terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Fluidez da linguagem e analfabetismo funcional


Analfabetismo funcional é quando uma pessoa sabe ler e escrever sem entender plenamente o que leu e/ou o que escreveu - ou seja, sem expressar uma ideia com suas próprias palavras, ou mesmo interligá-la a outras. Aparentemente pode parecer um problema de interpretação, no entanto, é uma real questão de cognição, na qual a pessoa não consegue relacionar ideias, encadeá-las e formar raciocínios completos. E isso pode ser distorcido a ponto de qualquer divergência de interpretação ou conclusão ser considerada analfabetismo funcional - uma grande confusão do momento. A linguagem não é algo exato, o que permite múltiplas interpretações. O contexto é importante, mas é mais complexo do que se aparenta.

Qual é a real diferença entre divergência de interpretação e analfabetismo funcional? É se a pessoa de fato conseguiu interligar a ideia do que leu com outras, ou seu encadeamento textual fez sentido: essa percepção pode ser mais ideológica do que lógica. Infelizmente, as pessoas preferem considerar como absurdo algo que pode ser apenas divergente de sua visão de mundo. Desconsiderar o que a pessoa entendeu é um recurso de argumentação usado para anular o que o outro disse e deixá-lo sem argumentos. Como disse antes, a linguagem é fluida, e mesmo raciocínios dos mais "malucos" podem fazer todo o sentido.

Talvez seja necessário, antes de tudo, entender que a linguagem é fluida, e que, sim, as pessoas podem tirar diversas conclusões do que foi dito e/ou escrito, independente de sua boa ou má intenção. A partir daí, trabalhar uma linguagem sempre mais clara, mais simples, obviamente sem ser simplista: podar um raciocínio complexo achando que está simplificando. O rebuscamento pode parecer um recurso que eleva o tom da mensagem, mas em boa parte das vezes acaba por criar uma névoa que provoca interpretações por vezes contraditórias e frágeis, e acaba por tornar a mensagem "imune" a críticas, pois uma interpretação pode ser anulada por outra.

Um exemplo que posso dar é o da obra de Paulo Freire Pedagogia do Oprimido: extremamente rebuscada, não traz nada de novo à Pedagogia ou ao ensino além da aplicação da militância ideológica em sala de aula, desprezando o conhecimento acumulado ao longo dos séculos em nome da formação de uma classe intelectual revolucionária. Interessante que o próprio autor afirma que os alunos devem buscar seu próprio conhecimento ("o professor não ensina, são os alunos que se educam mediados pelo mundo") dentro de uma lógica revolucionária, o que não deixa de ser uma contradição: então o aluno pode atingir um conhecimento não revolucionário? Não, isso é considerado por Freire uma lógica "bancária" ainda enraizada na pessoa. Bancária no caso seria a formação do aluno voltada para o mercado de trabalho e para a vida em uma sociedade capitalista.

Só de apontar essa questão, uma das primeiras respostas é você não entendeu o que ele quis dizer, ou você precisa estudá-lo mais. Acontece é que o excesso de rebuscamento cria ambiguidades fora de seus contextos, e quando uma crítica é feita, é facilmente rebatida com outra interpretação da mesma ideia, como se a anterior fosse falsa. Nisso entra-se em outra questão: isso é burrice ou má intenção do autor? Ele pode escrever de forma complicada por querer melhorar seu estilo de escrita ou justamente para evitar críticas de outros profissionais - ou mesmo ambas as coisas. A impressão que eu tenho é a de que burrice e má intenção andam juntas, não só neste caso.


Não adianta buscar um purismo de linguagem de apenas um sentido apenas. Sempre será possível distorcer palavras e contextos, por mais claros que sejam. Contudo vale o esforço para uma linguagem mais nobre e palatável. Buscar superar o analfabetismo funcional é uma tarefa árdua, tendo em vista que o indivíduo tem mais dificuldade para aprender coisas novas conforme os anos passam. No entanto, é algo possível e racional de ser feito, sobretudo para fugir da armadilha do erro de interpretação conduzido por outras pessoas por conta de opiniões e visões discordantes.

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