terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Por que os sábios se retiram


Praticamente todo mundo conhece aquele clichê da ficção em que o personagem sábio (monge, guru, ou algo do gênero) está recolhido em algum lugar isolado e seus conselhos fazem toda a diferença no desenvolvimento e na conclusão da história. Muitos devem se perguntar porque pessoas tão evoluídas assim decidem se afastar do convívio social, sendo que são elas que poderiam fazer a diferença para o todo. Esse clichê é mais real do que se pensa: com a evolução da consciência, percebe-se que nada pode ser feito para mudar o mundo, e se retirar acaba sendo a única saída - pelo seu próprio bem.

Parece haver uma contradição: a pessoa mais evoluída parece tornar-se mais egoísta, pois aparentemente parece agir mais para si do que para os outros - como se, inclusive, houvesse uma obrigação dos mais evoluídos "ajudarem" os que ainda não se desenvolveram, o que soa muito estranho. Na verdade, o evoluído ama a si mesmo verdadeiramente, e percebe que, para amar o outro, é necessário se amar. Não adianta fazer tudo para os outros e esquecer de si mesmo: o resultado é duplamente doloroso. Sem conhecer os próprios limites, não se conhece a limitação do outro; sem entender a si mesmo, não se entende o outro.

Bom, se a pessoa evoluída se ama e ama o outro, por que ela se retira? Porque o outro não a entende: tenta encaixá-la no seu padrão limitado, de forma cada vez mais agressiva. Pessoas que sabem ser realmente livres causam medo, e tenta-se, inconscientemente, controlá-las. Chega uma hora que esse combate cansa, simples assim. E chega outra hora em que o evoluído sente-se deslocado de seus semelhantes, como se estivesse em outro planeta. Nada mais daquele mundo mundano faz mais sentido: surge então um desejo de partir. Falar sobre a Verdade para uma pessoa, digamos, não desperta é praticamente impossível, como já disse aqui outras (tantas) vezes.

Seguir o fluxo do Universo põe as coisas em seus devidos lugares, e mesmo os anseios mais profundos parecem entrar em harmonia com o Todo. Não se força a barra para mais nada, mas as coisas simplesmente surgem, de forma inesperada ou não - isso se a pessoa ainda continua esperando por algo. O afastamento também permite que seja possível perceber essas oscilações, essas vibrações - quase que um contato com o divino. A pessoa evoluída ajuda o outro com o que precisa, não com o que se quer.

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