generoso, apesar de todo o arranjo da cena. A ideia é embelezar a revolução, tanto é que quem faz o papel de Will é o cantor Justin Timberlake - que dispensa qualquer apresentação. Pode ter certeza de que muitos foram assistir ao filme apenas para ver o cantor em cena - e se deixar levar pela mensagem do filme.

O filme lembra a Escola de Frankfurt romanceada: ricos oprimindo pobres, uma pessoa resolvendo então se revoltar contra o sistema, e através da criminalidade fazer "justiça social". Nisso leva a burguesinha fútil consigo, que se encanta com a ideia, e passa a ser tão radical quanto - ao ponto de roubar o próprio pai. Will e Silvia tornam-se procurados pelos guardiões do tempo, mas não são encontrados, pois as pessoas começam a ter tempo o suficiente e perdem o interesse pela recompensa. Note que são guardiões do tempo, do dinheiro, não da sociedade. Nada fazem a não ser evitar que muito dinheiro saia das áreas ricas para as pobres - contudo não se deixam corromper pelo sistema.

E por que digo isso? Porque Silvia também se torna procurada por participar ativamente das ações criminosas - ela deixa de ser refém para se tornar comparsa. Os guardiões do tempo não hesitam em inseri-la na lista de procurados após atirar em um, o que irrita seu pai, que como todo metacapitalista, tem tanto dinheiro que quer influenciar a sociedade. Os guardiões do tempo são desprezados tanto pelos pobres quanto pelos ricos, apenas por serem honestos e tentarem cumprir seu trabalho da melhor forma possível. Em um mundo sem Deus, sem religião, você só possui o presente e o prazer imediato: corromper-se por tempo-dinheiro é mera questão de conveniência. A única "ética" existente é a do ladrão que rouba apenas dentro dos guetos (bolsões de pobreza) para não ser rastreado ou preso.

Há uma crítica sutil ao Matrix: os guardiões do tempo vestem-se à Neo, Morpheus e Trinity; viajam entre "os mundos" para por as coisas em seus devidos lugares, tendo por antagonistas todo mundo: dos metacapitalistas que os veem como objetos, aos mais pobres, que os veem como inimigos. Quem mostra a "realidade" não é uma pessoa "diferenciada" como Morpheus, mas um bêbado deprimido que como red pill doa 110 anos de tempo-dinheiro, não para sair do sistema, mas para entrar. Ao contrário de Matrix, que o final não é o romantizado fim do sistema, Will consegue dar início à revolução através do roubo sistemático de tempo e distribuição às pessoas dos guetos. É noticiado que as fábricas esvaziam-se, pois as pessoas não têm mais interesse em trabalhar. Mostram pessoas dando as mãos e dando risada, como novos amigos.

Aí que está a falha do final do filme: como disse antes, o tempo-dinheiro não é apenas o tempo restante de vida da pessoa, mas sua conta bancária para pagar suas contas. Quem irá produzir alimentos? Quem construirá casas? Por um momento, e isso o filme não mostra, todos poderão comprar tudo, mas o preço irá subir absurdamente pela lei de oferta e demanda, já que faltarão recursos. Isso gerará um caos na sociedade, não o paraíso da igualdade como Will e Silvia sonham: talvez eles mesmos tenham dificuldade em sobreviver ao caos que criaram, e faleçam com séculos nos braços. Quem se deixou levar pela aventura de Justin Timberlake acaba por não prestar atenção no que poderia acontecer após um final tão surreal.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Uma crítica (necessária) aos minions


Vira e mexe comento aqui sobre como eu não gosto dos minions, aquelas figurinhas amareladas que seguem um vilão. Digo amareladas, pois a origem do termo minion vem do latim e significa vermelho: era a inicial vermelha dos manuscritos medievais, conhecidas atualmente por miniatura. Apesar da "pequenez" (algumas miniaturas medievais possuíam cerca de um metro e meio de tamanho), miniatura está mais ligada à representação do que ao tamanho: uma miniatura de qualquer coisa representa algo, e não algo em tamanho menor somente.

Minions são tão malvados que as pessoas não percebem o tamanho de sua maldade - a pretensa "fofura amarela" os camufla dos desatentos e incautos. Eles buscam um vilão para servir: qual é a intenção de um filme infantil transmitir esse tipo de ensinamento? Ver os filmes com esses personagens sob essa ótica assusta mais que esse novo filme do Coringa: afinal, neste você sabe que está a falar de um vilão, de uma pessoa má que não esconde sua maldade (e o seu prazer em fazer o mal). Os minions, ao contrário, escondem suas maldades em travessuras, em atitudes descontraídas, o que os tornam bem mais perigosos.

