O Preço do Amanhã


Esse filme parte da máxima que ficou conhecida pelo mote do personagem Super Sam, do Chapolin Colorado: "Time is money, oh yeah!" Tempo é dinheiro, e a cobrança de juros já foi considerada crime na Idade Média, por considerarem o tempo pertencente a Deus, portanto o homem não poderia cobrá-lo de outrem. Este filme de 2011 tem feito a cabeça de muitas pessoas nos dias de hoje, pois dá a impressão de ser aquela metáfora do carpe diem. Contudo, a mensagem implícita no filme é o melhor exemplo de mentalidade revolucionária que já encontrei para explicá-la.

Apesar de considerarem o filme futurista, eu o penso como surrealista, assim como A Origem, pois ambos têm a realidade atual com apenas um diferencial tecnológico: no caso d'O Preço do Amanhã, a moeda corrente passou a ser o próprio tempo de vida da pessoa, que ao atingir os 25 anos de idade deverá trabalhar para poder se sustentar, pagar as contas, além de sobreviver. A maioria das pessoas vive na miséria, competindo com os outros por alguns minutos a mais, tendo que se sacrificar para sobreviver a cada aumento dos preços - afinal, não há espaço no planeta para todos serem imortais e viverem bem... Isso soa conhecido? Prazer, teoria malthusiana, na qual fala que chegará uma época na qual não haverá recursos suficientes para todas as pessoas, portanto a população mundial terá de ser reduzida drasticamente.

Nesse contexto surge Will, que ao ver a mãe morrer em seus braços (porque faltou-lhe tempo para chegar em casa) resolveu tirar o tempo de quem o havia roubado - parece até a guria da ONU esbravejando - bem quando ele ganha 110 anos de tempo-dinheiro de alguém que havia perdido o sentido de viver. Enquanto rastreiam a transferência milionária, Will resolve curtir a vida em meio à alta sociedade. Literalmente se infiltra nesse meio, tendo em vista os altos pedágios a serem pagos de uma região para outra, e em um cassino acaba por ganhar mais de 1000 anos do tal tempo-dinheiro. Digo dessa forma pois ainda é necessário comer e dormir, além de que é possível ser morto mesmo com tempo a gastar.

Will é localizado pela polícia local (os guardiões do tempo) e tem seu tempo apreendido. O guri então resolve fugir levando a filha de um milionário como refém, Silvia. Por um momento, ela teme o criminoso, negando-lhe tempo como uma forma de evitar o prolongamento do cativeiro, e, logo após um acidente de carro, Will lhe doa tempo para mantê-lo. Ao contrário do que aparenta, esse não é um gesto generoso, apesar de todo o arranjo da cena. A ideia é embelezar a revolução, tanto é que quem faz o papel de Will é o cantor Justin Timberlake - que dispensa qualquer apresentação. Pode ter certeza de que muitos foram assistir ao filme apenas para ver o cantor em cena - e se deixar levar pela mensagem do filme.

O filme lembra a Escola de Frankfurt romanceada: ricos oprimindo pobres, uma pessoa resolvendo então se revoltar contra o sistema, e através da criminalidade fazer "justiça social". Nisso leva a burguesinha fútil consigo, que se encanta com a ideia, e passa a ser tão radical quanto - ao ponto de roubar o próprio pai. Will e Silvia tornam-se procurados pelos guardiões do tempo, mas não são encontrados, pois as pessoas começam a ter tempo o suficiente e perdem o interesse pela recompensa. Note que são guardiões do tempo, do dinheiro, não da sociedade. Nada fazem a não ser evitar que muito dinheiro saia das áreas ricas para as pobres - contudo não se deixam corromper pelo sistema.

E por que digo isso? Porque Silvia também se torna procurada por participar ativamente das ações criminosas - ela deixa de ser refém para se tornar comparsa. Os guardiões do tempo não hesitam em inseri-la na lista de procurados após atirar em um, o que irrita seu pai, que como todo metacapitalista, tem tanto dinheiro que quer influenciar a sociedade. Os guardiões do tempo são desprezados tanto pelos pobres quanto pelos ricos, apenas por serem honestos e tentarem cumprir seu trabalho da melhor forma possível. Em um mundo sem Deus, sem religião, você só possui o presente e o prazer imediato: corromper-se por tempo-dinheiro é mera questão de conveniência. A única "ética" existente é a do ladrão que rouba apenas dentro dos guetos (bolsões de pobreza) para não ser rastreado ou preso.

Há uma crítica sutil ao Matrix: os guardiões do tempo vestem-se à Neo, Morpheus e Trinity; viajam entre "os mundos" para por as coisas em seus devidos lugares, tendo por antagonistas todo mundo: dos metacapitalistas que os veem como objetos, aos mais pobres, que os veem como inimigos. Quem mostra a "realidade" não é uma pessoa "diferenciada" como Morpheus, mas um bêbado deprimido que como red pill doa 110 anos de tempo-dinheiro, não para sair do sistema, mas para entrar. Ao contrário de Matrix, que o final não é o romantizado fim do sistema, Will consegue dar início à revolução através do roubo sistemático de tempo e distribuição às pessoas dos guetos. É noticiado que as fábricas esvaziam-se, pois as pessoas não têm mais interesse em trabalhar. Mostram pessoas dando as mãos e dando risada, como novos amigos.

Aí que está a falha do final do filme: como disse antes, o tempo-dinheiro não é apenas o tempo restante de vida da pessoa, mas sua conta bancária para pagar suas contas. Quem irá produzir alimentos? Quem construirá casas? Por um momento, e isso o filme não mostra, todos poderão comprar tudo, mas o preço irá subir absurdamente pela lei de oferta e demanda, já que faltarão recursos. Isso gerará um caos na sociedade, não o paraíso da igualdade como Will e Silvia sonham: talvez eles mesmos tenham dificuldade em sobreviver ao caos que criaram, e faleçam com séculos nos braços. Quem se deixou levar pela aventura de Justin Timberlake acaba por não prestar atenção no que poderia acontecer após um final tão surreal.

Comentários

  1. Excelente análise! Sempre achei esse filme uma perspectiva sem ponto de fuga... é a balada do nonsense...

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