terça-feira, 29 de junho de 2021

O protagonismo em Naruto


Estou finalmente assistindo à serie Naruto, algo no qual eu deveria ter feito antes, mas acredito que estou fazendo no momento certo. Este anime é um clássico no sentido literal da palavra: algo eterno de fácil entendimento para todos. É comum pensar que o clássico existe apenas nas "belas-artes": música, literatura, pintura, cinema, escultura, dança e arquitetura. No entanto, a própria variedade na expressão humana cria novos clássicos em novas áreas.

Existem clássicos entre os desenhos animados, em especial os desenhos animados japoneses (animes). É normal não ser feita essa associação, principalmente por se viver em uma época em que os clássicos não são mostrados como tais, mas como coisas distantes e incompreensíveis para a maioria das pessoas. Talvez eu já tenha comentado sobre antes, mas vale a pena observar novamente.

Um comentário na internet me chamou a atenção e me inspirou a escrever este post: Naruto só venceu tais e tais lutas por causa do seu protagonismo. No contexto, o autor do comentário quis dizer que Naruto só consegue conquistar seus objetivos por ser o protagonista do anime. Entretanto, é possível abrir o comentário a outras interpretações: 2. Naruto realmente conseguiu superar as adversidades de sua vida e conquistou o que sempre sonhou e 3. Naruto só conseguiu o que quis por já ter predisposição para tal.

Uma coisa boa de falar sobre Naruto é que não há aquele problema com spoilers, afinal a história é revirada ao avesso todos os dias na internet.

Talvez a primeira interpretação do comentário seja a mais rasa das três. O fato de ele ser protagonista não quer dizer exatamente que ele seja o maioral: vide outras ficções como Harry Potter, onde Hermione realmente faz as coisas acontecerem, ou mesmo na franquia The Legend of Zelda, em que chegam a achar que o Link é a Zelda por ser a figura principal de todos os jogos. A história de Naruto conta a superação de uma pessoa para alcançar seus sonhos.

Irei comentar da terceira interpretação: Naruto é filho do Quarto Hokage (líder) de sua vila, considerado um gênio. Ele possui dentro de si a mais poderosa besta de cauda (um tipo de espírito primordial), e capacidade energética para controlá-la. Foi treinado por alunos e pessoas próximas a seu pai, todos grandes ninjas reconhecidos. Ou seja, não haveria como sair deste caminho: ele seria grande quase que por osmose.

O próprio anime anula essa hipótese: Naruto foi rejeitado pela vila, por trazer dentro de si o ser que quase a destruiu. Ele mesmo não tinha muita habilidade e esperteza como seu pai, sendo subestimado constantemente, seja por conhecidos, seja por inimigos. Apenas ser o filho do Quarto Hokage não lhe deu nenhuma vantagem, já que o assunto era proibido de ser comentado.

A segunda hipótese é a que explica o real sentido de protagonismo: a pessoa que assumiu a vida nas próprias mãos e deu seu melhor, destacando-se por um mérito real e reconhecido por todos. No final das contas, Naruto sofreu (e superou) mais revezes do que muitos no anime: sozinho e rejeitado, teve apenas ele mesmo (e seu "bichinho de estimação" raivoso) para superar seus problemas e alcançar seu sonho de ser o líder de sua vida.

Ou seja, não foi o protagonismo que o fez conquistar o que desejava, mas ele tornou-se protagonista por conta de sua superação e de sua determinação. A história leva seu nome porque ele é importante, não por quererem "dar destaque". E é um personagem tão marcante que algumas pessoas ressentem-se dele profundamente, mesmo não sendo uma história "real". Note que a maior parte dos fãs do anime não tem Naruto como seu personagem favorito, preferindo, na maior parte das vezes, vilões ou antagonistas.

terça-feira, 22 de junho de 2021

O perigo do empoderamento feminino

Já comentei sobre empoderamento em outro post, mas acho que ficou um pouco solto. Então vamos pegar como exemplo o conhecido empoderamento feminino, a ideia de dar à mulher um suposto poder que ela supostamente não tem e assim ter uma vida melhor. Esse resumo singelo expõe a completa inutilidade de tal coisa: ajudar uma mulher a desenvolver a autoconfiança não é empoderamento, pelo menos não no atual sentido da palavra.

Tanto homens quanto mulheres precisam desenvolver o amor-próprio e a autoconfiança ao longo da vida, perante situações adversas e desfavoráveis, principalmente no atual momento. Ambos, amor-próprio e autoconfiança, baseiam-se na responsabilidade que a pessoa tem perante as próprias atitudes e escolhas, dando-lhe liberdade para trilhar o próprio caminho. O que não acontece com o empoderamento atual.

O tal do empoderamento baseia-se no erro do outro: a situação de uma pessoa é ruim porque outra pessoa o causa. Mulheres, então, sofreriam porque os homens as fazem sofrer; logo, deve-se combater os homens para superar este sofrimento, tornando leves divergências graves conflitos a serem vencidos, mas onde ambos saem perdendo.

