terça-feira, 25 de agosto de 2020

Sobre a Liberdade

Ainda no assunto da Teoria da Realidade Simulada, chega-se a uma conclusão importante: a liberdade não existe como a procuram. Ela é muito mais um estado interior do que uma conjuntura social. Você pode exprimi-la pelas leis ou mesmo pelos costumes, mas isso não significa que você seja realmente livre. Assim como em uma ditadura, que não precisa estar estabelecida em um regime de governo, mas ser regida de forma sutil, controlando os processos mentais das pessoas.

É necessário notar que as tentativas de controle das pessoas estão cada vez menos perceptíveis: busca-se mudar a cultura, os padrões de pensamento, e mesmo de linguagem, perseguindo quem discorda, dando a entender que estes não são bem-vindos, e que qualquer divergência será combatida. Tente mostrar outros pontos de vista sobre determinados assuntos que as pessoas afastar-se-ão de você, perderá seu emprego ou mesmo sofrerá revezes dos quais ninguém acreditará que é por conta disso.

Quando eu li 1984, fiquei imaginando uma forma de fugir daquele livro. Como seria viver em um lugar cujo governo possui controle absoluto sobre tudo? Note que governos controladores fornecem uma péssima qualidade de vida à população, como forma de controlá-las ainda mais - apenas alguns favorecidos têm uma vida digna, ou mesmo luxuosa. Como sair desse lugar? Nem digo derrubar o governo, mas algo mais palpável, mais possível: conseguir fugir das garras deste controle absurdo e respirar em paz com as próprias escolhas.

No livro em questão, Winston e sua amada têm momentos de prazer em meio ao caos, em um quarto alugado, e são descobertos pelo "Ministério do Amor", torturados e reprogramados, para logo depois serem vaporizados. Eles tinham passado a acreditar em dias melhores, momentos melhores, na tal liberdade.

E aí vem a Teoria da Realidade Simulada: não existe liberdade, pois tudo está sujeito aos limites da programação. Tudo, inclusive as pessoas, que são meros avatares de jogadores fora do universo programado, por assim dizer. Ou seja, assim como as pessoas são limitadas pela sua programação prévia, Oceânia (o país-continente de 1984 onde se desenrola a história) também é. E mesmo em lugares não-ficcionais onde há controle extremo sobre as pessoas - nem preciso dar exemplo -, existe um limite de programação.

Ter consciência da própria limitação é a verdade que liberta. É quando você percebe onde você é realmente livre: dentro de si mesmo, no próprio espírito. Só seu espírito pode ser realmente livre, e desta forma transcender a programação. Se o espírito é livre, não há mais controle sobre o ser, independente do controle exterior. Podem até controlar mentes, mas não podem controlar um espírito liberto pela verdade.

Essa é a saída do 1984: libertar o espírito, independente do ambiente. Os exercícios físicos, as torturas, a teletela, a novilíngua e tudo o mais perdem o sentido, e podem ser voltadas contra os controladores. Desta forma pode-se até pensar em derrubar o regime, mas continua não sendo o caso - este irá cair com o tempo, apesar de o livro não dar mostras de tal coisa. Nem aquela sala horrorosa, cujo número não vem à mente, pode destruir esse tipo de coisa: é mais fácil vaporizar a pessoa.

"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" talvez seja o versículo bíblico mais famoso dos últimos anos, e traz uma lição muito importante: a liberdade vem com a verdade. Não importa o controle, as leis, os processos e as pessoas, alcançar a verdade liberta o espírito. Vale fazer uma paráfrase com A Janela de Overton: ao se conhecer a verdade, deve-se vivê-la.

2 comentários:

  1. Muito bom, acredito também que a Liberdade de que tanto falam esteja muito mais ligado ao desprendimento de coisas materiais e de uma consciência padrão das coisas como nos vemos,o mundo como um sistema todo prende o ser humano de tantas formas que o mesmo não percebe, seja pela mídia , alimentação, costumes , etc, ou seja, o sistema como um todo trata o ser humano atual para cada vez mais o ser humano que exista seja praticamente indivisível do sistema ou seja , para que ele seja para sempre dependente de tudo.

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    1. Boa noite, Denis
      Sim, é por aí, há algo que a maioria das pessoas não percebe, mas quando percebem, não conseguem definir. O sistema possui portas que se abrem e se fecham constantemente: a porta pela qual uma pessoa sai não é a mesma de outra. Fora os sentinelas, que irão insistir que é tudo coisa da sua cabeça: família, amigos, pessoas próximas.
      Apenas não deixe de fazer as perguntas. Perguntas abrem portas e revelam a Verdade.

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