terça-feira, 13 de outubro de 2020

Em Defesa do Preconceito


Apesar de eu usar o título do livro do Theodore Dalrymple, este post não é uma resenha do livro, o qual achei muito confuso. O autor mistura de forma desproporcional o argumento de autoridade - ele é psiquiatra - com uma linguagem mais informal, para tornar o livro acessível ao grande público. No entanto, o texto fica enfadonho para um leigo, e não muito confiável a nível profissional. Deixando isso de lado, o assunto é realmente interessante e importante, sendo que eu já escrevi sobre aqui no blog.

O preconceito é parte do instinto animal: como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica. É difícil a pessoa mudar seu conceito sobre algo depois deste primeiro contato - as informações subsequentes apenas vão solidificando o que já ficou marcado. É algo natural, mais comum do que se imagina, e não é essencialmente ruim como querem dizer por aí. O preconceito pode livrar a pessoa de situações embaraçosas, assim como a intuição - que comentei sobre os dois conceitos em outro post.

Geralmente nosso preconceito é formatado nos padrões sociais vigentes, o que acaba por anular o instinto e a criar factoides sobre determinadas situações. Hoje comenta-se sobre determinados tipos de preconceito, os quais não irei citar aqui pois já são conhecidos e motivos de debate sempre que citados. No entanto, outros preconceitos, nos quais suas raízes são muito mais reais e acabam por afetar a vida das pessoas, mantém-se ocultos e são considerados como inexistentes ou mesmo superados - podendo causar mais danos do que se pensa.

Isso significa que o preconceito deve ser combatido? De jeito nenhum, pelo contrário: ele deve ser valorizado e trabalhado. A maior parte dos profissionais depende do conceito prévio para poder iniciar seu trabalho: só de olhar já se pode tirar conclusões precisas, cujas análises demorariam tempo desnecessário em determinados casos. Falar de fim do preconceito é abrir mão de uma habilidade valiosa do instinto para apenas parecer legal, ou justo, ou sei lá o quê.

Interessante notar que em alguns casos, ainda levando pro lado profissional, que fica mais fácil de explicar e exemplificar, determinadas áreas usam largamente do preconceito sem serem consideradas preconceituosas, enquanto outras são combatidas a qualquer custo. Ora, se a qualidade profissional depende de conceitos prévios, de bater o olho, por que determinadas áreas o podem fazê-lo, sem falar que o fazem?

Pegar o exemplo do médico e do policial: ambos precisam de conclusões rápidas e precisas para evitar o máximo de revezes possível. No entanto, o primeiro é considerado clínico, técnico; o segundo é considerado preconceituoso. Não se leva em conta que a experiência e a prática levam a reações imediatas às situações, tendo em vista maior eficiência do serviço. Quando isso é levado ao cotidiano, percebe-se que justamente aquelas pessoas "contra o preconceito" são aquelas que escondem intenções escusas por trás disso.

Não digo isso apenas em questões políticas ou sociais: até mesmo entre amigos isso pode acontecer. Tentar uma amizade com alguém com quem não se vai com a cara apenas para superar o preconceito pode terminar de forma mais dolorosa que apenas seguir seu preconceito e instinto. Isso mostra uma coisa interessante do preconceito: ele é individual, ou pelo menos deveria sê-lo. Cada pessoa desenvolve o preconceito da sua forma, o que faz com que quem não seja de seu convívio não entenda suas conclusões preliminares.

Preconceito é algo do qual não se deve ter vergonha, pois ele em si não é negativo. Assim como o ego, ele deve ser trabalhado e desenvolvido, para serem evitados dissabores futuros em função de sua ausência. Quem busca destruir o preconceito pode estar cometendo um erro grave, com ou sem intenção de fazê-lo, pois, como dito aqui, é parte da natureza humana, e como tal, deve ser cuidada.

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