Cria-se, então, não um espírito competitivo saudável, de buscar o melhor sempre, aprender com os erros e, principalmente, a trabalhar em equipe, mas um espírito orgulhoso, onde vencer a qualquer custo importa, mesmo que isso custe coisas realmente importantes, pois haveria algo transcendente nisso, e que outras pessoas seriam beneficiadas com tal atitude.

O empoderamento feminino deixa de lado o principal: a própria mulher. Esta não pode fazer suas escolhas, tomar as próprias atitudes, sem passar pelo tal crivo do empoderamento, pois qualquer coisa considerada "submissa" ao homem deve ser excluída sumariamente, forçando-o a concordar com a mulher mesmo ela estando errada.

Troca-se a submissão imaginária por uma submissão real mas invisível: não se comenta sobre a submissão do homem perante a mulher, ou isso é visto de forma positiva. Se houve, em algum momento, submissão feminina ao longo da História, inverter a polaridade não resolverá a situação, e não fará ninguém feliz.

No final das contas, as pessoas tendem a se isolar, pois não conseguem aceitar a opinião do outro, a visão de mundo do outro, às vezes nem mesmo a polidez alheia. Pessoas assim desunidas tornam-se vulneráveis a quaisquer pessoas ou grupos que queiram tomar o poder, pois resistências isoladas são bem mais fáceis de serem neutralizadas.

terça-feira, 15 de junho de 2021

O tal Novo Normal

Mais cedo ou mais tarde falaria sobre isso aqui. O assunto do momento é o novo padrão de normalidade existente por conta da pandemia. No entanto, esse "padrão de normalidade" apenas veio à tona: já existia há décadas, programado de forma sutil na mente das pessoas para pensarem e agirem desta forma, sem perceber os danos que isso causa.

No livro Ponerologia, o autor comenta sobre a paramoralidade, que seria um padrão moral doentio que toma conta de uma sociedade inteira, distorcendo conceitos morais básicos. É o que acontece hoje em dia: o novo normal se baseia numa moralidade doente. Ser honesto é necessário para que todos possam dar seu melhor e viver bem. Contudo, é algo complexo, sobretudo por envolver os interesses próprios de cada pessoa.

Ser honesto com o outro é necessário para que o outro seja honesto conosco, e ser punido por sua desonestidade. A atual paramoralidade relativiza esse conceito, tanto com a desonestidade aberta quanto com a condenação de supostas desonestidades - inócuas se forem analisados os casos concretos. "O importante é levar vantagem sempre" chega ao nível de se perder algo bom apenas para ver alguém também perder.

Repare que esta desonestidade é argumentada de forma intensa, apesar de não possuir base lógica nenhuma. Não adiantam argumentos lógicos: o outro simplesmente refuta por refutar. Não é mais questão de racionalidade: é questão da boa e velha subjetividade, onde se leva em consideração quem fala e não o que se fala.

Quando se passa a analisar quem falou ou fez do que a frase ou ato propriamente ditos, perde-se toda a noção de ética e moral: apenas a conveniência passa a importar. Uma pessoa está certa ou errada não por conta de racionalidade, mas se a questão irá gerar ganhos ou perdas a quem está avaliando. É comum proteger corruptos para que haja cumplicidade caso queira cometer algo considerado errado.

Acabou-se a troca de ideias. Você pode argumentar o quanto quiser, ou melhor, você deve ter o extremo cuidado, quase paranoico, ao falar com as pessoas, pois o que é dito pode gerar revezes nos quais outros não se importarão com sua situação, nem se a punição é proporcional ao que foi dito - afinal, pensa-se nas vantagens ganhas pelo ofendido e em estar, um dia, em seu lugar.

Aliás, a noção de vítima também mudou. Não é mais aquela pessoa ofendida que busca desagravo de sua situação, mas uma pessoa que busca tirar proveito de sua situação para ascender socialmente, de preferência destruindo a vida do suposto agressor, já que muitas vezes nem problema houve, mas "cava-se" qualquer coisa, dentro dos novos padrões de moralidade, para exigir retratação.

Enfim, perceba, o quanto antes, que este "novo normal" irá destruir a sociedade a partir da mente de cada indivíduo, mas não pense que haverá um caos de pessoas enlouquecidas na rua: tudo parecerá normal, organizado, tranquilo até. Entretanto, haverá a sensação de que algo não está certo, de que há algo "fora do lugar": com sorte, perceberá que as mentes foram totalmente dominadas em um novo padrão de pensamento, sem possibilidade de escapatória.

terça-feira, 8 de junho de 2021

A ilusão do direito de defesa

Depois de ouvir tantas reclamações de acusações injustas nas redes sociais, e analisando que as "contestações" que as plataformas recebem de nada resultam, e percebendo que isso ocorre em outras esferas da vida cotidiana, cheguei à conclusão de que o famoso "direito à ampla defesa e contraditório" tornou-se mera ilusão, algo da boca pra fora apenas para dizer que "a outra parte foi ouvida".

