Podres de Mimados

Surpreendi-me positivamente com este livro do Theodore Dalrymple. Lembro-me de ter tentado ler Em Defesa do Preconceito e parado por ter achado o livro destemperado: técnico demais para um leigo e leigo demais para um técnico. Podres de Mimados, contudo, está na medida certa: de fácil leitura para um leigo com informações importantes para profissionais da área.

Finalmente um autor que busca localizar a origem de uma sociedade tão birrenta: Dalrymple aponta o excesso do Romantismo como responsável pelo excesso de sentimentalismo na sociedade atual. Depois do excesso de "racionalismo" promovido pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa - entenda isso como algo negativo - o Romantismo surge como um questionamento do excesso de racionalidade, ganhando força ao longo do século XX.

Não se pode esquecer, também, do mito do bom selvagem de Rousseau: mito pois não possui fundamentação nenhuma, se bem que até os mitos têm alguma. Rousseau simplesmente disse que as pessoas eram boas por natureza, e que seriam a organização social e a propriedade privada que corroíam a sociedade. Crianças, consequentemente, não precisariam de limites, já que o problema está na sociedade e a sua "pureza" deve ser estimulada. Um fruto de seu pensamento desastroso está no que chamam de educação: pedagogos construtivistas pregando que crianças aprendem tudo por conta própria sem precisar de direcionamento, e por serem "puras de nascença", não precisam de orientação para viver em sociedade.

Isso gerou e gera consequências desagradáveis: ponderação racional como algo negativo (ignorar sentimentos para dar atenção aos fatos tornou-se algo cruel), a supervalorização da vitimização e, principalmente, o uso da brutalidade como algo corriqueiro (o famoso ódio do bem). Não são mais analisados os fatos, mas sim os seus autores: dependendo de quem seja, o ato mais cruel torna-se um ato de bravura. O livro faz uma associação deveras importante: sentimentalismo leva à brutalidade como uma forma de desagravo.

Detalhe: o livro tem por balizas a Grã-Bretanha, mas a descrição é tão próxima à realidade brasileira que parece que Manchester é um bairro de São Paulo. E o livro fala de um país considerado desenvolvido onde as pessoas tentam encostar-se no governo. Talvez seja esta a diferença entre os dois países: o Brasil é considerado um país pobre, então encostar-se no governo torna-se algo "justificado", com pessoas vitimizando-se alegando problemas sociais dos mais diversos.

Seja no Brasil, na Grã-Bretanha ou no Ocidente, ao se questionar uma vítima, manadas de pessoas surgem para linchar o questionador sem ao menos ouvi-lo. Não houve ofensa, e geralmente não há ofensa. A pretensa vítima que se sente ofendida, e não é analisado se realmente houve ou não ofensa: a "justiça social" é feita sem Poder Judiciário, às vezes este sendo usado como arma.

Nunca acharam estranho o fato de associações processarem pessoas? Será que realmente foram mil, duas mil pessoas a se ofenderem com algo que foi dito? Quem realmente se ofendeu e por quê? E no caso do Brasil (não sei como é na Grã-Bretanha) um processo judicial é demasiado caro para uma pessoa sozinha. Associada a um grupo, são pagas mensalidades, o que torna um processo bem mais barato. É, então, outra forma de perseguição de desafetos: processos intermináveis, pedindo indenizações desproporcionais, que desgastam a pessoa, que se torna a verdadeira vítima.

O autor não fala diretamente sobre cultura de cancelamento, mas se percebe que o cancelamento é consequência dessa "cultura do sentimentalismo". Não basta não gostar, deve-se expressar publicamente isso e, pior, deve-se destruir o cancelado a qualquer custo.

A idolatria da vítima torna esta uma pessoa inquestionável, acima de tudo e de todos, isenta de quaisquer responsabilidades. Um exemplo disso é o jargão "a culpa nunca é da vítima". Não importa a burrada que tenha feito, a vítima não pode ser questionada. As verdadeiras vítimas, aquelas que buscam superar o ocorrido, aprender com o sofrimento, desejam justiça e não holofotes, são ignoradas, quando não acusadas - mas, pera, a culpa nunca é da vítima?

A busca pela aquisição do status de vítima chegou ao absurdo da falsa atribuição. Dalrymple fala das falsas vítimas do Holocausto, enquanto aqui no Brasil há os alarmantes índices de denúncias falsas, pelos motivos mais sórdidos, sendo o principal a destruição de reputações. Imputa-se um falso crime na vida de alguém, que tem o hercúleo trabalho para desmentir a acusação, pois geralmente esta é feita em situações nas quais torna-se quase impossível comprovar o que realmente houve.

Expor que essas pessoas são mimadas é o começo para se lidar com elas. É comum ficar a dúvida de como defender-se de gente assim. Realmente não é fácil, pois as pessoas birrentas/vitimistas usam da atenção de quem está em torno para conseguir o que querem (pense em crianças chorando no shopping). Agir como um pai que está educando uma criança, por menos que as pessoas entendam (afinal, quem não se sensibiliza com uma criança chorando no shopping?), é a melhor alternativa ainda.

Deixe que grite, deixe que tente chamar a atenção. Não dê bola, não responda: continue o que está fazendo. Mesmo que se atrapalhe, continue. Essa resistência é necessária: crianças não aguentam muito tempo. Elas irão parar, ficarão iradas, irão xingar e esbravejar, mas porque você venceu, afinal de contas. E como é sabido, caso isso passe para algo físico, defenda-se - uma atitude mais drástica deverá ser tomada. Ninguém poderá dizer que não tem razão: você está se defendendo de uma injusta agressão.

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