Mulheres que Correm com os Lobos - 4: A Mulher Selvagem

Talvez pareça estranho só agora falar sobre a Mulher Selvagem, que pode ser chamada de principal personagem do livro, a estrela do show. Mulheres que Correm com os Lobos propõe-se a apresentar o que é considerado por arquétipo inerente a todas as mulheres. No entanto, só de ler novamente esta afirmação nota-se que é falha, pois um arquétipo faz parte do inconsciente coletivo de todas as pessoas, homens e mulheres.

A definição de Mulher Selvagem vai além do arquétipo, e ganha mais características ao longo da obra do que o simples padrão de personalidade dos arquétipos, como um ser que ganha vida e personalidade no interior da mente humana, um software mental. Contudo, não consigo deixar de pensar também na ideia de divindade, tendo em vista que o livro comenta sobre uma suposta religião matrifocal de uma sociedade matriarcal que teria existido na Antiguidade.

Quando um conceito é ampliado exageradamente, torna-se impossível a crítica, pois ele nunca é aquilo que pode ser considerado negativo, sendo possível qualquer desculpa para justificativa. A Mulher Selvagem, então, possui todas as características idealizadas pelas feministas, e pautas polêmicas do movimento são ignoradas, como uma forma de torná-lo mais atrativo a quem não faz parte - lembrando que esta obra tem por objetivo atrair e formar adeptas.

O livro pode ser dividido em duas partes: do primeiro ao oitavo capítulo e do nono ao décimo quarto. A primeira parte seria a formação da jovem no Feminismo, apresentando um mundo pretensamente oculto da sociedade no qual um novos padrões de pensamento e de visão de mundo são apresentados. Já a segunda parte é voltada para mulheres maduras mas insatisfeitas com a vida, onde o Feminismo é apresentado como alternativa.

A Mulher Selvagem, de acordo com a autora, não é dona de casa, apesar de cuidar dos filhos. É mãe, mas não há um pai para ajudar na casa nem na criação. Divórcio é parte natural da vida, segundo a autora. Para a autora também, não se pode limitar as crianças, quando justamente é o limite que ajuda a desenvolver o potencial criativo e dá bases para direcionar seu crescimento.

Interessante notar que há uma preocupação obsessiva com o trabalho artístico: a autora sempre falando de telas, pinturas, jardins, canetas, danças. A ideia de que a mulher deve dar mais espaço à sua arte do que às suas obrigações; afinal, ela não pode simplesmente deixar o trabalho criativo para "buracos" da agenda. Isso está diretamente ligado aos livros A Mística Feminina, de Betty Friedan, e O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, que criticam duramente o serviço doméstico.

Porém, apesar de algumas ideias constantes no livro, em especial sobre casa e família, corresponderem às obras anteriormente citadas, Pinkola Estés não faz nem citação direta, nem referência. Sabe-se que a origem das citações é daqueles livros pela leitura, o que pode levar falsamente a ser considerada uma afirmação original (o famoso plágio).

Importante ressaltar nesse ponto que uma das obras citadas n'O Segundo Sexo, também sem referência, é A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels, o que indica uma referência indireta deste livro no Mulheres que Correm com os Lobos, e abre a possibilidade de Pinkola Estés ter lido e utilizado este livro também, pois, por mais curioso que seja, é a principal referência sobre sociedades matriarcais - não é um estudo historiográfico nem arqueológico, diga-se de passagem.

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