Um detalhe interessante é que os minions acabam por destruir seus senhores. Uma atrapalhada ou outra e puft! o vilão-chefe já era. A forma engraçada como é transmitido esconde (pra variar) aquela associação entre burrice e má fé que muitas pessoas mal intencionadas utilizam, o famoso eu não sabia de nada. É necessário um vilão que consiga controlá-los para que seus danos não o afetem ou mesmo o destruam. Nem parece que estou falando de uma animação infantil da Dream Works - e ainda mais essa, não é criação da Disney.

O que se pode aprender, então, com estes filmes? Que a maldade mais perigosa está oculta em coisas supostamente boas, e mesmo o próprio mal tem que se controlar para não se autodestruir. Isso é muito mais uma temática adulta do que infantil, e da forma como é transmitida, é necessária uma orientação para não se deixar cair nas atrapalhadas fofinhas de seres tão ruins. Deve-se lembrar, também, que crianças têm comportamentos maldosos, e sentem prazer com a maldade, como por exemplo quando enganam ou mentem para alguém com sucesso.

As crianças então seriam como aprendizes de minions? Talvez. Se não forem bem cuidadas ou educadas, podem chegar a destruir a própria família. E assim como não se reconhece a maldade dos minions, não se reconhece a maldade infantil: o bullying existe porque as crianças sentem prazer em perseguir outras crianças. Se não há limites impostos (e infelizmente são impostos às vítimas), podem gerar casos sérios - adultos demais.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Por que a Verdade é inconveniente


Em uma das críticas que ouvi sobre o "documentário" Uma Verdade Inconveniente, discordam da associação do termo "verdade" à "inconveniência". O crítico em questão argumenta que não existe verdade inconveniente, que toda verdade é conveniente e necessária. No entanto, nos últimos tempos, percebo que a Verdade (com maiúscula, com minúscula, que seja!) é inconveniente quase que o tempo todo. As pessoas tendem a ter uma repulsa à Verdade que raia o absurdo, se for pensar que da boca pra fora ela a busca: se você mostra a verdade, ou mesmo algo muito próximo, as pessoas tendem a te rejeitar e a te boicotar, por não quererem admitir o fato de estarem erradas.

Quanto mais você evolui sua consciência, mais perto da Verdade você está, e mais fácil é para você ver a situação como um todo, em seus detalhes e ângulos. Não há preconceitos, não há interesses egoístas, apenas o interesse cada vez mais puro de que a Verdade se revele, por mais inconveniente que seja, mesmo pra si próprio. O problema é que a maioria das pessoas não aceita disso, sem perceber: por mais que digam que buscam a verdade, acreditam que a mesma é relativa, e mesmo contraditória. A verdade não é relativa, e sim depende da percepção da pessoa: por isso os diferentes ângulos e as divergências em relação aos fatos, fora o próprio nível de percepção, que distorce os fatos, gerando factoides.

Lembrei-me do Efeito Matrix, quando as pessoas se voltam contra você apenas por mudar sua visão de mundo. É difícil aceitar os fatos, é difícil aceitar a Verdade: quando você a mostra, a pessoa se revolta, achando que você quer impor sua razão sobre ela. Há pessoas que chegam ao absurdo de acreditar que se deve aceitar o que o outro diz pelo simples motivo do lugar de fala, independente do quanto você saiba do assunto, ou mesmo se há boa intenção em quem fala.

Não se iluda: você realmente quer saber a verdade das coisas ou apenas impor sua opinião? A diluição do conceito de verdade é mais um anestésico para controlar o rebanho do que algo factual. Essa percepção vai além do nível de consciência da maioria das pessoas do planeta: cerca de 15% da população mundial está acima de 200, ou seja, apenas uma ínfima minoria tem consciência de si e da sua responsabilidade sobre sua própria vida. Mesmo assim, 200 dá uma visão difusa sobre a Verdade, que ganha nitidez conforme a pessoa evolui.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Balada do Peixe-Vento


Essa é uma resenha do jogo The Legend of Zelda - Link's Awakening que ganhou uma nova versão recentemente. Neste jogo, Link é atingido por um raio em alto mar e acaba por ser encontrado por uma moça chamada Marin na ilha Koholint. Para Link sair da ilha, ele precisa acordar o Peixe-Vento, e para tanto, é necessário encontrar os oito instrumentos musicais e assim acordá-lo. Contudo, a ilha nada mais é que um sonho do Peixe-Vento, lembrando (e muito) o processo descrito na trilogia Matrix. Contudo, enquanto em Matrix você tem a coexistência de dois mundos, em Link's Awakening a ilha precisa desaparecer para Link voltar ao mundo real.

