terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O Preço do Amanhã


Esse filme parte da máxima que ficou conhecida pelo mote do personagem Super Sam, do Chapolin Colorado: "Time is money, oh yeah!" Tempo é dinheiro, e a cobrança de juros já foi considerada crime na Idade Média, por considerarem o tempo pertencente a Deus, portanto o homem não poderia cobrá-lo de outrem. Este filme de 2011 tem feito a cabeça de muitas pessoas nos dias de hoje, pois dá a impressão de ser aquela metáfora do carpe diem. Contudo, a mensagem implícita no filme é o melhor exemplo de mentalidade revolucionária que já encontrei para explicá-la.

Apesar de considerarem o filme futurista, eu o penso como surrealista, assim como A Origem, pois ambos têm a realidade atual com apenas um diferencial tecnológico: no caso d'O Preço do Amanhã, a moeda corrente passou a ser o próprio tempo de vida da pessoa, que ao atingir os 25 anos de idade deverá trabalhar para poder se sustentar, pagar as contas, além de sobreviver. A maioria das pessoas vive na miséria, competindo com os outros por alguns minutos a mais, tendo que se sacrificar para sobreviver a cada aumento dos preços - afinal, não há espaço no planeta para todos serem imortais e viverem bem... Isso soa conhecido? Prazer, teoria malthusiana, na qual fala que chegará uma época na qual não haverá recursos suficientes para todas as pessoas, portanto a população mundial terá de ser reduzida drasticamente.

Nesse contexto surge Will, que ao ver a mãe morrer em seus braços (porque faltou-lhe tempo para chegar em casa) resolveu tirar o tempo de quem o havia roubado - parece até a guria da ONU esbravejando - bem quando ele ganha 110 anos de tempo-dinheiro de alguém que havia perdido o sentido de viver. Enquanto rastreiam a transferência milionária, Will resolve curtir a vida em meio à alta sociedade. Literalmente se infiltra nesse meio, tendo em vista os altos pedágios a serem pagos de uma região para outra, e em um cassino acaba por ganhar mais de 1000 anos do tal tempo-dinheiro. Digo dessa forma pois ainda é necessário comer e dormir, além de que é possível ser morto mesmo com tempo a gastar.

Will é localizado pela polícia local (os guardiões do tempo) e tem seu tempo apreendido. O guri então resolve fugir levando a filha de um milionário como refém, Silvia. Por um momento, ela teme o criminoso, negando-lhe tempo como uma forma de evitar o prolongamento do cativeiro, e, logo após um acidente de carro, Will lhe doa tempo para mantê-lo. Ao contrário do que aparenta, esse não é um gesto generoso, apesar de todo o arranjo da cena. A ideia é embelezar a revolução, tanto é que quem faz o papel de Will é o cantor Justin Timberlake - que dispensa qualquer apresentação. Pode ter certeza de que muitos foram assistir ao filme apenas para ver o cantor em cena - e se deixar levar pela mensagem do filme.

O filme lembra a Escola de Frankfurt romanceada: ricos oprimindo pobres, uma pessoa resolvendo então se revoltar contra o sistema, e através da criminalidade fazer "justiça social". Nisso leva a burguesinha fútil consigo, que se encanta com a ideia, e passa a ser tão radical quanto - ao ponto de roubar o próprio pai. Will e Silvia tornam-se procurados pelos guardiões do tempo, mas não são encontrados, pois as pessoas começam a ter tempo o suficiente e perdem o interesse pela recompensa. Note que são guardiões do tempo, do dinheiro, não da sociedade. Nada fazem a não ser evitar que muito dinheiro saia das áreas ricas para as pobres - contudo não se deixam corromper pelo sistema.

E por que digo isso? Porque Silvia também se torna procurada por participar ativamente das ações criminosas - ela deixa de ser refém para se tornar comparsa. Os guardiões do tempo não hesitam em inseri-la na lista de procurados após atirar em um, o que irrita seu pai, que como todo metacapitalista, tem tanto dinheiro que quer influenciar a sociedade. Os guardiões do tempo são desprezados tanto pelos pobres quanto pelos ricos, apenas por serem honestos e tentarem cumprir seu trabalho da melhor forma possível. Em um mundo sem Deus, sem religião, você só possui o presente e o prazer imediato: corromper-se por tempo-dinheiro é mera questão de conveniência. A única "ética" existente é a do ladrão que rouba apenas dentro dos guetos (bolsões de pobreza) para não ser rastreado ou preso.

Há uma crítica sutil ao Matrix: os guardiões do tempo vestem-se à Neo, Morpheus e Trinity; viajam entre "os mundos" para por as coisas em seus devidos lugares, tendo por antagonistas todo mundo: dos metacapitalistas que os veem como objetos, aos mais pobres, que os veem como inimigos. Quem mostra a "realidade" não é uma pessoa "diferenciada" como Morpheus, mas um bêbado deprimido que como red pill doa 110 anos de tempo-dinheiro, não para sair do sistema, mas para entrar. Ao contrário de Matrix, que o final não é o romantizado fim do sistema, Will consegue dar início à revolução através do roubo sistemático de tempo e distribuição às pessoas dos guetos. É noticiado que as fábricas esvaziam-se, pois as pessoas não têm mais interesse em trabalhar. Mostram pessoas dando as mãos e dando risada, como novos amigos.

Aí que está a falha do final do filme: como disse antes, o tempo-dinheiro não é apenas o tempo restante de vida da pessoa, mas sua conta bancária para pagar suas contas. Quem irá produzir alimentos? Quem construirá casas? Por um momento, e isso o filme não mostra, todos poderão comprar tudo, mas o preço irá subir absurdamente pela lei de oferta e demanda, já que faltarão recursos. Isso gerará um caos na sociedade, não o paraíso da igualdade como Will e Silvia sonham: talvez eles mesmos tenham dificuldade em sobreviver ao caos que criaram, e faleçam com séculos nos braços. Quem se deixou levar pela aventura de Justin Timberlake acaba por não prestar atenção no que poderia acontecer após um final tão surreal.

2 comentários:

  1. Excelente análise! Sempre achei esse filme uma perspectiva sem ponto de fuga... é a balada do nonsense...

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