A Vida Intelectual

Acredito eu que a maioria dos leitores deste livro o conheceram pela recomendação do Olavo de Carvalho - uma excelente recomendação, aliás. Um livro simples, para todos lerem: um clássico na definição de Mortimer Adler. O livro de A. D. Sertillanges constitui-se de recomendações para aqueles que desejam desenvolver uma vida intelectual. Antes de tudo, a vida intelectual não desemboca, necessariamente, em uma produção a ser publicada: o erudito vale-se do estudo para tornar-se uma pessoa melhor - e assim tornar melhor a vida de quem está a sua volta.

Este é um ponto importante: o intelectual deve, primeiramente, desenvolver-se como pessoa, pois assim estará aberto para encontrar a Verdade. Sem uma base moral, o estudo torna-se vazio, ou pior, sujeito a interesses escusos, causando mais males do que benesses. As primeiras recomendações do autor são voltadas à saúde e ao cotidiano do estudante: boa alimentação, exercícios físicos, prática religiosa, reservar um horário específico do dia aos estudos, além de dicas sobre a vida social.

O importante nessas recomendações é não se desviar do caminho intelectual. Conversas com determinadas pessoas, divertimentos pouco saudáveis e maus hábitos podem deteriorar a vida de estudos mais elevados. Mesmo os familiares devem auxiliar o intelectual a manter os bons hábitos e a rotina de estudos: como o próprio autor afirma, a esposa deve acompanhar seu marido na vida intelectual, ajudando a manter um ambiente propício a estudos e protegendo-o de distrações e más influências.

Por mais que um estudante deva ter um foco, um tema sobre o qual irá debruçar-se, ele deverá inteirar-se de temas correlatos, para formar uma base de conhecimento sólida. A raiz da palavra erudito, ex rude, refere-se àquela pessoa que refinou seu espírito para além do mundano: por isso existe alta cultura, música erudita, etc. Desenvolver a consciência muda a postura da pessoa perante o mundo: não significa que ela mude completamente, mas traz à tona quem ela realmente é. Também não significa que a pessoa fica alérgica a coisas simples ou vulgares: ela simplesmente sabe aproveitar o que há de bom em cada coisa.

Adentrando cada vez mais na parte prática, Sertillanges define quatro tipos de livros a serem lidos: os relacionados ao seu objeto de estudos, os referentes à base moral, os que elevam seu espírito e os de distração. Obviamente os assuntos podem se entrecruzar, mas a estrutura deve permanecer como orientação e desta forma não comprometer os estudos, assim como haver um encadeamento de obras a serem lidas e estudadas, para criação de um sólido conhecimento intelectual.

Logo após, o autor começa a explicar sobre o estudo em si: como ler, como tomar notas, o que realmente deve ser absorvido. O estudioso deverá desenvolver sua própria visão, seu próprio estilo, podendo basear-se, num primeiro momento, em algum autor, mas não se apegando a ele. As notas deverão ser conclusões do que foi estudado, do que foi refletido, não acúmulos de frases e ideias. São classificadas em dois tipos: as notas de inspiração, por assim dizer, que surgem dos estudos e da rotina, e as notas de estudo, fruto de um trabalho específico.

O estudo sempre desembocará em algo, mesmo que não seja uma publicação escrita: poderá tornar-se uma arte, por exemplo. Num primeiro momento, parece contraditório o autor usar como exemplo a publicação escrita, mas ele faz referências a trabalhos de música e pintura. Com os recursos atuais, é possível desenvolver outros trabalhos a partir da vida intelectual: um livro pode-se tornar um podcast, ou as notas de um assunto tornarem-se aulas de um curso específico.

Sobretudo, o intelectual deve ter uma vida equilibrada. Mesmo dos conhecimentos estudados deve ser absorvido apenas o necessário. As leituras não deverão ser demasiadas, assim como as notas registradas. Ao contrário do que se pensa, deve-se ler pouco, devagar, ruminar as ideias. A vagareza levará o trabalho intelectual longe, rendendo-lhe frutos abundantes e saborosos. E nessa lentidão, concluir o que foi proposto, por mais que demore: o planejamento necessita de conclusão, para que o projeto não seja abandonado pela metade, desperdiçando tempo e recursos.

Por fim, o padre Sertillanges volta ao começo da obra, reiterando a necessidade de o intelectual ser uma pessoa completa: ter uma vida social, ter distrações, admirar o mundo, as coisas simples. Ler demais, estudar demais, torna a pessoa preguiçosa e o trabalho intelectual deixa de render. Estuda-se para tornar-se uma pessoa melhor, logo se deve aproveitar o mundo cada vez mais. Críticas sempre existirão: aproveite-as para melhorar-se sem defender a si e sua obra. Nessas confusões, quem sai melhor é quem as causou.

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