terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sword Art Online - Alicization é logo ali

Sword Art Online não é um anime bobo, como se pode pensar em um primeiro momento. Apesar de algumas cenas apelativas, a mensagem do anime é muito mais complexa que a da trilogia Matrix, sobretudo as últimas temporadas: Alicization e War of Underworld. A reflexão sobre a realidade simulada atinge níveis extremamente profundos, indo de um jogo virtual para um mundo inteiramente digital.

A maioria das pessoas conhece o anime por conta dos 15 primeiros episódios: um jogo no qual as pessoas ficaram com suas mentes presas, morrendo no "mundo real" caso morressem no "mundo virtual". Para saírem vivas, seria necessário zerar o jogo, o que não foi necessário: Kirito vence não só o chefe final, que estava ao lado dos jogadores o tempo todo, mas vence o sistema desenvolvido por ele: o último chefe a ser derrotado nada mais era que o desenvolvedor do jogo.

Não há como deixar de comparar Kirito a Neo: ambos bugam os sistemas em que se encontram, indo além não só da programação padrão, mas da realidade como um todo. Imagine viver anos preso em uma realidade que não é a sua, mas da qual sua vida depende inteiramente. Enquanto que em Matrix as pessoas não têm noção de que vivem uma simulação, recusando-se a sair, em SAO as pessoas sabem que estão em uma realidade virtual, temerosas de morrer tentando, mas desejando sair vivas assim que possível.

Alicization seria um salto quântico sobre a realidade desenvolvida em SAO. Não há NPC's ou mobs: todos os habitantes são "pessoas digitais", com todos os atributos que as "pessoas reais" têm, como personalidade, raciocínio, sentimentos. O mecanismo de imersão no Underworld, o Soul Translator, é tão diferenciado que a inteligência artificial Yui não consegue entrar, mesmo se tratando da mesma linguagem de programação.

Dentro de Underworld, temos uma sociedade não muito diferente da sociedade atual: pessoas seguindo regras e sendo punidas por quebrá-las. Curiosamente, os pesquisadores acreditavam que as pessoas não descumpriam as regras preconizadas pelo Código de Tabus (que nome sugestivo!), mas ao adentrar em Underworld, a hipocrisia foi revelada: o código não foi criado pela sociedade, mas sim por sua líder espiritual, chamada por alguns de Pontífice, mas autointitulada Administradora, que temia que outro ser se tornasse mais poderoso do que ela e a subjugasse.

No entanto, ela não tinha controle de todo o Underworld, apenas do chamado Império dos Humanos. Fora de suas muralhas, estendia-se o Território Negro, também composto por "pessoas digitais" - mas estas não eram totalmente antropomórficas, como lobisomens e orcs. A barreira que separava ambos os impérios era administrada exteriormente pelos responsáveis do projeto, e programada para cair e desencadear uma guerra total, o Teste de Carga Final.

Esta guerra foi planejada pelos desenvolvedores para avaliar a reação das pessoas e escolher as mais desenvolvidas para ser trazida ao "mundo real". Claro que tudo foge do previsto: um grupo invade a base naval na qual o projeto está sediado e se infiltra no jogo para retirar estas pessoas escolhidas, no caso Alice, que havia conseguido quebrar a limitação das regras (um código inserido no sistema por um programador mal intencionado) e pensar em valores acima das leis.

Não cabe aqui ficar descrevendo a guerra, com seus terrores e absurdos. Kirito, assim como Neo, é decisivo não para vencer a guerra, mas para promover a paz entre ambos os lados, destruindo o verdadeiro vilão. No entanto, o verdadeiro problema estava por vir: as "pessoas reais" não aceitaram a existência de "pessoas digitais", considerando-as secundárias e sem importância. A guerra citada no epílogo, a maior de todas, ocorreu para garantir a existência desses seres.

Enfim, como não pensar que poderíamos estar também vivendo um "teste de carga", submissos a um "código de tabus", vigiados pelos "senadores" e punidos sem direito à defesa? E que tudo seria apenas uma simulação para uma outra realidade? Eu vejo algumas pessoas comentarem sobre realidade como se esta fosse a única e soberana, e qualquer coisa além como um transtorno mental. Isso vai de encontro ao ponto em comum entre Kirito e Neo: a capacidade de focar além do sistema.

O poder de Kirito está na capacidade de ver além do que foi programado, podendo ser possível fazer qualquer coisa, tendo por limite apenas a imaginação. Neo desviar-se de balas e sair voando pela Matrix não é nada comparado a ele ver a programação da vida real e agir sobre ela. A cópia da consciência de Kirito é a única que se reconhece como tal, ao contrário de todas as outras que se autodestruíam ao serem comunicadas de tal.

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