O jogo está mais próximo apenas do primeiro filme, e acaba não permitindo muita reflexão sobre a ilha ou mesmo o estado de sono em que Link e o Peixe-Vento se encontram, meio que empurrando o jogador a destruir a ilha e acordar a "baleia voadora". Não vou entrar no mérito de que baleias são mamíferos, pois o nome do ser é Peixe-Vento (Wind Fish) e se parece uma baleia - ficam aqui o apelido e a observação.

Continuando a história, Link acorda assustado na casa de Marin, que diz não conhecer Zelda e se apresenta. Ela ainda fala que algumas coisas dele estavam na praia e que não tinha conseguido resgatá-las por conta dos monstros de apareceram. Link recebe de volta seu escudo e desce à praia para buscar sua espada, e encontra com uma coruja, que conta sobre a ilha e da necessidade de acordar o Peixe-Vento. Essa coruja o orienta sobre o que fazer ao longo do jogo para encontrar os instrumentos musicais, além de contar a história da ilha, que vou explicar melhor mais pra frente.

É um jogo da franquia Zelda como os posteriores (a primeira versão foi lançada no final da década de 1980), só que sem a princesa Zelda ou mesmo a Triforce, que são pontos em comum de (quase) todos os jogos. Você coleta moedas, ganha itens, faz missões paralelas, mata monstros, e faz compras. Ao longo da jornada, Marin está presente, e mesmo em uma parte do jogo ela te acompanha, tecendo comentários sobre suas atitudes, e te ensina a famosa Balada do Peixe-Vento, que nada mais é que a canção que desperta a baleia voadora de seu sono profundo.

Em uma parte do jogo, finalmente Link descobre que está em um sonho, o pesadelo do Peixe-Vento. Toda a ilha, inclusive Marin, é uma ilusão. Se essa história não fosse tão batida e tão conhecida, talvez este fosse um ponto de virada do jogo. Acordar o Peixe-Vento não é uma "autorização" para sair da ilha, mas uma necessidade de se voltar à realidade. Tanto é que a partir deste ponto, os chefes das instâncias bradam que Link também irá desaparecer se a ilha sumir. Se não fosse o fluxo do jogo, daria para refletir sobre a possibilidade de se resgatar Marin da ilha, mas ela também é uma ilusão - como a Mulher de Vermelho.

Uma parte que me chamou a atenção no jogo é a possibilidade de furtar itens da loja. Se não estiver enganada, é o único jogo que permite que você leve os itens da loja sem pagar. Claro que, se você voltar à loja, o dono irá matá-lo, mas até aí você não perde o item. Esse ponto precisa ser mais levado em consideração do que é atribuído, afinal, você está cometendo um ato imoral, mesmo sendo num jogo, mesmo sendo num sonho dentro do jogo. Lembre que a mente não diferencia realidade de ficção, ou seja, você só furta no jogo porque há condições para tal, e você o faria na vida real se também tivesse. Isso influencia o resto da história? Tirando o fato de que o dono da loja te mata, mas depois você pode retornar e comprar outras coisas, sem perder o item furtado, não.

Estendendo mais neste ponto, este é um jogo no qual você está em um sonho, lembrando o filme A Origem, no qual o protagonista manipula pessoas através dos sonhos, e mesmo criando sonhos dentro de sonhos. O jogo é um sonho dentro de uma ficção, ou seja, o fato de furtar não vai trazer "nenhuma" consequência ao mundo do jogo - apenas na realidade. Ou seja, um ato aparentemente bobo ou mesmo "necessário" pode ter efeitos catastróficos depois de jogar: leia os comentários dos vídeos que têm no YouTube explicando essa parte. É possível juntar dinheiro para comprar estes itens? Claro que é, mas dá trabalho - muito trabalho.

