Emburrecimento Programado

Eu já havia comentado no blog que a geração atual foi programada para a escravidão: pessoas altamente especializadas em uma área mas que não conseguem viver a própria vida. Nesses dias encontrei o livro Emburrecimento Programado, que comenta como a escola foi estruturada para formar escravos, e não pessoas livres como o vulgo acredita. Interessante notar que este livro compara a escolarização antes e depois da Guerra Civil americana, ou seja, antes mesmo de se pensar em marxismo cultural ou na própria Escola de Frankfurt.

O livro em si é confuso para as pessoas arraigadas no padrão esquerda-direita: o autor propõe uma "revolução educacional", onde a estrutura escolar atual é destruída por inteiro para dar lugar a uma nova. A própria vida do autor, John Taylor Gatto, não é lá uma vida exemplar: quando criança, chegou a ser preso umas três vezes. Fora que o autor não culpa diretamente a ideologia progressista por essa escravidão em série: pode-se dizer que o inimigo agora é outro, os famosos metacapitalistas - pessoas com tanto dinheiro que agora o usam para conseguir poder político e se perpetuar nele.

Esses são os maiores interessados em um ensino tão limitador, afinal pessoas autônomas e questionadoras não aceitariam (e não aceitam) viver de forma tão medíocre e vazia, lutando para sair dessa Matrix mental. Note que por mais que existam críticas feitas à atual escola, a maioria das propostas mantém o problema - não passam de mera manutenção do sistema.

A escolarização era livremente procurada para aprender-se o básico: ler, escrever e contar. O debate sobre sua obrigatoriedade vem do século XVI, ganhando força no século XIX, dando o destaque a formar pessoas em massa voltadas a uma causa. As pessoas aprenderiam não só o suficiente para viver em sociedade, mas seriam orientadas a desenvolver uma visão de mundo específica, de preferência sem espaço para divergências.

Atualmente há uma discussão sobre como o socioconstrutivismo derrubou a qualidade do ensino escolar, formando pessoas que leem e escrevem sem saber o que estão lendo ou escrevendo - e, pior, com um raciocínio limitado a jargões ideológicos. No entanto, o autor aponta que essa queda deu-se quando se tornou obrigatória a escolarização, principalmente de modelo único, praticamente um século antes. Obrigar a pessoa a permanecer por dias inteiros por mais de dez anos de sua vida - aqueles vitais para sua formação - não para aprender conteúdos dispersos e demasiados, mas para aprender a viver em uma sociedade sem direito a divergir, dependendo de alguém supostamente melhor que você, com a sensação de ser vigiado o tempo todo.

A escola, portanto, não ensina conhecimento, mas como viver em uma sociedade mecanizada, como um autômato com sentimentos manipulados e limitados. Eu entendo quando falam dos adultos de hoje em dia que se divertem maratonando streamings sem pensar em algo mais concreto para suas vidas, mas para estas pessoas não tem o que se pensar além disso: essas linhas de comando sequer foram inseridas em suas programações. John Taylor comenta que a televisão tomou o tempo que poderia servir para formar realmente um jovem, sobrando pouquíssimas horas que acabam sendo dispersas em deslocamentos, refeições, idas ao banheiro.

O ponto mais importante do livro é que ele busca propor uma solução a isso. É uma revolução ao estilo da Revolução Americana, com bases sólidas e moral elevada. Primeiramente, a definição e a separação dos conceitos de comunidade e rede organizacional, que vou chamar de corporação para ficar mais fácil. Comunidade é onde as pessoas vivem por inteiro: famílias, ruas, bairros, pequenas cidades, onde todo mundo se conhece de verdade: seus gostos, medos, angústias, sonhos. Algo que as corporações nunca conseguirão copiar: você está nelas por um objetivo comum, seja um emprego, um clube, uma associação ou mesmo a escola: as pessoas só conhecem um lado, aquele lado, e o resto não importa.

Os laços comunitários são íntegros, enquanto os laços corporativos são senão falsos, efêmeros. Perceba isso ao mudar de emprego: o contraste entre a despedida de um funcionário e o seu completo esquecimento no dia seguinte, para não dizer na hora seguinte. Raros são os casos em que surgem amizades verdadeiras em ambientes corporativos (você ainda tem contato com seus colegas de escola? Se sim, é um contato íntegro ou apenas para relembrar das bobagens de sala de aula?), que John Taylor comenta ser uma tentativa de compensar a ausência de laços comunitários.

Ou seja, para John Taylor é necessário fortalecer os laços comunitários de alguma forma. Pessoalmente, acredito que as famílias, assim como outras comunidades, estão irremediavelmente abaladas para serem reconstruídas para um estado anterior. No caso, deverão ser formadas comunidades a partir das redes organizacionais/corporações, e buscar ir o mais além possível, quebrando o tabu de "não misturar emprego e vida pessoal", pois uma hora isso acaba por acontecer.

E depois? Tornar a escola algo opcional, pelo menos em estudos mais avançados. Não são todas as pessoas que possuem habilidade ou mesmo necessidade de para um diploma universitário. Isso está claro no livro: você aprende sobre a vida vivendo, não preso em uma sala de aula. O próprio autor buscou mostrar coisas da vida real para seus alunos durante sua carreira de professor - o que, ironicamente, o fez receber diversos prêmios e honrarias pelo seu ensino.

Este assunto está longe de esgotar-se: há uma bibliografia considerável sobre o assunto. Não é mera rebeldia de criança: pode-se dizer que é a própria sanidade que está em jogo. O ambiente escolar, e mesmo o acadêmico, não estão cumprindo com a sua finalidade de forma plena, mas sendo utilizados como joguetes ideológicos dos mais diversos tipos.

Comentários