Mulheres que Correm com os Lobos - 2: Como Funciona

O livro baseia-se em uma pretensa análise de "contos de fadas" e histórias populares, de origem do leste europeu e do meio-oeste norte-americano, sob o ponto de vista da psicanálise junguiana. A autora afirma ser psicanalista especializada nessas histórias, informando que tem por trabalho pesquisar e analisar as diferentes versões destas histórias para uso em terapia.

No entanto, é bom ressaltar que as histórias são meios pelos quais são desligados os firewalls das leitoras, tornando a reprogramação fácil, profunda e de difícil reversão. Ao envolver-se com estes contos, o canal empático aberto permite que novas ideias sejam programadas, anulando, ou mesmo deletando, partes da programação original da leitora, de forma a direcioná-la a uma visão de mundo revolucionária.

As histórias em si pouco têm valor, com exceção de três: Sapatinhos Vermelhos, La Llorona e A Donzela sem Mãos. As duas primeiras serão analisadas em postagens separadas, por conta da "pancada mental" utilizada para quebrar defesas e conceitos existentes na mente; já a terceira é uma compilação de todos os elementos simbólicos do livro para consolidação da reprogramação mental. Algumas histórias podem ser chocantes, como a ressurreição dos lobos em La Loba, mas dentro dos contextos de análise apenas servem para iniciar o processo de reprogramação dito anteriormente.

Apesar de pesquisadora, a autora não tem o cuidado de citar suas fontes de estudo, deixando apenas uma bibliografia ao final do livro como uma lista de livros recomendados para a leitora que tiver interesse de prosseguir em sua formação revolucionária. Mesmo algumas fontes citadas são problemáticas, mas isso será analisado em outro post com maior atenção.

A mente humana depende do imaginário para um funcionamento saudável, independente da idade. Quanto melhor o valor das ficções apreciadas - filmes, séries, livros, desenhos, quadrinhos, jogos - mais saudável é a mente da pessoa, que poderá desenvolver uma vida mais lúcida perante a realidade. Já é cediço que as ficções atuais tiram, em sua maior parte, a esperança e os valores das pessoas, transformando a realidade em um mundo sombrio.

Ao se apreciar uma ficção, as defesas são abaixadas para atualização da programação, o que faz o meio cultural tão importante para o processo revolucionário. E nem precisa ser uma doutrinação ideológica explícita: uma cena, uma fala ou mesmo um personagem são suficientes para esta reprogramação, gradual mas estável e permanente.

Controlar o que se assiste, o que se joga, ou mesmo o que se ouve é muito mais para evitar uma programação contaminada do que cenas pesadas ou algo do tipo. A trilogia Matrix (o quarto filme não conta) traz valores e conhecimento apesar de cenas violentas em um mundo destruído - Hawkins calibrou o primeiro filme em 150 por considerar essa violência desnecessária. No entanto, o problema não está na guerra em si, mas em seu motivo: o motivo pelo qual se luta e se dá a própria vida: é isso que importa.

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