terça-feira, 3 de novembro de 2020

Jogador nº 1

Depois de falar sobre realidade simulada, eu não poderia deixar de resenhar este filme. Jogador nº 1 passa em um futuro distópico, em que as pessoas desistiram de viver a realidade para passar seus dias no jogo Oasis, um oásis no "deserto do real" (não poderia deixar de lado o trocadilho). Neste jogo fantástico, você pode ser qualquer coisa e fazer praticamente qualquer coisa, tendo como limites apenas a imaginação dos jogadores.

O criador do jogo, James Halliday, cria ao falecer um desafio no qual está em jogo seu bem mais precioso: o controle do jogo e da empresa desenvolvedora. A ideia era que o sucessor da empresa fosse alguém que realmente admirasse sua obra e entendesse os anseios mais profundos de seu criador. Contudo, como toda boa história, havia um vilão querendo o controle de tudo: Norlan Sorrento, cuja empresa agia nas sombras do jogo, buscando vencer o desafio e assim tomar o controle em definitivo.

Pode-se dizer que toda história realmente fantástica, talvez a descrição de conto de fadas de Tolkien, carrega uma profunda carga de significado. Nem é necessário elogiar a fotografia, os efeitos especiais, nem mesmo o encadeamento da história, com suas referências às décadas de 1970 e 1980. Lembre-se de que a cultura nerd é baseada sobretudo nos fenômenos culturais dessas épocas: jogos, filmes, músicas - pode-se até dizer que uma fuga dos acontecimentos históricos que ocorriam.

Vencer os desafios não era meramente responder a charadas, mas sim entender os acontecimentos da vida que levaram Halliday a desenvolver o Oasis, conhecendo a pessoa por trás do desenvolvedor genial: um rapaz solitário (como todo nerd), tímido, que criou uma plataforma na qual as pessoas pudessem se relacionar sem medo. Sorrento tinha a sorte de ter em sua equipe pessoas que realmente gostavam do que faziam, estudando cada ponto da vida de Halliday para encontrar as dicas que o ajudasse a encontrar as chaves.

Só quem realmente gosta de jogar sabe como é criar um avatar completamente diferente de sua pessoa real, e mesmo que aquele avatar maravilhoso pode ser uma pessoa totalmente sem graça. Claro que há os mal intencionados, como em todo lugar. E quem realmente gosta de jogar sabe como é ruim quando o desenvolvedor apenas pensa em monetizar o jogo, estragando toda a diversão: Sorrento, mesmo como estagiário de Halliday, apenas procurava formas de ganhar dinheiro, mesmo que isso pudesse tornar o jogo totalmente desinteressante.

O final do filme traz mensagens interessantes, enriquecedoras: o grande arrependimento de Halliday era não ter vivido a vida, e só ter percebido isso quando era tarde. Nessa hora, no diálogo com Parzival, dá-se a entender que era a própria alma do desenvolvedor que residia no jogo: toda a complexidade, todos os detalhes, inclusive sua própria vida acessível no jogo, fazendo referência à Terceira Lei de Clarke ("qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia").

O grande vencedor não só resolveu as charadas, como também levou a mensagem de perdão ao grande amigo de Halliday, Morrow, que era o curador do museu de memórias do jogo. Os dois amigos brigaram quando o Oasis começava a se tornar um fenômeno mundial, demandando cada vez mais tempo e trabalho para desenvolvimento. São as decepções da vida que fazem as pessoas buscarem outras realidades, outros mundos, onde os problemas são pontuais e superáveis, há pessoas queridas por perto, e a vida faz algum sentido.

Quem não gosta de jogar pode pensar que é tudo "questão de um joguinho". Se for pensar que as pessoas passavam o dia inteiro jogando e interagindo, perder a vida no jogo poderia ser tão doloroso quanto perder a vida na "realidade" - com a diferença de que aquela pode ser recomeçada e reconquistada, mas esta não. Esse foi a outra mensagem que Halliday quis transmitir através do desafio do Easter Egg.

As pessoas precisavam "voltar para a realidade", "colocarem os pés no chão" de novo. Era o lembrete de Morrow a Halliday, que acabava por imergir-se cada vez mais no jogo, como as pessoas acabaram por fazer durante as crises que precedem o filme. Por isso a terceira decisão dos novos donos da empresa: desligar os servidores duas vezes por semana, para incentivar as pessoas a procurarem alternativas, procurarem pessoas de verdade, pois poderia chegar um dia no qual tudo ficou apenas registrado no servidor, mas não na "vida real".

E é engraçado falar isso, pois a realidade é uma ilusão também, é uma simulação tanto quanto o Oasis o é. No entanto, o que a gente chama de realidade não dá para reiniciar como no jogo, não dá para assumir outro avatar que não o nosso, nem fugir dos problemas. Vai chegar uma hora na qual a pessoa vai ter que se desligar e olhar para o que ela construiu aqui, não apenas lá.

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