terça-feira, 10 de agosto de 2021

A nova velha escravidão

Não sei se lembram das aulas de História da escola, onde comentavam sobre a escravidão por dívidas, instituição comum na Antiguidade, onde pessoas tornavam-se escravas de seus credores por não conseguir pagar o que devem. Esta instituição foi abolida na Europa medieval, assim como outras modalidades de escravidão.

No que se conhece como transição da Idade Média para a Moderna, há uma expansão do comércio e das cidades (que nunca deixaram de existir, por sinal), e um maior uso dos juros nas transações comerciais. Interessante notar que no Medievo cobrar juros era pecado, pois não se poderia cobrar algo pertencente a Deus.

A perda do poder da Igreja fez com que essas dogmáticas fossem deixadas de lado, dando maior atenção às coisas dos homens (pense no conceito do antropocentrismo). Saltando desta época para a atualidade, notem que a principal causa de endividamento das pessoas é por conta dos juros cobrados, quase sempre juros sobre juros (cobram-se juros dos juros já cobrados anteriormente).

Além dos juros, some-se a isso a tal correção monetária, baseada no conceito de que o dinheiro de agora não valerá a mesma coisa no futuro. Somados, pequenas dívidas tornam-se grilhões impostos por credores, que se tornam praticamente donos dos endividados: quaisquer bens adquiridos são tomados; se possui um emprego, a dívida é descontada em folha de pagamento.

Na hora de renegociar, surpresa: a maior parte do montante da dívida são juros sobre juros, que ficam escondidos nas cláusulas contratuais e pouco comentados por aqueles que fornecem dinheiro. Parece as cenas iniciais do filme O Preço do Amanhã, onde não importa o quanto se trabalhe, a pessoa nunca cumpre a meta e as coisas ficam cada vez mais caras.

Esse é o ponto que eu queria chegar: hoje em dia é praticamente impossível adquirir as coisas sem pedir empréstimos ou fazer financiamentos. Se nossos pais e avós o conseguiram com o suor de seu trabalho, hoje em dia pode-se trabalhar a vida inteira que a grande vitória será não ter contraído nenhuma dívida. Pense no financiamento estudantil: o aluno contrai uma dívida para aprender uma profissão cujo mercado será saturado e o salário despencará, não conseguindo um emprego no qual pague a dívida feita.

Não pense, contudo, que isso é parte do que se chama Capitalismo: os grandes revolucionários e tiranos globais são os que acumulam grandes somas de dinheiro. O principal ponto da economia de mercado é a liberdade de negociações e iniciativas. Os que hoje são chamados de metacapitalistas têm tanto dinheiro que agora querem o poder. E nada como empobrecer as pessoas para ter-se poder sobre elas!

Uma sociedade empobrecida é mais vulnerável a tiranos: vide Cuba e Venezuela. Sem dinheiro, pensa-se apenas na sobrevivência básica, não em tentar fazer uma sociedade melhor. Não é possível adquirir coisas para uma vida mais segura e confortável, e sem este conforto não é possível pensar em melhorar a própria vida nem a sociedade.

Note essas "filosofias de nova era" que pregam não a simplicidade, mas a pobreza como algo bom. A ideia não é economizar recursos, mas viver da forma mais miserável possível, na escassez. Na escassez não é possível pensar em evolução, não é possível pensar no que realmente importa, pois todas as forças estão direcionadas à sobrevivência básica e à diversão barata e vazia.

>Enfim, o grande problema da atualidade é a escravização da maior parte da humanidade em uma complexa prisão, onde cada pessoa luta para sobreviver, achando apenas que a vida é difícil, não que é dominada por um grupo de pessoas sedentas por poder e que é impossível conseguir qualquer coisa por esforço próprio, necessitando sempre de dinheiro e influência alheios.

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