terça-feira, 17 de novembro de 2020

História e Narrativa


Eu sou formada em História e, como aprendi na faculdade, sei que devo pesquisar os documentos de época para entendê-la. Posso estudar pesquisadores da área para comparar seus estudos com minha pesquisa, e assim chegar a um trabalho mais apurado. Contudo, uma coisa que nos últimos tempos têm chamado, e muito, a atenção é a confiabilidade das fontes. Como assim?

Hoje em dia o foco está maior na criação de uma narrativa do que de preservar um legado histórico para as próximas gerações. Tenta-se apagar documentos, vestígios diversos, que vão contra a narrativa desejada, literalmente tentando criar uma história ficcional ao invés de se relatar os fatos ocorridos. Isso vai de encontro com o livro 1984, onde não há passado, apenas um presente atemporal onde os fatos se desenrolam.

Ao pensar assim, imediatamente olho para trás e penso: quanto os vestígios passados foram adulterados, tanto pelas pesquisas quanto pelas pessoas ao longo do tempo, a ponto de alterar a realidade dos fatos? Será que o passado foi como querem que acreditemos, ou determinados vestígios foram ignorados, reinterpretados, para ser oferecida uma narrativa conveniente?

Um termo muito utilizado atualmente é pós-verdade. Estaríamos vivendo em tempos de pós-verdade, onde a realidade seria uma narrativa forjada pelo que algumas pessoas considerariam verdadeiro ou não. Será que não vivemos sempre assim, a partir do que é imposto como real, e não do que o é propriamente dito? Pior: sem possibilidade de discussão ou de apresentação do contraditório, ou simplesmente de outras visões do mesmo fato.

Talvez a impossibilidade de apresentar outras visões de um mesmo fato seja o grande problema da tal narrativa. Em uma pesquisa histórica, analisa-se as diversas versões de um determinado fato: documentos pessoais, documentação oficial, noticiário, etc. Muitas vezes as versões se contradizem, sendo necessários mais documentos, mais vestígios, mais provas, para se confirmar os fatos.

É um processo dinâmico, do qual novos documentos surgem após a consagração de determinada versão da História. Isso pode ser chamado de narrativa, então? De maneira nenhuma, por um motivo simples: buscou-se o que havia disponível no momento, sem a intenção de meramente selecionar uma versão ou outra por ser mais conveniente.

Será que novos documentos serão localizados, será que versões esquecidas serão relembradas? Pode-se ter certeza que sim, embora muitos lutem para abafar o que não lhes convém. Não se consegue manter a mesma narrativa por muito tempo, por isso ela muda. O próprio fluxo da História também.

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