Por fim, hora de acordar. O Peixe-Vento está dormindo por conta do pesadelo que invadiu sua mente, criando a ilha e tentando se tornar dono dela. A coruja que guia Link é uma manifestação direta do próprio Peixe-Vento, e talvez Marin seja fruto de ambos os seres: por um lado, Marin ensina a Link a Balada que fará despertar o Peixe-Vento, por outro, há a apreensão em vê-la desaparecer junto com a ilha - que poderia ser melhor trabalhado, diga-se de passagem. Diferentemente de Fable ou do Chrono Trigger, você não tem escolhas: derrote o pesadelo, acorde o Peixe-Vento, deixe Koholint desaparecer.

Em um dos diálogos do jogo, Marin diz que gostaria de ser uma gaivota para voar além da ilha. São gaivotas que aparecem quando Link acorda no meio do mar, além do Peixe-Vento seguindo seu caminho. A ilha Koholint passa então a existir nos sonhos de Link, e talvez Marin tenha conseguido realizar seu sonho de tornar-se uma gaivota para sair de ilha...

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

No final, ninguém gostou de Matrix


Tenho a impressão de que boa parte das pessoas não gosta da trilogia Matrix, por um motivo muito simples: o final não é agradável ou mesmo o esperado. Estragando a surpresa de quem pretende assistir à trilogia, ou mesmo ao The Matrix: Revolutions, ocorre um acordo de paz entre humanos e máquinas através do sacrifício de Neo lutando contra o Agente Smith bugado. As máquinas continuarão existindo, utilizando-se dos humanos como baterias, vivendo na Matrix, mas quem está em Zion poderá transitar livremente pelo planeta.

Dá-se a entender que quem quiser sair estará livre para tal, sem a necessidade de sentinelas protegendo as portas. Olhando por esse aspecto, o final é mais feliz do que se poderia esperar. Chega a ser ingenuidade nossa pensar que a trilogia acabará com o sistema destruído e todas as pessoas reconstruindo o planeta ferro-velho sem máquinas - voltando para uma sociedade primitiva, por assim dizer. Contudo, uma cena do segundo filme mostra que escolhas devem ser feitas e que, por menores que sejam, podem mudar tudo.

O segundo filme do Matrix é conhecido pelas conversas do Arquiteto, mas deixam de prestar atenção que é neste filme que Zion é apresentada ao telespectador pela primeira vez - apesar de Neo já conhecê-la. A cidade da resistência humana é primitiva e involuída, apesar de seus complexos tecnológicos, o que não a difere muito das cidades dentro da Matrix. Isso vai de encontro com a frase de Morpheus no primeiro filme: as pessoas estão tão acostumadas com o sistema que vão lutar para se manter nele. Ou seja, a pessoa saiu da Matrix, mas a Matrix não saiu dela.

Então não há muito o que ser feito em relação à Zion ou à Matrix, então entram dois fatores realmente importantes: Trinity e o Agente Smith. Ela toma um tiro e quase morre se não é a ação "milagrosa", por assim dizer de Neo, que tinha duas escolhas: salvá-la ou destruir a Matrix. Para quem uma mente mais ideológica, é a chance de ouro de por fim em tudo, mesmo que passando por cima do amor de sua vida. No entanto, Trinity valia mais que a Matrix, que Zion e tudo o mais: de que adiantaria destruir o sistema, e, construindo o tal mundo maravilhoso, ela não estivesse lá?

E, bem provavelmente, não seria esse mundo. Smith tinha bugado, e estava com projetos para dominar a Matrix, além de destruir os humanos de Zion. O que Neo faz no terceiro filme nada mais é do que se aliar com a Matrix contra um inimigo comum. A guerra entre humanos e máquinas era inútil perto do real risco à existência de ambos. O sacrifício de Neo simboliza o acordo de paz após as tentativas de se criar um núcleo de resistência ao domínio das máquinas: as coisas realmente mudaram. Neo era uma pessoa que sempre aparecia para recriar Zion após suas constantes destruições pelas máquinas, mas este Neo tomou consciência da situação como um todo - e mesmo a situação era diferente das anteriores.

No segundo filme, Neo percebe que é humano, que há coisas das quais ele não entende, que Zion não é um lugar a ser salvo, e que há coisas mais importantes do que a destruição da Matrix. Note que o pensamento revolucionário faz com que qualquer coisa torne-se positiva se voltada à causa, por mais nociva que seja. As pessoas de Zion querem libertar as pessoas da Matrix sem saber que estas não querem sair de lá. Talvez a verdadeira revolução seja esta, se fomos pensar na fala do Oráculo.