Preste atenção: as redes sociais "julgam" a torto e a direito. Todas as suas postagens não passam mais pelos crivos do absurdo (como crimes) mas pelos crivos ideológicos. Discordar de um grupo tornou-se o mesmo que desrespeitá-lo, ainda que não haja nenhuma ofensa propriamente dita. Pode-se até clicar no "discordo de sua decisão" ou "apresentar contestação": por mais que você escreva, e até apresente provas de sua argumentação, no final das contas, é como se aquilo fosse parar em um limbo e a decisão permanece a mesma.

Mesmo sem expor, as redes sociais acabam por obrigar seus participantes não só a dizer sobre o que elas querem, mas do jeito que elas querem. Você não precisa mais ser banido ou bloqueado: basta retirarem o alcance de suas postagens, chegando ao cúmulo de pessoas próximas terem que acessar seu conteúdo diretamente todos os dias. Esse tipo de coisa não existe com o feed de blog, mas isso é assunto para outro post.

O problema é quando esse tipo de postura sai da esfera virtual e passa a estar presente no cotidiano das pessoas. Reclamar de um produto ou serviço, ou mesmo de uma empresa, pode tornar-se uma celeuma por nada e ainda ter que ouvir o famoso "mas você está brigando só por isso?". Parece que o óbvio e o verdadeiro tornaram-se impropérios que proferi-los é um crime gravíssimo.

Lendo um livro incoerente, mas de grande sucesso, a autora parte da premissa de que é necessário dialogar com o contrário, entender seu ponto de vista, com exceção de determinadas pessoas, pois o que elas defendem é intolerável. No entanto, esta exceção nada mais é que a própria regra: pessoas que discordam da autora, tendo opiniões diversas das que ela defende, sem nada de ofensivo.

No final das contas, são pessoas que querem ser ouvidas a qualquer custo, mas se recusam a ouvir, principalmente quando vai além de sua própria visão de mundo. Tentam blindar-se em bolhas, sobretudo nas digitais, e buscam impedir aqueles que tentam navegar por elas. E talvez aquele verso de Fernando Pessoa que se tornou clichê faça todo o sentido: "navegar é preciso".

terça-feira, 1 de junho de 2021

Correlações Culturais

Esse é comentário de um trecho do capítulo cinco do Power vs. Force que acabei deixando de lado, achando que escreveria mais sobre. Revisei esse trecho baseado nos outros capítulos da própria obra.

Cerca de 84% da população mundial encontra-se abaixo do nível 200 de consciência, tanto é que a maior parte dos problemas da humanidade são reflexos deste baixo nível. Cerca de 8% da humanidade encontra-se acima de 400 (Razão), e 4% da população mundial está acima de 500 (Amor). Pouquíssimas estariam acima de 600 - à época da publicação da 1ª edição do livro, apenas 12 pessoas encontravam-se nesta faixa.

Se formos relacionar os níveis de consciência aos padrões sociais, abaixo de 200 estariam as sociedades primitivas, sendo que nas mais baixas estariam as sociedades nômades e primitivas. Na faixa do nível 200, começa a surgir uma estrutura semi-nômade, com um trabalho mais especializado. Já próximo a 300, surge o sedentarismo e o comércio.

Nos níveis acima de 300, o trabalho especializa-se e o ensino secundário torna-se comum. Conforme sobe-se a escala, a sociedade torna-se mais flexível, e o diálogo social amplia-se.

Em 400, surge a intelectualidade, a alta literatura, as classes profissionais, executivos e cientistas. Existe o interesse em formação intelectual, e surge a consciência política. Os empreendimentos buscam o bem-estar de toda a população, apesar de este não ser a força motriz da sociedade. Se há um salto no nível 200, outro maior existe em 500.

Sobrevivência sempre será o fator fundamental da sociedade, mas o Amor começa a tornar a vida mais colorida. Em 500 o altruísmo torna-se fator motivador, e a excelência faz parte do esforço humano. Este ambiente eleva o nível de consciência de uma sociedade por conta própria, assim como pessoas neste nível de consciência.

Conforme progride nos 500, as experiências espirituais tornam-se profundas, e surgem líderes inspiradores, cujo exemplo serve para todos.

Não se comenta sobre qual modelo político, nem sobre modelos econômicos. Isso é comentado no True vs. Falsehood, que calibra governos ao longo da História e analisa os partidos políticos americanos. Assim como a obra de Marx é calibrada em 130, os governos que seguiram suas ideias também são calibrados em níveis baixos - sobretudo quando há uma radicalização e se busca impor pela força e censura.

Por outro lado, o documento com maior calibragem é a Declaração de Independência dos Estados Unidos, calibrada em 700, por deixar claro que o objetivo da independência era permitir as liberdades fundamentais às pessoas, mesmo após tentativas de negociação com a Coroa britânica. Esta busca por valores elevados foi o que permitiu a supremacia norte-americana por décadas, levando a mensagem de liberdade e felicidade ao mundo.